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QUANDO NOSSOS OLHARES SE CRUZAM


Agnès Varda pertenceu ao movimento da Nouvelle Vague, fotografou Godard sem os óculos escuros, expondo o olhar do cineasta além da obra, dirigiu e roteirizou o indicado ao Palma de Ouro, "Cléo de cinq à sept", e vive a perceber o mundo.

Assistindo ao documentário "Les plages d'Agnès", percebo que Agnès é a própria câmera stylo (câmera caneta), que observa e representa o outro em sua obra. As fotografias, instalações e documentários são imagens que habitam a realizadora: ficção, uma vez que a memória é inventada. Varda sente que sua vida é um cinema, o mundo da invenção. Filmar o real é uma leitura de fatos, um sistema de pensamentos que movido pelo desejo, a falta que nos move, pertence à ordem do irrepresentável, a arte é o simulacro da vida, o olhar do outro que nos constitui, uma escuta psicanalítica, que nos permite ouvir nossos traumas.

Segundo Agnès, habitamos paisagens dentro de nós. A praia é a sua paisagem. Penso se existe uma praia em mim, talvez sim, alguns dias sinto-me aquecida, às vezes bate uma brisa que refresca os pensamentos, como uma conversa de bar. Outros dias sinto-me solitária como uma praia em dia de inverno. O ar melancólico da areia vazia e o mar agitado, que torna tudo confuso aqui dentro, prestes a receber uma tempestade, destruindo tudo que foi esquecido, pelos veranistas à beira mar.

Talvez todos sejamos praias, ilhas desertas ou piscinas de hotéis caros e impessoais. Tem dias que somos lagos, outros mares, mas estamos sempre em movimento, alguns dias a água se agita, em outros apenas contempla o céu.

Os fotogramas colocados em sequência também nos dão impressão de movimento. Agnès utiliza de diversas estratégias de abordagem do movimento, mesmo quando explora imagens estáticas em suas fotografias. Em entrevista realizada no festival de cinema francês “Cinefrancia” (2003), Varda diz que graças à sua experiência com fotografia, antes de qualquer outra coisa, ela aprendeu a “ver”. O olhar que buscamos fixar na tela do cinema é o mesmo que caminha perdido entre as multidões a buscar um ponto de encontro entre os olhares que nos rodeiam. Ao cruzar o olhar daquele que te olha, alcança-se o estado orgástico, daquele que se apaixona pela própria imagem refletida na tela (s).

Como expressa o pensamento ampliado de Kant, é preciso pensar colocando-se no lugar do outro, num movimento de retorno a nós mesmos, como se partíssemos do exterior, para enxergar nossos próprios julgamentos e valores do ponto de vista que deveria ser o dos outros. Para tomar consciência é preciso estar distante de si mesmo, contemplando o mundo como um espectador interessado.

Procuramos espelhos que criam simulacros de nós mesmos e nos compreendemos em imagens que nos habitam, rememorando crenças, eventos e amores que inventamos de verdade, para que sejamos artistas da nossa realidade em movimento. O desejo de ver-se no olhar do outro bagunça e instiga as relações humanas. Está aí uma das finalidades da existência: a experiência da ampliação de nós, da abertura da visão e do horizonte que se situa.

Em um movimento imprevisto do olhar a gente se vê, a gente se encontra e dividimos nossas dúvidas.


Aline Vaz é professora e escritora.
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O DIA EM QUE "OS SIMPSONS" DESLIGARAM A TV E NÃO FORAM LER UM LIVRO


Quem nunca ouviu dizer em “manda quem pode, obedece quem tem juízo.”? Em algum tempo distante iríamos buscar poder conquistando títulos junto à igreja, no século XIX, talvez quiséssemos ser cientistas, inventar o avião e ser melhor que Santos Dumont. No fim do século XX a Comunicação que se mantinha por meio de uma campanha ideológica, apresentando-se como um meio de expansão, entendimento, relação, deixa de ser uma agregada, para assumir o poder como ciência na área acadêmica. Todos querem comunicar, expor e não expressar. 
 
Na sociedade pós-moderna o efeito da velocidade afeta a comunicação. É importante frisar que ela não informa, mas sim cria um juízo. Somos ajuizados por um bombardeio de meios e interesses públicos que nos mantém prisioneiros da exposição midiática. 

Poderíamos falar da Rede Globo como manipuladora de opinião, mas pra mim esse assunto já é tão século XIX, que decidi dar destaque às redes sociais, afinal, "Os Simpsons" desligaram a tevê, mas continuaram sentados no sofá com seus notebooks, tablets e iphones. Os comerciais televisivos agora estão na sua página do Facebook, nos anúncios do Google, que somados faturam, aproximadamente, US$ 60 bilhões ao ano com Ads. 

O Facebook Ads baseia suas buscas em perfis e interesses locais, assim a sua timeline fica repleta de anúncios. O rastreamento foi efetuado com sucesso e agora está ali, pronto para te seduzir, enquanto você vê as publicações sobre o posicionamento político do seu amigo, que não tem ideia do que está acontecendo no Congresso. 

Falando em Congresso, lembremos que as eleições estão chegando, como será que o social media dos candidatos vai filtrar os eleitores? Os seus interesses nas redes sociais irão atrair quais candidatos? Fique de olho nos anúncios, o Facebook pode conhecer o candidato ideal para o que você precisa.

Aline Vaz é professora e escritora.
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AINDA TENTAMOS RESPONDER AQUELA PERGUNTA DO ORKUT: QUEM SOU EU?


Dizem que somos perdidos, que não sabemos para onde vamos. Dizem que não sabemos dar valor as coisas, mas valorizamos muito uma internet banda larga. Sabemos como as coisas eram difíceis naquela época em que a internet era discada e todo mundo tinha o seu jeitinho para acessar o Orkut escondido dos pais antes da meia noite.

Não somos nem um pouco perdidos só porque não temos a estabilidade de um cargo público, ainda não temos filhos e não precisamos saber cozinhar. Alguns até ficam emocionados com uma bandeja de fast food.

Tem uma geração aí falando da nossa geração. Ela não tem os jovens turcos da Nouvelle Vague e nem os brasileiros Tropicalistas do festival de 67. Tem o pessoal do movimento Mumblecore. O encantador filme Frances Ha em que Greta Gerwig, a musa do movimento, interpreta uma jovem de 27 anos que faz da vida uma bela música no clima de David Bowie. De um lado a leveza dos sonhos e do outro a pressão das convenções sociais do século passado.

Também tem a Lena Dunham, criadora e protagonista da série da HBO Girls. Hanna, personagem interpretada por Lena, sonha em ser escritora, mas diante das pressões sociais é sufocada pelos padrões que limitam seu fluxo criativo. Antes do seriado, Dunham já havia feito o longa-metragem Tiny Furniture, que conta a história de Aura, uma jovem recém-formada em Cinema que sem emprego e sem rumo volta para a casa da mãe. A personagem entra num conflito entre se adaptar a vida adulta e competir com a irmã adolescente.

Tem o Matheus Souza, que muitos conhecem do filme Apenas um Fim, com Gregório Duviver e Erika Mader, mas no momento prefiro Vendemos Cadeiras, seriado com Wagner Santisteban e o casal Gregório e Clarice Falcão. Três jovens em conflito em meio aos sonhos e as vendas da loja de cadeiras. Eliézer (Wagner) escreveu seu primeiro livro aos doze anos para conquistar uma garota, dirigiu um filme e vive dessas lembranças, desejando que elas voltem a fazer parte de algum presente futuro. Fábio Jr (Duvivier) nunca beijou uma mulher que estivesse acordada e é rejeitado pela família que tem uma loja de sucesso que vende sofás. Diana (Clarice) é uma órfã adotada por 63 famílias diferentes, devolvida ao orfanato 42 vezes por justa causa e finalmente adotada por Ferreira, o dono da loja de cadeiras. Elieser e Fábio Junior apaixonam-se por Diana, ela gosta de meninas e eles decidem ser amigos.



Somos um pouco instáveis, não nego, estar dentro de nossas cabeças não é para qualquer um, por isso às vezes ficamos melancólicos. Também temos tendências artísticas, queremos ter uma banda, escrever um livro, roteirizar, dirigir, produzir e atuar em um filme, deixar nossos nomes na calçada da fama. Somos a geração do jovem criado dentro de casa que é bombardeado pelos pais que consomem todas as tecnologias para que seus filhos não lhe causem preocupações. Então, criamos mundos virtuais, relacionamentos complicados como distrações e expomos nossas insatisfações nas redes sociais.

Sou uma garota de 26 anos e já começo a me preocupar que a vida aos 30 não será muito diferente de hoje. Por um lado gosto da ideia. Têm muitas coisas que não quero mudar, mas tenho aquele medo de estar com a síndrome de Peter Pan.

Entre tantas dúvidas, lá no fundo tenho consciência de que estamos certos de nossas incertezas. Depois de consumirmos cultura pop pesada durante toda a adolescência, somos forçados a entender que a vida não é um filme com fórmula hollywoodiana. É difícil, mas é bom, não precisamos seguir um roteiro. Precisamos viver o imediato, mesmo que eu, você, Greta Gerwig, Lena Dunham e Matheus Souza não tenhamos a menor ideia do que estamos fazendo com nossas vidas.


Aline Vaz é professora e escritora.
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CONVERSA COM DOSTOIÉVSKI E OUTROS FANTASMAS


Estar sozinha em uma cidade grande é a melhor coisa que inventaram nos últimos tempos. Eu inventei isso desde que comecei a frequentar as cidades grandes. Foi a melhor coisa que inventei. Estar sozinha em uma cidade grande é estar rodeada por rostos estranhos que não me obrigam a encontrar assunto, nem é preciso sorrir quando a conversa me entedia. Estar sozinha em uma cidade grande é ficar na minha melhor companhia sem que ninguém se importe com a minha companhia.

No café da Rua XV estou acompanhada da última cena que acabei de ver na sessão das 14hrs, no shopping do centro. Não sei se foi uma epifania, mas vim de lá para cá com uma sensação de dever cumprido, acertei no programa de segunda à tarde, aliás, estar desempregada em uma segunda à tarde foi a melhor decisão que tomei desde o último dia que trabalhei, sexta passada. Nunca estive desempregada, sempre achei que seria um fracasso, que bobinha, está sendo uma experiência incrível. Talvez isso aconteça pelo fato do desemprego ter acontecido por livre e espontânea vontade, poder ir ao cinema em uma segunda à tarde e pagar um café na Rua XV. Deve ser coisa de classe média – tá na moda citar a classe média, melhor fazer essa inclusão, pode melhorar o rankeamento no Google. 

Ontem estava conversando com Dostoiévski e ele me disse que a consciência exagerada é uma doença. Ainda me assegurou que as pessoas comuns são aquelas que têm consciência suficiente para não chegar ao limite da insatisfação. Fui levada a concordar com ele. Estou pensando em ser comum. 

A consciência exagerada das emoções me levou a perder a razão daquilo que sempre prezei, ficar assim, só comigo. Resolvi ficar sozinha pelo fato de já ter abraçado a paixão, ter sentido ao mesmo tempo o ódio e o amor – achei que fosse transtorno bipolar afetivo. Foi bom, não nego, estar absurdamente apaixonada é um sentimento agridoce, parece um mousse de limão, doce e azedo. 

Hoje não faço mais nada, não que não sinta nada, não me entenda mal, só não faço nada por espontânea preguiça. Agora sou uma preguiçosa. Não fico insatisfeita com objetivos inalcançáveis, nem com perguntas mal respondidas ou respostas de perguntas mal feitas. Espero sem a ansiedade dos jovens, nem a falta de tempo dos velhos. Vivo em uma cidade grande, às vezes sento em uma padaria qualquer e peço mais um mousse de limão, com café para viagem, por favor.


Aline Vaz é professora e escritora.
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O QUE É INFINITO AGORA?


Quero começar esse texto com trilha sonora: “Nem sei mais se meus antigos sonhos se tornarão reais, mas eu sei, a vida passou longe do que sonhei. Planos que acreditei demoram a chegar, a garota que amei e também não amo mais, a formatura que eu fui e só assisti, o futuro que previ, mas eu não estou ali.” (Sugar Kane, 22 anos).

A vida é cheia de complicações e é na adolescência que a gente começa a ter certeza que as coisas não vão ser fáceis. É quando precisamos nos adaptar aos grupos sociais, decidir qual máscara vestir (a tal personalidade), sem fazer ideia que na hora de procurar um emprego ou encontrar o amor de nossas vidas, que dificilmente será alguém do colégio (e que talvez nem exista essa coisa de amor da sua vida), não vai fazer diferença ter sido o mais popular ou o cara estranho sentado na frente da sala na escola. 

O sonho de encontrar o verdadeiro amor em uma festa na faculdade – por que lá as coisas vão ser legais, um momento que vai transformar toda a sua vida – talvez não se realize, mas não se preocupe, você já terá se acostumado com essas desilusões. Quantas vezes teremos que nos diminuir, sem que ninguém possa nos salvar, nem aqueles conselhos de amigos que nunca são ouvidos? Aceitamos o amor que acreditamos merecer e enquanto nos sentirmos para baixo, vamos amar quem já está no fundo do poço, até aprender que não importa para quem você é invisível, importa sentir-se infinito! 

Entre os conflitos da adolescência, que nenhum adulto conseguiria resolver com facilidade, é ao som de Asleep (Smiths) que queremos dormir sem que a música tenha fim, porque acordar sozinho é muito cansativo. A importância de encontrar a sua “tribo” faz a diferença, em “As Vantagens de ser Invisível”, Charles, Patrick e Sam, a turma dos desajustados, entendem o significado de encontrar amigos que vão te acordar pra vida.

No fim do ano os novos amigos de Patrick vão para a universidade. Aí vem outro conflito, pessoas sempre vão, mas não devemos privá-las de ir, é preciso cantar que temos nosso próprio tempo, por isso vivemos nossas fases, nossas amizades e amores que vem e vão, mas nunca deixam as coisas iguais, é a magia da evolução pela qual passamos, uma infância descompromissada, uma adolescência de descobertas e uma vida adulta tentando entender tudo isso para pertencer a algum lugar. 

Entre dias ruins e lindos dias inesperados, escolhemos para onde ir ao som da música preferida, sozinho ou com um par, o que importa é participar da própria vida, que um dia será uma fotografia antiga, uma história para lembrar, uma experiência que nos trouxe até onde queríamos chegar, o agora.


Aline Vaz é professora e escritora.
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BARREIRAS PÓS-MODERNAS


Caminho pelas ruas de Curitiba e sempre observo as construções, os prédios mais famosos, aquele giratório que não deu muito certo, mas ainda esperamos que dê. Afinal, um prédio tão caro sem habitantes é melancólico, mas os apartamentos irão custar uma fortuna e não vai deixar de ser melancólico. Eu não vou morar lá, também, não sei se queria, nunca quis morar naquele bairro, acho que a minha história não é giratória. Ficaria tonta ao mudar para o outro lado da cidade, aqui eu tenho a minha infância, o melhor lugar sempre.

Deixo a minha casa para viajar, como diria o título daquele filme, "Viajo porque preciso, Volto porque te amo". Às vezes preciso sair para sentir saudades dos amores que deixei na rotina que frequentemente reclamo, mas a rotina é a vida que escolhemos. Nas novas cidades que visito entro em conflito com a arquitetura, ir para Balneário Camboriú em Santa Catarina e ser rodeada por prédios padronizados, chegar em São Paulo e achar tudo cinza, talvez por ter internalizado a sua fama de cidade cinza ou por sentir falta de árvores pelas calçadas da Avenida Paulista. Para o Nordeste eu nunca fui, sempre imaginei as praias e a alegria carnavalesca, assim como devem imaginar Curitiba como fria e pouco acolhedora, temos fama de não dar informações a estranhos, não sei se isso é verdade, assim como o Nordeste certamente não é só praia e carnaval. No filme "O Som ao Redor", Kleber Mendonça Filho critica a arquitetura que tornou Recife uma praia com grades, a classe média por medo, se acovarda de si mesma dentro de edifícios de ‘segurança máxima’, afastando-se de todos para proteger-se de um perigo abstrato. 

O filme "Medianeiras" registra o distanciamento do ser humano por meio das construções, as paredes crescem descontroladas e imperfeitas, no ritmo que nos isolamos. As irregularidades nos padrões das construções evidenciam a irregularidade humana, as desigualdades estéticas (sociais) e éticas (emocionais). Passamos a viver como inquilinos, a cultura do aluguel temporário que dura mais que o esperado. Passamos a gostar da solidão estipulada pela cultura da boa vizinhança de não ser invasivo, um bom exemplo da fama curitibana.

Com o crescimento urbano, que não significa crescimento humano, recorremos à internet, lá não há paredes, bastam cliques e estamos com quem queremos, não precisamos enfrentar o trânsito, tão caótico quanto as paredes cinzas que observamos enquanto esperamos o sinal abrir. Não precisamos encarar o mau humor, todo mundo online esbanja simpatia, mas causa insegurança quando não responde imediatamente a sua piada sobre qualquer assunto aleatório. No bate-papo falamos de qualquer coisa, ninguém consegue ver nossa cara de idiota com medo que o assunto não interesse a ninguém. Na internet a falta de sintonia entre os diálogos se resolve com hahaha, hehehe e seus derivados que demonstram a singularidade de cada um, hahaha é espontâneo, hehehe é sacana, rs é sem sal.
No filme argentino, Martin trabalha construindo sites, Mariana é arquiteta: arquitetura online x arquitetura concreta. Após dois anos sem sair de casa, distraindo-se com todos os produtos construídos com pixels, Martin inicia sua jornada pela cidade, apenas a pé, fotografa a cidade, a foto é estar e não estar. Mariana decora vitrines, onde se sente em um lugar que não está nem dentro, nem fora, um espaço abstrato. 

Mesmo quando deixamos o mundo online, um mundo em que observamos coisas que acreditamos fazer parte de um mundo subjetivo criado pelos nossos desejos, ainda buscamos formas de nos mantermos observadores, a aproximação com a vida é intimidadora quando podemos nos aproximar do mundo protegidos por telas, vidros, paredes, lentes... 

A personagem argentina que não consegue encontrar Wally em apenas um dos seus cenários, a cidade, desenvolve uma fobia de multidões, pois a sensação de ser alguém perdido entre milhões causa-lhe angustia existencial, imobilizando-a, silenciando-a, como seus manequins na vitrine. Estaremos todos vivendo em vitrines? Em nossa página do Facebook, em nossos carros, nas calçadas, nossos trabalhos e nas reuniões entre amigos, imobilizados, sendo um Wally que nunca é encontrado, por isso sempre sozinhos, perdidos, esperando por nossos observadores? 

Caminhamos pelas ruas procurando nosso Wally, esperando ser o Wally que alguém procura. Continuamos a observar o mundo e a viver nele para que sejamos vistos e pertençamos à vida de alguém, também, perdido entre os prédios que cobrem o mar de Buenos Aires, Recife, Camboriú ou somente a distancia de um clique que separa aquele bate-papo com o seu amor na era virtual.


Aline Vaz é professora e escritora.
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TRAGA-ME A SUA CABEÇA

Tive a alegria de assistir pela segunda vez a peça Uma Noite na Lua, em que Gregório Duvivier é um homem no palco pensando. Pensando alto. Pensando na peça que ele quer escrever e acima de tudo, pensando em Berenice, pensando no que a Berenice vai pensar da peça e porque ele não consegue escrever uma peça, porque só pensa em Berenice. E se ele pensa em escrever uma peça e só pensa na Berenice, porque não usar isso a favor do processo criativo?

Devemos tornar a realidade ficção ou transformar a ficção em realidade? Ficou confuso? Sim, a vida é confusa, depois que você me deixou ficou pior, é difícil entender porque você se foi, eu tentava não achar confuso, mas não adiantava muito, estávamos sempre bagunçados. 

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Devemos tornar a realidade ficção ou transformar a 
ficção em realidade? Dizem que não há necessidade 
de criar o que já existe no mundo real.
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Dizem que não há necessidade de criar o que já existe no mundo real. Até hoje não descobri se sou mais idealista ou realista, acho que todo mundo é um pouco de tudo e considero meus sonhos bem reais às vezes, talvez eu viva neles e eles sejam a minha realidade, ainda não tenho certeza. Eu não tenho certezas em relação aos textos (auto) biográficos. Tem aqueles que dizem que as biografias são inventadas, que são todos personagens de si mesmos. Tenho vários personagens preferidos de filmes, livros e músicas que eu queria ser. Tem pessoas reais que eu gostaria de ter criado em algum romance. Queria conhecer algumas cabeças. É interessante imaginar as cabeças para inventar personagens, mas todas as cabeças acabam parecendo com a minha. É quando tenho a sensação de que estou repetindo os mesmos textos de um jeito um pouco diferente. Talvez eu esteja muito dentro da minha cabeça ou você esteja muito dentro dela, vamos confessar, você sempre está nos meus contos e na minha cabeça. Talvez imagine a sua cabeça ou queira a sua cabeça. Essa coisa de cabeça parece uma síndrome de Salomé, aquela que pediu a cabeça de João Batista em uma bandeja. Coisa antiga isso. 

Voltando ao processo criativo, as idéias inovadoras, os temas nunca debatidos, o modo de reinventar as estruturas, as opiniões, as novas cores em que o mundo é pintado, tudo isso não existe. É utopia. Ninguém cria nada, todo mundo expõe sentimentos, amores deixados, amores futuros, tristezas, mágoas, sonhos, desejos, angústias, medos... E não é clichê, não é chato, não é melodramático ou sei lá que critica que fazem. É humano. Ainda vamos debater as mesmas tragédias shakespearianas, o modo de representar histórias e o flash-back de Homero, o poder dramático e a subjetividade de Petrônio, a vertigem dos acontecimentos e a rapidez para mudar de assunto de Dante, a fábula como entretenimento de Boccaccio e o prazer do sofrimento alheio de Goethe. Porque a cabeça nunca será lógica, ela é um coração em um lugar estranho que pulsa e pula pra lá e pra cá, entre o meu eu e o seu. 

Eu sou um paradoxo que realiza ficção inventada e vivida. Não sei onde comecei e você acabou. Penso que você nunca termina e eu te escrevo, enquanto espero a sua cabeça dizer que estou nela.


Aline Vaz é professora e escritora.
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EXPECTATIVA x REALIDADE EM A NAMORADA PERFEITA


Quem nunca se emocionou com os amores românticos da literatura, aqueles que não se realizam, que são interrompidos pelos fins trágicos? Todo mundo tem o seu favorito, tenho o meu: Os sofrimentos do jovem Werther. Os mainstreams diriam Romeu e Julieta. E tem os que se lembrariam de Tristão e Isolda. Ainda no século XXI, somos influenciados pela cultura de que amor bonito é amor não concretizado. Não temos famílias inimigas, mas obstáculos contemporâneos são equivalentes para mentes pós-modernas. Stalkeamos redes sociais e descobrimos alguma traição do companheiro (talvez uma curtida na foto da garota de biquíni seja a tempestade no copo d’água) e passamos a compartilhar a ideia de que o amor, para render história, tem que sobreviver ao mundo online.

O filme Ruby Sparks – A Namorada Perfeita (2012), dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris (Pequena Miss Sunshine) e roteirizado por Zoe Kazan, que também interpreta Ruby, conta a história de Calvin no universo do realismo fantástico. Um escritor em crise criativa idealiza uma suposta namorada, que surge em seus sonhos, e consegue escrever algumas páginas do livro, até que Ficção X Realidade se chocam: o criador se depara com sua idealização corporificada de vestido e meia calça preparando o café da manhã em sua cozinha. 

Calvin precisará se adaptar a realização do seu sonho. É difícil acreditar que sonhos se realizem em uma cultura que exalta a descrença da felicidade e que as fantasias estão limitadas às teclas da máquina de escrever do escritor.



O protagonista descobre que o amor correspondido é tão complicado quanto o platônico. Ruby Sparks tem vida própria e consequentemente suas próprias vontades. Quando Calvin percebe que a namorada deixou de ser uma idealização para transformar-se em realidade, volta a reescrever a história de Ruby, manipulando a sua personalidade, um mal que aflige muitos casais: querer que o outro realize seus sonhos, quando deveria se apaixonar pelo o que o companheiro tem a oferecer.

Quanto maior o vazio existencial, maior a idealização do amor, aquela sensação de que o ser amado irá colorir sua vida, respondendo a todas as suas expectativas, aumenta com a vontade de chegar ao tal fim do arco-íris. Calvin é um cara egocêntrico e sente-se confortável em cultivar uma vida solitária, mesmo negando o fato. E a gente gosta desse personagem, há uma identificação com a melancolia e desajuste em relação à vida. Quem não se sente assim quase sempre? (Prefiro acreditar que todo mundo é como o Calvin e eu.)

O personagem de Paul Dano não é o homem perfeito, talvez ele nunca seja o personagem idealizado daquele romance romântico. Ruby não é o que Calvin havia sonhado nas noites anteriores. Eles devem aprender a conviver com os conflitos de um relacionamento real. Passear entre realidade e expectativa pode ser bastante agridoce e a graça é ser imprevisível. Que as borboletas no estômago comandem a dança.


Aline Vaz é professora e escritora.
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(500) DIAS COM A MULHER PÓS-MODERNA


(500) Days of Summer é um filme americano dirigido por Marc Webb, que se destacou, justamente pelo público estar receptivo ao fato das histórias pós-modernas não seguirem o padrão dos clássicos contos de fadas, em que a princesa passa toda a narrativa esperando pela chegada do príncipe responsável pelo seu “feliz para sempre”.

Conhecemos os personagens Summer Finn e Tom Hansen, interpretados, respectivamente, por Zooey Deschanel, atriz e vocalista da banda She & Him, e Joseph Gordon-Levitt, ator e fundador da mídia colaborativa e produtora Hitrecord. Ela quebra os paradigmas e ele não sabe o que fazer com a mulher pós-moderna.

Tom cultiva uma descrença da felicidade, influenciada pela triste música pop britânica e a má compreensão de um filme, representando a ação da mídia sobre a sociedade e como a percepção de algo pode formar o individuo. Summer, desde a separação dos pais passa a se preocupar apenas com o cabelo, como ele é bonito e a facilidade que pode ser cortado sem que sinta nada, uma metáfora da mulher que tenta viver o lado bonito da vida sem envolver-se afetivamente.

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Summer, passa a se preocupar apenas com o cabelo, 
como ele é bonito e a facilidade que pode ser cortado, 
uma metáfora da mulher que tenta viver o lado bonito 
da vida sem envolver-se afetivamente. 
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O filme deixa claro que quebrará o paradigma das comédias românticas boy meets girl  e logo alerta que não contará uma história de amor. Além da representação pós-moderna da mulher, é possível perceber uma descrença do indivíduo contemporâneo, que quando fala de amor, prefere falar em (des)ilusões. Já que o ato de relacionar-se com o outro tornou-se um paradoxo: comunicação (por meio de tecnologias) e solidão (por meio de tecnologias).

Tanto os homens “tradicionais” quanto os “pós-modernos” inconscientemente se assustam com a mulher contemporânea. É o que ocorre com Tom, que é devorado pela independência de Summer. O personagem formado em arquitetura não atua na área, acredita em um amor convencional e logo deseja uma mulher para compartilhar o happy end. Summer é uma jovem que sai da cidade natal para morar sozinha, está em busca de emoção e sempre consegue o que deseja.

Summer arrisca-se, Tom não. Ele acredita que jamais será feliz, até encontrar “a pessoa certa”. Ela não responsabiliza o suposto parceiro pela sua felicidade.

Tom consegue derrubar a parede na qual Summer esconde-se, a parede da distância, do espaço, do casual... “Tom estava no mundo de Summer. Um lugar que poucos foram convidados a entrar. E lá estava ela querendo ele e mais ninguém”, mas será que era suficiente?

Os relacionamentos sem rótulos ganham espaço, levando-nos a refletir sobre qual é o verdadeiro propósito de um relacionamento. Será necessário construir um nome para o que simplesmente vivemos? Namoro? O que significa? Apenas um conjunto de regras que passamos a cumprir severamente, cobramos e somos cobrados. Uma grande rotina destrutiva. Summer quebra todas as regras da menina que se encanta com o seu observador e rende-se ao padrão de relacionamento estabelecido pela sociedade patriarcal, em que se espera uma mulher “desesperada” por um pedido de namoro. Ela, simplesmente, aprendeu a ser feliz sem um relacionamento. A mulher não precisa mais se apoiar em uma relação e submeter-se a tudo para permanecer nela.

E quando a mulher expõe sua falta de vontade em rotular um relacionamento o homem sente-se perdido, pois isso significa que a figura feminina rejeita a sua proteção, ela deixa de ser o “sexo frágil” para ser dona do seu destino, deixando o homem em desconforto.

Espera-se ver nas telas sempre o final feliz dos protagonistas, que superam as dificuldades para viverem o amor incondicional. O homem deve salvar a “mocinha”, diferente de Summer, que não precisa ser salva por ninguém, ela faz suas escolhas e não precisa de um homem para isso. Quando Tom agride um sujeito em defesa da “namorada” que desaprova a atitude, simboliza, justamente, a negação do conceito em que a princesa espera o príncipe resolver tudo, enquanto fica na torre aguardando o beijo final.

A história de amor pode não ter um final feliz para eles (juntos), mas ambos aprendem um com o outro. Podemos citar uma frase de Summer para Tom: “Acho que podemos concordar em discordar”, chamando a atenção para o fato de que somos diferentes sim, vamos respeitar e somar isso, ao invés de colocar as diferenças como obstáculos nas relações (nesse caso, de gêneros).


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