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TODO O PERCURSO POR ONDE A LINHA CRIATIVA SE ESTENDE


Certo dia estávamos todos os amigos e seus bebês e uma incrível piscina tommy e a bebezinha quis entrar. “Que alegria!”, e para a surpresa ou desconforto de todos, a neném soltou sua grande obra, o cocô. Um grande alívio para ela, deu pra ver pelo sorriso. Dali veio mais e mais. Até que o pai da criança a pegou nos braços, suspirou e disse: “É minha filha, imagine só se todo mundo cagasse aonde quisesse...”.

Limites são dádivas e invenções, traçando uma linha que risca e arrisca. O cocô simboliza a criatividade e é fabricado a partir da discriminação feita pelo nosso intestino. O corpo precisa selecionar, separar, descartar. Assim como esse texto que se reinventa, se elimina, se pontua. A piscina passa a existir a partir de uma borda, que delimita um espaço aquático. Nele vamos mergulhar. Esparramar a água por todos os lados. Vamos?

Uma amiga querida me dizia: “O limite é a borda ou o que transborda?”. Mas se não houvesse borda, haveria o transbordamento?, retruco. Percorro uma linha imaginária que compõem o traçado do meu corpo e minha estatura. O tato faz lembrar que existe pele. E existe o ar que atravessa os poros em eterna expansão e retenção, tornando permeável esse delineado. Portanto, esse limite que se impõe é permanentemente flexível e paradoxalmente necessário. O que seriamos de nós cagando pelas piscinas e esquinas? E o que seria de nós se não cagássemos vez ou outra fora do lugar? Vide os punks e suas tiragens de excremento como atitude.

Poderia me estender, mas por aqui vou ficando, embarreirando palavras para que permaneçam vivas. No batimento presente. Observo o que me cerca: a cama, o ar-condicionado, o ponto de ônibus, a ponte, cada objeto-participante do mundo e suas etiquetas nominais. Através desses nomes podemos abrir diálogo e abrir as paredes lado a lado, deixando aparente o vácuo. E essa será a última frase do texto, tudo bem?


Bella é cantora e compositora do duo Real Imaginário. 

Imagem de capa: Angela Deane
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AVE MÃE


O início é pernicioso. Calma, já vou chegar lá. Como essa porta que acaba de ser aberta repentinamente. Alguém saberia dar uma definição de tempo? Escuto os passos vindos de longe e isso já interfere no meu ritmo. Há uma disritmia sempre pulsante. Aquilo que faço não é só o que faço. E por mais que escreva individualmente, tudo que em mim se inscreve é fruto, é desoperância, é junção e relação.

Tenho uma tendência a abrir questionamentos infindos, tal qual um filósofo. Minha avó sempre diz que é dotada de tal talento. Dar voltas infinitas que só tendem ao infinito dos porquês. O assunto a que me refiro é sobre o nascer. É sobre a precisão do momento em que se nasce e o que dele se decorre. Pois, do ponto de vista astrológico, a alma escolhe o seu momento de vir à Terra. A partir daquele momento em que se dá o primeiro respiro, ou seja, o primeiro contato aéreo (me faz lembrar os girinos), demarcam então seu futuro. E até mesmo o passado. Isso pra quem acredita. Não entremos nessa discussão.

O fato é que, às vezes, me pego pensando: E se eu não tivesse tomado anestesia? E se eu escolhesse ter meu filho em outras condições (numa floresta, por exemplo)? E etc etc. Isso interferiria no destino? Como assim, destino? A nossa vida é pré determinada?

Como já disse, tenho a tendência de abrir questões que não se fecham. Mas, vamos lá. Desde que virei mãe, se tornou muito natural reviver e reinscrever os meus inícios. Sabe aquele novelo de lã que se transformou em cachecol? Imagina que cada ponto representa um estágio de vida, um nó, um marco. E aí os anos se passam...

Dar vida à outra vida também é outro ponto dentro dessa linha. A linha continua a seguir seu risco, mas passa por regressões. Isso implica em desfazer certos nós. Acontece que alguns já estão tão viciados naquela forma, que o esforço para levá-los a um novo ponto é estúpido.

“Ninguém disse que seria fácil”. Quando leio a Elke Maravilha dizer que setenta por cento das mulheres que têm filhos, não deviam, que educar um filho é o mais difícil e ela não deseja interferir no karma de ninguém, eu respeito.

Afinal, a porta se abriu repentinamente. Os passos se aproximaram e interferiram no meu texto. Pois esse instante já começa a dar lugar a outros. Desde que eu, enquanto alma, passei a habitar este planeta, delimitei um espaço e um tempo. Espaço esse que caiu dentro de outros. E não para por aí...

obs: "Ninguém disse que seria fácil" é o título de uma peça escrita pelo Felipe Rocha (ator, dramaturgo, diretor, músico, cantor e pai de duas meninas).


Bella é cantora e compositora do duo Real Imaginário. 
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