BEIJOS, ALICE


Sempre que deixo de ir ao salão de beleza com minha mãe, penso no atual julgamento da vaidade e da beleza. Eu não faço a sobrancelha; passo muito tempo sem cortar o cabelo; não faço as unhas, e por vezes, passo dias sem pentear direito meu cabelo. Porque gosto do meu cabelo com mais volume e menos quebradiço – só corto quando começa a me incomodar –, uso minhas unhas para tocar violão. não para agradar gregos e baianos, e minhas sobrancelhas estão bem, obrigada.

Mas ao mesmo tempo sempre prestei muita atenção à minha feminilidade, à maneira como a expresso em meu modo de agir. Gosto de essências, sempre uso uma a cada estação. Como e bebo porque gosto e sou o que se pode chamar de uma bon vivant. Muitas vezes, uma dieta pode ser como uma morte lenta (mas ainda assim eu tento).

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Quantas vezes não me senti mais bonita debaixo do chu-
veiro com meu namorado do que toda montada numa festa?
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Uma vez eu passei lápis preto nos olhos (num momento existencialista-francês), e uma moça me vem com a seguinte besteira “você não passou rímel?” Minha filha, se eu tivesse ligando pro rímel não teria passado horas (mentira, cinco minutos) passando esse lápis preto! A coisa da obrigação de se depilar, fazer as unhas, etc etc etc, é uma máquina de fazer dinheiro. Acho que não existe nada mais sexy e feminino do que ter posse do próprio corpo. Mulheres que têm pêlos porque gostam deles, mulheres que tem alguns quilos a mais, mulheres com aquela calcinha um pouco velha, de rímel borrado, cílios postiços mal colocados: vocês têm valor.

Quantas vezes não me senti mais bonita debaixo do chuveiro com meu namorado do que toda montada numa festa? Qual a real necessidade de corresponder a tudo isso? Qual o volume de angústia que tudo isso gera?

A gente sabe. Homens e mulheres se enquadram nessa angústia. Tem muita menina depilada, cortada e moldada direitinho como o padrão manda, mas que não sabe usar um bom batom vermelho em uma ocasião não tão especial para atrair a luz para si. 

Não devemos ter limites. 

Maquiagem é cor. Outra coisa é vestimenta. Roupas são panos bonitos, coloridos, com diversas formas. Por que não misturar tudo e fazer de si mesma a sua escultura? Manipulamos nossas formas e o nosso colorido através das roupas. A sua vovó dizia para você não misturar estampas e você continua não misturando? Ah, desencanem!

Beijos, Alice


Alice Caymmi é cantora e compositora.