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É PRECISO EXTRAVASAR


Numa fatídica sexta-feira, sem nenhum trocado no bolso, trancado no quarto, enquanto todos os amigos e ativistas de si mesmos cumprem, lânguidos, uma jornada de sol e mar em alguma praia paradisíaca; permaneço, insólito no meu mundo, com as mais pueris esperanças de autoajuda.

Vira e mexe me utilizo de um mantra tão recorrente quanto o calor que nos derrete; eis a frase: tudo está completamente desestruturado. De Clarice vem a constatação que “o mundo precisa mudar para que eu possa caber nele”, ou “só sou feliz na hora errada”.

Mas não, querido leitor, isto não se trata de insatisfação de desocupado. Pelo contrário, chegamos ao triste tempo em que existe por aí uma constante maquiagem da vida. Maquiagem que tenta nos livrar de nós mesmos em função da aceitação do outro. O outro é o deus. O outro tem a palavra. O outro faz de você uma fortaleza, afinal quem samba sozinho não faz carnaval. Será? Você precisa ser inteligente, bonito, popular, magro, bem sucedido; e eu, sendo gay, preciso ser ativo. Se eles não confirmam tais constatações com palavras, o olhar denuncia tudo.

Eu não quero fazer parte disso. Eu não confio em quem caga regra.

Os olhos são a janela da alma, não importa quão brega e clichê isso soe.

Mas quem são eles? E aqui vem a revolta: eles são a sociedade em si, o Brasil, o patriarcado, os políticos, a imposição da moda, da novela, os filtros do instagram, as curtidas no facebook, os e-mails não respondidos, a dieta das beldades, o mundo, as regras, o eterno drama de virginiano, o terror da realidade. E também o meu direito de extravasar a raiva diante da eterna falta de respeito mútuo e, no nosso caso, da hipocrisia de madame e dos iPhones pré-pagos.

Mas calma, todo rebelde sem causa deveria ter um pouco de razão. E todos nós, de vez em quando, não deveríamos forçar a barra.

Da literatura vem a salvação com Anne Sexton, grande diva, tratando em plena década de 60 temas como menstruação, adultério, suicídio e cuspindo na cara da sociedade americana, além de ultrapassar barreiras sobre os “assuntos que uma mulher deveria tratar num poema”.

Ou até mesmo Adília Lopes, eterna mente brilhante e solteirona frustrada, quando ela chora suas pitangas por não ser bela e pelo amor que nunca veio: 

Quem me dera ter os cabelos lisos
e usar franja
como a Sylvie Vartan
e a Françoise Hardy
Medusa colchão no toucado
Rapunzel de tranças cortadas
pela madrasta e pelo amante
suplico à Dona Lena
que me decapite
Judite Dalila Salomé Vidal Sassoon
me valham
o turíbulo da minha alcova

Ou para tornar nossos corações ainda mais verdadeiros, as palavras do escritor Tadeu Sarmento:

“Os mortos não ressuscitarão. Os cegos não voltarão a ver. Os aleijados não andarão de patins. O leão não pastará ao lado do cordeiro, nem o cavalo de carrossel ao lado do touro mecânico. Salomão não conversará com Pascal sobre a beleza fria dos triângulos. Ninguém voltará. Ninguém. Todos já foram há muito tempo e nós também estamos indo. Portanto: menos horas úteis e mais abraços de adeus. Se for possível: o perdão. Mas só se for possível."

Pessimismos à parte, o que vem a calhar muitas vezes é a compensação difícil das coisas, pois deveríamos mergulhar em piscinas, não em tragédias, e ao mesmo tempo encarar com olhos de águia o que nos fortalece, o que faz de nós pessoas melhores, genuínas, e também o nosso lado monstro de cada dia.

A cura, só você sabe. Você e sua cabeça sobre o travesseiro. Mas o drama sempre vem, e não manda flores.


Antonio LaCarne é escritor.
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SENSAÇÃO CÓSMICA DO SER


Ilustração: Carnovsky

No noticiário da minha cidade procrastinada, uma garota foi decapitada por uma adolescente viciada em cocaína e perdida no mundo. Aí imagino o poema “Os escorpiões do sol” de Roberto Piva e também me pergunto: “Por onde é preciso começar?” Talvez imaginando aquele guarda crápula que atirou em Luizinho, morto no Edifício Copan. Então acendo mais um cigarro e pairo diante dessa rua poluída em meio aos tantos ativistas revolucionários de sofá e aos do coração. É que seria bem legal se todo o amor que você merece fosse revolucionário.



A realidade das coisas segue aí, parada como um copo americano sobre um prato de plástico. Os plásticos somos nós, os que saem pela tangente sem querer demasiadamente aquela remissão que (só nos salva) quando encostamos a cabeça no travesseiro. Eu ainda preciso saber por onde começar?

Em tempos de medo versus medo da polícia truculentíssima, eu ainda choro as minhas pitangas pela existência de determinados seres humanos illuminati e da tão famigerada “cura-gay”. A sensação cósmica do ser se transformou também numa garota decapitada. Quem é o culpado? Seria deselegante afirmar que “você faz tudo errado?”

Em todos os caminhos mais duros, você deveria ser uma bandeira erguida, costurada no espaldar dos olhos, caminhante, orgulhosa de suas próprias questões que reivindicam o outro ao invés do eu. Não dói pensar assim. O que dói é essa loucura desesperadora num corredor escuro de um hospital público lotado. É que muitos se contentam com o iPhone que só domestica o medo que eu guardo no peito. Ou simplesmente acham que tudo é lindo, talvez como o tom primaveril das blogueiras de moda.


Boto muita fé nessa paixão que os loucos insistem em reverenciar. Boto fé no lance doentio da falta de razão, da noite que se transforma numa gata iradíssima, e num boy falando manso ao pescoço.

O meu divã é cruzar o tráfego, as Ilhas Maurício imaginárias, o calor insuportável e pousar as asas numa zona de conforto onde as palavras (quiçá, ao lixo dos ventos) se tornam uivantes antes que a quarta-feira me engula – aí eu não seria nada.



Antonio LaCarne é escritor.
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