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UM REQUIEM PARA JORGE LUIS BORGES


Ler os contos de O Aleph, de J.L.B., é como ler o infatigável trabalho do universo para permanecer dentro de seu próprio mistério desde a origem até o fim dos tempos. Borges escreveu cada palavra como se elas fossem as mãos que pouco a pouco levantaram as pirâmides, cada palavra é uma peça chave (insubstituível) para a arquitetura da narrativa, que, se não é, ao menos nos dá a impressão de que é firme, inabalável, como a esfinge.

66 anos após a primeira publicacão desse livro, eu o releio e, mesmo não tendo jamais estado na China, reconheço e percorro a imensidão de suas muralhas. O Aleph protege (até quando?) o que foi e o que é a Literatura, seja ela o que for... Os relatos de Borges, cirurgias feitas pelas mãos de um médico louco, dão vida a um terrível, assombroso constructo que mal sabe falar, mas representa, como faria o mais talentoso ator ou a mais talentosa atriz, um teatro que ninguém assiste e do qual não se pode apurar nenhum sentido, nenhum axioma, senão a certeza de que não pode ser belo o que não é vazio.

Mortalidade e imortalidade, o ocidente e o oriente, mentiras, ciúmes, crimes, ruas e becos escuros, labirintos e desertos, "um ponto onde convergem todos os pontos". O Aleph, assim como o poema que Carlos Argentino escreve a partir dele, é turbulento, mas tranquilo como um pátio fotografado, vazio, por isso belo e venerável; é o Caos (pai do Céu e da Terra).

Machado de Assis disse uma vez que "nada se emenda bem nos livros caóticos, mas tudo se pode meter nos livros omissos"; ele, tanto quanto Borges, sabia que um bom livro é como o vôo de uma mosca, desnorteado e incômodo.

O monumento de Borges, 66 anos depois, está intacto, nenhum soldado romano quebrou seu nariz a pedradas. Ele passa as noites frias no silêncio das bibliotecas, enquanto procuramos a vida nos corredores dos supermercados e topamos, na entrada do caixa, com uma revista de celebridades.

Não me lembro qual escritor latinoamericano disse que "é preciso voltar a Borges", talvez todos tenham dito, mas eu quero dizer que não, que não é preciso, não há nada lá para nós, só a vergonha.




DANILO DIÓGENES
Estudante de Literatura e colunista do ORNITORRINCO




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UMA PAUSA PARA RESPIRAR

Foto: Marcelo Albuquerque 

O dia-dia, o corre-corre, o empurra-empurra... A repetição das palavras é a própria repetição dos acontecimentos em sua velocidade submersa no vício de acabar e recomeçar, não exatamente do início, mas, ainda assim, em um movimento cíclico. Sem pausa para respirar, como um homem muito nervoso, acendendo um cigarro após o outro; este é o tempo, essa é a vida.

Invoco os deslocamentos em que somos as locomotivas puxando vagões imaginários, cargas e mais cargas de problemas, angústias, nascimentos, mortes, sorrisos percebidos com dificuldade em meio à pequena multidão no ponto de ônibus. E disso nos fazemos, de fragmentos unidos, separados por um sorriso quase imperceptível, como um trem que vai para o centro da cidade e para o centro da existência.

Os deslocamentos da casa para escola e de volta a casa, e para o trabalho e de volta a casa, e para a festa e de volta a casa, e para a praia e de volta a casa. Quem percebe nessa corrente os elos quebrados? A libertação do automatismo absoluto, a brecha que não é propriamente um defeito, mas que nos define, onde ela fica, exatamente? No lazer? Na arte?

O sentimento de pertencer a um lugar, de ter um ponto de partida para o qual sempre voltamos, um lugar de descanso, um lugar seguro, um forte, um refúgio, o sentimento, melhor dizendo, de posse recíproca em relação a esse lugar, ele nos faz compreender que o cansaço, que o horror do trânsito não pode atropelar nossa identidade e que a bocarra fedorenta da cidade não pode nos tornar anônimos comendo a letra dos nossos nomes.

Mas outra vez (ah, outra vez!), sobrepondo-se ao sentimento, o pensamento! O ônibus pára, os ruídos diminuem; por pouco tempo, logo ele voltará a andar, mas é tempo suficiente para que a razão intervenha, que o pensamento lógico se estabeleça, que o método organize a questão em um centro e a transforme em um objeto.

É tão difícil: viver, trabalhar, estudar, morrer, esquecer, voltar, imaginar, querer, não querer, tudo isso é difícil. Este é o tempo. Esta é a vida. Raduan Nassar: estamos indo sempre para casa.

Temos uma casa, metafisicamente falando? Ou procuramos por ela a vida inteira e nunca encontramos porque não podemos? Acho, acredito, pondero, elucubro, tenho a leve impressão de que, lá no fundo, não somos tão diferentes dos tuaregues, ao menos em termos de fixação de território.

Os deslocamentos, os movimentos... Não vi a menina que entrou no ônibus, vi o seu movimento, continuo vendo o seu movimento enquanto ela paga a passagem e procura um banco para se sentar, e quando se senta, o ônibus volta a se mover e a menina se move com ele, continuo vendo o seu movimento e quando eu estava "parado" os meus olhos se moviam e por conseguinte eu me movia. Vamos para casa ou para qualquer lugar que chamamos de casa.

Vamos entre protestos, manifestações, soluços, solavancos... Esse é o nosso dia-dia, nosso corre-corre, nosso empurra-empurra em algum lugar da América Latina, esse continente que ninguém sabe o que é nem por onde anda, mas que com certeza está mais triste porque morreu Eduardo Galeano, um homem que costumava parar e respirar de vez em quando.




DANILO DIÓGENES
Estudante de Literatura e colunista do ORNITORRINCO




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OS VILÕES DA INTERNET

Para comemorar os 75 anos do personagem Coringa, a DC Comics teve a ideia de colocar o icônico vilão em capas alternativas para as suas vinte e cinco revistas. O desenhista brasileiro Rafael Albuquerque se encarregou de criar a capa para a edição #41 da revista Batgirl e ele mandou muito bem, homenageando o clássico A Piada Mortal, de Alan Moore, um gênio dos quadrinhos.

Com o talento de Rafael Albuquerque e a justa homenagem ao personagem aniversariante e ao autor que revelou sua face mais bizarra e constrangedora, a capa tinha tudo para agradar os fãs, mas não foi bem o que aconteceu, após sua divulgação, uma verdadeira revolta começou na internet, gerando uma imensa polêmica.

Entre outros, os comentários mais frequentes a respeito da capa acusaram-na de ser "machista" ou "misógina", outros disseram que ela poderia ser vista como uma "apologia à violência contra a mulher". Sei que não interessa, mas querem saber o que eu acho?

Acho que não há nada de mais na arte da capa, mesmo assim, considerando a opinião manifestada na rede, o próprio Rafael Albuquerque pediu à editora que cancelasse a publicação da capa e a DC atendeu ao pedido do desenhista. Uma pena.

Não sou mais um leitor assíduo de quadrinhos como era há mais ou menos dez anos, confesso que estou desatualizado, mas tento acompanhar certas evoluções e acho que o público desse gênero literário vem mudando, e para melhor, os leitores estão mais atentos e pensam a respeito de certos conceitos que antes eram simplesmente ignorados por todos. No caso em questão, porém, acho que houve um exagero, para não dizer um equívoco por parte do público, que não soube assimilar uma ideia muito simples e agiu com um temperamento talvez contaminado por um mal que assola a internet: a força gigantesca que ideias ruins adquirem com velocidade assombrosa; felizmente, o contrário também acontece, às vezes.

Numa conversa sobre o assunto, um amigo fanático por quadrinhos me disse que talvez como capa, como evidência, o desenho tenha revelado esse outro lado (que não vi), mas, caso inserido em uma revista, quer dizer, no decorrer da história, reações nessas proporções não teriam acontecido. Concordo plenamente com ele, e acho que isso tem um nome: hipocrisia. Mas quem sou eu para julgar?

Pessoalmente, tenho medo de atitudes como a desses fãs que criaram e impulsionaram a #changethecover. Tenho medo de que cada vez mais artistas se sintam impelidos à autocensura por conta de uma ditadura politicamente correta. Penso que, se lançada nos dias hoje, A Piada Mortal correria sérios riscos de se tornar um fiasco.

Segundo a DC, a revista Batgirl tem em foco um público feminino numa faixa etária entre 14 e 17 anos. Não sei a opinião de pedagogos, educadores ou mesmo de pais que ousam criar seus filhos sem terem lido Rosely Sayão ou assistido SuperNanny, mas acho que meninas ou mesmo meninos nessa idade já devem ser apresentados a um mundo onde não há um arco-íris em cada esquina e onde nem tudo (ou quase nada) é cor de rosa.

A violência sempre existiu no universo das revistas em quadrinhos. O contexto em que elas nasceram – durante a Segunda Guerra – era violento e macabro, muito pior do que qualquer quadrinho poderia representar se quisesse mostrar a fundo a crueldade e a escuridão dos seres humanos, por isso sou contra todo tipo de censura ou repreensão de conteúdo nos quadrinhos ou onde quer que seja; o acesso do público a determinados conteúdos é que deve ou pode ser discutido. Precisamos ter certeza que, daqui a cem, duzentos, trezentos anos, artistas como Alan Moore e Rafael Albuquerque terão liberdade para trabalhar sem sofrer esse tio de acusações, a meu ver, completamente descabidas.



DANILO DIÓGENES
Estudante de Literatura e colunista do ORNITORRINCO



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IMPEACHMENT - UMA TELENOVELA NACIONAL



O movimento convocado contra a presidente Dilma Rousseff para o dia 15 de março (domingo) parece uma grande piada, mas não é. Não há como rir diante da incapacidade de certos seres humanos de separar a política de suas aspirações pessoais, esquecendo-se de que vivemos em uma democracia... e não me venham com antiguidade, eu sei como funcionava, então, sim, vivemos numa democracia.

O mais grave, porém, e o que mais me preocupa, é a incapacidade de distinguir um problema incontornável – como o esquema de corrupção investigado pela operação "lava jato" – de um possível descaminho do governo administrado pela presidente e pelo partido que ela representa.

Uma coisa está atrelada à outra! Gritarão os inconformados que querem ganhar as ruas para mostrar que têm voz, seria melhor que antes tivessem palavras e antes das palavras ponderassem um pouco sobre o que querem gritar no dia 15.

Não duvido que membros do PT estejam envolvidos no esquema da Petrobrás, assim como não duvido que membros da PMDB e de outros partidos também tenham participado desse esquema e de outro que ainda não sabemos, desde o prefeito de Serra da Saudade até o presidente do Senado, não duvido que haja um desvio de dinheiro, uma chantagem, uma furada de fila num restaurante, e isso também me revolta, me entristece, me faz querer gritar na rua "Fora PT!", "Fora Dilma!"

Então sento, respiro fundo e me digo: Calma, tem algo errado nessa atitude, até onde sei, a presidente não está nem mesmo sendo investigada na CPI ou na "lava jato" (por lei nem poderia), a doação de dinheiro de propina para sua campanha em 2010 é suposição e mesmo que tenha acontecido, será que ela tem culpa? Será que ela sabia? Muitos dos que dirão que sim, que ela sabia, nem lembram a trajetória da presidente até chegar onde está, se duvidar, nem lembram em quem votaram nas últimas eleições. Caso lembrem, perguntem-se, será que ela realmente sabia?

Governo nenhum daria a força que hoje possui o Ministério Público se quisesse enganar os faxineiros que vaiaram a presidente em sua visita a São Paulo, a mesma presidente do mesmo partido que fez faxineiros e diaristas andarem por aí de cabeça erguida. A propósito, por falar em São Paulo, o Pepe Mujica mandou lembrança.

Governo nenhum, caso fosse culpado, caso soubesse, investigaria com tanto afinco seus próprios crimes, daria tantos tapas na própria cara, embora isso não anule a má condução da economia, o jogo sujo com os banqueiros e empreiteiras, o neoliberalismo xarope que temos de engolir todos os dias. Porém, contudo, todavia: entre ficar triste, encabulado, e querer dar um pé na bunda da presidente vai muita légua corrida por Macunaíma, o herói da nossa gente.

A gota d'água, o que faz esse movimento do dia 15 parecer uma piada são as suas figuras mais ilustres, as celebridades, as constelações, os verdadeiros heróis da nossa gente, quem de verdade nos dá alegria, diversão e cultura. Ah, a cultura, a cultura esparramada por toda parte, quase insuportável!

Ronaldo Fenômeno, Vanessa Camargo, Caio Castro – eu não queria ter escrito esses nomes, é a primeira vez que faço isso, espero não ter que fazer nunca mais –, eles estarão nos protestos, e Silas Mala... não, esse eu não escrevo, mas ele estará lá também, gritando nos nossos ouvidos.

E o Lobão! Poxa vida! Era tão bom escutá-lo no rádio, na televisão, nos fones de ouvido, agora não é mais não. Ele vai estar lá também? Não sei, mas não importa. Já está bom de gente querendo falar sem ter o que dizer.

"Vem pra Rua, chega de Corrupção, estão roubando nosso dinheiro", dizem os "artistas". Pois é, as burras dos patrocínios BR, BB e outros ficaram mais leves, estão roubando o dinheiro das suas peças de teatro – mais cultura! mais cultura! – com ingressos a sessenta reais apresentadas para um público culto, inteligentíssimo, que gosta de vê-los na televisão pulando em piscinas, dançando, fazendo isso e aquilo nos fins de semana, e, é óbvio, gostam de vê-los interpretando os principais nomes da dramaturgia universal de vez em quando.

Pouca saúde e muitos "artistas" os males do Brasil são!

Já disse, não é piada, mas pedir o impeachment da presidente da república nessas circunstâncias, isso sim é pra rir, mas estou chorando... O país que saiu do mapa da fome da ONU, o país que se tornou influência mundial entre as nações emergentes, que não demitiu milhares e milhares e mais milhares de trabalhadores numa das maiores crises econômicas da história desse planeta, o país em que a gente se fode todos os dias mas segue firme e forte com esperança, sangrando, tomando porrada sem patrocínio nem porra nenhuma, esse país merece uma oposição que tenha o mínimo de respeito por ela mesma.
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O QUE É SER UM GRANDE ESCRITOR HOJE?


O esforço é grande e o homem é pequeno

O que é ser um grande escritor hoje, no século XXI, em 2015, no País das Maravilhas? A resposta, é claro, pode ser dada de acordo com o ponto de vista da pergunta, então vamos restringir a questão ao campo literário, quer dizer, ao que os críticos, leitores, escritores e outras sociedades secretas elegem como Literatura hoje, no século XXI. Sob esse ponto de vista, Franz Kafka é um grande escritor, hoje mais do que nunca. Fernando Pessoa, hoje mais do que nunca, é um grande escritor. Carlos Drummond de Andrade... talvez ontem mais do que hoje, mas é um grande escritor. Contudo, nenhum deles escreveu neste século, e enquanto vivos não foram lá grandes celebridades literárias, com a exceção do poeta de A Rosa do Povo e outros livros, que, enquanto esteve vivo, recebeu a atenção e a dedicação dos escritores e críticos literários mais importantes do país (alguma relação entre uma coisa e outra?).

Pode-se dizer que os maiores escritores do século XXI são os escritores pouco reconhecidos ou estudados no século XX. Ok, "eles estavam à frente de seu tempo", "eles não eram compreendidos pelos seus contemporâneos", "eles não tiveram a oportunidade" e etc. Sim, tudo isso é verdade, por isso é preciso estudá-los, é preciso lê-los, eles merecem, a Literatura merece que se analise cuidadosamente tudo o que eles fizeram, o que incomoda é o risco permanente que corremos de toparmos com a mesma pedra no meio do caminho. Certamente os críticos e leitores que não compreenderam a obra de Pessoa estavam chafurdados em obras do século XIX.

É claro que há grandes escritores brasileiros escrevendo hoje, no Brasil, e fora dele, e não me refiro a Paulo Coelho, lembram da restrição ao campo literário? Mas, no Brasil, escritores ainda diminuem ou aumentam de tamanho de acordo com os prêmios zuados que recebem; no Brasil, as resenhas nos jornais e blogs ainda são pílulas de crescimento, um milímetro para cada resenha, mas há as que valem dois milímetros, ou até três, a depender da publicação e do jornalista que as escreveu. Aparições em programas de TV e Rádio têm gosto de levedura, e agem da mesma forma: de um dia para o outro, o tamanho da massa cresce, surgem novos leitores, uns cochichos aqui e ali e a quase certeza de que sua obra tem alguma relevância nesse Universo vazio e misterioso.


Ser ou não ser?

Na última edição da Jornada de Iniciação Científica e Cultural da Universidade Federal do Rio de Janeiro, quase cem por cento dos orientandos em pesquisas relacionadas à Literatura (os orientandos geralmente seguem a mesma linha de pesquisa de seus professores doutores), apresentaram, ao longo de três dias, trabalhos em sua esmagadora e extradimensional maioria sobre Fernando Pessoa, Kafka, Drummond, Guimarães Rosa, Virginia Woolf e outros grandes escritores do século XX, os outros meio por cento dedicaram-se ao século XIX, XVIII e assim por diante até chegarmos a Platão e Homero.

Os alunos pesquisadores, todos jovens nascidos à beira do século XXI, dão início a uma pesquisa de iniciação científica e cultural com o intuito de segui-la ao longo de uma possível carreira acadêmica, aí é quando percebemos que cavamos, cavamos e encontramos um esqueleto. Se desde cedo novos pesquisadores e críticos são direcionados para o estudo de autores já canonizados, chegará (já chegou?) o momento em que escrever sobre algum desses autores será como escrever um livro sobre jogadas de xadrez, ou seja, será escrever tendo a certeza de que o que se escreve já foi dito tantas vezes quanto o dilema existencialista do jovem e atormentado Hamlet.


Todo espaço existe para um passeio

Fernando Pessoa, Roberto Arlt, Ruben Darío, Baudelaire, Sousândrade, Lima Barreto, entre outros tantos, mesmo sem a devida atenção e reconhecimento merecidos em vida, foram grandes escritores ontem e continuam sendo hoje. Essa é uma prova de que a boa literatura, em termos, não precisa da crítica para existir. Mas ela não pode ser considerada boa literatura em um determinado lugar e época se não for apontada como tal, se não for analisada e posta em questão pelos críticos, leitores, escritores e outras sociedades secretas de um determinado lugar e tempo, como disse um teórico de quem o nome agora eu não lembro ou não quero lembrar.

No Brasil do século XXI, é preciso muita fita métrica para medir e muita mídia para apresentar a multidão de autores que existe nas estantes das livrarias. Há obras inteiras abertas como a estrada da canção do Whitman. Obras que não apareceram na TV, que não ganharam o prêmio zuado A ou o prêmio todo mundo já sabia B, obras que não entraram na lista dos mais vendidos, as que entraram, aliás, foram resenhadas milhares de vezes por críticos e comentaristas especializados, enquanto o próximo Fernando Pessoa podia estar ali na Travessa da Zona Sul mais próxima ou no sebo do subúrbio mais longínquo, enquanto o próximo Lima Barreto fazia uma postagem no seu blog, enquanto o próximo Baudelaire escrevia textos críticos sobre sua própria obra e os enviava aos amigos, textos que serviam para tapar a lacuna a ser preenchida no futuro pelo próximo Walter Benjamin.


Numa mão sempre a espada e noutra a pena

No fim, parece que ser um grande escritor hoje, no Brasil do século XXI, é simplesmente seguir lutando pela conclusão de sua obra, como Luís de Camões seguiu, no século XVI, "por alto mar, com vento tão contrário", porque ele, a pedra fundamental da literatura em língua portuguesa (que somos obrigados a ler na escola sem saber o motivo), ele também teve seus momentos de "ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de Baudelaire".




DANILO DIÓGENES
Estudante de Literatura e colunista do ORNITORRINCO





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QUANDA A EMOÇÃO SE TRANSFORMA EM MÚSICA


Lançado em 1980, Grace and Danger é um dos discos mais perturbadores do cantor e compositor britânico Jonh Martyn (1948-2009), não pela experimentação - sua marca registrada -, mas pela enorme carga emotiva empregada nas nove faixas que o compõem; chega a ser difícil assimilar as letras de Looking' On e de Hurt in Your Heart, tamanha a sinceridade e clareza com que tratam do divórcio turbulento pelo qual Martyn passou no final dos anos 70. A sequência em que as nove canções são apresentadas alterna momentos de êxtase e depressão e a voz de Martyn acompanha essas mudanças com o apoio da segunda voz de ninguém menos que Phil Collins, que também se encarrega brilhantemente da bateria, tornando o disco ainda mais extraordinário.


Baby Please Come Home é uma das faixas mais bonitas de Grace and Danger, e também uma das mais tristes. Ela ajuda a entender por que Chris Blackwell, dono da gravadora Island Records e amigo do casal Martyn, se recusou a lançar o disco em um primeiro momento, até que John o convenceu de que precisava lançá-lo para conseguir se livrar daquelas emoções.

O álbum é uma implosão. As músicas dão lugar à fumaça que se ergue e se expande, turvando a visão (ou a audição) de todos que acompanham a tristeza e a angústia de um grande artista confrontando os erros que cometeu durante seu casamento com Beverley Martyn.

Esse não é o disco mais importante na longa carreira de Martyn. Solid Air e One World foram os trabalhos que o afirmaram como um dos músicos mais originais e talentosos que esse humilde planeta azul conheceu, suas experimentações e seu gênio deram grandes contribuições à guitarra elétrica e transformaram o rock, o folk, o jazz e o blues em um só estilo musical, o seu estilo.

Em 2015, seis anos (que parecem seis dias) após a morte de John Martyn, em tempos de Adele e outras "sofrências", vale a pena recorrer a Grace and Danger para se ter uma real dimensão do que é traduzir em música o sofrimento de um homem.


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DANILO DIÓGENES
Estudante de Literatura e colunista do ORNITORRINCO



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ACORDA, JÁ É 2015!


Alguém me sacode na cama dizendo: "Acorda, já é 2015!, ano novo, vida nova!" Abro os olhos, esfrego os olhos, tento encontrar de onde vêm a voz e a mão que me cutucou, mas não vejo ninguém, estou sozinho no quarto. "Mas, como?", eu pergunto, "A crise da Petrobras, a Supervia fazendo merda, a marta Suplicy dando show em vez de meter o pé e seguir seu rumo... tudo isso não é coisa de 2014, como podemos estar já em 2015?", eu pergunto.

"Você não viu a queima de fogos? Você não viu as mensagens de feliz ano novo que te mandaram? Você não mandou mensagens de feliz ano novo?", me pergunta a voz que se projeta do invisível. "Sim, fiz tudo isso", respondo, "mas quando vi as notícias sobre a virada do ano no jornal do dia 01, tudo parecia uma videotape da virada de 2000, de 1998, de 1995... matérias iguais, pessoas dizendo as mesmas coisas sobre as impressões que tiveram de Copacabana em entrevistas barulhentas; o chefe da polícia dizendo que tudo ocorreu dentro da normalidade, com a exceção de alguns pequenos incidentes nada extraordinários."

"Então você sofre do mal da memória?", pergunta a voz, com um tom sarcástico, quase ofensivo. Viro o rosto, abraço o travesseiro e tento pegar no sono outra vez. Olhei as horas e não passava das nove. "E da memória cega, que não consegue enxergar o novo?", continua a voz, tentando me atingir de alguma maneira com alguma filosofia sabe-se lá de que ocidente. "Então você sofre da memória cansada? Da memória que escreve com tinta indelével as coisas mais repugnantes? Acorda, olha a vida! Olha 2015, já chegou! Desse jeito, ele vai passar e você não ver bosta nenhuma!"

"Já vejo", respondo, "parece que não, mas vejo, vejo com os olhos fechados e com a memória abarrotada a ponto de não querer guardar mais nada; mas não se preocupe, estou bem, só preciso dormir mais um pouco. Em dois dias, três ou quatro, ou quem sabe no fim do mês, isso vai passar. Se já é 2015, então, daqui a pouquinho vem o Carnaval e todos poderemos colocar máscaras por cima das nossas máscaras. Todos poderemos cantar e dançar, enquanto o Pierrô lamenta sua eterna angústia, único representante da realidade, no meio de uma imensa fantasia."

"Você já leu o jornal de hoje?", a voz pergunta. "Sim", eu repondo, "li enquanto dormia." "Então você já sabia que é 2015?", a voz pergunta. "Sim", eu respondo, "sabia enquanto dormia." "Então você estava acordado esse tempo todo?", a voz pergunta. "Sim", eu respondo, "estava acordado enquanto dormia."

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EM BUSCA DO LEITOR PERDIDO



"Um quarto dos alunos do 5° e do 9° do ensino fundamental público está no nível mais baixo na avaliação nacional de português", diz uma reportagem da Folha de S. Paulo. Os dados publicados recentemente (5 de dezembro), são baseados na Prova Brasil, avaliação nacional aplicada pelo Mec a cada dois anos e que teve sua última edição realizada no ano de 2013.

As habilidades e competências avaliadas na prova nacional de português, vale lembrar, não têm a ver com gramática, apenas a capacidade de leitura e compreensão dos alunos é testada na avaliação, eles precisam, entre outras coisas, "identificar o efeito do uso de aspas" (!), e essa competência não tem sido alcançada por alunos do 9° ano, o último do ensino fundamental. Outras habilidades como "distinguir o sentido metafórico do literal de uma expressão" não são alcançados por alunos do 5° ano.

Essas habilidades não alcançadas, aparentemente banais, denunciam o profundo equívoco que a educação brasileira cometeu ao longo da sua história. O ensino maciço de gramática, a pouca importância dada à leitura e à interpretação de textos, o trabalho ínfimo com o reconhecimento de gêneros, o mal uso do ensino de técnicas de redação, que muitas vezes se resume a pedir que o aluno escreva um texto com "três parágrafos e dez linhas em cada parágrafo, para que seja um texto equilibrado, com introdução, desenvolvimento e conclusão", todos esses absurdos contribuíram e contribuem ainda para os resultados que temos hoje.

Felizmente, aos poucos, as coisas vêm mudando, e com aval do Ministério da Educação, muitos dos livros didáticos atuais não trazem o ensino de gramática ou dão pouca ênfase a essa parte do aprendizado, e focam na leitura e produção de textos em língua materna, para que os alunos desenvolvam sua capacidade crítica e de compreensão, além da sua criatividade e raciocínio, afinal de contas, de que vale para um aluno do 9° encontrar o Sujeito de uma oração e não entender em um texto "o tema a partir de características que tratam dos sentimentos do personagem principal".

É claro que é importante saber gramática, e ela deve sim ser ensinada, desde que da forma adequada, reconhecendo que ela não é a protagonista nessa história, muito menos os gramáticos, a quem a sociedade entrega o estandarte de donos da Flor do Lácio. A gramática deve ser uma ferramenta de auxílio e não pode ser mais importante para um aluno do que o seu prazer de ler uma história e compreendê-la, ou a sua capacidade de escrever e contar uma história de maneira agradável.

Os leitores parisienses receberão em breve, no Salão do Livro de Paris, uma comitiva de autores brasileiros selecionados pelo Minc, alguns deles respeitáveis, outros nem tanto, mas a dúvida que fica é: quando teremos tantos leitores quanto o destino próximo dos "representantes da nossa literatura"? Quando teremos tantas livrarias, tantas bibliotecas, tantas editoras e tantos leitores quanto a França, para onde vão os "representantes da nossa literatura"?

Recentemente, em uma palestra dada na ECO (Escola de Comunicação) da UFRJ, Paulo Roberto Pires, escritor, jornalista, editor e professor da ECO, disse que no Brasil há um grande público frequentador de feiras/festas literárias e bienais, disse que esses eventos têm crescido ao longos dos anos, mas que esse público que os frequenta não se reflete no número de leitores e no número de vendas de livros. "Muita gente vai ouvir o escritor falar, mas pouca gente leu o livro do escritor", disse Paulo Roberto Pires, que deu a declaração baseando-se em sua longa carreira no mercado editorial e nos anos em que trabalhou na organização da Festa Literária Internacional de Paraty e outros eventos, para ele, o novo e maior desafio do mercado editorial é transformar o público que vai às feiras e bienais em consumidores de literatura, em todos os sentidos.

O desafio de formar leitores, no entanto, começa bem antes das festas/feiras e bienais, começa nas escolas e nas bibliotecas comunitárias, se é que elas ainda existem. Tudo começa em saber "distinguir o sentido metafórico do literal de uma expressão", em outras palavras, tudo começa com o simples ato de abrir um livro e percorrer suas linhas com os olhos, com a imaginação e com o espírito, sem se preocupar com o Sujeito, com o Objeto e outros intrometidos que não foram convidados para a festa/feira ou para o que quer que seja.


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NEVER ALONE - COISAS BOAS ACONTECEM











Em 2014 uma nova geração de consoles (videogames) se consolidou, mas as versões atualizadas de clássicos do passado (remakes) fizeram tanto sucesso quanto os lançamentos ultrarrealistas das grandes franquias. No universo independente, propostas interessantes apareceram, no entanto, muitos projetos ficaram pelo caminho ou ainda esperam por doações no Kickstarter. Num desses projetos, "Americana Dawn", os criadores inspiram-se no escritor Mark Twain e exploram o folclore e a história americana a fim de contá-los em um jogo que nos lança de volta aos anos 1990, a era de ouro do RPG eletrônico.

Outro projeto ainda em desenvolvimento chamou atenção nesse ano, trata-se de "Inside", da produtora Playdead, responsável pela criação de "Limbo". A julgar pelo trailer no site do jogo, "Inside" será tão original e surpreendente quanto seu antecessor. A Playdead, ao que parece, continuará apostando na sensibilidade e na inteligência do jogador para criar suas narrativas expressionistas e contundentes.

Com esses e tantos outros bons projetos ainda no forno, parecia que o ano se encaminhava pra um final sem grandes acontecimentos no cenário independente dos videogames. Mas, felizmente, coisas boas acontecem e "Never Alone" é uma delas. O game surgiu de uma proposta da Cook Inlet Tribal Council (uma instituição de auxílio a tribos nativas do Alasca) ao produtor da E-Line Media, Alan Gershenfeld.

Durante dois anos e meio, professores, desenhistas, caçadores, artistas, anciãos, contadores de histórias, todos membros da Alaska Native Community, participaram intensamente da produção do jogo, com o objetivo de assegurar que sua cultura, seus valores e suas histórias estivessem bem representadas no enredo que conta a história de Nuna, uma menina que recebe ajuda de uma raposa do ártico e de espíritos ancestrais para conter uma terrível nevasca que assola sua aldeia. A narração do jogo é feita por nativos que falam a língua Iñupiaq, mas há legendas inclusive em português.

A paisagem do Alasca é inóspita e pouco colorida, mas os cenários e as ambientações de "Never Alone" dispensam qualquer adjetivo. O jogo também conta com um modo cooperativo, nele um dos jogadores é responsável pelos movimentos de Nuna e o outro pelos movimentos da companheira raposa. Isso torna a experiência do jogo muito mais interessante, afinal de contas, esse é o principal valor passado pelos Iñupiaq, a cooperação, o sentimento de união e coletividade.

Apesar disso, joguei "Never Alone" completamente sozinho, talvez por isso tenha tido mais facilmente a impressão que a raposa era um elo entre Nuna e o ambiente em que ela vivia, um elo entre a menina e os antigos espíritos. Cheguei a me perguntar se a própria raposa não seria um espírito e por isso o título do jogo seria “Kisima Inŋitchuŋa” (Eu não estou sozinho) em iñupiaq, mas ela recebe outros tipos de ajuda durante sua aventura, o que não vou contar, obviamente, para não estragar as surpresas.

Nenhuma análise dos elementos mecânicos do jogo pode ser feita diante de tanta coisa infinitamente mais importante: valores universais, sabedorias anciãs, documentos da história e das lendas de um povo. "Never Alone" fez 2014 valer a pena e acenou a bandeira da esperança em meio a um universo gamer que apodrece a cada dia, reproduzindo preconceitos e estereótipos.

Enquanto criadoras feministas digladiam na internet contra o público misógino e criam personagens superpoderosas e supermachonas para combater o sexismo destruindo tropas colossais de inimigos, "Never Alone" conta a história de uma indiazinha e de uma raposa do ártico que querem proteger sua aldeia, valendo-se para isso da concentração, do trabalho em equipe e da beleza de ser qualquer um: menina ou raposa, ancião ou espírito, confrontando as forças imprevisíveis da natureza, que não têm cor, etnia, nem sexo.


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TRÊS MANEIRAS DE FUGIR DA REALIDADE


A Literatura é um sinal luminoso na porta da realidade, é aquele "EXIT" piscando em verde, azul e vermelho, como nos filmes hollywoodianos em que acontece uma merda num local público e todo mundo corre desesperado na mesma direção e começa o empurra-empurra. É difícil sair dessa muvuca, mas com um pouquinho de esforço e determinação, dá pra chegar lá, mesmo correndo o risco de ser pisoteado.

A loucura, por outro lado, é mais acessível e menos perigosa que a Literatura, basta saber fingir um pouquinho e já dar pra ser um louco aceitável, mas se souber atuar um pouquinho e se entender de Freud um pouquinho, aí qualquer um pode ser completamente livre, leve e louco.

Robert Walser (1878-1956), um dos maiores escritores esquecidos do século XX, experimentou os dois caminhos. Primeiro escreveu sua obra, contos e romances que cativaram até mesmo o deus leteratum Franz J. Kafka, que queria escrever como ele.


Imagem: Troche

Em dado momento, sem mais nem menos, Robert Walser se internou em um sanatório e lá viveu por décadas, sem escrever uma linha, até morrer e ser coberto pela poeira – ou pela neve – do tempo.

Enquanto estava na casa de saúde, o escritor suíço recebeu algumas visitas, numa delas perguntaram por que ele havia deixado de escrever, já que não fazia mais nada e tinha tempo de sobra pra se dedicar inteiramente à escrita. Walser respondeu: "Eu não vim aqui para ser escritor, vim para ser louco."

Já quem não tem coragem pra ser escritor, nem paciência pra ser louco, pode simplesmente tentar adivinhar o que o estranho ou o colega do lado está pensando enquanto vira os olhos e olha pro chão, pra janela, pro teto, enquanto coça o braço, coloca as pernas em uma posição esquisita, relaxa e quase se deita no banco, se esparrama, desliza, se dissolve, coloca os fones de ouvido e balança a cabeça igual um cachorrinho de para-brisas ou é abduzido pelo smartphone e se contorce num universo paralelo, espremido entre bits e pixels... Tudo isso causa uma espécie de delírio. Tentar adivinhar o que uma pessoa pensa é uma boa maneira de fugir da realidade em pequenas doses. Faço isso o tempo todo e garanto que funciona.



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MEU SMARTPHONE E EU


Há quem ainda vive, por opção ou falta dela, sem smartphone. Eu mesmo conheço uns e outros resistentes à evolução do dispositivo tão maldito por Giorgio Agamben, que o acusou de deixar "mais abstratas a relação entre as pessoas". Mas, apesar de toda a aversão de Agamben e de outros tantos filósofos, o celular – e mais precisamente o smartphone – tornou-se um item essencial no inventário dos que se aventuram nesse mundo pós-moderno.
Eu e meu smartphone, por exemplo, nos tornamos grandes amigos, até porque meus amigos estão nele, nos aplicativos de mensagens instantâneas e nas redes sociais. Já nem lembro da voz de alguns deles; mas sei como escrevem, conheço sua sintaxe e suas onomatopeias de risada. Vejo quando estão felizes ou tristes por meio de uma bolinha amarela que reproduz expressões faciais e funciona tão bem quanto o mais realista dos androides.
Meu smartphone e eu andamos de ônibus juntos, estudamos juntos, dormimos juntos; se esqueço, ele me lembra; se durmo demais, ele me acorda. Ele é muito inteligente, às vezes, mais inteligente do que eu. Não faço ideia de como se chama a capital do Camboja, mas meu smartphone sabe – "Phom Penh", ele acaba de me dizer –, e por isso eu o amo, por isso hippies e terroristas, cariocas e paulistas o amam.
Um smartphone vale por uma biblioteca, vale por um jornal, vale por um álbum de fotografia... vale por muito. Porém me dói quando vejo que pessoas reunidas no mesmo lugar, para o mesmo fim, às vezes preferem a virtualidade de seus smartphones e deixam de interagir com quem está próximo, e o pior, deixam de perceber muitas das coisas que acontecem ao seu redor.
No geral, meu smartphone e eu nos damos bem, exceto quando sua bateria acaba em hora indevida, ou quando seu Sistema Operacional resolve travar e me chamar de otário. No entanto, nada se compara ao princípio de pânico que me toma quando esqueço o lugar onde o deixei e vou procurando por ele de um lado a outro, como se uma parte de mim (o coração) estivesse se afastando pouco a pouco, até que por fim o encontro, com os olhos marejados, e ele me faz prometer que coisas assim nunca mais vão acontecer.
Eu e meu smartphone dependemos um do outro, mas eu sei que tenho tudo sob controle, que minha relação com ele não vai nos atrapalhar no nosso dia-a-dia. Meu smartphone e eu deixamos isso bem claro, na terapia que recomendaram pra gente.

Danilo Diógenes é estudante de Literatura e colunista do ORNITORRINCO. 
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O EU É UM OUTRO


O Outro que eu olho não sou eu, mas eu o reconheço como um semelhante. De todo modo, ele é um "estranho", que, para Lacan, é irredutível. Está desassociado de quem o vê e se excede em relação a ele, invadindo-o e transbordando, em outras palavras, é como se o olhar do Outro se sobrepusesse ao meu, se impusesse de maneira perturbadora. 

Merleau Ponty, por outro lado, diz que posso ver e ser visto, e posso ser visto tanto pelo Outro quanto por mim mesmo, o que nos coloca no mesmo patamar, nos tornamos um "Ser" que experimenta a mesma "carnalidade" e se correlaciona com as demais coisas no mundo. Então eu, sujeito, não me reduzo a um mero espectador, e participo do olhar do Outro sobre mim, criando entre nós uma familiaridade, ainda que provisória. Mas, ao ver o Outro, e ao ser visto por ele, o que há além desse encontro de olhares senão a expectativa que traço a respeito dele e do seu olhar sobre mim? 

A partir da minha consciência de corpo tenho uma expectativa ("espera que repousa numa promessa ou probabilidade") ampla em relação ao mundo, espero sempre que a chuva me molhe, e que um rádio toque música, e espero sempre que o Outro não seja um espelho que me reflete, mas um indivíduo à parte, que não está em mim. Então, diante do olhar do Outro, esforço-me em satisfazer minha expectativa a respeito dele. Se o desconheço, se não tenho a respeito dele nenhuma referência, resgato na minha experiência modelos anteriores (afinidades, preconceitos, idealizações) e as reciclo como alimento para esse fogo que não pode se extinguir sob o risco de deixar-me no escuro. E para além dessa expectativa ampla, desses modelos preestabelecidos, e que se aplicam a tudo com o que me relaciono, há uma expectativa dependente, que emerge da minha vontade de intuir o que não espero de algo ou alguém. 

Espero que um rádio toque música, mas o que não espero de um rádio? Do mesmo modo engendro intencionalmente expectativas a respeito do olhar do Outro, na tentativa insegura de decifrar o "enigma" desse olhar sobre meu corpo. 

Espero que ele me veja, mas o que não espero? Qual seria o resultado dessa espécie de reflexo em que meu olhar se move, indo em direção ao outro e voltando-se contra mim pelo fato de que também sou visto? Estou diante do "estranho", do que não me é "familiar", mas não espero, à princípio, que esse "estranho" seja a minha projeção no olhar do Outro.

Até o momento, não pensei que tudo o que se passa em mim e que é desencadeado pelo meu ver também se passa no olhar do Outro. Até agora, parafraseando Raul Seixas e Paulo Coelho, estou no Outro, mas ele não está em mim. Se isso ocorre, é mais fácil pensar como Lacan, ou como Sartre, e querer (algo impossível) "destruir o Outro" que me assola porque não passa de um "estranho" sobre o qual eu não tenho nenhum domínio. Contudo, se presumo estar no Outro, e creio que dele não tenho nenhum vestígio além do olhar, a quem verdadeiramente estou tentando destruir quando tento destruí-lo? 

Quando reconheço que o olhar do Outro também carrega inúmeras expectativas a respeito do mundo e do meu olhar, estabeleço então uma expectativa a respeito da expectativa do olhar do Outro, que pode ser ou não uma expectativa mútua. Assim torna-se mais fácil acreditar que eu e o Outro fazemos parte de um "Ser", que estamos correlacionados, que existimos ou nos projetamos um no outro não como um espelho que me devolve a mim mesmo ou me perturba por me impedir de alcançar meu íntimo exterior, mas como um reflexo que me complementa. 

Posso reconsiderar a hipótese de sempre ter de me defender do Outro – que também pode fazer o mesmo –, e podemos bater um bom papo, trocar umas ideias bacanas, e cantar com Rimbaud: "O eu é um outro."

Danilo Diógenes é estudante de Literatura e colunista do ORNITORRINCO. 
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O LEMA DO ARQUITETO


Uma carroça está presa no engarrafamento, seu condutor limpa o suor da testa com a manga da camisa. Passo por ela e entro no ônibus da linha 778 (Pavuna-Cascadura) na esquina da Rua Sargento de Milícias com a Rua Cícero, sento-me do lado direito, à janela. Em seguida embarca uma moça acompanhada por duas crianças, a moça carrega uma melancia e dá ordens à menina e ao menino: "Ali, senta logo ali," ela berra, e sua voz se sobrepõe aos motores e buzinas. Do outro lado do corredor, na janela oposta à minha, senta-se uma senhora com um lenço branco na cabeça, o lenço cobre os cabelos brancos, os cabelos brancos cobrem a cabeça negra. Ela mira a paisagem – as bases de um viaduto – e é como se um feitiço a imobilizasse, ficará assim um bom tempo, sem olhar para nenhuma outra direção.

O engarrafamento persiste e o motorista, com seus óculos enormes de lentes escuras, resmunga, pragueja. Vão-se quase vinte minutos para que um percurso de trezentos ou quatrocentos metros seja percorrido. No primeiro ponto após o entrave provocado pela passagem de um candidato, uma pequena multidão entra e lota o micro-ônibus. Alguns se queixam do calor – é quase meio-dia –, outros demonizam o motorista anterior, que "passou direto, e deixou geral a pé." Senta-se do meu lado um senhor com uma sacola de mercado: "É aqui que eu vou ficar," ele diz, disposto a defender até a morte o lugar arduamente conquistado no meio do empurra-empurra. "Não amassa a melancia," grita a moça um pouco mais atrás. E as crianças com ela fazem barulhos com a boca imitando o movimento do ônibus que ainda está parado, recolhendo os passageiros. Todos a bordo, bem ou mal acomodados, e la nave va.

No ponto seguinte, outra dezena de desamparados. "Ele deixou tudo pra mim," diz o motorista, ao ouvir as novas queixas nada amigáveis contra seu colega de trabalho. "Ninguém merece," uma voz lamenta, a moça da melancia grita para uma das crianças: "Cala a boca! Fica quieta!" O motorista ouve uma piada e mostra os dentes de carranca: "Litrão, eu quero é litrão," ele diz, pisando no acelerador. O próximo ponto é logo ali.

"Mais uma galera aí, motorista!" diz um grito que vem do meio do tumulto. Estamos em Costa Barros, alguns tantos descem pela porta dos fundos; pela da frente, o primeiro a subir é um senhor de mais ou menos setenta anos, vestindo roupas sociais e um capacete de construção civil. "O senhor é engenheiro?" Pergunta o motorista. A resposta vem carregada por um forte sotaque pernambucano: "Eu sou arquiteto. Faço casa, colégio, igreja. Eu trabalho com paz e amor." O motorista ri: "Tá certo," ele diz. "Vou arranjar um chapeuzinho desses pra mim." Ele ri outra vez, e acelera.

O arquiteto senta-se ao lado da senhora com o lenço branco na cabeça. "Eu trabalho com paz e amor," ele diz. "Tá construindo o que ali?" Pergunta o motorista. "Me deixa perto do poste, motorista!" Ordena a moça com as crianças. "Programa de moradia," o arquiteto responde. "Apartamento pra quatro pessoas." Ele faz o número quatro com os dedos e chacoalha a mão no ar. "Perto desse poste aí!" diz a moça. O ônibus para. "Pega a melancia!" ela ordena, as crianças obedecem. Os três e mais alguns desembarcam. "Aí tinha que construir é um cemitério," diz o motorista, pisando no acelerador. E o arquiteto responde que não constrói cemitérios: "Em cemitério ninguém vive," ele diz. "Minha área é outra. Faço casa, colégio, igreja. Eu trabalho com paz e amor." O motorista fica em silêncio. O arquiteto fica em silêncio. O ônibus inteiro se cala e a viagem segue corriqueiramente até que o senhor ao meu lado resolve perguntar ao arquiteto: "Vai construir casa aqui também?"

A resposta não tarda: "Minha área é outra. Eu trabalho com paz e amor. Na Pernambuco fiz açude, barragem, poço artesiano." A senhora com o lenço branco na cabeça olha pela janela e contempla a praça de Rocha Miranda. O senhor ao meu lado também diz ser nordestino. "Nasci em Natal, mas vim pro Rio com um ano de nascido." O arquiteto ressalta: "Natal é Rio Grande do Norte, vou te mostrar," ele abre a agenda de capa preta e mostra o mapa político do Brasil, viaja pelo nordeste com o dedo indicador, parando sobre a capital potiguar. "Rio Grande do Norte," ele constata, e o senhor ao meu lado diz ter vindo de navio, ainda bebê, em plena Segunda Guerra Mundial. Os dois falam de Hitler, do Holocausto, das tropas brasileiras na Itália, de navios afundados por submarinos. Mais à frente o senhor ao meu lado se despede do arquiteto e desembarca. O motorista nos leva até o tradicional engarrafamento do Mercadão de Madureira. Ainda estamos em Setembro, mas a senhora com o lenço branco na cabeça se indaga: "Será que vou passar o Natal aqui nessa porra?" Ela mira com olhos tristes os carros e ônibus parados, ouve com tristeza as buzinas, enche o peito murcho com as fumaças dos escapamentos.

"É muito automóvel!" diz o arquiteto. "A indústria de automóvel no Brasil cresceu muito! Começou em cinquenta, com JK. Já tinha automóvel no Brasil, desde 30, mas vinha de fora." A senhora com o lenço branco na cabeça vira o rosto: "Já vem com conversa," ela diz. "Me deixa em paz." O arquiteto se cala, cabisbaixo.

Dez minutos depois a senhora se levanta. "Caramba! Pensei que ia passar o Natal aqui nessa porra!" ela diz, caminhando até a porta de saída com uma das mãos apoiada na coluna. O arquiteto passa para o lugar vago à janela, cruza as pernas, fala das Casas Bahia. "Isso é um grupo!" ele diz, e o motorista concorda. Fala de quando plantava feijão em Pernambuco. "Com sessenta dias eu tava colhendo." A dois pontos da última parada, em Cascadura, o arquiteto põe-se de pé. "Lá se vai nosso arquiteto," ele diz, e salta com sua agenda e seu capacete. Desço no ponto seguinte e seu lema me acompanha. "Eu trabalho com paz e amor," repito em pensamento, e dou um sorriso bobo, vendo o ônibus sumir, após virar uma esquina.


Danilo Diógenes é estudante de Literatura e colunista do ORNITORRINCO. 
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NOVA REFORMA ORTOGRÁFICA


Na semana pasada, foi divulgado qe o Senado – com o apoio de sua Comisão de Educasão, formada por profesores da língua portugueza – estuda a posibilidade de uma nova reforma ortográfica, acordada por todos os paízes que têm o Portugês como sua língua ofisial. A notísia não demorou a se espalhar, e como sempre acontese quando se trata de língua portugeza, todos são experts, todos se sentem no direito de dar sua opinião, ainda qe seja a mais ignorante posível.

Segundo o Senado, o intuito da nova reforma é fasilitar a relação entre fala e escrita. Mas me impresiona a quantidade de gente qe acredita qe por conta diso ficaríamos mais burros, que temos de estudar mais e não fasilitar a escrita, como se fôsemos todos mal alfabetizados; esas pesoas não sabem qe mesmo doutores em língua portugeza precisam, e não pouco, de um disionário para saber como se escreve certas palavras, essas pessoas não sabem que uma língua posui uma fonologia, e qe no Portugêz, como em muitas outras línguas, temos mais letras do que fonemas, mas iso não significa absolutamente nada, não torna a língua mais sólida, não a torna mais bonita, não a torna nada.

O Portuguêz não é a única língua falada no Brasil, além dele, que é simplesmente o idioma oficial, mais de sento e sinquenta línguas são faladas no país, entre línguas indíjenas e línguas estrangeiras cultivadas por comunidades de imigrantes ou quilombolas. A maioria dessas línguas seqer posuem um sistema de escrita, o que não significa qe não existam e não sejam um idioma. Uma língua não nasce na escrita, não presiza dela para ezistir, a escrita tem muitas finalidades, uma delas é transcrever de forma clara e objetiva o que falamos para que posamos nos entender por outros meios além da fala, mas as pesoas que acreditam qe por alterar a maneira como escrevemos acabaremos com a língua não sabem que se iso fose realmente aconteser não falaríamos mais o portugêz, tendo em vista as inúmeras mudansas pelas quais nosa ortografia pasou ao longo da istória.

Os acordos ortográficos são decretados por lei, e como tais, são apenas isso, são apenas leis e nada mais. São uma convensão qe viza a padronização da escrita pela qual reprezentamos nosa fala. Desrespeitar uma lei ortográfica não constitui crime, e qem o faz (como tenho feito até agora desde que comesei a escrever esse testo segundo a possível nova reforma), não perde parte do cérebro, não é um criminozo nem se transforma num asno como num pase de mágica, ou maldisão, como qeiram.

Acontese qe a maioria das pesoas não opinaria se disessem que simplificariam um prosedimento cirúrgico para tratar males no corasão, ainda qe ese prosedimento fose catastrófico, qe puzese em risco a vida das pesoas. Não opinariam por qe não são médicos e não sabem do asunto, buscariam a opinião de espesialistas... Por qe o mesmo não acontese quando falamos da língua portugêza? Por qe não deixar as opiniões para para os especialistas, linguistas e gramáticos e profesores que passam a vida inteira pesquisando o assunto? Não fazemos isso. Subimos no alto da pedra de nosa ignorância e bradamos ao léu as coizas mais descabidas. Em parte por qe temos o poder, a internet nos posibilita dizer o que pensamos, iso é bom, com certeza, mas quando o qe pensamos não acresenta nada a uma discusão qe em si já carrega grandes dificuldades, tudo se complica ainda mais.

E sim, quis escrever ese testo asim desa maneira propozitalemnte. Não sou um analfabeto, sou um jovem culto, letrado, e penso qe o qe está em jogo para aqueles qe não aseitam uma simplificasão da ortografia é o fato de igualarem-se àqueles qe "não sabem" escrever, o pavor de igualarem-se aos "burros", aos "incompetentes", que, quando escrevem "pítiça"em lugar de "pizza" estão cometendo um crime de lesa-majestade e não apenas transcrevendo a palavra de acordo com a fonologia da língua portugeza e com seus poucos conhecimentos ortográficos. (Talvez seja precizo dizer que este último período carrega dentro dele uma ironia destruidora.)

Acredito qe podemos tornar as coisas mais práticas, mais simples e adequadas com esa nova proposta, mas penso também qe ela não seja ezatamente uma prioridade, qe deva ser feita a qualqer custo. Perdemos muito tempo numa alfabetizasão que nunca termina, pessoas nascem e morrem sem saber ortografia ainda que pasem a vida inteira na escola e na universidade. Devíamos nos preocupar com a maneira como escrevemos, com o noso discurso, com a organização esplísita dos nosos pensamentos, e não arrancar os cabelos por qe vamos deixar de escrever o "S" no lugar do "Z" quando o que falamos é claramente o som do fonema representado pela letra "Z" e não o oposto. O qe está em jogo talvez seja o mercado de manuais de ortografia, o qe está em jogo talvez seja a pavonise de certos detentores do conhesimento, e qe grande conhesimento é a ortografia! (Talvez seja precizo dizer que esta última oração carrega dentro dela uma ironia mortal e destruidora.)


Danilo Diógenes é estudante de Literatura e colunista do ORNITORRINCO. 
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MEU TRISTE AMIGO CHARLIE BROWN


Na década de 50 o cartunista americano Charles M. Schulz criou a série Peanuts, protagonizada por Charlie Brown, um garoto que, segundo os biógrafos e o próprio Schulz, seria uma espécie de autorretrato do autor em sua infância. O personagem tímido, reduzido diante das situações em que se encontra, é filho de um barbeiro que fala alemão, assim como o autor, e, também como o seu criador, Charlie Brown assume sua condição de inexperiente, de um ser em permanente processo de evolução, ainda que essa evolução seja pouco visível e que a "sorte" ou o "destino" pesem do outro lado da balança e desequilibre a ordem do universo. Charlie Brown é um garoto azarado, de quem os outros zombam por ser pequeno e um tanto ingênuo, por não achar que tem tudo sob controle, por saber que ser um "fracassado" é a regra e não a exceção.

Schulz serviu ao exército dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, portanto, ao criar o cidadão americano Charlie Brown, ele sabia o quanto é complicado se vangloriar de conquistas militares ou mesmo individuais, pois há sempre alguém que perde – a grande maioria perde. Para que uma equipe de futebol seja campeã em um torneio, outras trinta equipes precisam perder, é triste, mas estamos presos ao espírito dos gladiadores pelo resto da eternidade, só os vencedores sobrevivem. Por outro lado, podemos escolher de que maneira nos posicionamos diante dessa realidade. O criador de Peanuts escolheu o humor, escolheu admitir irônicamente que é humano e que pode superar as intempéries da vida sem se transformar em um mestre do revide ou da autoajuda.

Em algumas poucas tiras, Charlie Brown chegou a"dar o troco" em Lucy – personagem que o perturba constantemente –, mas essas tiras não foram publicadas. O motivo parece óbvio: o cartunista não acreditava na máxima "olho por olho, dente por dente." As tirinhas de Peanuts nos ensinam a refletir sobre acontecimentos cotidianos que envolvem a família, os amigos, a escola, os sentimentos, mas não caminham de maneira alguma no sentido de dar ao leitor a solução para um tal problema ou mostrar a porta de saída para um conflito ou o que quer que seja. Charles M. Schulz talvez percebesse que não era a melhor pessoa do mundo para dar conselhos, estava longe de ser um guru ou um psicólogo, e sua principal criação é a resposta positiva para essa hipótese. A característica mais marcante da personalidade de Charlie Brown é a frase "Oh! Good grief!", comumente traduzida para o português como "Mas que puxa!", uma expressão de admiração e lamento, e é realmente um pena que um garotinho tão adorável quanto ele se veja tão inferior em relação ao mundo. Seus sonhos estão distantes, a "Garotinha Ruiva" nem o percebe; às vezes ele tenta contar uma piada, mas os amigos não entendem e ele lamenta que eles não tenham senso de humor.

Charlie Brown é um carinha realmente muito triste, e o Benito di Paula, fã do personagem, tentou animá-lo com a canção "Charlie Brown", prometendo que, se ele quisesse, mostraria para ele as maravilhas do Brasil. Acontece que nos EUA também há maravilhas, pessoas interessantes, locais bacanas, isso existe em todo lugar, até onde menos se espera. Não era disso que Charlie Brown ou Schulz se queixava. Então, do que era? 

Não há como saber ao certo. Charlie Brown é só uma criança, e, diferentemente da Mafalda, criação do gênio argentino Joaquín Salvador Lavado (Quino), o personagem de Schulz não mergulha em questões complexas e filosóficas. Os pensamentos de Charlie Brown medem do chão até o topo da sua cabeça, são aparentemente pequenos, aparentemente individuais, aparentemente insignificantes.

Caso um leitor se aventure no tempo e acompanhe Charlie Brown, Snoopy e o resto da turma ao longo dos anos, perceberá facilmente a evolução do estilo de Schulz, as mudanças na caracterização dos personagens, a preocupação com o que é passado ao público, tudo isso será facilmente percebido. Esse leitor também vai se divertir, afinal, esse é o principal propósito de Peanuts: fazer rir, mostrar o lado cômico de situações que às vezes beiram o absurdo, e isso faz com que por detrás do riso sempre fique algo um tanto indecifrável, uma espécie de incômodo, algo que não está passado a limpo. Essa sensação se intensifica pelo fato de não haver em Peanuts um respaldo político ou ideológico que nos dê pistas do lugar aonde estamos indo enquanto lemos.

Antes de morrer, Schulz deixou claro que não queria que outros cartunistas dessem prosseguimento à sua obra. A família respeitou sua decisão, preservando a individualidade do autor e sua íntima relação com os seus personagens. Na série, Charlie Brown segue sua infância entre contratempos e frustrações, mas felizmente ele não está sozinho. Junto com seus amigos, Snoopy, Linus, Lucy, Patty, Schroeder e muitos outros, ele aprende a lidar com as situações adversas, e isso acontece ao mesmo tempo em que Charles M. Schulz aprende a ironizar seus problemas pessoais e compartilha com os leitores um olhar sempre infantil e ingênuo mesmo a repeito de coisas que ele já conhecia e contratempos já superados. Schulz disse que "se tivesse a oportunidade de dar um presente às próximas gerações, seria a habilidade para cada indivíduo aprender a rir de si mesmo", o que ele não disse é que cada uma das 18.000 tiras de Peanuts é uma parte, ainda que pequena, desse presente.


Danilo Diógenes é estudante de Literatura e colunista do ORNITORRINCO. 
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