Para começar, melhor corrigir o título: "Aquele ex-assunto chato." Porque desde junho de 2013 – marco da retomada de uma atitude política (sobretudo pelos jovens) – não se interessar por política, já é, em si, um ato político. Não querer dar uma opinião sobre as manifestações, eleições, governo, e tudo o que gira em torno, é sim um posicionamento político, e dos mais suspeitos.
Estamos entrando em agosto de 2014, cada vez mais próximos das eleições para a presidência da república, e é preciso se colocar diante dessas questões. Comentá-las, compartilhar informações, não deixar o assunto morrer, para não correr o risco de voltarmos para o limbo que foi os anos 90 e início dos 2000, onde falar de política era coisa de gente chata. E era chato mesmo porque os políticos pareciam todos chatos (suspeito que a maioria deles realmente seja), seus discursos eram aborrecentes, suas explicações eram monótonas, suas aparições eram sem originalidade, tudo o que dizia respeito à isso parecia insuportavelmente chato.
Cresci nos anos 90. Em 2002 eu tinha 18 anos, Fernando Henrique Cardoso era o presidente do país e em poucos meses passaria o bastão para Lula. Essa transição foi também uma motivação para o assunto acontecer nas mesas dos bares, mas mesmo assim, ter uma conversa séria sobre política era um acontecimento restrito à grupos pequenos de amigos, sem muita emoção, sem muita esperança.
Um mal que começava dentro das escolas. Afinal, é papel da escola tratar de assuntos relacionados à sociedade? "Nunca existiu a ideia no Brasil de que a educação deveria ser uma educação política", afirma Marília Moschkovich, professora de sociologia do Ensino Médio e pesquisadora da Unicamp, em entrevista à revista Educação. A professora Marília explica que o sistema de educação brasileiro é baseado na repetição de conteúdos, onde o objetivo não é informar as pessoas, mas sim formá-las para o trabalho, uma educação interessada no valor econômico das massas.
A minha escola, como todas as outras, seguia um roteiro predeterminado pela Secretaria de Educação, visando a aplicação de provas baseadas nos conteúdos dos livros. Esses livros não abordavam a história recente do país.
Há quem diga que tudo fazia parte de uma manipulação política – muito bem conduzida pelas grandes mídias –, que acabou excluindo a política dos assuntos de interesse da população. Finalmente essa época passou.
Desde o meio do ano passado que os corredores das escolas e universidades foram dominados pelas conversas sobre as manifestações que tomaram o Brasil. A discussão política que sempre ficou à margem do currículo escolar mostrou-se imprescindível, já que os próprios estudantes passaram a questionar os professores, e muitos deles, alunos e professores, a frequentar as próprias passeatas.
Hoje há uma juventude combativa e dinâmica que sabe que nossa maior arma é adquirir conhecimento e não se contentar com pouco. Assim podemos lapidar os fatos, nos esquivando das falsas propagandas, principalmente nessa época de campanha eleitoral. Buscar conhecimento e compartilhá-lo é tudo o que temos para projetar um futuro diferente.
Mas como não sentir uma azia quando se têm como opções a Dilma Rousseff, o Aécio Neves e o Eduardo Campos como personagens candidatos à presidência do país? Sejamos francos, essa eleição à presidência vai ser decidida por quem consideramos o "menos pior". A grande imprensa e a mídia independente estão travando a guerra de fazer os perfis dos candidatos, aliviando a barra de um, perseguindo outro. A verdade é que a falta de representatividade política provavelmente não será solucionada agora com estes candidatos à eleição presidencial.
Parece que para eles, as manifestacões não existiram. Pois eles continuam construindo discursos e estabelecendo prioridades como se estivessem na década de 90. Quando a população vai às ruas, ouvimos um conjunto de exigências, em especial, de ordem social: transporte público de qualidade, educação pública de primeira e melhoria na saúde pública. Os candidatos não estão me convencendo de que estão prestando atenção à isso, parecem como um programa velho da TV, desatualizado, sem entender como fazer política, ou como prosseguir no Brasil de agora. Por enquanto, a reeileção da Dilma parece ser a menos desconectada, justamente por ser a mais à esquerda na disputa, ou seja, seria a que daria mais espaço às mudanças sociais reinvidicadas.
Mas estamos numa época em que tudo está confuso. Onde Esquerda engana que é Direita e onde a Direita se finge de Esquerda. Como descortinar os discursos e a falsa propaganda?
Temos que escolher as fontes de informação com o mesmo cuidado que escolhemos o que vamos comer. Saber o que é informação de verdade, não nos deixarmos enganar pela embalagem que tenta nos iludir que é comida, mas na verdade, é coxinha congelada.
Pesquisar em diferentes meios, comparando opiniões, discutindo com os amigos, professores, pais, e não apenas se contentar com o que um lado diz.
Mais uma vez a direita sai perdendo, pois seus comentaristas já foram melhores, e mais generosos com seus leitores. Hoje o que lemos são textos cínicos, recheados de ironia, incapazes de produzir análises concretas, e assim, inábeis em ajudar os eleitores a se decidirem pela razão e não pelo ódio. Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino, são os maiores exemplos do Show de Colunistas da Direita, se deliciando com porretes, destilando preconceitos, chavões, sem vergonha ao serem ridículos com seus argumentos de baixo nível intelectual, fazendo o favor de desinformar seus leitores.
A maioria dos comentários políticos de hoje estão ultrapassados pois sonham com um velho futuro. Escrevendo análises sem substância, eles têm mais o propósito de jogar pedra no outro do que de propor uma reflexão séria sobre a realidade.
Com opiniões que pretendem minar o debate público e fazer a política voltar a ser uma estância distante e inatingível, restrita à pessoas que estudaram em Harvard ou têm casa em Miami, não podemos deixar que o assunto se afaste novamente das salas de aula, das praias, dos bares, das ruas. É ali que a política deve ser discutida, e é dali que deve nascer a mudança que esse país precisa viver.
O filósofo Gilles Deleuze disse que algo novo nunca aparece de uma vez. Pois, quando se nasce, está frágil e vacilante. Acostuma-se aos poucos com a situação na qual se encontra pela primeira vez. Acho que o mesmo vale para o momento atual da política brasileira. Um momento que exige criatividade dos candidatos e paciência da população para a construção de novas experiências políticas.

Gabriel Pardal é editor do ORNITORRINCO.
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