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I NEVER CAN SAY GOODBYE


1. Todo o propósito daquele lugar era a piscina e ainda não era fim de festa quando alguém me interceptou pelo caminho até o banheiro e sugeriu “vamos?”. E fomos. Eu estava de calcinha, com a parte de cima de um biquíni e um cabelo que não me pertencia, porque era carnaval. Outros foliões se juntaram a nós, o marido de uma amiga fez comentários indiscretos sobre algumas bundas expostas e o pagode começou a tocar porque de repente o tempo passou e tudo já começava a acabar. Um coro de Raça Negra despontou com o sol, negociamos toalhas com os donos do local quando os dedos enrugaram e no meio do caminho para um café da manhã coletivo percebi que estava cansada demais até para um milk-shake. Desovei pessoas pelo Jardim Botânico dificultando a volta deles para casa e dormi com cheiro de cloro. A fantasia não pedia rímel, graças, porque isso sim seria uma ressaca das brabas, ter que lavar fronhas, toalhas e o que mais ficasse manchado pelas marcas desse cosmético que só serve para borrar as coisas.

2. Era Reveillon e parecíamos uma banda em fim de turnê, esparramados pela sala admirando uma vista da qual morremos de saudades. Foi pouco antes do êxodo que espalhou aquele grupo pelo mundo, e foi quando, minutos antes de declararmos o fim definitivo daquela noite, alguém que seria o guitarrista alucinado daquela trupe acariciou as costas de M. numa tentativa errada de afagar B., porque já não havia possibilidade de enxergar as pessoas ou o gênero certo. Para a derradeira despedida, o mesmo pseudo-guitarrista encheu os bolsos dos últimos bombons que habitavam o pote à sua frente, num gesto que pareceu ensaiado em câmera lenta justamente numa pausa das gargalhadas já meio roucas. Saiu cambaleando se acabando no cordão, alguém se aninhou numa poltrona e de repente jarras e mais jarras de água surgiram como num milagre ressuscitador de todos nós que, já sem a aura do palco, àquela altura parecíamos zumbis vestidos de branco, o sol brilhando no céu e algo de Buñuel no ar, ninguém mais conseguia ir embora.

3. C. só voltaria pra casa depois que o metrô reabrisse, J. na varanda não dava pra saber se era flerte ou aquela droga que parece não sair de moda ("Não era amor era cilada", cantavam aqueles rapazes nos anos 1990) e no sofá, desconjuntada, Amy Winehouse quase não cabia. Tirei as meias e as botas depois que enfiei a última dupla de sobreviventes no elevador e inundei de água e sabão o chão da cozinha. Meu look de Walter White no primeiro episódio de Breaking Bad continuava mais ou menos digno, embora tatuagens temporárias ocupassem parte do meu rosto e das pernas. Era fevereiro, a faxina pode ser refrescante e por via das dúvidas deixei um balde ao alcance de Amy.

4. Num tempo em que boa parte de nós ia e vinha pelos ares, bolsas-sanduíche e fugas – e portanto já não sei dizer se era chegada ou partida de alguém – nos reunimos na cobertura do pai de R., que além de ser ponto de encontro parecia uma galeria de arte contemporânea onde o gato Aderbal escalava um quadro do Kracjberg. Usávamos casacos e improvisamos uma quadrilha na sala, até que alguém teve a brilhante ideia de mostrar para as convidadas vindas de Singapura como é que se faz. Foi assim que fomos parar dentro de uma enorme jacuzzi sem água que ficava na varanda do terraço, dançando animados as últimas músicas daquele ipod com volume tão baixo, embora pouco importasse.

5. Saíamos daquela boate esquizofrênica que conjugava dançarinos vintage de passinho e strip-tease quando ela me obrigou a parar na praia. A gente morava numa vizinhaça distante e mal vista, e essa foi só uma das razões porque ficamos inseparáveis. Até a boate, onde meu coração foi estraçalhado por aquele sujeito que ficou aos beijos com outra, sofrêramos um assalto em Botafogo. Não exatamente: arrombaram o carro enquanto bebíamos no bar e levaram, além dos cds num ridículo case de abelha, o figurino do curta de um amigo. Outras coisas se rasgaram naquela noite, como o vestido de C. e as costuras do jeans de F. ("Everybody was kung fu fighting", parece). Ela me obrigou a entrar no mar num frio de julho, o carro destrancado e meio torto numa vaga, e fui inteligente o suficiente pra tirar a calça de veludo. Quando voltamos para o Fiat que alagava em qualquer chuva ela apertou play na trilha sonora de Grease, percebi que faltava um sapato, deixamos um terceiro elemento em Ipanema e cantamos os pulmões até cair na cama do outro lado do túnel.

6. O mundo era feito de vodka tônica, de celulares Nokia, de noites intermináveis no 00, mas que eventualmente terminavam com pão de queijo numa casa no Joá. Era o aniversário de B. e ela ficou maluca a ponto de fazer todo mundo beijar o Capitão Haddock, seu então chaveiro. Talvez eu tenha sido meio insensível, mas o caso é que voltei pra casa mais cedo dirigindo o carro dela, que permaneceu na festa com o resto do grupo. O mundo era feito de Orkut também, e daquela tática de deixar mensagens ocultas por meio de um testimonial que jamais seria aceito, e porque ela tinha esquecido o celular no carro achei que aquela seria a forma mais imediata de comunicação: expliquei tudo e deixei o número do meu telefone, que começou a tocar loucamente às 9 da manhã. O dia seguinte foi como Cara cadê meu carro, não que tivéssemos assistido o filme. Era o auge da minha hérnia de disco e da coreografia de “Praise you”, que ela executava com a desenvoltura de alguém que não tinha nenhuma vértebra afetada. Eu acabava sempre aceitando o convite dela para almoçar, e ia dopada de Tylenol e anti-inflamatório encher a cara de suco de tangerina no Gula Gula mais próximo.

7. É sempre perto de 4 da manhã quando baixa uma nazicleaner e, desde que me tornei a dj oficial da festa de um ou dois amigos, me divido entre o som e a arrumação da casa. Mas não me contento em fazer isso sozinha, acabo convocando gente que não tem nada a ver com a história. Era perto de 6 quando alguém declarou que nunca havia testemunhado um fim de festa com tanta gente prestativa e vestida e a gente riu. A playlist intitulada “restos” vinha bem a calhar: “Is this love, is this love, is this love, is this love that I’m feeling”, cantava o Bob Marley, numa música que passei a valorizar de uns anos para cá, desde que comecei a concordar que simpatia é, de fato, quase amor. Assim como massagem, cafuné e as 3 ou 4 mensagens que você envia no dia seguinte ainda meio bêbada nessa idade em que a ressaca só chega 2 dias depois, porque é cada vez mais complicado se livrar do álcool, do rímel e de gente linda que – contrariando as matinês pré-adolescentes em que você se via agarrada a uma vassoura –, com um pouco de sorte e um setlist invejável, te tira pra dançar a clássica do Lenny Kravitz para esses desfechos em que os sapatos estão chutados para debaixo de alguma cadeira: “Here we are still together”, etc.

8. Estabelecemos a tradição do hambúrguer de domingo, porque sempre é domingo, onde fazemos uma espécie de reconstituição dos fatos (nosso very own CSI), de lembranças desencontradas e retalhos que quando juntos dão outra dimensão a essas noites memoráveis e manhãs gloriosas cheias de buracos, joanetes doloridos e hematomas que ninguém sabe de onde surgiram. Quando acho que já computamos todos os danos da festa – das pinimbas com a vizinha debaixo até o vinho no notebook – M. ri divertida entre juras de sobriedade eterna e baldes de café com a certeza de que os estragos ainda nem começaram, tudo por causa dessa mania que a gente tem de se apaixonar temporariamente no meio da pista de dança. É quase como se algumas coisas só começassem depois que terminam.

9. Isso sem falar de todas aquelas cenas constrangedoras em que alguém segura os cabelos de outra pessoa pra ela vomitar sem tantos percalços – seja no banheiro da sua casa enquanto você se pergunta por que a sua amiga resolveu fazer isso na pia, e não no vaso, seja no meio da Rua Lopes Quintas enquanto seu amigo erudito também impede que você caia dentro de um canteiro de plantas
– e que fazem parecer que todo fim de festa é um misto de autodestruição e filme de terror com pedaços de gente despencando.

10. E fora toda a bolinha de queijo do Jobi, aquele mar de gordura quando já ninguém mais se entende e, no meio de uma tentativa de fazer as pazes, sem querer ele arranca lantejoulas do meu vestido, porque, parece, nem todos os avisos irão evitar o Carnaval, os abraços meio selvagens, os domingos, a bagaceira e o demaquilante que te catapulta pra emergência médica mais próxima.

11. Mas bagaceira mesmo foi chegar na casa de M. muito sóbrios numa noite de verão em que o dj tinha um plano maligno para arruinar a festa. Onde já se viu não tocar Caetano ou Michael Jackson, e ali naquela pista as pessoas pareciam viver num país onde as existências de Madonna e Beyoncé ainda não haviam sido noticiadas. Não nos ocorreu beber para esquecer ou tentar salvar alguma coisa, em vez disso pulamos num taxi, deitamos no chão, porque o apartamento quase não tinha móveis ainda, e amaldiçoamos aquela gente desprovida de endorfina até as futuras gerações.

12. Por fim, também, tem aquele último parágrafo do apanhador do Salinger: “It’s funny. Don’t ever tell anybody anyhting. If you do, you start missing everybody."


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JULIA WAHMANN
Editora de literatura e colunista do ORNITORRINCO

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A QUEDA DE CABELO E OS LIVROS DE COLORIR





Uma das abas do meu navegador jaz eternamente aberta num site que pesquisa os melhores preços de eletrodomésticos e embora a minha diarista reclame das panelas, o meu foco é um aspirador pequeno e portátil. A queda de cabelo atingiu um grau dramático em que eu não consigo mais terminar nenhum livro da pilha porque chego em casa e começo uma caça insana aos fios que tomam cada canto do apartamento. Acordo e vejo cabelos no travesseiro, tomo banho e cabelos escorrem ralo abaixo, avalio um original no trabalho e cabelos se espalham pela mesa entre um best-seller e um best-encalhe, meu sobrinho me abraça e vejo cachos pretos migrando pra cabeça loirinha dele.

A situação é tal que cogito ir à missa em vez de procurar um médico, mesmo porque a essa altura eu já nem sei quem é minha dermatologista. Enquanto cato os meus mortos a louça se acumula na pia, um monte de roupa cresce no sofá e minhas finanças estão no vermelho devido à quantidade de salmão (envenenado) que comprei nos últimos meses. Me sinto como Caio Fernando Abreu em “Os sobreviventes”, do Morangos mofados: “(...) já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio yoga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora faço o quê?”. Dizem que é estresse, e outro dia eu explicava pra alguém que talvez seja o estresse de ver tanto cabelo perdido, ou seja, a causa já é a consequência, a minha vida capilar é uma fita de moebius e isso nunca vai ter fim.

Meu desespero é interrompido pelo número da homeopata piscando no celular. "Seus hormônios estão loucos", ela diz, e de fato ando meio louca mesmo. "A sua sorte é que você é bem cabeluda", ela arremata, "mas vá consertar isso já". Marco uma consulta com o médico dos hormônios, que fica em cima da Livraria da Travessa de Ipanema, que tem pilhas e pilhas de livros de colorir, e os dois títulos que estão no topo da lista de mais vendidos somam mais que todo o resto dela, dizia o boletim editorial daquela tarde. São variações de jardins e florestas encantados e secretos, nunca saberemos. O que eu sei é que o consolo alopata coincide com a médica haribô: "Mas você é bem cabeluda, hein? Que sorte!" Que bunda, eu penso, enquanto verifico que só resta uma última cápsula de biotina no vidro dos remédios manipulados que não deveria estar jogado na bolsa perto do celular e do Kindle, uma vez que os eletrônicos interferem no funcionamento deles, outra evidência do quanto o nó no peito só se aperta mais.

Volto para casa com um exemplar de Suruba para colorir, que me parece mais interessante que toda a flora mística e as mandalas à venda, e também porque gosto de dar uma força para os marginalizados. Há uma má distribuição generalizada nesse mundo, de comida a autoestima, não quero colaborar para mais injustiças.

No meu pote de lápis sobraram alguns poucos Staedler dos tempos da faculdade e uns mirrados Carandache que provam sua superioridade. A indústria do lápis de cor deve ostentar números tão espantosos quanto os livros que, assim como meus cachos caídos, se multiplicam por todos os lados. As livrarias promovem eventos de colorir coletivos. Camelôs do Centro da cidade vendem livros de colorir já inteiramente coloridos, numa proposta que ainda não entendi muito bem. Minha irmã desenvolveu uma tendinite na tentativa de se desestressar com a atividade. Um amigo ficou 4 dias com torcicolo. Pessoas argumentam contra e a favor, de um lado os que julgam os livros de colorir infantilizantes, de outro os que defendem gestos analógicos, lúdicos e silenciosos. Vejo discussões acaloradas nas redes sociais, análises de especialistas, desabafos e radicalismos parecidos com as discussões políticas recentes. Não são só meus hormônios que estão malucos, afinal, e arrisco a dizer que somos todos o narrador do conto do Caio F.

Acendo a luminária da escrivaninha, localizo um CD que milagrosamente ainda não foi atingido pelo meu cabelo, mas de repente faz muito mais sentido ouvir “Total eclipse of the heart”: “Once upon a time I was falling in love, now I’m only falling apart.” Algumas músicas são temáticas, não tem como negar. A Suruba para colorir é um pouco decepcionante, confesso, mas vou em frente com afinco e depois de 2 ou 3 páginas consigo entender o apelo. Colorir é legal, e se pudéssemos fazer isso entalados no trânsito da Rua São Clemente seria maravilhoso. Mas ao mesmo tempo concluo que cortar cebolas ou ver as roupas girando na máquina de lavar enquanto tomo uma cerveja têm, sobre mim, o mesmo efeito da nova mania nacional. Mas acho que Odara mesmo eu vou ficar quando aspirar cabelos com o meu novo Bleck and Decker que chega dentro de 2 dias e que vai liquidar os fios de todos aqueles cantinhos mais inatingíveis dos meus cômodos. Talvez seja uma sorte mesmo ser cabeluda. Cada um com seu Rivotril.


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JULIA WAHMANN
Editora de literatura e colunista do ORNITORRINCO

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O MÉTODO MARINA ABRAMOVIC - RELATO DE UMA VISITA

Marina Abramovic aparece vestida com jaleco branco – as iniciais MAI (Marina Abramovic Institute) bordadas em vermelho no peito esquerdo – em 3 ou 4 telas à minha frente. Estou rodeada por um grupo de pessoas desconhecidas, todos deixamos nossos pertences em armários, alguns se livraram até dos sapatos e estamos prestes a experimentar, por cerca de duas horas o “método Abramovic”. A experiência do método na exposição em cartaz no SESC Pompeia, São Paulo, estabelece 4 etapas precedidas por uma série de exercícios que preparam o corpo para tal, como por exemplo: esticar os braços para cima e deixá-los cair pesados pelas laterais; bloquear uma narina com o polegar e respirar 9 vezes pela outra (e vice-versa); massagear as bochechas e o queixo com as mãos; abrir a boca, botar a língua para fora e dizer “ah”; sacudir as pernas, braços, cabeça, o corpo todo.

Outro grupo, o dos chamados “facilitadores”, auxilia na organização e indica o que devemos fazer em cada etapa. Eles são jovens, vestem um macacão industrial e se movimentam de forma lenta. Morosamente distribuem fones que isolam os sons ao redor e nos levam para interagir com os “objetos transicionais”. Etapa um: ficar meia hora em pé diante de uma torrezinha de madeira que contém 3 cristais espetados em sua direção – um na altura da cabeça, outro na altura do umbigo, e o último apontando para o púbis (“se sentirem algum desconforto ou precisarem se sentar, por favor, evitem cruzar as pernas para não bloquearem o fluxo de energia”, disse um dos facilitadores antes de ficarmos surdos). Etapa dois: ficar meia hora sentado numa cadeira de madeira com espaldar comprido, atrás do qual há diversos cristais espetados. Etapa três: ficar meia hora deitado numa cama de madeira que tem um cristal posicionado de maneira a pairar sobre a sua cabeça. Etapa quatro: em grupo, seguindo um facilitador que vai na frente como guia, realizar uma caminhada lenta, por meia hora, numa reta onde se veem pequenos cristais pelo caminho.

Terra Comunal - Método Abramovic - SESC Pompéia 2015

Marina Abramovic no SESC

Sou do time que tomou conhecimento de Marina Abramovic a partir do viral de sua performance de 2010, no MoMa, em que ela encontra o ex-marido e, emocionada, transgride as regras autoimpostas para o trabalho. Performances de longa duração me intrigam tanto pelos sacrifícios quanto pela capacidade de entrega de seus realizadores, e talvez o caso mais contundente que eu conheça seja o das performances de um ano do taiwanês Tehching Hsieh. A obra apresentada na Bienal de São Paulo de 2012, a segunda dessa série, me perturba: o artista se retratou 24 vezes por dia durante 12 meses ao lado de uma máquina de ponto que registrou suas ações por esse período. A disciplina, a obediência, as privações e a afirmação insistente de sua existência, o automatismo de um cotidiano esmagado por regras, a vigília constante e opressiva, a resistência, são tantos aspectos que emergem da sala de paredes repletas pelas fotografias que o meu primeiro impulso quando entrei ali foi doer.

Algo parecido aconteceu quando vi o registro da caminhada na China que Marina e o então marido, Ulay, empreenderam nos anos 1980. Por 90 dias percorreram a grande muralha em direções convergentes até se encontrarem, acenando bandeiras um para o outro. O encontro marcou o fim do casamento, e achei tristemente bonita e surpreendente a ideia de um ritual de separação tão intenso quanto os rituais de união. É mais inesquecível que qualquer DVD de casamento, e foi sob esse impacto que adentrei o tão alardeado “método Abramovic”.

Foi uma transição abrupta, de um minuto para o outro vi romper-se uma certa cumplicidade com Marina, provocada por The Lovers (a caminhada do divórcio), e me vi em meio a um pequeno exército de seguidores daquela aparição em vídeo que parecia uma anunciação, na concepção religiosa do termo. Prestando mais atenção, os “facilitadores” pareciam dopados ou saídos de uma comunidade hippie, estampando um sorriso permanente e uma expressão pacífica no rosto, e comecei a me perguntar se aquilo seria consequência do método ou de uma sessão de eletrochoque. De repente tudo parecia uma mistura letárgica de aula de yoga com princípios de dança contemporânea na Chapada dos Veadeiros. Era haribô demais pra mim. 

Em falas recentes da artista e em alguns materiais que li sobre ela, fiquei com uma desconfiança que levei para a exposição, a de que seu discurso adquiriu um certo tom de autoajuda e transcendência. Provavelmente isto não configura um problema e não gostaria que estas minhas impressões soassem a uma crítica de arte pretensiosa. Acho mesmo que uma grande parcela de espectadores de arte – ou cultura? – procura e anseia por experiências ditas transformadoras. Marina explora exatamente isso: possibilitar o outro a viver uma experiência, daí utilizar o termo “facilitador” para si mesma ou seus assistentes. Daí também seu 512 hours, trabalho relaizado em 2014 na Serpentine Gallery, Londres, em que passava os dias com o público geral que ia até lá para executar ações parecidas com as que se fazem em SP. Para Marina, a ideia de uma experiência “real” tem a ver com estar presente e se desligar de tudo o que se impõe e nos distrai na cotidianidade. Tem a ver com uma conexão consigo mesmo e com o outro, um pouco como se constituir como indivíduo em comunidade, se utilizando do silêncio e de uma pausa e de um senso de “agora”.

Premissas da dança contemporânea, estar presente e encontrar (ou construir) um corpo possível vêm de um desejo, e a vivência disso se faz de diversas maneiras, com a vantagem do caráter lúdico da prática, além de uma busca incessante em que a cada tentativa, intencional e irreproduzível, se encontra algo novo. Ficar em pé, sentada ou deitada perto de cristais me tornou presente por todo o desconforto causado, o que deve ser legítimo mas muito, muito enfadonho, além de facilitador para as minhas desconfianças. Não tem a ver com singularidade e também não é meditação; não estimula o corpo e não faz muito pela mente. Em uma conversa posterior com uma amiga ligada às artes também por vínculos profissionais e, como eu, diletante da dança, desconfiamos de que não tínhamos entendido nada, pensamos melhor e desconfiamos de que já tínhamos iniciação suficiente pra não achar tudo um truque. Ela levantou a possibilidade daquilo ser um grande deboche de Marina, e rimos pensando que seria mais bacana se fosse. Porque não sendo, fica só parecendo uma grande bobagem. 



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JULIA WAHMANN
Editora de literatura e colunista do ORNITORRINCO

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TRILOGIA ERÓTICA - UMA BREVE ANÁLISE NÃO ORTODOXA



“I don’t make love, I fuck hard” é, sem sombra de dúvida, a frase mais citada por todas as pessoas que conheço que assistiram o filme e/ou leram os livros da trilogia Cinquenta tons de cinza. A quase totalidade desses comentários veio seguida de uma risada – real ou em forma de kkk e suas variantes. O fenômeno erótico inglês foi visto, por muita gente, como um entretenimento de humor que trazia a galope algumas ideias “interessantes” sobre sexo, como também ouvi muito.

Li um terço do primeiro livro entre constrangida e revoltada: os diálogos eram as coisas mais estapafúrdias e mal escritas que li em um bom tempo. E tive dificuldade em odiar tanto os personagens principais, lutando para entender quem me causava mais irritação. Aquela mocinha inocente e totalmente idiota que tinha orgasmos múltiplos na primeira vez que fazia sexo anal sadomasoquista também me abalou. Sou capaz de gostar de música ruim, filme ruim, gente duvidosa, mas literatura ruim me causa transtornos. 

“É ficção”, me disseram alguns, como se os fins justificassem os meios. Eu sei, pensei, e é maravilhoso. A moça faz e acontece e não há entrave ginecológico algum em seu caminho. Ou a medicina das trilogias eróticas é muito avançada ou a anatomia de todo mundo ali é muito prafrentex. Ou, claro, eu estou focando no lugar errado. Demorei mais de um ano para dar uma segunda chance ao gênero, que poderia ser descrito facilmente como pornográfico. Nada contra, nenhum preconceito, só que me dá mesmo uma vontade louca de rir.

A premissa da trilogia erótica é bem delineada: mocinha virgem encontra homem milionário de olhar penetrante (desculpa, mas é isso mesmo) e eles já não podem pensar em outra coisa. É um tesão tão intenso que os membros dos rapazes quase explodem dentro de suas calças jeans, fica todo mundo perturbado porque a mocinha resiste e, caramba, que gastura! Uma vez que ela sucumbe, é batata, e melhor nem tentar dar uma ideia do que acontece entre as quatro paredes das páginas porque todo mundo já deve estar suado de saber. É como se cada livro novo fosse uma fanfiction do anterior, e não consigo visualizar o ponto final dessa progressão. Talvez todas as histórias já tenham sido contadas, mas é melhor reinventá-las do que simplesmente parar, especialmente quando se tornam lucrativas.

Há variantes, é claro, como na série em que contos clássicos são recriados num cenário de depravação. A Bela Adormecida é acordada não por um beijo, mas por um estupro (é o que é) e vira escrava sexual do príncipe. Não sei onde as 3 fadinhas entram na história (tá ficando difícil escrever esse texto...), sei que tradutores tiveram dificuldade de continuar o trabalho nos livros seguintes por se sentirem incapazes de encontrar palavras, gírias e expressões condizentes com tudo o que acontecia naquele castelo. Sei, também, que numa tarde que se arrastava melancólica um grupo de editores decidiu fazer uma rodada em que cada um abria o primeiro volume numa página aleatória e lia em voz alta uma frase qualquer para os colegas. Riram potes, era incontornável.

Foi de coração aberto que resolvi tentar uma outra trilogia, que assim como Cinquenta tons arrebatou uma série de fãs ensandecidas. A série retrata o universo de uma protagonista virgem e estudante que sofre com todas as mazelas e percalços de uma cidade desigual. O milionário fica desconcertado pela beleza da moça. Assim como o Sr. Grey, ele não transa, mas fuck. Hard. Tem um pinto enorme, não se apega e tem uma disposição que dá exaustão e assadura só de imaginar. No mundo real, por muito menos, você acordaria com uma cistite daquelas que te fariam acabar com o estoque de suco de cranberry da padaria até finalmente recorrer a uma alopatia do demo que deixaria seu xixi azul por 5 dias. Mas, eu sei, é ficção, e é um sonho: ninguém sofre de coceira, cândida ou hérnia de disco. 

É claro que não deu certo comigo. Estou avançando velozmente na leitura que ainda que me faça rir pelas razões certas, não consegue me fazer superar o paraíso ginecológico-ortopédico. A minha cena preferida é a de um jantar contado pela voz do milionário dominador. Ao perceber que não está lidando com uma menina fácil como as tantas a que está acostumado, ele muda de estratégia e vai atrás da eleita, que está de saída para um jantar com amigos. Ele não se faz de rogado e percebe o desejo ardente nos olhos assustados que o fitam. Se infiltra no jantar e, enquanto mastiga um pedaço de pizza que descreve com mais contundência do que qualquer ménage que tenha promovido, reza para que aquilo desça por sua garganta o mais rápido possível. É demolidor e não tem sexo selvagem que mude minha vontade, quero ficar pra sempre nessa página. Os contrastes entre os heróis, com todos os preconceitos e impressões que pessoas de mundos tão diferentes guardam para, são narrados com precisão e humor e instantaneamente começo a torcer pelo momento em que ela conhecerá o ambiente dele. E torço pelo casal também. Bate até uma saudade do rodízio de pizza que por anos frequentei no Itanhangá, num tempo em que as pessoas se estapeavam por uma fatia do sabor tomate seco.

Talvez eu só tenha olhos para as piadas, mas ainda faltam, pelo menos, dois livros e meio para entrar nos trilhos. Talvez, também, seja prudente eu não voltar aqui para revelar o que pode acontecer caso eu tenha alguma salvação.  



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JULIA WAHMANN
Editora de literatura e colunista do ORNITORRINCO

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O PAPEL DO EDITOR



“As bagagens da Deborah não chegaram e eu queria que você fosse até o hotel dar uma mãozinha, parece que ela está meio nervosa e precisa providenciar algumas coisas”, disse a minha chefe, em parte se desculpando pela roubada em que me colocava, em parte me fazendo entender que essa era apenas a primeira de muitas tarefas com as quais o editor se depara frequentemente.

A única coisa que sabia a respeito de Deborah, além de que naquele momento não tinha nem uma escova de dentes, era que seus livros tinham algo a ver com bruxas. Do Centro até a Barra, pensei, posso ler ao menos um capítulo ou telefonar pra minha prima que sabe tudo do assunto. Na minha cabeça era inconcebível que eu fosse passar uma tarde com uma autora de quem nunca tinha lido nem sequer um tuíte. Quando eu já estava prestes a pegar um taxi para ir ao encontro dela, a mesma escreveu agradecendo a atenção e dispensando meus serviços. Aproveitaria a tarde sem seus pertences para dormir e tentar acertar o fuso horário. No dia seguinte tinha uma série de compromissos na Bienal do Livro do Rio.

Uma das editoras de César Aira diz que seu primeiro encontro com o escritor começou com o pé esquerdo, apesar da mensagem prévia que ele lhe enviara (“I love all my publishers a priori”): ela puxou assunto sobre os muitos livros que o argentino escreve, o que se provou um erro. As coisas só começaram a mudar para melhor quando o assunto passou a ser literatura inglesa. Eu não sabia de nada disso quando jantei com César Aira, também em função de uma Bienal. Havia dois ou três dias que eu tossia tanto que não era capaz de elaborar perguntas ou planejar pautas. Poucas coisas me apavoram e me idiotizam tanto quanto ter que ciceronear autores, do mais erudito ao mais popular. Especialmente quando sou fã deles. Especialmente, também, quando tenho dois deles à mesa, como naquela noite. Além de Aira, Paloma Vidal nos acompanhava e revelava que tinha incluído uma cena na peça que estava escrevendo sobre uma conversa que tivéramos numa reunião anterior. Meu deus, eu pensei (e tossi), tentando disfarçar as placas vermelhas que já apareciam nas minhas bochechas. Meu deus eu pensava (e tossia), também, em todas as tentativas de arrancar de Aira alguma frase mais longa ou uma conversa que durasse mais que um minuto. O argentino passou boa parte do jantar com um sorriso enigmático nos lábios que só se desfazia para emitir falas monossilábicas. Comeu um pato, o prato predileto do comissário Maigret, como ele mesmo fez questão de ressaltar; bebeu uma cerveja; ficou ligeiramente ouriçado quando Alan Pauls foi citado em tom de fofoca e de sobremesa pediu um doce que levava morangos. Morangos! Nas primeiras páginas de Como me tornei freira, a pequena garotinha chamada César Aira vive momentos de verdadeiro horror ao provar um sorvete de morango pela primeira vez. O drama é tanto que o pai da criança mata o sorveteiro. Daí por diante, a história é uma história de César Aira: enquanto lê você tem a nítida sensação de que às suas costas está o sorriso meio zombeteiro de Aira. O que, nesse caso, é bastante ótimo.

É ótimo também quando o autor desarma toda a sua estratégia de emendar uma conversa de elevador atrás da outra. Durante uma tarde em que levei Deborah Levy para a exposição de Richard Serra ("It's so emotional, look at all that black!") discutimos (cof cof cof) arte contemporânea e ensaios. Bem, mais ou menos: ela discorreu sobre esses dois assuntos enquanto eu agradecia mentalmente àquela professora que me fez ler Montaigne. Ao contrário de César Aira, Deborah falou bastante de seus livros, sobretudo do mais recente, e foi curioso finalmente ler a obra em questão depois de ouvi-la e perceber os rastros que ela havia deixado, não sei se de propósito ou não. Naquela tarde eu estava de carro e, para aproveitar o rumo que a conversa tomava, coloquei músicas de Caetano Veloso para ela escutar. Posso jurar que ao final, quando já chegávamos perto do ponto onde a deixaria, a autora inglesa cantarolava o ritmo de “London, London”. Na dedicatória que me deixou, Deborah desenhou a si mesma de perfil, fumando um cigarro.

A dedicatória de Etgar Keret, por sua vez, envolveu a subtração da minha caneta e as instruções que seu filho Lev, lhe passou: desenhe um carneiro de paraquedas, ele sussurrou, e é exatamente o que se vê na folha de rosto do meu exemplar de De repente uma batida na porta. Há um dado muito curioso na biografia do escritor israelense: seus livros são os mais roubados das bibliotecas de seu país, e tudo o mais que diz respeito a Keret segue essa lógica inusitada que guarda alguma semelhança com os desvios que César Aira nos obriga a fazer. Talvez parte do pavor de conhecer escritores resida nessas revelações e expressões meio insondáveis, porque é por aí que percebemos o quanto as vidas estão intrincadas nas escritas, e vice-versa. Mesmo que o assunto seja vampiros.

Em um conto publicado na revista comemorativa dos 10 anos da Flip, Margaret Atwood fala de como no passado era fácil identificar um vampiro – “smelly, evil, undead” – e de como só se dependia de alho, crucifixos e o nascer do sol para se livrar deles. Não mais. Quando Anne Rice veio ao Rio, também para uma Bienal do Livro, foi preciso um roteiro de dois dias em igrejas e restaurantes e todo tipo de informação turística, real ou não, que se possa imaginar: detalhes sobre o bondinho do Pão-de-açúcar, a explicação para o surgimento das favelas, a população da Rocinha, por que tem tanta asa-delta nessa praia?, como vocês sobrevivem ao verão?, onde posso comprar gelo para levar para o hotel?, onde fica a editora?, podemos filmar dentro dessa igreja?, quem pintou esse painel?, podemos ir ao Corcovado outra vez? Claro, podemos, e se eu soubesse o grau de curiosidade que a autora tem com tudo teria passado a noite lendo o Lonely Planet Brasil em vez de assistindo Entrevista com o vampiro, o filme, para ao menos poder diferenciar Louis de Lestat.

Vestida de preto dos pés à cabeça, cabelos brancos e colares em profusão, Anne Rice carrega para onde for um pequeno estoque de Coca-cola zero e seu assistente Becket, um aspirante a clone de Brad Pitt com um passado de monge e um presente então dedicado a alimentar as mídias sociais de Mrs. Rice e de registrar cada passo dela, que é seguida por milhares de fãs a quem se refere como “People of the page”. Ambos passeiam encantados pelo Centro do Rio de Janeiro, enquanto eu tento explicar que não é uma boa ideia filmar a tudo e a todos com um iPhone reluzente por ali. No alto do Corcovado, porém, Becket faz quase um longa: é a segunda vez que Anne Rice está ali e chora diante da imagem do Cristo. Faço uma ponta como figurante em boa parte desses vídeos, usando um traje que minha chefe definiu como aspirante a Debra Winger em O céu que nos protege (somos todos elenco de apoio em potencial, hoje sei). Mosteiro de São Bento, Outeiro da Glória, Candelária, todo o roteiro foi feito com os vidros do carro abaixados e o iPhone apontado para tudo o que Anne apontava antes, por mais que eu suasse de nervoso. Com algumas refeições no caminho, presenciei o momento em que, empolgados com a sonoridade da palavra “pargo”, Anne e Becket acharam que seria uma boa ideia nomear um dos personagens do novo livro com a espécie de peixe que comeriam logo em seguida, e riram ao constatar que eu teria informações privilegiadas a respeito do tal romance. Eu ri quando, espontânea e ingenuamente, Anne perguntou, a propósito dos rapazes que circulam pelos sinais com caixas de chocolates, balas e chicletes: “Julia, is he giving samples?” Era mais um riso de incapacidade. De explicar o que quer que fosse pra ela, porque tem coisas que são difíceis mesmo de entender. Em dado momento do tour passei o bastão para um outro editor que os levou para conhecer as demais igrejas que constavam da lista de passeios que Anne queria fazer. Trocamos um olhar cúmplice, Lucas e eu, e, já que o cenário era apropriado, rezamos pelo iPhone de Becket, que infelizmente se “perderia” na van que fez o traslado até o Rio Centro.

A passagem de Anne Rice pela Bienal do Livro foi das coisas mais surpreedentes que testemunhei. Como no show de um pop star mundial, pessoas haviam dormido na porta do Riocentro para ter a chance de vê-la de perto. Jovens góticos gritavam e subiam nas estantes do estande da editora no evento, pisoteando tudo o que vissem pela frente. Um cordão de segurança humano foi feito para proteger Anne. Becket não parecia dar conta do que via. Flashes de câmeras davam a impressão de que uma luz estrobo estava ligada a toda velocidade. A geração Crepúsculo estava diante da precursora das histórias de vampiros, a autora que na década de 1970 colocou Louis, Lestat, Armand e a pequena Claudia no mundo, e toda essa horda de botas, cruzes e cabelos coloridos não parecia apavorada nem idiotizada diante da autora, fiquei pasma. Passei duas madrugadas debruçada sobre A entrevista com o vampiro, o livro, e para mais uma surpresa, achei-o verdadeiramente bom, meio sartreano em alguns trechos. E passei uns dias, confesso, procurando buraquinhos em pescoços, no meu e no do Lucas, principalmente. Não viramos vampiros, mas ficamos ligeiramente fãs.

Essas são as coisas que ninguém diz quando se é candidato a uma vaga numa editora: confiam no seu teste de copidesque, na qualidade do seu texto e nos seus conhecimentos sobre as normas da ABNT para referências bibliográficas. Não testam sua capacidade para lidar tanto com criaturas mitológicas quanto com usuários do fardão da ABL. É gratificante ver seu nome nos créditos de um livro, e reconfortante saber que você contribuiu para um texto ficar mais bacana ou mais correto, mas de alguma forma, parece, ser um editor passa por essa formação não-ortodoxa que inclui desde hipoglicemias súbitas no meio do tráfego de Laranjeiras a aulas de culinária ayurvédica. Mas isso eu conto depois.


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JULIA WAHMANN
Editora de literatura e colunista do ORNITORRINCO


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O MELHOR LUGAR PARA CHORAR



Um terço da vida a gente dorme, um outro a gente fica parado na Rua São Clemente. Só isso já seria motivo suficiente para chorar em Botafogo mas, não satisfeita, resolvi fazer análise no bairro. Uma vez por semana cumpro o ritual de estacionar a uma quadra do consultório, comer um saco de pipoca a caminho, eventualmente comprar itens para a casa na Amoedo ou no Mundial e esperar a minha vez num sofá amarelo enquanto repasso mentalmente tudo o que quero dizer e todos que quero xingar no divã. À saída, invariavelmente, choro, e não é qualquer coisa: choro potes.

Gosto de chorar. Gosto de músicas que falam de choro (“Cry me a river”), de livros que tratam do assunto (A história do pranto, Alan Pauls) e concordo com quem diz que todos deveríamos chorar mais. Se não para nada, ao menos serviria para evitar os eventuais constrangimentos de chorar em público e/ou sanar os impulsos que alguns têm em explicar para quem quer que seja o motivo de suas lágrimas.

Uma enquete no Yahoo respostas me tranquiliza: a maioria das pessoas tem vergonha de chorar em público. Uma conversa com o meu melhor amigo me apavora: “Eu choro e ponto.” Uma lista na WikiHow (!) me ensina 25 truques (divididos em 5 categorias) para evitar chorar em público.

De uns tempos para cá, me sinto compelida a dar satisfações ao senhor que guarda a entrada e a saída do estacionamento da rua ao lado do consultório da análise: interrompo o jogo de dominó que ele faz com um colega para pagar o valor devido, entre soluços e uma tentativa frustrada de me esconder dentro da minha própria bolsa. O senhor levanta os olhos, seu sorriso murcha e arrisco “eu estava no cinema, sabe como é, filme triste”. Não que eu ache que o senhorzinho me reconheça, tampouco que ele se importe, mas a cada semana elaboro justificativas novas para aparecer ali aos prantos. De motivos óbvios a confissões íntimas, penso em contar pra ele que perdi alguém e/ou que ando com problemas de hormônios. Mas no que penso com mais frequência é em mudar de estacionamento.

“Eu sempre fiz análise atrás de resultados”, diz uma amiga que, obviamente, não chora nas sessões, visto que seu pragmatismo barra suas emoções nessas ocasiões. Deve ser a mesma lógica da mocinha que é atendida antes de mim: seca e plácida quando emerge da salinha mal iluminada da analista, jogando na minha cara sua tranquilidade nessa jornada por autoconhecimento. Ela deveria ser um exemplo para mim, mas acabou virando essa vaca que só aumenta meu sentimento de inadequação no mundo. É uma patologia, acho, e oscilo entre achar que nasci fora de época e me convencer de que estou à frente do meu tempo. Natural, então, que chore nos filmes errados, aqueles dos quais as pessoas saem alegres sugerindo um chope e acham graça quando percebem que estou chorando de me sacudir: te abraçam e gargalham, é mais ou menos o que acontece com os outros quando notam um descontrole de choro alheio.

Botafogo é também o bairro dos cinemas e onde possivelmente sofri a maior dor de cotovelo da minha vida, portanto toda vez que ando por ali estou tentando me esconder de alguém, porque quase sempre chorando (“Chorar é coisa do amor”, diz aquela canção de “Santagustin”). Isso sem contar os assaltos e velórios (“Amor coisa do coração”). Na minha cartografia pessoal essa parte do mapa carioca está borrada por excesso de água e é quase como se houvesse alguma coisa no ar: passando o Largo dos Leões já sinto os primeiros ímpetos lacrimosos. Respiro aliviada cada vez que alguém comenta que me viu “apressada pela Voluntários” ou “parada no trânsito da São Clemente” e não pôde me cumprimentar. A WikiHow, todavia, diz que “pessoas chorando em público frequentemente precisam de ajuda, e embora elas não se sintam confortáveis ou não saibam como pedir, o choro pode ser o retrato do pedido de socorro”.

Confesso que já imaginei sentar naquele banquinho do estacionamento e ter uma longa conversa com o senhorzinho do estacionamento, arruinar de vez o dominó dele, quem sabe chorar junto. Que nada, juro: só quero escapar de Botafogo em paz, rumo a qualquer outro bairro onde eu possa ser feliz.



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JULIA WAHMANN
Editora de literatura e colunista do ORNITORRINCO




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A VIDA NO WHATSAPP



No edifício Santos Dumont habita um restaurante que não frequento mais, uma delicatessen que vende uma água chamada Aquíssima, uma loja de utilidades domésticas onde eventualmente compro utensílios de cozinha e um centro da Nokia que vive com fila na porta. Todo dia vejo toda aquela gente enfileirada e fico com inveja desses felizes possuidores de botões e celulares que devem viver com 2 ou 3 dias de bateria. Parei mesmo no começo dos anos 2000, aquele tempo em que a sua conta de telefone aumentava quando você ultrapassava 50 torpedos.

Meu penúltimo Nokia era um modelo azul e branco que uma vez quase perdi na praia. Cheguei em casa, sacudi toda a areia e o telefone não caiu da bolsa. Uma vantagem: o Nokia caía quase todo dia e nada abalava seu funcionamento. Na ocasião meu pai voltou à praia e procurou Thiago, o barraqueiro que pouco antes me vendera um coco e me alugara um guarda-sol. Por alguma razão o aparelho demorou alguns dias para ser devolvido, mas voltou ligeiramente intacto. Mais alguns dias e descobri, horrorizada, uma foto do pinto do Thiago. Larguei o telefone na mesma hora, com um esgar de asco, e nem esse tombo traumático causou danos. Ainda assim, troquei de aparelho. De lá para cá tive um Nokia preto cujo teclado contemplava uma letra por botão, e resisti o quanto pude até migrar para um smartphone, convencida de que a designação não fazia jus ao que eu tinha em mãos. E nem existia o whatsapp ainda, essa praga.

Passada a euforia de poder me comunicar ilimitadamente por escrito, o whatsapp virou esse aplicativo que está sempre engarrafado de mensagens e grupos hiperativos. Como os charmeiros da Baixada, por exemplo.

Não sei como fui parar lá. Um dia um fulano me adicionou e sai à francesa. Em poucos minutos estava adicionada outra vez. Resolvi ficar e no fim do dia havia uma troca frenética de mensagens, áudios, músicas, emojis e nostalgia por parte desse grupo totalmente desconhecido. Alguém havia sido roubado na saída de um baile, perguntava quem tinha um Nextel para emprestar (“Não precisa ser o 3g”) e todos se lamentavam da violência no Rio e de não poderem mais curtir os bailes como antigamente. Fiquei comovida, mas discretamente me retirei de novo.

Uma semana se passou até que eu fosse novamente incluída. Eles me amam, pensei, e não tive mais coragem de fugir. Desde então recebi, em mensagens paralelas, anúncios de carros que não quero comprar, um aviso de promoção de uma loja de móveis e a divulgação de um show que devia ser bacana, mas que não fui por incapacidade de administrar tudo o que deve ser bacana num mesmo dia. A mim pareceu estranhíssimo que as pessoas respondessem animadamente dizendo “estarei lá” ou “arrasa, tô na Bahia” e afins, mas talvez eu fosse a única penetra do grupo incomodada – também não sei como fui convidada pra festa. Pensando retroativamente, perdi as contas das vezes que o Aécio apareceu, via um número desconhecido, pedindo meu voto.

Tenho convivido com esse grupinho do charme que, na última sexta de janeiro, comemorou os aniversários do primeiro bimestre pedindo a colaboração de salgadinhos. Lucia disse que levaria Cream Cracker piraquê (tomara que alguém tenha levado requeijão). Chiane mandou uma piada sobre a primeira vez (“tá sangrando” “depois eu ti limpo” “posso ver como é grande?” “tá bem, olha” “Ooh! Quando você vai arrancar o outro dente, doutor?”) e no fim riu sugerindo “mande para todas mentes poluídas”. Na sequência Luciana deu um recado: “Vamos lá, meninas, solta a Beyoncé que tem dentro de vocês agora”*, e logo se ouvia a introdução de “Drunk in love”. É uma relação de amor e ódio, como se pode ver: quero ser melhor amiga da Luciana, mas tá complicado de aguentar o Tony e todas as bolas fora que ele dá na conversa. Chiane também não é bolinho e abusa do bom senso nos emojis. Além disso, são umas 70 mensagens por dia. Por mais que você silencie o grupo, fica um mau Feng Shui.

Se fosse só isso não seria tão complicado, mas tem ainda o Instagram pra te lembrar de todo o seu equívoco nessa vida: eu não joguei flores para Yemanjá, não tenho uma foto decente do pôr do sol de Ipanema e nem minhas comidas parecem tão deliciosas quanto todas essas que engordam só de olhar. Por mais estranho que pareça, só estou verdadeiramente em paz com o aplicativo do banco.


Eu era mais feliz, é um fato: a inclusão digital não deu certo para todos. Daí a saudade do Nokia e o meu imaginário que acha que toda aquela gente no Edifício Santos Dumont parou no tempo como eu, numa era pré-comunicação e pré-gourmetização excessiva, pontuada por conversas em que as coisas se resolviam de forma muito mais eficaz e um debate voz a voz era suficiente para definir o conceito de salgado, que talvez até fosse mesmo um simples biscoito.


* Preservei a grafia original das mensagens.



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JULIA WAHMANN
Editora de literatura e colunista do ORNITORRINCO




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DIÁRIO DO MÉXICO


Esperando que la aspirina empiece a trabajar,
que acomode los cuartos, que revuelva el café
y que traiga a mi madre, fresca
a esta tarde de agosto
hojeo revistas estúpidas, escucho discos viejos,
me pregunto en qué momento
los dinosaurios sintieron
que algo andaba mal.


Fabián Casas 


É dezembro e todos estão em praias paradisíacas, inclusive eu: o mar é tão turquesa que parece falso e brilha em certos trechos. Evitamos todas as ruínas maias, deitamos em redes de hotéis onde queremos nos hospedar no próximo verão, comemos peixe ao pôr do sol e caminhamos em direção ao carro com as ondas que chegam fresquinhas em nossos pés. Um barquinho cheio de pelicanos está ancorado no meio de uma tarde e logo mais navegamos com um marinheiro chamado Jesus, o segundo em 2 dias. A internet é precária nessa parte do México e falar de férias e das coisas de deus é tão complicado quanto encontrar cartões postais por aqui. E além disso, o que dizer? “Queria que você estivesse aqui para boiar comigo.” “Saudades.” “Te amo.” “Feliz ano novo.” Não seria mentira, mas quando se está de férias tudo é só mais ou menos verdade.

Come-se gafanhotos em Oaxaca, e também um sal feito de um verme (minhoca? lesma?) com o qual se deve temperar rodelas de laranja para degustar depois de uma dose de Mezcal: 40% de álcool feito de agave, passaporte para confissões e a solução para o Carnaval no Rio. O Lindt é melhor que qualquer chocolate feito por aqui, e sentimos saudades de Nescau. Faltam 43 estudantes no México e nem toda a cor das casas coloniais meio decadentes desvia a atenção das paredes que reivindicam a vida deles, nem todo o alvoroço das piñatas de papel maché impede as manifestações discretas pelas ruazinhas antigas. Cartazes espalhados por todos os cantos anunciam a noite de rabanetes, fogos e foguetes celebram a festa da Virgem, para a qual chegamos atrasados, depois de passar por inúmeras barraquinhas comandadas por zapotecas que vendem todo tipo de artigo religioso cristão. Uma mistura de trajes e longas tranças típicas com cheiro de gordura e cruzes católicas, uma população indígena que come pelas ruas o dia todo. Não se pode nem mesmo chegar perto da entrada da basílica, mal se veem os estandartes que desfilaram pela cidade minutos antes, uma multidão ocupa todo o espaço. Na praça ao lado um grupo de adolescentes ensaia uma dança. 2 dias depois, no jardim etnobotânico, uma dupla ensaia um pas de deux contemporâneo em meio a cactos. “No Brasil as coisas estão na pele, na superfície. No México é tudo na carne.”, diz a mensagem que chega enquanto tentamos entender essa confusão. Pode ser. E ao mesmo tempo, de alguma forma, aqui tudo é mais evidente. “Fue el estado”, dizem as letras apressadas. Desde há muito.

Voamos para o Distrito Federal com as malas mais pesadas. Troco qualquer marca de luxo pelos bordados de Yalalag. Deixo Oaxaca com febre e com uma coleção de vestidos: “Este é o seu traje de boda”, diz a vendedora maravilhosa de uma loja idem que passaria por inverossímil num filme de Almodóvar. Pelo pequeno labirinto do estabelecimento de paredes roxas um sofá está posicionado na entrada, recostada nele uma figura platinada de unhas brancas tão grandes quanto artificiais está descalça e tudo à sua volta está coberto por farelo de pão. Em meio aos trajes há um pequeno altar de flores no chão, uma panela elétrica que guarda um peixe para mais tarde, manequins quebrados, aparelhos de esteira, máquinas de costura, capacetes de bicicletas, bicicletas, jornais velhos, sacos plásticos entulhados de coisas e fotografias, muitas fotografias enquadradas das 3 mulheres que tentam me convencer a levar também uma saia. Jovens, pelo mundo, a cores e em preto e branco. Um dia, talvez, queria ter um lugar fascinante assim, mas com menos sujeira.

Planejamos decorar nossas casas com cactos na volta.

Manifestações pelos 43 estudantes se espalham pelos muros de Oaxaca

Parte do guarda-roupa de Frida Kahlo em exposição na Casa Azul, em DF


DF é difícil e o Tylenol não resolve nada. Funciono em dias alternados, consigo fazer o roteiro Frida e Diego e desisto definitivamente dos postais. O Zócalo nos deixa a todos mareados, os tacos já não parecem tão atraentes e o Buscopan mexicano é placebo. Entre pavões, mariachis, caveiras e uma quantidade descomunal de gente sinto uma quantidade descomunal de dor. Não tem nada a ver com as nossas impressões do país, mas sim com os dinossauros. Dr. Javier, o médico mexicano, dá soquinhos nas solas dos meus pés e garante que não é apendicite. O ideal seria voltar para a praia ou para o topo daquela montanha de piscinas naturais, aproveitar os últimos dias de idílio azul e água. A gente faz casas mesmo em viagens, e o ideal seria voltar para elas.

O ideal seria que os começos de ano fossem de fato começos, e não continuações mal remendadas de pendências, problemas gástricos e sangramentos indomáveis. O ideal seria que as paixões infundadas fossem como as férias, meio clandestinas para o resto do mundo e com data para terminar. A gente é que nem o México, parece. As coisas do mundo nos perfuram, não ficam mansas na pele, não. Espero a aspirina no calor inclemente do Rio: é uma liberdade ter cortinas em casa e 5 quilos para engordar.


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UMA CARTA PARA GABRIEL PARDAL


Querido,

Comecei a escrever um bilhetinho assim que li aquele seu texto. Apaguei, recomecei, apaguei de novo e me deu um pouco de preguiça de encontrar números, estatísticas, dados e pesquisas convincentes para dar credibilidade aos comentários que eu gostaria de fazer. Além disso, do lado de cá do mercado editorial, sou tomada de uma outra dúvida quando vou preencher fichas de hotel, não porque me sinta dividida ou ache que gostaria de ser escritora, mas pela impotência universal que a gente sente ao assumir uma profissão e ter que se virar com ela.

Da parte do texto que não apaguei, portanto, e que se referem aos 3 tipos de escritores que você falou:

A) Por favor, não seja um deles (embora seu cabelo seja propício). Não por nada, mas é perigoso. Eu estava na Bienal do livro do Rio em 2011 quando Anne Rice foi uma das convidadas da tenda principal. Além de acompanhá-la no Riocentro fiz um pequeno tour com ela por igrejas antigas do Centro da Cidade e pelo Corcovado. Foram dois dias de calmaria e sol que terminaram com uma horda de leitores e fãs góticos e histéricos que foram até a Barra para vê-la. Ouvi relatos de gente que dormiu na fila, vi gente chorando porque não conseguiu senha para ouvi-la falar sobre sua obra e vi o espanto na cara dos seguranças que se fizeram de cordão de isolamento para tentar organizar a fila de autógrafos que ela daria no stand da editora. Ao redor deles, gritos, flashes e gente subindo em estantes, pisando sobre e derrubando livros sem piedade numa tentativa desesperada de fotografar a autora. Por sorte ainda não vivíamos na era do selfie. Imagina... Daquela Bienal guardei uma dedicatória linda de Mrs. Rice na folha de rosto do Entrevista com o vampiro e um ou dois hematomas que acidentalmente conquistei no meio da confusão e da profusão de cruzes, coturnos e batons roxos.

B) Não te dá um cansaço só de pensar? Eu tenho um pouco de desconfiança com gente que é boa em tudo, acho injusto com a maioria das pessoas e torço secretamente para que esta parcela multitalentosa da humanidade comece a se repetir em entrevistas a ponto de ficar chata pacas.

C)  Era dezembro em Botafogo e eu estava numa livraria distraída quando encontrei Adriana. Ela me abraçou e me perguntou tantas coisas que quando me dei conta estava contando pra ela da solidão que senti enquanto escrevi aquelas 30 páginas para o trabalho de conclusão de um curso. Contei a ela de como eu tinha uma pilha de perguntas que só crescia, de como comecei a achar maluca essa paixão que também só aumentava e que era só minha, de como de repente não fazia sentido escolher tantas palavras para falar de um assunto sobre o qual ninguém precisava saber, de desejos que ninguém devia sentir, de danças que ninguém iria dançar. Ela me olhou por um tempo, sorriu, balançou a cabeça, “é isso mesmo, não tem mais volta.”, e entrei num táxi pensando se isso é mesmo irreversível, se é como uma torneira eternamente quebrada. Alguns meses depois encontrei um poema que fala disso: “CUIDADO AO CÃO / que morde dentro”*. Por mais que se saiba como quase tudo é um convite ao desterro nessa categoria, é evidente: seu cabelo também se aplica, e aquele trecho em que você escreve sobre ser um escritor da classe D não deixa dúvidas.

Encontre feriados.

Um beijo,
Julia


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