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O DUPLO VÍNCULO ENTRE NÓS E A SELEÇÃO BRASILEIRA



Duplo vínculo é o nome que se dá a manifestações de contradição em um relacionamento baseado em laços afetivos profundos. Em sua origem, muito se estudaram os efeitos maléficos do duplo vínculo no psicológico das pessoas, atribuindo-se a ele a causa de transtornos como a esquizofrenia. Essa associação, contudo, é bastante criticada.

Exemplo clássico de duplo vínculo vê-se na relação entre mães e filhos pequenos, na qual temos um desbalanço entre os dois pólos e ligação emocional tremenda — ou seja, um prato cheio para manifestações de contradição. Como quando a mãe diz: “Vá dormir, você está cansado!”, e o guri não se sente cansado. E agora, José? Acreditar no corpo ou na mãe, que não mente, que sabe tudo, que te ama e te protege?

Na faculdade, estudei o duplo vínculo associado aos meios de comunicação de massa e seu público. De suas aparições no discurso publicitário — “Seja livre, fume Free” — ao duplo vínculo estabelecido pelo controle remoto, o qual, se aumenta a sensação de poder sobre o que se está vendo por um lado, por outro não resolve a questão de que, se se vive zapeando, pouco se vê de fato.

Todavia o maior exemplo de duplo vínculo que sempre tive, por me afetar claramente até hoje, dá-se na minha relação com a seleção brasileira. E acredito que não apenas comigo.

Sou de 1986. A primeira Copa de que me lembro foi a de 1994, em que fiz tudo que se espera de um menino brasileiro: vesti o uniforme, colecionei álbum de figurinhas, defendi o Brasil sempre que algum adulto chatola dizia torcer para outra seleção e gastei horas e horas debatendo com os amigos quem, entre Romário e Bebeto, era o melhor jogador. Vibrei com Taffarel, com os bordões de Galvão Bueno, com a conquista do tetra. E foi muito bom.

Já em 1998, a derrota brasileira certamente me ajudou a cruzar a soleira da aconchegante casa de minha infância e, adolescente em formação, dar meus primeiros passos no mundo, sentir na garganta o gosto da contradição revelada. Como a melhor seleção do mundo perdia? Na falta de explicação mais elaborada, contentei-me em odiar para sempre Ronaldo e aquela sua crise epilétpica, patente sinônimo de pusilanimidade.

Em 2002, no auge da adolescência, eu estava no pré-vestibular, empolgado com minha própria capacidade de dar respostas a todas as questões do mundo; portanto já sabia: aquele discurso de que o Brasil era a melhor seleção do mundo era balela, coisa do senso comum, da Globo, dos Illuminati. Futebol, aliás, era o ópio do povo, e não seria eu quem iria acordar de madrugada e entrar no fuso do Japão e da Coreia do Sul para assistir àquele espetáculo ridículo e alienante.

(O foda é que a cena de Cafu levantando a taça e gritando seu amor pela mulher me arrepia até hoje.)

Em 2006 eu descobri o duplo vínculo entre mim e a seleção. É assim:

A seleção brasileira certamente não é a melhor do mundo. Durante um período já o foi, e o foi gloriosamente: quando houve casamento entre o estilo individualista e meio exibicionista de jogar do brasileiro — reflexo de nossa própria cultura, que é cordial (passional) e ostentatória dos saberes, como escreveu Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil — e a ausência de regras, no futebol, que impedissem esse estilo de vingar. Nas últimas Copas e amistosos, o que vemos é sempre mais do mesmo: equipes cujo esforço de coordenação é notório; onze jogadores que, antes de poderem jogar bem como um time, batem-se para aprender como jogar como um time. Essa, talvez, seja a maior lição que o futebol europeu pode ensinar a nossos craques.

Ainda assim… Ainda assim… A seleção, em especial na Copa do Mundo, é uma representação do Brasil. E o é não porque eu ou o Galvão estamos dizendo, mas porque há algo no meu corpo que diz que é, sim. Que espera que a seleção se sobressaia esse ano e que a realidade se coadune com o discurso ilusório de que somos os melhores do mundo em futebol. Melhor ainda depois de duas derrotas em Copa, porque então teremos prova de que não é talento, mas esforço que conta.

Acredito que países, como pessoas, são suscetíveis aos discursos que são feitos sobre si. Me preocupa o negativismo infértil de certos discursos em voga: A Copa está comprada; futebol é ilegítimo porque é negócio; quem se deixa levar por essa ilegitimidade do futebol é burro (sabe de nada, inocente!); o Brasil é um país de merda; os brasileiros são um povo de merda; a seleção é uma seleção de merda porque representa um país de merda e um povo de merda.

Não.

A Copa não está comprada. Futebol é negócio, bem como os livros, filmes e canções que te tocam — nem por isso as emoções suscitadas deixam de ser legítimas. O Brasil não é um país de merda: é um país cheio de problemas socioeconômicos históricos, cujas origens remetem não só à época de colônia, mas também a sua inserção na economia do mundo como país independente e a sua pouca experiência como democracia estável. Os brasileiros que saem desse caldeirão saem com o gosto da sopa cultural que o país produz, incluindo-se aqueles onze caras que estão nos representando na Copa, lutando para ser um time — e o melhor time do mundo em 2014.

Sigo torcendo por eles, mesmo depois do péssimo desempenho dos dois primeiros jogos. Não tenho problemas com meu duplo vínculo. Nem creio que ele me faça mal.


Breno Fernandes é escritor.
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BRAZIL SUPIMPA - SÓ QUE NÃO


Uma amiga norte-americana certa feita me contou que uma das perguntas que mais escutava no tempo em que viveu no Brasil dizia respeito à imagem que o país tinha em sua terra natal. Sua resposta costumava listar um punhado de características positivas, outro tanto de aspectos neutros e um tico de comentários negativos, notadamente sobre a desigualdade social e tudo que é afeto a essa. O mais curioso para si decorria do fato de que, mal chegava à última parte de seu discurso, ela era frequentemente interrompida por comentários que lhe soavam como envergonhados pedidos de desculpas.

Sua história me fez lembrar do tempo em que fiz intercâmbio na Europa, na época da faculdade. Vivendo entre intercambistas, com os quais as conversas fiadas quase sempre giravam em torno das particularidades nacionais, fui diversas vezes taxado de chatola, aquela figura desagradável que sempre falava mal do Brasil e contestava o ufanismo de outros brasileiros. Tendo exagerado ou não, meu alvo tinha foco: eram os clichês, os lugares-comuns de nossa identidade. Incomodavam-me as loas ao país tropical, bonito por natureza, onde em se plantando tudo dá; a vaidade da autoclassificação de povo alegre, festeiro e acolhedor; todo esse rap batido. Além disso, minhas intervenções tinham em muito a curiosidade de saber o quanto meus compatriotas acreditavam nas próprias palavras e o quanto certos comportamentos apresentados, reiterando o discurso do Brasil supimpa e do brasileiro bacana, tinham de conscientemente forjado.

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Vivendo entre intercambistas, com os quais as conversas 
fiadas quase sempre giravam em torno das particularidades 
nacionais, fui diversas vezes taxado de chatola, aquela figura 
desagradável que sempre falava mal do Brasil e contestava 
o ufanismo de outros brasileiros.
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A impressão que mantive com base nessas duas experiências foi a de que — em se considerando a grosseria argumentativa que é generalizar — os brasileiros da classe média não gostavam de mostrar seu(s) lado(s) obscuro(s). Sua crueldade, suas artimanhas, seus preconceitos. Por isso não foi sem grande surpresa que observei, boquiaberto, dois episódios que ocorreram este ano, os quais me proporcionaram outro olhar sobre o balaio de brasilidade que é oferecido à gringalhada.

O primeiro, menos grave mas de todo modo impactante, foi o coro bulinador que tomou o Maracanã, na final da Copa das Confederações, em seguida à expulsão do jogador espanhol Piquet. Gritos de “Chupa, Shakira!” ou piores acompanharam o namorado da cantora enquanto ele se retirava de campo. Confesso que na hora pensei que a explicação para essa travessura frente ao ilustre gringo associava o frisson do futebol ao conforto de estar em casa e ao espírito inflamado pelas manifestações que ocorriam paralelamente ao torneio. Que em outro contexto com oportunidade de atenção internacional se voltaria à cordialidade de sempre.

Então ocorreu no Ceará a vaia dos médicos brasileiros aos colegas cubanos, recém-chegados ao país. E, de novo, minha reação imediata foi a de justificá-la com base na preocupação que cria haver por parte de um segmento social de brasileiros no que diz respeito à imagem que esse sustenta de si perante estrangeiros. Pensei se a vaia aconteceu porque eram médicos latino-americanos, e não europeus ou estadunidenses. Se o conservadorismo e obtusão que assolam um número razoável de doutores (por falta de um pouco de Humanidades em seu currículo?), e que costumam ser causa da sustentação de clichês sobre o Brasil para estrangeiros, tinham suprimido o desejo de estar bem na fita internacional. Finalmente, pensei se a ideia da importância de boa impressão frente a estrangeiros era inválida para âmbitos em que não havia por que se envergonhar, como é o caso da formação médica nacional.

Essa reflexão me fez nos últimos dias reavaliar minha velha crença sobre a imagem que construímos de nós para fora. Essa é uma discussão que julgo importante, em se considerando que um dos aspectos formadores da identidade é a alteridade, isso é, o reconhecimento do que temos de igual ou de diferente perante o outro. No ponto aonde cheguei não há conclusões, apenas suspeitas. A primeira é a de que, na esteira de uma mudança pela qual o Brasil tem passado em suas relações internacionais, com elogios e olhares invejosos em um contexto de crise prolongada, deu ao brasileiro certa auto-confiança, que o permitiu se esconder menos. A segunda suspeita é a de que certo rancor que a classe média — a mesma que tradicionalmente viaja para o exterior e trava contato com estrangeiros — tem para com o governo petista, por causa da redução relativa de seus ganhos econômicos, fez com que essa adotasse a postura de vítima, uma que permite mesmo alguns comportamentos pouco civilizados, tidos como reação de quem é oprimido.

Seja o que for que esteja contecendo, desconfio de que as mudanças sociais e institucionais que estão acontecedendo e que continuarão a acontecer no Brasil e, por conseguinte, na identidade brasileira farão com que em breve não mais sejam ouvidos os velhos clichês quando calhar de um nacional médio ter de perorar sobre seu país para um estrangeiro. Com sorte, poderá apresentar seus lados bons e ruins sem vergonha de não estar à altura do gringo que o ouve. O que é ótimo, muito massa, mas que não me deixa de trazer antecipadamente certa nostalgia que, menos que com minhas intervenções da época universitária, tem a ver com a máxima de La Rochefoucauld que diz: “a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude.”


Breno Fernandes é escritor.
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BRIDA, A CHAVE DO ENIGMA


Você já leu 'Brida', de Paulo Coelho? Eu acho massa esse livro. Ele fala de magia e de reencarnação, que são assuntos de que sempre gostei, e foi em 'Brida', inclusive, que achei uma resposta alternativa à que o espiritismo dá para uma pergunta que sempre me inquietara quando o assunto é reencarnação: como é que o aumento da população se encaixa nessa história?

O espiritismo fala em planos, certo? Que a Terra seria apenas um patamar no meio da trajetória até a elevação espiritual. Com todo respeito a quem crê na doutrina espírita, eu não me sinto confortável com essa explicação, porque ela leva a outras perguntas, sobre esses outros planos, cuja busca pelas respostas não me atrai, já que não sou muito religioso. Sendo assim, uma resposta mais em conta, que satisfaça minha curiosidade limitada sobre a relação entre reencarnação e demografia, me basta. Essa resposta eu achei em 'Brida'.

No livro, o mestre dos magos explica que a alma tem a capacidade de se dividir; uma alma pode gerar vários seres humanos. De lambuja, isso serve para explicar o costume que o pessoal tem de dizer que a origem de certas relações íntimas está na alma. Aquela coisa de Ai, a gente é irmão de alma!, e tal.


Por que eu tô falando tudo isso? É que outro dia, pela primeira vez, eu peguei 'Raízes do Brasil' pra ler. O livro é ótimo, é agradável de se ler e dá uma explicação satisfatória para diversos padrões de comportamento da cultura brasileira, como o jeitinho brasileiro. A leitura foi tão proveitosa que decidi até sair da análise depois dela porque Sérgio Buarque de Holanda resolveu metade das minhas noias. Mas essa é outra história.


O que importa aqui é contar que em 'Raízes do Brasil' descobri que na segunda metade do século XVI existiu um cara chamado Domingos Caldas Barbosa aqui no Brasil. Ele era músico e é considerado o inventor da modinha, aquela coisa romântica, suave, chorosa, bem típica da MPB lato sensu. Dá uma olhada na letra de uma de suas modinhas:


Nós lá no Brasil
A nossa ternura
A açúcar nos sabe,
Tem muita doçura.
Oh! se tem! tem.
Tem um mel mui saboroso
É bem bom, é bem gostoso.
Ah nhanhã, venha escutar
Amor puro e verdadeiro,
Com preguiçosa doçura,
Que é amor de brasileiro.

Quando li isso, na hora me lembrei de 'Brida', da explicação da divisão de almas, e tive certeza: a alma de Domingos Caldas Barbosa reencarnou no século XX dividida em duas: Luiz Caldas e Beto Barbosa.

Tá na cara! Quem é que não sabe que quando a pessoa tem alma de artista não tem quem a desvie de sua sina? Alma de artista há sempre de ter impulso criativo. Seja lá em quantos pedaços ela se fragmente.

E tem mais: quase todo artista se concentra em um conjunto restrito de temas, de questões que o instigam e o inspiram. Não à toa há algo em comum na letra da modinha mais famosa de Domingos e no grande hit de Beto. Compare:


Nós lá no Brasil
A nossa ternura
A açúcar nos sabe,
Tem muita doçura.
Oh! se tem! tem.
Adocica, meu amor,
Adocica,
Adocica, meu amor,
A minha vida, ô

Aproximação idêntica ocorre entre Domingos e Luiz, em termos de estilo versejador e também de intenções, pois, enquanto Caldas I compôs aquela modinha visando apresentar o periférico Brasil ao público da metrópole lisboeta, o desejo por trás do grande hit de Caldas II foi o de apresentar um ícone da cultura local de sua terra ao vasto público nacional.

Ah nhanhã, venha escutar
Amor puro e verdadeiro,
Com preguiçosa doçura,
Que é amor de brasileiro.
Vem, meu amor
Vem com calor
No meu corpo se enroscar
Vem, minha flor
Vem sem pudor
Em seus braços me matar
(...)
Tieta do Agreste
Lua cheia de tesão
É lua, estrela, nuvem
Carregada de paixão

Minha hipótese, efetivamente, carece de maior profundidade; estou planteando um patrocínio para a pesquisa. De toda sorte creio haver indícios significativos apontando que Paulo Coelho pode estar certo sobre a reencarnação; somente da alma do pai da modinha, afinal, poderiam derivar as almas do pai do axé e do rei da lambada.

Se refizermos os caminhos de Luiz Caldas e de Beto Barbosa, o ponto de chegada será a conclusão de que eles são mestres da MPB desde antes de ela existir.



Breno Fernandes é escritor.

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