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BJORK NO MOMA: #FAIL


A revista New Yorker publicou ontem uma dura crítica à exposição da Bjork no MoMA. Antes dela, o New York Times, a Times, o Washington Post, a Newsweek, a The Economist e os ingleses Guardian e Independent decretaram seu fiasco. O site ArtNet News, auto-intitulado o maior noticiário do mercado global de arte disparou o cronômetro para a enxurrada de críticas previstas como a "lava expelida pelo vulcão Eyjafjallajokull" quando em erupção lá na Islândia, terra da cantora. Ou seja, a exposição ganhou um grande #fail. A maioria das revisões da mostra pergunta: o que o MoMA está fazendo?

Tachado de "groupie", o museu foi acusado de, nos últimos anos, buscar uma identidade hipster e pegar o caminho do pop, mais curto e mais fácil, para atrair as massas. As massas, que, pelo déficit de atenção, precisam nadar em águas rasas. A artista, rainha complexa e tecnológica, no entanto, sai bem dos disparos, com a reputação cult (e hipster) pouco abalada. É a dignidade do museu que está em jogo. A New Yorker pergunta e responde: estamos sendo elitistas? Sim! O problema, diz a revista, é querer brincar de celebridade.

Tudo que envolve a ideia de celebridade passa, inevitavelmente, pelo insulto à inteligência do espectador. As engrenagens desse sistema, o das estrelas, têm de ser rasas porque não se sustentam, porque podem ruir a qualquer momento. E o cartaz que os críticos estão levantando é um "aqui não". Não me venha com esse manequim vestido de cisne, não me venha com essa reencenação tosca da vida da artista.

A maior das críticas é a de que nos fones de ouvido feitos pela Volkswagen para a mostra (diferentes dos áudio-guias tradicionais mas iguais aos áudio-guias tradicionais), a promessa de uma experiência musical forte tal qual a experiência visual num museu, exigência de Bjork para aceitar a mostra, não se concretiza. E as salas dedicadas à cantora lembram, segundo piadistas de plantão, o Hard Rock Cafe. A tal da pegada celebridade.

Bjork, de tão grande, não conseguiu uma mostra à altura da forma como processa o mundo e do seu trabalho. Ainda assim, e é claro, o museu está cheio, com filas que dão a volta no quarteirão da rua 53 de Manhattan. E o vestido de cisne é altamente instagramável (sqn). Ser pop não é ruim. O problema é ser ruim. Nadar no raso e acreditar que o hype basta.

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VIREI MULHER





A Mulher faz exercícios regularmente, se alimenta bem e chuta o balde despreocupada, toma suco verde e cerveja artesanal, assina a Folha nos fins-de-semana, lê o Guardian, o New York Times e a New Yorker na internet. Faz compras na Amazon, fala francês, não acha que a vida é curta para aprender alemão, ainda tem sonho brilhando nos olhos. Faz curso de culinária, corta o glúten sem radicalismo, sai com as amigas sem marido, volta pra casa e trepa. Lê Paulo Scott, Daniel Galera, Karl Ove Knausgard, David Foster Wallace e também os feeds dos grupos das Mães do Facebook. Curte todas as Fotos de Neném, fica por dentro dos gêmeos da Luana Piovanni na Contigo do salão onde faz a unha. Segue a NASA, a Beyoncé, o Freixo e Os Gêmeos no Instagram. Se veste nas multimarcas, usa filtro solar seco com cor, compra anti-rugas, removedor de maquiagem e algodão em disco toda vez que viaja para o exterior. Tem uma veia artística e aprende a ser dona de casa na marra. Faz feirinha orgânica online, ensina a diarista a cozinhar farinhas alternativas, é boa no fogão e em receber amigos. Fez parto humanizado, deu banho no balde, está em campanha por melhor alimentação das crianças na creche.

É recém-separada com filho, cresceu com toda a ladainha do homem que abandona, e agora tá na sua vez de mostrar pro mundo que a vida é possível. A concorrência chega a incomodar que nem criança chorando, mas sabe que no domingo as outras têm os mesmos medos que a Mulher. Se pá estão tentando ser mãe, sonhando com uma casa como essa de decoração clean berlinense, acessórios comprados em L.A, cortinas de linho e objetos regionais coletados em viagens. Começou a terapia cedo, seu auto-conhecimento faz com que vez ou outra se meta no auto-conhecimento alheio, indica terapeutas para as amigas, pro namorado, propõe terapia de casal ao marido. Conhece um bom osteopata, tem contato de um acupunturista milagroso e uma massagista que gostaria que fosse regular.

Desmarca com frequência consultas, com exceção da do médico que combina nutrição, ortomolecular, terapia corporal e treinamento funcional. Leva a pastinha pra casa mas não dá conta de seguir à risca. É casada, não sonhava vestir de noiva, mas aprendeu que a vida é feita para celebrar. Aprendeu a fazer casamento casando sem grandes empresas, sabe que brigadeiro branco com pistache é tendência e que naked cake com frutas vermelhas vem basicamente sem frutas vermelhas. Usa aliança. Ou ainda vai usar.

Abre o celular para ver as fotos da Mulher De Bem Com O Corpo na capa da Trip. Descobre que filho é o maior companheiro, não compra roupas desde que engravidou, acordou de ressaca pela primeira vez agora que dá de mamar. Se constrangeu com o estranhamento da filha com o filho da amiga, passa pela situação do brinquedo que não se quer dividir, conversa com a filha e o filho da amiga que tem a vez de todo mundo no mundo. Troca telefone de Folguista com a Vizinha-Mãe, combina uma pracinha durante a semana. Vai pro Alfa Bar semanalmente, se deixa levar noite adentro, vai dormir 1 hora antes do filho acordar. Achou que ia ter filho com o ex. Não sabe quem será o pai dos seus filhos agora. Quer aproveitar a separação e dar pra quem não deu. Cansou da solteirice, se pergunta por que só gosta de homem-confuso-artista-sem-dinheiro. Faz a brincadeira do homem-do-mercado-financeiro, mas sabe honestamente que não é o que quer. Aproveitou o carnaval pra beijar mulher.

A Mulher faz as pazes com a mãe quando casa, conta que Alguém vai ganhar um neto, combina de sairem pra comprar coisinhas pra casa. Entende a mãe. Briga com a mãe. Pede para não se meter tanto na sua vida. Preocupa a mãe com a sua nova fase. Seu Filho tá na fase do não, e irrita a Mulher quando tenta lhe bater e diz que quer morar com o pai.

Compara o marido com os maridos das amigas, fica aliviada de ver que o seu é melhor que o Dela. Pensa que já foi Ela, que sabe como é ter um marido sem trabalho. Sugere que o marido comece a fazer exercício físico, pela saúde, e para não acabar gordo como o Fulano. Reclama do supermercado feito errado, mas gosta de poder dizer que só quando faz as compras é que dá certo. Sai do banho de lingerie nova, esconde as sacolas de roupa no armário, decide que hoje vai tomar a iniciativa, ele tá sempre Pronto. Imagina que Fulana toma iniciativas. Surpreende falando sacanagem, estão nessa fase. De propor e descobrir. Não é mãe ainda. Sofre pressão das amigas mães para ser mãe, parou de sofrer pressão das amigas mães para ser mãe, está sob o olhar das amigas mães. As amigas mães estão voltando a trabalhar e lidar com a Mulher e as Mulheres, inclusive Ela Mesma. A Mulher descobre que a vida é assim e conquistar os 15 mil por mês.

Virei Mulher.

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Foto da fotógrafa Sally Mann, na série At Twelve




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CLARA CAVOUR
Documentarista e colunista do ORNITORRINCO


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A EPIDEMIA DE PAUDESELFIE QUE ASSOLOU #GRATIDÃO E #VIDALOKA



A Charlatã entendeu que era hora de sair do mar no intervalo depois de 2 ondas consideravelmente grandes àquela visibilidade e de possivelmente 6 minutos sem tocar o pé no fundo, fazendo com que tivesse que se exercitar para se manter depois da arrebentação e evitar o que se quer evitar quando se entra no mar. Do lado direito de quem olha da beira d'água para o calçadão, as silhuetas são maiores numericamente, configurando Badalação. A mesa de som envolvida por luzes pisca-pisca confirma a presença de Agito, uma voz marota comemora o suor as línguas os trajes e a noite que se estabelece. A festa está só começando no stand do Check-In dos Artistas de Praia, mas a Charlatã está de saída. 

Na fila de subida da rampa, ela deseja que tivesse qualquer instrumento para limpar a areia e enfrentar a Rua, uma fêmea sem pé nem cabeça, fruto do cruzamento de espécies variadas, trazidas pelo mar por quatro centenas de anos do calendário de Outrora, em que os anos eram longos e 100 anos eram 100 anos. 

Na esteira rolante da orla, vê-se candidatos às estatísticas de morte por Paudeselfie, outros a B.O e um grupo ainda maior tendendo às estatísticas dos Jogos de Azar, tais como (i) Roubo, (ii) Álcool e (iii) Flerte. As duas últimas categorias abrangendo a maior parte da população, independente de classificações relativas à companhia telefônica de que são clientes e da prática ou não do Débito Automático. 


O comportamento perótizado explana a essência cabofriense ocultada pelo Processo de Emergência dos Últimos Tempos. No entanto, a recente epidemia de Paudeselfie fez com que segmentos da sociedade reivindicassem as raízes comuns e o conceito subliminar de união contido no nome original do País Tropical, utilizado antes dos Contratos Extra-Terrestres E Além-Mar agora vigentes.


A Charlatã, que teve a sorte de obter uma vaga no Grupo de Sensibilidade Apurada Para Uso Lúcido, tendo escapado do grupo das Almas Sensíveis Que Piraram, segue seu rumo rumo à área-repartida-em-subsídios-por-estar-sujeita-a-Maresia. Lá, a bandeira local traz a inscrição #Gratidão, numa clara oposição aos setores oriundos da Região Rica em Melanina, cuja flâmula estampa a licença-poética-por-apropriação-de-sentimento: #VidaLoka. 


P.S: A Charlatã faz um apelo ao leitor por Relevância, lembrando que hoje é domingo, dia universal da Abstração dos Fatos. 

Ilustração: Sara Andreasson


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O VERÃO INFINITO BRASILEIRO DE DAVID FOSTER WALLACE




Estou na página 126 de Graça Infinita, o recém-chegado título brasileiro de Infinite Jest, de David Foster Wallace, um tijolão de erudição futurista com 1.136 páginas, concluído, porém, nos velhos anos 90, em 1996, especificamente.

Se você jogar Infinite Jest na Wikipedia, você vai ver que as tentativas de enquadrar a obra em algum lugar são muitas: pós-modernista, metamodernista, realismo histérico, novela enciclopédica. A revista Time o colocou entre os 100 melhores livros escritos na língua inglesa desde 1923, o The Guardian falou da "concentração cósmica" necessária para a leitura, e, se você tentar comprar o exemplar americano na Amazon, vai ler no review que se trata de uma obra-prima super-hypada, de narrativas barrocas, erguidas nos detalhes e no exagero, com uma infinidade de referências da cultura americana e além.

DFW se matou em 2008, a depressão o perseguiu muito em vida. No ano seguinte, numa espécie de homenagem póstuma, Matthew Baldwin, criou o blog Infinite Summer, que propunha ao mundo a leitura coletiva do livro durante o verão daquele ano, uma média de 80 páginas por semana. A maratona tinha comentaristas para guiar o leitor e o espaço se tornou uma rede de troca de informaçōes e de ajuda mútua, na batalha para dominar o touro e dar conta do desafio proposto a cada parágrafo por Foster Wallace. Uma certa terapia de grupo para lidar com as sensações de amor e ódio, conquista e impotência, de descoberta e um 'sabe-nada-inocente' que o texto é capaz de gerar.

O esgarçamento de tudo (que é a forma como o livro opera, em inumeráveis camadas e, de fato, centenas de notas de rodapé) faz com que seja necessário parar e reler, e às vezes não entender mesmo. É parte do jogo perceber que DFW não tem limites. Pior, por mais redundante que seja, perceber que o cérebro dele não tem limites. Inteligentíssimo, filósofo, matemático, professor de Inglês e de Literatura, tenista. Sim, trata-se de um gênio. Que de tão gênio pode ser um mala tinhoso aqui ou ali.

E ele sabe abusar do adolescente sagaz que tem dentro de si. Sua escrita ganha a personalidade do personagem (e são muitos), suas soluções são irônicas, subversivas, equacionadas. Consegue ter, na palavra, o vocabulário e o ritmo da engrenagem corporativa, que tomou conta do tempo faz tempo - os anos em Graça Infinita são todos "subsidiados" por marcas, e a maior parte do livro se passa no Ano da Fralda Geriátrica Depend.

DFW adora o som das siglas, esse carimbo que institucionaliza e agrega poder às estranhas manias da gente, no caso, dos americanos. Desde as agremiações juniors de esportes, como a Enfield Tennis Academy, a ETA (DFW era um apaixonado, leia o ensaio Federer como experiência religiosa, do livro Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo), à Associação dos Cadeirantes Assassinos (AFR, na sigla em Francês), passando pelos Serviços Sem Especificidade, Foster Wallace gosta de explanar o que está subdito. E ele também gosta de inventar palavras (como essa que me veio para falar das coisas de compreensão latente), principalmente advérbios e nomes maiúsculos para funções de personagens, como a Artista de Apropriação, por se apropriar desse jeito mesmo que você está pensando.



Essas poucas pistas aqui não são nada perto da piada literalmente infinita que DFW faz sobre o Entretenimento, também maiúsculo. Não há como dizer mais sobre o livro, nem me arrisco, ainda me faltam mil páginas. Mas sugiro que você se junte ao Verão Infinito brasileiro, capitaneado por Felipe Cordeiro, do site Posfácio.

Se você está chegando desavisado ao navio de DFW, não se assuste, espere o caldo passar e siga na onda. Graça Infinita é bem diferente dos ensaios do autor, que fizeram me apaixonar por este americano do meio-oeste, com cara de vocalista de banda de rock de Seattle, adepto da bandana e suicida. É bom começar por eles. Mas se for para pegar carona no cruzeiro da leitura coletiva do verão, se joga no tijolão para dividir experiências alucinógenas com outras pessoas.

PS: Há, ainda, um livro a se voltar depois da leitura de Graça Infinita que é o diário de viagem de David Lipsky com DFW. Lipsky era repórter da revista Rolling Stone e foi mandado para acompanhar a turnê de lançamento de Infinite Jest nos EUA com a missão de escrever um perfil do autor. Tá tudo lá em Although of course you end up becoming yourself. 


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TOP 10 DO VERÃO 2015



10 dicas básicas para a estação mais bombada do ano:

1) Ande com garrafinha d'água, é de graça e você não esquece de se hidratar.

2) Tenha sempre trajes de banho à mão.

3) Invente razões, troque os turnos, mas se libere do trabalho antes das 19h para mergulhar no Melhor horário.

4) As hamburguerias vão bombar no pós-praia, no pós-pré-carnaval, na pré-night, mas nenhum hambúrguer é melhor do que o seu, acredite. A receita é 80% carne, 20% gordura, qualquer livro do Jamie Oliver tem. E vale amêndoa triturada para dar uma liga saudável.

5) Você também já aprendeu que a sua granola é melhor do que qualquer Jasmine. O caminho é as Casas Pedro e o segredo são as sementes e as berries. Aliás, as passas já deviam ter sido substituídas oficialmente pelos cranberries.

6) Libere o isopor na praia. Gelo, vinho branco e comidinhas. Tenha a manha, seja farofeiro.

7) Desista do Facebook.

8) Faça leitura coletiva de David Foster Wallace. Procure saber: #verãoinfinito.

9) Ocupe. Ocupe os espaços. A rua é sua, e dentro de casa o calor tá de matar.

10) Faça topless sem fazer barulho.



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VEM AÍ O INACREDITÁVEL 2015



Todos os anos são loucos. Dizem que 2013 foi um pouco mais e que 2014 virou catarse. Mas quem tá preparado para 15 anos dos anos 2000? Quinze anos da virada do milênio, do mitificado ano 2000. Quinze anos de amigos de faculdade, uma referência que só se tinha com amigos do berçário. Quase 15 anos do 11 de Setembro, o dia em que o século XX acabou. Quinze anos passados do nosso primeiro celular, das primeiras teias da nossa rede gigante.

Quinze anos dos 500 anos do Brasil, da eleição do Bush filho, do último blockbuster que a gente viu. De lá pra cá, os blockbusters se multiplicaram toda semana, a câmera de 10 megapixels revelou pouco, o HD de 500 megabites ficou pequeno e o iPod perdeu sua função. Em 2000, quem fazia 15 anos era o Rock in Rio Brasil. O que eu chamava de rock: hoje eu chamo de pop. E o sertanejo e o funk são, sim, a música popular brasileira.

Os DVDs da estante eu não tenho mais onde ver. Como vou guardar a cultura pop da minha época para as gerações futuras se ela não se põe na estante, na vitrola, no microsystem? Se ela não tem capa, peso, tamanho? Tá tudo na nuvem, nada é nosso e é tudo de todo mundo, baixa aki.

Quinze anos e a gente era bom no futebol, 7 a 1 era resultado de videogame e o Maraca era nosso.

Quinze anos e nós temos os 30 e os 40 anos. E o imagina como vai ser é agora. E tudo menos importa que a sua casa, a família e ser feliz. Porque se 15 anos passam depressa, 20 e 30 também.

2015 é muito. É olhar para o quanto a gente já andou e o quanto a gente ergueu e destruiu coisas belas. O quanto somos cobaias do universo. Ser humano é ser cobaia. O futuro é melhor não imaginar porque seremos mesmo os Jetsons.


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LIFE: A OBRA DE DAVID ATTENBOROUGH



David Attenborough é uma joia da coroa inglesa e daqui de casa. E não é só pela voz que de ninar nos documentários da BBC e que me levam para o setor inteligente da TV. Attenborough é apresentador das séries Life e Earth e de todos os programas que tratam de História Natural na rede pública britânica, mas mais do que isso, ele revolucionou a observação do planeta para nós, seres humanos mortais.

No início era Darwin e Galápagos. Depois, a Enciclopédia Britânica. Agora faz tempo que é Attenborough. Mais precisamente 62 anos, como mostra o documentário "David Attenborough - 60 years in the wild", dividido em 3 episódios.

O velhinho – hoje ele tem 88 anos – deu um presente para a humanidade ao democratizar o estudo da natureza. Com ele, pudemos observar plantas, animais, rituais de acasalamento, cadeias alimentares, a perfeição desse globo azul e o poder da vida como nunca. Obrigada, Attenborough.




Explorador, foi com uma equipe a missões nunca antes realizadas. E se no início de sua empreitada na TV, nos anos 50, ele usou técnicas artesanais de animação para mostrar o que ainda não havia sido mostrado na TV – a vida dos dinossauros, por exemplo –, Attenborough fez muito pela evolução técnica na filmagem de documentários sobre a natureza. Graças ao seu trabalho junto de cientistas, ele trouxe para o mundo do entretenimento o aparato científico que nos possibilita hoje acompanhar a vida em muitas de suas formas.

Câmeras de segurança, de laboratório, submarinas, térmicas, trilhos que se movem na mesma velocidade que o ciclo de uma planta durante o ano; microcâmeras quase que operadas por formigas; steadicam no helicóptero.  E aí, respeitável público, adentramos reinos de abelhas, comunidades de morcegos, o impacto da primavera nas flores; assistimos a manadas de cavalos atravessando rios, animais em êxodo, baleias gigantes atiçando nossos olhos e sonhos infantis.

Junto com ele, Attenborough foi agregando um exército de homens apaixonados. São cinegrafistas embasbacados pelo mundo natural – que a gente teima em tratar como se fosse outro mundo, mesmo existindo só esse – e que não deixaram apagar o espírito desbravador da criança. Eles se metem sozinhos em barracas no gelo, sob temperaturas indizíveis, para filmar uma espécie de leopardo da neve. Sem saber quando que ele vai aparecer.

Num dos episódios da série, em comemoração dos 60 anos de David no comando de tudo que há de mais bonito na BBC, um cinegrafista se filma, numa barraca, depois de semanas sem sorte à espera do bicho: "Se eu acho chato ficar aqui? É claro que eu acho". Gargalhadas para as chatices que vêm junto com a pessoa amada.

Se Darwin está nas notas da libra – como gosta de me lembrar Estevão Casé –, Attenborough terá tido um papel fundamental, digno de likes, medalhas, camisetas, busto, nomes de avenidas e praças, na disseminação da teoria evolucionista do compatriota que revolucionou o mundo. E que alguns americanos gostam de rebater.

Madrugada, fim do programa, rodam os comerciais. A campanha "absolutely British" do canal reafirma aonde estamos. Na sequência, uma série sobre como vive a família que se isolou do mundo numa área remota da Nova Zelândia e agora depende da sua relação com a natureza para sobreviver. Só eles?


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ESCREVA UMA SENTENÇA VERDADEIRA E SIMPLES


"Escreva uma sentença verdadeira e simples". Era o que Ernest Hemingway dizia para si quando sentava para escrever. Quem escreve sabe que começar é difícil. Na verdade, quem começa qualquer coisa sabe que é difícil. Nas manhãs que passava no Closerie de Lilas, restaurante onde gostava de sentar para trabalhar quando morou em Paris, nos anos 20, Hemingway se propunha a escrever uma história sobre cada coisa que soubesse. Não que tenha completado o feito – me parece impossível saber quais são todas as coisas que se sabe. Mas em "A moveable feast" (ou "Paris é uma festa", na tradução em português), ele conta algumas: a especialização em avalanches, por exemplo. E faz com que o leitor exercite olhar para a própria vida e para o mundo.

Todo acontecimento carrega história para ser escrita. E estar fora de casa ajuda a enxergar os fatos com deslumbramento necessário. Talvez por isso Hemingway tenha se mudado tantas vezes ao longo da vida: para deslumbrar-se. Esses dias na França, de onde escrevo, recebi uma mensagem de uma amiga que dizia estar de saída para uma ilha em Marseille, a cidade onde ela está, em companhia de amigos que iriam pescar. Me comoveu pensar que:

1 - tem quem pesque;
2 - é possível, em 2014, ir a uma ilha pescar;
3 - em um canto do mundo, mais precisamente no mar Mediterrâneo, numa quarta-feira, tem quem saia para pescar o jantar.

Achei que eu deveria colecionar feitos como esse.

Ou como o impacto de andar de bicicleta na madrugada em Paris: ver as pedras da arquitetura da cidade saltarem sob a iluminação amarela, o fundo preto e o silêncio da falta de gente é algo que deve ser vivido. Bem como reparar o tempo impresso nessas paredes e nas escadas de madeira.

A experiência da comida, aqui, funciona para mim como outro catalisador de comoção. O ritual entrada, prato e sobremesa, o delírio dos franceses com a farinha, o leite e o açúcar, a figura do açougueiro e o respeito à carne são imponentes. Se nutrir, de todas as formas, até mesmo com o cigarro, que tem na França um bastião, é o savoir-faire deles. E o atrevimento do savoir-vivre: saber viver.

Apesar do apetite voraz e da paixão por comida, Hemingway dizia que só se escreve com fome. E talvez ele tenha razão. Ele tinha certeza de que as pinturas de Cézanne, Manet e Monet que via diariamente no Jardim de Luxemburgo eram obras de barrigas vazias, prática de que fez uso, às vezes sem escolha, depois que abandonou o jornalismo para se dedicar a escrever o que desse na telha. O café com leite, a manhã fria no Closerie de Lilás e sorte, que ele trazia num pé de coelho guardado no bolso da calça, era o que bastava para sentar e, se tudo fluísse como deveria ser, escrever.

Ele conta que certa vez, durante o ritual matinal, um desgraçado o interrompeu logo antes de começar a por tinta no papel: "Hem, você está tentando escrever?". E assim ia embora qualquer expectativa de trabalho naquele dia. 

Para além da concentração, a escrita é um estado de espírito. Escrever o melhor que você conseguir é também estar no seu melhor. Não se escreve de mau-humor. E os franceses têm um remédio para ativar o deslumbramento, diminuir o mau-humor que lhes é endêmico e inflar o tempo, um elixir que é um verbo: flanar. Andar sem rumo, ver a vida acontecer e fazer dela histórias.


Clara Cavour é documentarista e colunista do ORNITORRINCO.
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POR QUE CASAR?





Mundo, 2014, tempo suficiente para desacreditar de vez no amor, 7 bilhões de pessoas, 1.749 amigos no Facebook, amigos recém-separados com filhos. Por que casar? Na história, casamento é a união de duas pessoas com o intuito de formar família, seja por vontade própria ou dos pais dos noivos, seja por amor, seja por interesses outros. Foi assim, assim será e não vamos estar aqui para saber se isso vai mudar: se o ser humano vai deixar de querer ser dois, ser mais de dois, se sexo e amor não vão ter nenhuma relação e se alguma família restará. Turbulências no planeta, salve-se quem puder e para muita gente é mais fácil se salvar sozinho. Casar é ter coragem de desejar junto.

Estou me casando. No gerúndio, porque casar é um rito de passagem que dura. Começa com a decisão de se casar, que já traz muita coisa. Traz energia renovada para a relação e tranquilidade para o que, quem sabe, você imaginou que seria quando crescesse – uma casa. Também traz medo. Só casa quem tem coragem. Reunir amigos e duas famílias para dizer "Estamos juntos" é muita coisa. É estar de peito aberto, cara lavada, nu. Uma escolha que determina o futuro, mesmo que próximo, independente do tempo que dure. Traz medo, justamente por talvez estar construindo o que você imaginou que seria quando crescesse – uma casa. Ter filhos, eu acho que é um passo além, mas o casamento também traz, historicamente, esse passo embutido. O projeto de casar, ter filhos, envelhecer, esse é o modelo que o ocidente nos ensinou para dar sentido à existência e sequência na vida.

Casar é firmar um compromisso com outra pessoa. Casar é topar decidir junto. Assinar um papel, nada romântico, a confirmação burocrática que te mostra mais uma vez que, bicho, você é adulto e é responsável pelas escolhas que faz.

Casar envolve muita gente. Overdose de família te lembrando quem você é. Olhar para tudo isso – e isso tudo é muita coisa – e estar próximo de quem te acompanhou a vida inteira, mesmo quando você não sabia que estava sendo acompanhado. São os avós, os tios, os pais que um dia são informados de que você vai casar. Casar é ver as pessoas lidando com essa informação. É se ver nessa situação e conciliar com o que cada um imagina.

Casar é ser o centro das atenções. É cumprimentar absolutamente todas as pessoas da festa, recebendo parabéns pela sua felicidade, tirar um zilhão de fotos.

Casar é falar na frente de todo mundo, e chorar na frente de todo mundo. Casar é muita intimidade.

Casar é um ritual, é um teatro, é colocar uma aliança. Casar é estar bonita. É receber de taças, potes, talheres, uma noite de presente.


Casar é enfeitar uma casa e fazer muitos doces. É açúcar.

Casar é uma loucura. Não fosse a reunião de todas as pessoas que se ama para viver junto essa onda.

Casar é uma viagem. No tempo e no espaço.



Clara Cavour é documentarista e colunista do ORNITORRINCO.

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BOEING 777 MALAYSIA AIRLINES


A história do mundo se constrói todo dia por todos nós, atores. E as guerras são recursos que, acionados, fazem esse roteiro seguir, contribuindo com turning points para a narrativa, criando heróis e ciclos, escolhendo os protagonistas dos próximos capítulos. Ler a história do tempo presente enquanto ficção, enredo da nossa existência na Terra, é só o que nos é possível e eu espero chegar a essa conclusão ao fim desse texto.


Argumento

Nas últimas 48 horas, o mundo está passando por uma reviravolta. Um míssil antiaéreo é disparado pouco depois das 2 da tarde e tem como alvo um avião que está a 10 mil metros de altitude e a 900 km por hora. A mira é uma aeronave militar que adentra o espaço aéreo no leste da Ucrânia, zona de conflito entre Kiev e Moscou, patrocinador de rebeldes separatistas que pedem a anexação da região da Criméia ao território russo. Nas horas que se sucedem ao incidente, a CNN anuncia que o avião era, na realidade, um avião civil: um Boeing 777 da Malaysia Airlines, a mesma companhia que teve uma aeronave desaparecida em março de 2014 com 238 passageiros a bordo. O voo MH17, que ia de Amsterdã para Kuala Lumpur e teve fim em solo ucraniano, carregava 295 pessoas, entre elas 108 pesquisadores da Aids, a epidemia que desde 1981 matou 33 milhões de pessoas no mundo. Com o respaldo dos Estados Unidos, a Ucrânia se torna o epicentro da Parte II da Guerra Fria.


Episódio 1

17 de julho de 2014. O repórter da CNN Anderson Cooper entra no ar para uma breaking news: oficiais militares americanos afirmam que o avião da Malaysia Airlines foi abatido. Baseados em imagens não divulgadas de um radar americano que mostra o rastro de um míssil seguido de um sinal de calor e o sumiço do voo MH17, os americanos acusam a Rússia, que tem fronteiras a 50 km do local da queda, de fornecer o sistema antimíssil a combatentes ucranianos.

Em um telefonema para o colega ucraniano, Petro Poroshenko, o presidente americano, Barack  Obama, oferece o apoio de seu país. A ligação dura 30 minutos e é fotografada pela assessoria de comunicação da Casa Branca, que envia nota de comprometimento do envio de funcionários do National Transportation Safety Board (NTSB) a Kiev em regime de urgência. Passaram-se apenas 15 horas desde a queda. As investigações começam no local, que está tomado por jornalistas, curiosos, cinegrafistas amadores. Enviados ao campo verde onde agora pesa uma tragédia, os repórteres denunciam o descaso de autoridades ucranianas, que não isolaram a área. Vídeos no YouTube mostram corpos, engrenagens, objetos pessoais e passaportes. Sophie Charlotte, nascida em 2001, é um deles.


Episódio 2

18 de julho de 2014, Kiev. O ministério da Defesa da Ucrânia lança uma nota em que responsabiliza rebeldes separatistas pelo o que o governo chama de “ataque terrorista”. No texto, a Defesa ucraniana diz acreditar se tratar de um sistema antiaéreo conhecido como Buk. Desenvolvido na União Soviética na década de 70, o Buk é uma arma complexa, composta por três veículos: dois deles transportam, cada um, quatro mísseis de cinco metros de comprimento e o terceiro conta com uma cabine de comando e uma radar.

Diretor de Projeto de Defesa e Inteligência da Universidade de Harvard, o militar aposentado Kevin Ryan, é consultado ao longo do dia por diversas redes de notícias. O especialista, um veterano polêmico, afastado do cargo na organização Underwriters Laboratories por fazer afirmações incriminadoras sobre as vigas de aço usadas na construção do World Trade Center, confirma, de sua sala de paredes condecoradas em Harvard, que os mísseis disparados pelo Buk são mais do que capazes de derrubar um Boeing, a ponto de não precisarem atingir o alvo. Basta que sua ogiva, com 70 quilos de explosivos, seja detonada nas proximidades da aeronave para que a tripulação não note a ameaça até o momento do impacto. No entanto, tamanha operação não poderia ser orquestrada por combatentes, muito menos por apenas um, como a CNN sugeriu, enquanto escrevo. É necessário ser um exército para ostentar medalhas como um sistema de mísseis anteaéreos.

Na ONU, o Conselho de Segurança se encontra reunido em caráter de emergência ao final do dia. Os EUA acusam o presidente russo, Vladimir Putin, de ter suas mãos sujas de sangue – metáfora frequente entre chefes de Estados.

Enquanto o Ocidente à paisana tenta dormir, o Rio de Janeiro tem um pesadelo coletivo e Israel segue na sua incursão por terra à Faixa de Gaza, o local onde o Boeing 777 da Malaysia Airlines se encontra é alvo, agora, de saques. Funcionários de equipes de resgate são vistos fazendo selfies ao lado de todo tipo de destroço. A denúncia é feita por jornalistas da Austrália, país que é sede da conferência internacional sobre a Aids este ano.


Episódio 3

18 de julho de 2014. A Rússia exige provas. Vice-ministro da Defesa da Rússia, Anatoly Antonov – um homem de 1,90 metros de altura, nascido em 1955 no Omsk, na extinta URSS, cobra evidências de Kiev e do mundo, que se encontra reunido em Manhattan.

Quem também cobra ação são os filhos de Joep Lange, um dos maiores especialistas em Aids no mundo. Pai de cinco filhos, Lange estava a bordo do MH17 com a mulher. Fundador da "PharmAccess Foundation", uma organização sem fins lucrativos que busca a quebra de patentes e o acesso a medicamentos por pacientes soropositivos em países em desenvolvimento, Lange se foi junto com 107 outros cientistas, numa explosão que durou 40 segundos, segundo especialistas em armas de guerra ouvidos nas horas seguintes ao fato.

Rapidamente, em fóruns de discussão na internet, um outro nome ligado a Aids voltou a aparecer. Robert Gallo, o homem que em 1984, o ano que George Orwell antecipou, anunciou a descoberta do vírus que ele chamou de HIV e patenteou o teste para identificá-lo.

As patentes são o ponto em comum entre os dois incidentes envolvendo aviões da Malaysia Airlines nos sites de teorias conspiratórias no vasto pasto da internet. O desaparecimento dos quatro outros membros da patente de um microchip no voo MH370, em março deste ano, fez de Jacob Rothschild o único dono. Conhecido como IV Barão Rothschild, Jacob é membro da família Rothschild de banqueiros. Com origem em Hamburgo, na Alemanha, a família judia estabeleceu uma dinastia bancária na Europa e ganhou o título de maior fortuna privada do mundo no século XIX.


Fim

A guerra está só começando. Ou está só continuando. Podemos colocar todas essas peças de lado, jogar fora essas imagens e esses predicados na lixeira digital onde os anos 2000 estão sendo arquivados. Mesmo que lancemos uma lupa só sobre o microcosmo – a zona de conflito na Criméia, a rivalidade histórica entre a Casa Branca e o Kremlin – o que fica é o papel narrativo desses fetiches para a manutenção do mundo da forma como ele é hoje, infelizmente o único mundo que a gente vai conhecer.

Desvendar a origem do míssil ou o mistério do primeiro avião da Malaysia Airlines não nos revela a verdade do tempo presente. A história é mais complexa, a história feita por seres humanos, é feita de mentiras. A história é ficção.


Clara Cavour é documentarista e colunista do ORNITORRINCO.
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ESTANDO LONGE DO FATO DE ESTAR MEIO QUE PERTO DE TUDO


Estou meio que perto de tudo. Estou na Ásia, estou no dia seguinte. Tenho o francês circulando em mim por amor, estou lendo Allen Ginsberg e achando que ele deu muito de beber a David Foster Wallace, de quem adapto o título deste texto. Estou dormindo quando em casa é dia e, antes de apagar essa luminária de luz branca e de me entregar à cama que revela a umidade de Java, a ilha onde estou – uma sensação de maresia constante em meio à fumaça produzida por 10 milhões de pessoas –, viajo pela América de Ginsberg, pela Downtown Frisco, os neons Johnny Walker, a rádio que dá notícias do Vietnã, o mesmo que vejo aqui nos uniformes bege a la Apocalipse Now.


JAKARTA

Estou perto do avião da Malaysia. Estou no meio de 17 mil ilhas. E elas não são todas. Estou cercada de água e também de motos. São 4 mulheres naquela, duas adultas e duas ainda crianças.

O cenário é cinza. Aqui não é nem velho nem moderno. Uma cidade que não entrega a idade. Mas com um nome que entendo como sendo feminino: Jakarta. Como as cidades invisíveis de Ítalo Calvino.

Estou longe desse fato de estar meio que perto de tudo. Estou também em lugar nenhum – em todo e qualquer tempo. É tudo uma questão de olhar para o calendário e o relógio global do iPhone.

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Isso acontece comigo, e com qualquer um, tenho certeza. 
Querer muito encontrar alguma coisa e encontrar. Ou alguma 
pessoa. Encontrei Agnès Varda nessa temporada depois de 
muito querer. Concluí que qualquer pessoa ou coisa no 
mundo é encontrável, basta movimentar-se.
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Estou perto e longe de todos ao meu redor. E tem um lugar invisível onde as nossas histórias se cruzam: no Bob Marley e no Che Guevara estampados, no paz e amor universal, no avião perdido que estamos acompanhando. No motivo de se estar aqui. Na condição de natural ou de estrangeiro, na de quem recebe ou na de quem paga. No mar.

O mar, que na França é uma palavra feminina. Ver o mundo, sintetizando, é uma questão de onde você nasce. A mar, em português, teria um pouco do cair de amor, que a gente traduz em paixão. Seria bonito. O planeta, sem gênero na língua inglesa, é entendido também como uma pequena mulher por Chris Marker, cineasta, fotógrafo, escritor, acumulador e um gênio em todas essas funções. Morreu em 2012 aos 90 anos, em Paris, e entre tantas coisas, deixou uma coleção de guias alternativos de viagem com impressões subjetivas para além do turismo: "Petite Planète".

Tenho Marker em Jakarta comigo, num exemplar sobre a Grécia. Estava numa caixa de livros por um euro num sebo do Sena. Isso acontece comigo, e com qualquer um, tenho certeza. Querer muito encontrar alguma coisa e encontrar. Ou alguma pessoa. Encontrei Agnès Varda nessa temporada depois de muito querer. Concluí que qualquer pessoa ou coisa no mundo é encontrável, basta movimentar-se.


BALI

Estou em Bali. Um avião da Sriwijaya Airlines me trouxe até aqui na madrugada. Bali não é invisível, como as cidades de Calvino, nem cinza como Jakarta. Bali tem cor. Uma ilha, sem dúvida, feminina, como há de ser uma ilha. Aqui, ela tem tato nas mãos de balinesas massagistas. Elas existem, e em série, fora dos panfletos turísticos. Bali é do turista, essa condição que faz de uma cidade toda e qualquer, e de mim, ninguém e mais um.

Desembarquei no hotel e junto com meus companheiros de viagem (somos três, estamos viajando a trabalho) cumpri o fetiche de chegar à um paraíso tropical e receber massagem. É verdade, é possível tirar as malas das costas e mesmo antes de saber qual será seu quarto pelas próximas noites – um quadrado de luz fria e detalhes verdes na decoração, padronizada numa estética de bem-estar-bambu, na simplicidade contemporânea, na releitura boutique do que seria hoje um albergue da juventude, com exceção da trilha sonora eletrônica que toca em volume desagradável nas caixas de som dos corredores, fugindo à proposta spa, e que te faz pensar em Ibiza, sem mesmo nunca ter pisado lá – receber um tratamento que começa com lavagem de pés, chá, escolha da essência do óleo e segue coreografado por orientais vestidas em quimonos sóbrios. Uma hora e meia a 20 dólares com direito a apagar na sequência.

Casa de massagem em Bali.
As massagens estão anunciadas por todo lugar no centro de Bali, essa mistura de Guarda do Embaú adolescente com o mundo misterioso dos resorts de luxo. É sábado, 10 da noite, estou saindo para jantar com a companheira 1. Na rua, anúncios de comida se confundem com os de pequenos spas e centros de estética. Rapidamente entendemos que ainda é possível, àquela hora do final de semana, fazer uma massagem, mesmo que expressa. Optamos por fazer antes do jantar, estamos mais cansadas do que famintas.

O primeiro salão de beleza – um lugar que pode ser tachado de kitsch, uma espécie de cenário de filme asiático – está com todas as atendentes ocupadas. Uma outra placa está junto à porta de um restaurante e nos faz passar pela piada pronta de perguntar se ainda é possível fazer uma sessão. Recebemos um não escrachado e um cardápio de comidas. Explicamos que precisamos consertar as costas antes de comer e que vamos seguir nossa busca.

Poucos metros à frente, um salão em cores quentes nos recebe, e como de costume, mais através de contato visual, da comunicação gestual e menos pelo pouco inglês que se fala na ilha. Mostramos a que viemos apertando os ombros, o pescoço e a cabeça. E apontamos a opção no menu: 5 dólares e 30 minutos. Vamos nessa. Dessa vez é um homem e uma mulher que nos fazem a coreografia.

Balineses aprendem cedo a fazer massagem. Uma especialidade passada de geração em geração para ajudar na formação do corpo do bebê e no crescimento da criança, nossa tradutora explica. Ela tem certificado de massagista e ouviu ainda criança que tinha talento – uma mão direita pesada e idealmente forte.

Conhecedoras de camadas profundas do corpo humano, e por isso um tanto bruxas, as massagistas daqui são, ainda, um pouco ciganas: nos cercam na praia já pegando nos pés e nos ombros. Na areia, elas têm as mãos mais calejadas.

Restaurante em Jogjakarta
Embarco num voo da Malaysia Airlines e dessa vez os jornais na entrada do avião não estampam o acidente recente, como no primeiro trecho que fiz pela companhia. Chego em Jogjakarta. Jogja quer dizer boa, e karta quer dizer cidade – ensina o taxista. É o colorido mulçumano indonésio que eu ainda não tinha visto. A comida de rua, os mercados debaixo das marquises, as mesas no chão nas barracas de calçada, todas lotadas, oferecendo, em sua maioria, pratos com carne de porco. Passo menos de 48 horas nesta cidade.


SEUL

Acordo em Seul. Paraíso do wi-fi, império da Samsung, capital mundial da cirurgia plástica.

Seul de noite
Seul é o futuro. É o presente. São emoticons ambulantes em meio a uma cultura milenar da disciplina. A piração estética de meninas que desfilam o estilo mangá convivendo com o significado de cool, com o novo Soho, o contemporâneo de roupas bem-passadas de mulheres e homems estampando rostos auto-confiantes e bem sucedidos. O Kpop do sucesso Gangam Style e a música tradicional dos instrumentos desconhecidos do Ocidente. A primavera despontando nos sorvetes das formas e cores mais bizarras e a sedução da cidade que te pega pela boca, na comida pura, de ensinamento budista, originalmente servida aos reis.

Estou na beira do rio que divide a cidade, o sol está se pondo. Penso se é a primeira vez que vejo um pôr-do-sol no Oriente.


DALLAS

Treze horas e estou no Texas, onde faço escala, de volta ao dia 27 de março de 2014 que deixei em Seul. Chego antes do horário que parti. É como ganhar um dia na vida. Ou aceitar que o tempo, da forma como o contabilizamos é algo restrito. Que o tempo, enquanto espaço, é maior. Se é que isso não é uma asneira científica que estou cometendo agora. Estou longe do fato de estar meio que perto de tudo.


Clara Cavour é documentarista.
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*Todas as fotos: Clara Cavour
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AMERICANOS GOSTAM DE ENTERRAR COISAS


Tenho vivido muito a cultura americana desde que decidi que deveria assistir as suas séries de TV. Para além da imersão na França, com dedicadas aulas de francês, para além da rendição aos ingleses, pelos programas de culinária da BBC, agora são os americanos que me saltam aos olhos como estudo do ser humano, como entendimento do que está aí no tempo presente. E isso não é novidade no mundo desde 1945.

De tudo isso, comecei a prestar atenção na redundância da fórmula, que pode ser resumida no clichê “american way of life”. E, talvez, essa abundância de séries americanas de agora, seja, além de uma percepção de mercado, uma releitura do que chamávamos de enlatados nos anos 90. Algumas com qualidade incrivelmente superiores, roteiristas primorosos e cineastas gigantes (aqui uma ressalva para David Lynch em Twin Peaks, ainda nos anos da TV de tubo), que, vez ou outra, passeiam no mundo da televisão por diversão e para ganhar um dinheiro mais fácil do que em longas-metragens. Mas, como sempre, tem as séries do jogo ganho, daquela trama pipoca que derrapa em falhas de roteiro para dar soluções out of the blue ao enredo. Na minha opinião, é o caso da construção dos episódios de Homeland, por melhor que eles terminem.

Listei então – porque eu gosto de fazer listas – um conjunto de situações repetidas nos últimos seriados a que assisti. House of Cards (com um Kevin Spacey excepcional, a segunda temporada estreia dia 14 de fevereiro); Mad Men (a melhor, e que está me fazendo sofrer de abstinência até abril); Breaking Bad (foi um alívio terminar as 6 temporadas e os sonhos permeados por armas e metanfetaminas); e, agora, Homeland. Acrescento que essa lista foi escrita a partir de observações pessoais, contaminada pelos meus últimos meses passados na companhia da leitura do David Foster Wallace, e dos delírios nas madrugadas frente à TV. Porque tem uma hora que frita.

Aqui vai:

– Americanos gostam de enterrar coisas. Segredos, principalmente.

– Cenas de café da manhã com cereais ou ovos estrelados têm de estar presentes, afinal os personagens tomam café da manhã. Mas tá aí um bom momento para acontecer um desentendimento, uma porta batida, alguém que restou pensativo e solitário.

– A chatice adolescente para gerar conflitos em casa, e normalmente entre os pais, separados ou em crise. Vida real.

– Apresentação de final de ano do balé ou do karatê que o pai faltou.

– O filho mais novo em segundo plano, em decorrência da importância da chatice adolescente do primogênito para o enredo.

– Vícios: álcool, remédios, drogas, poder, dinheiro, mulheres. Tornam a trama mais quente, reveladora de submundos que o espectador não frequenta, gera pena de uma Claire Danes (Homeland) psicótica ou nos faz imaginar o prazer delirante de deitar sobre uma montanha de dinheiro (Breaking Bad).

– Citação militar: Don Draper é Don Draper (Mad Men) depois de renegar sua identidade e abandoná-la nas trincheiras coreanas. A ode aos veteranos, o FBI e a CIA, lembrando em que mundo ameaçado estamos.

– Traição feminina como troco para a vida livre masculina.

– E há sempre uma porta nos fundos para escapar.

– Encontros constrangedores de todo tipo no elevador, essa locação-chave.

– A janela como um recurso de vigilância, doméstica, passional, política.

– As SUVs, aquelas caminhonetes enormes representantes da megalomania americana.

– Uma família e o eterno esforço em cumprir o faz de conta que está condenado ao fracasso.

– A maldade que aumenta e aumenta até que o espectador a julgue patológica, gerando uma confusão de sentimentos em torno do personagem apegado.

– A cama do casal, onde tudo isso se reúne.

Eu sigo assistindo, subtraindo horas de páginas não lidas e somando noites de mergulho na cultura pop, na televisão em que me insiro, na cultura do espetáculo, pensando em Baudrillard e Debord. Tentando acreditar que é uma falácia a prerrogativa de que produções para a internet (e o que é o Netflix?) devem ser curtas porque há muito com o que se distrair e pular na barra que custa a carregar. Estamos vidrados em 47 minutos de episódios, que, frequentemente, são assistidos em sequência. Mérito dos americanos de não nos deixar entediados em 3 horas de suspense, traição, tiroteios e apego, traduzidos em olheiras, se o relógio tiver que despertar no dia seguinte.

Tenho pensado como isso influencia no meu trabalho, que nada tem da sabedoria pop americana. Mas percebi que essas séries me fazem tentar, cada vez mais, apresentar meus vídeos e filmes (e é difícil assumir e saber se o que eu faço é filme) de 12, 17, 40 minutos, para espectadores na rede, que é onde estamos sentados.


Clara Cavour é documentarista.
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VIDEOCLIPES, BRINQUEDOS E SELFIES


Nas últimas semanas, Like a Rolling Stone, de Bob Dylan, e Happy, de Pharrell Williams, revolucionaram o videoclipe. Fizeram dele um brinquedo. Eu, particularmente, não fiquei arrebatada, como alguns amigos meus. Desculpem a heresia de não ter entendido ou mesmo de não conseguir ver a beleza ou a ludicidade desses vídeos – logo eu que faço clipes e que talvez nunca saiba fazer um tão tecnológico.

E antes que eu comece atacando e me desculpando, li comentários que me levaram a uma questão levantada pelo clipe de Bob Dylan que eu, com a minha obsessão pelo nosso novo mundo, veloz e chato, não tinha dado a devida atenção: trata-se também de um clipe sobre a solidão dos nossos tempos. Em meio a três dígitos de canais de TV, estamos sozinhos, on our own, como na canção.

Mas, guardados os méritos de se fazer um clipe interativo ou o maior vídeo da história, com 24 horas de duração, me chama atenção o fato de toda ideia estar contaminada pela ação do marketing. E isso não é novidade. Antes de ser arte, ali é produto. E produtos de arte estão aí desde que arte também é produto.

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Guardados os méritos de se fazer um clipe interativo 
ou o maior vídeo da história, me chama atenção o fato 
de toda ideia estar contaminada pela ação do marketing.
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O que incomodou, eu percebi depois, foi o fato de que mudar de canal no clipe de Dylan e ver apresentadores da ESPN e do Trato Feito cantando sua canção lendária – ou ver pessoas felizes com a mesma música se repetindo 8.640 vezes dia e noite – me fez lembrar de comerciais de filtro solar e de cartões de crédito, antes mesmo da solidão e da felicidade sugeridas nas letras.

Toda ideia, desde a primeira, teve de ser vendida, defendida. Mas a publicidade tornou a venda de ideias ao mesmo tempo que genial (e eu amo Don Drapper), agressiva. E, sabemos, desde que somos conectados, que a publicidade está cada vez mais presente nos nossos dedos, nas nossas telas e nos clipes de Dylan e Pharrell, por exemplo, feitos para a internet.

Nós também, com o tempo, nos apropriamos da publicidade e aprendemos a fazer o que a grande indústria do entretenimento faz com nós mesmos. São muitos os exemplos dessa apropriação, desde a foto que postamos com um texto bem clichê vendendo a vista ou a vida, até o apelo que fazemos nas redes sociais para que nosso trabalho seja visto. O auge dessa apropriação talvez seja o termo selfie, que estou pensando aqui como definir. Tendência, linguagem, narcisismo ou liberdade?

Fato é que todos nós podemos nos vender. E graças a isso também podemos trilhar caminhos profissionais no território livre e maravilhoso da internet, antes impensáveis. Mas o uso da linguagem publicitária, para dar valor às coisas íntimas, autorais, ordinárias ou mesmo consagradas, pode ser pelo menos debatida, já que estamos aqui, nesse mar de possibilidades do século 21.

A princípio, uma obra como Like A Rolling Stone, uma das maiores canções de todos os tempos, não precisa mais ser vendida. Tudo bem, o clipe saiu junto com uma caixa do artista, daí a necessidade da ação de marketing. E a indústria fonográfica, estamos peritos, precisa se reinventar a todo tempo. Talvez Pharrell sim precise ser vendido, e esse seja o jeito de se fazer o novo, de fazer um Thriller em 2013. Ele é o primeiro artista a fazer um clipe de 24 horas na história – inventamos esse recorde – e assim, pôde vender, ao mesmo tempo, uma música, um vídeo, um aplicativo, algumas marcas. Afinal, estamos falando de brinquedos novos, os brinquedos que o futuro em que vivemos pode produzir. É uma tentativa de uma indústria que está trocando as engrenagens enferrujadas por sistemas operacionais digitais. Uma indústria que perdeu o glamour, o segredo da fórmula, o espaço restrito do métier.

Não precisamos mais dela para tocar as estrelas. Temos acesso aos Instagrams pessoais e aos chapas brancas, participamos de suas fofocas no Twitter, sabemos de suas vidas sem precisar comprar a Caras ou a Rolling Stone e, além de tudo, multiplicamos nosso amadorismo – que fazíamos por amor – e o transformamos em estúdios, câmeras, ilhas de edição, profissão.

Um sistema todo na UTI. No entanto, um sistema que traz na sua cartilha a retroalimentação. E, para voltar a Dylan e Pharrel, um sistema que reaprende a vender o que já está vendido, que embala com um plástico novo Like a Rolling Stone e que inaugura a ideia de que um clipe de 24 horas seja algo que faça sentido.

Aí eu faço uma elipse e penso em 2001, Uma Odisséia no Espaço, e me pergunto se existe brinquedo maior que aquele filme. 2 horas e 40 minutos, 1968. Claro que é uma besteira comparar cinema, videoclipe, brinquedos. Mas me veio esse filme. E em arte, estamos falando de Bob Dylan e Stanley Kubrick. Nessa parte deste latifúndio, eles estão bem mais próximos do que na prateleira que o mercado os coloca. E para encerrar, um pensamento pop up: ali, naquela nave, nós, astronautas, matamos Hal, o sistema que tenta nos matar.


Clara Cavour é documentarista.
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ESTAMOS TODOS UNIDOS PELO CHÃO


Eu só sei escrever em emails. É assim que eu começo este texto, numa caixa de mensagem do Gmail porque eu não abro o Word desde a versão 97, a última que eu soube mexer. Por mais que o Windows se chamasse 98. Mas eu me mando muitos emails. Para lembrar de coisas, tipo ligar para fulano. Ou para anotar o que não tem caneta e papel. Foi assim com este texto. Eu escrevi: eu penso muito em aviões. E me mandei essa frase sei lá por quê e pra começar sei lá o quê. Provavelmente porque eu estava pensando em avião, e para começar este texto. Quando eu tinha 12 anos, eu tive um fã-clube dos Paralamas do Sucesso. Em 1995, eu assisti o "Vamos bater lata" na grade do Metropolitan e vi Chico Science abrindo o show. Fiz parte pela primeira vez de um coro que celebrava a maconha e aquilo já era a segunda atitude transgressora da noite. A primeira foi entrar no Metropolitan aos 12 quando a idade mínima era 14. A Nação Zumbi cantava "Macô..." e a plateia completava com "nha!". Os Paralamas entraram no palco, como que saídos do poster do meu quarto, do Disk MTV, e isso me marcou, eu me uni a uma multidão. Talvez tenha sido a primeira vez que fiz parte de uma multidão. O Maracanã foi antes, mas não é show de rock. Fato é que eu tinha 12 anos e o cartaz que eu tinha pendurado em cima da minha cama era dos Paralamas do Sucesso, e no show tinha uma música em que Herbert cantava que "o viajar já é mais que a viagem". Eu adorava isso. Eu adoro estradas e toda vez que estou numa penso nesse verso que é quase gerúndio e que já é a viagem. Eu penso que eu gostaria de estar fora dessa cidade quase todos os dias (como se eu fosse a única) e eu anoto essas coisas que eu penso. Por isso os aviões, os Paralamas, este email e este texto.

Eu já viajei muito sozinha e o maior consolo para as horas que eu não gostaria de estar sozinha, ou na volta pra casa depois do jantar, na rua à noite, em um canto de mundo, era Bob Dylan. "How does it feel to be on your own, with no direction home, like a complete unknown, like a rolling stone". Lagriminha de felicidade embriagada. Nessas aventuras além-mar, nas américas selvagens, na ilha do comandante, na ilha de sobrenome Noronha, eu desenvolvi estratégias, gostos e uma lista de coisas que fazem meu coração bater diferente. Cada um tem o seu bater diferente. Pense nos seus. Mas por exemplo, arrastar mala em outro país faz o meu bater diferente. Procurar um endereço em uma cidade outra também. E achar.

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Vez ou outra, faz bem falar sozinha. É estranho ficar 
muitas horas sem falar, sem ouvir sua própria voz, sem 
saber se você vai conseguir falar de novo se você tentar. 
Numa dessas, pensando muito e falando nada eu tentei 
calcular quantas coisas eu conseguia pensar em 2 minutos.
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Entre as estratégias, descobri que em muitos casos eu podia escolher a vida de quem eu ia ouvir na mesa ao lado. Lembro muito de uma situação em que escolhi mãe e um filho adulto, que parecia ter a minha idade. Só para saber como é. Nos outros.

Eu sempre tenho um caderninho num restaurante. Porque comer e beber sozinha é a parte chata de viajar só. Um caderninho também dá uma camuflada. Você fica mais parecida com as paredes, as pessoas não prestam muito atenção, nem o garçom te pressiona com o olhar (ou a falta de) para você sair fora. Com o caderninho na mão, é deixar a pedra rolar. Em 2009, por exemplo, eu escrevi: "não ser um casal que sai de manhã com roupa de jogging para fazer exercício junto" e outra observação dentro do mesmo tema: "não ser um casal com o Lonely Planet na mão decidindo o que fazer". São coisas que me apavoram um pouco. Talvez menos hoje, confesso. Talvez sob outra ótica hoje, confesso.

Mas a "onda do sorvete de chá verde do lado direito da boca" também está lá, naquelas páginas de 2009. Eu fiquei viciada em sorvete de chá verde, que tem nos cardápios de restaurantes de comida asiática. Depois descobri a versão Haagen-dazs, que você pode comer independente de sentar para um curry, em pleno meio de tarde. Oh!

Eu tinha acabado de ver uma caixa de filmes do Kar Wai e estava deslumbrada com a fotografia do Christopher Doyle, com os currys, com os patos enquanto prato, o arroz perfumado, e tinha duas vontades segundo meu caderno: "filmar uma cozinha saturada" e "filmar uma cozinha dessaturada." Nunca fiz promessa, mas parece que nesse dia fiz, porque está anotado, em modo random. Mas eu não vou contar.

Vez ou outra, faz bem falar sozinha. É estranho ficar muitas horas sem falar, sem ouvir sua própria voz, sem saber se você vai conseguir falar de novo se você tentar. Numa dessas, pensando muito e falando nada eu tentei calcular quantas coisas eu conseguia pensar em 2 minutos. Foram muitas. Mas eu não sei dizer quantas. Porque um pensamento leva a outro e você não sabe se aquilo foi uma coisa que você pensou ou não. E a conclusão que eu cheguei foi que se eu tivesse nascido com talento para dormir eu também teria talento para não comer. Uma analogia aparentemente sem sentido, mas se a gente for procurar trata-se de ansiedade. Ponto.

Mas há todo um mundo lá fora dessa mesa, desse caderno, desses ouvidos abertos, desse mergulho nas águas de si e conhecer pessoas é genial. Conhecer pessoas árabes é genial. Eu adoro ouvir histórias de um mundo que mistura mil e uma noites com a pauta do conselho de segurança da ONU. Mas independente do fetiche árabe, conhecer gente e conhecer gente sem trocar um guardanapo com telefone, adicionar no facebook ou mandar um sms com emails mútuos eu considero uma fração de beleza. Conhecer alguém, trocar meia dúzia de palavras ou de horas, e não saber se seremos dois seres humanos a se esbararrem de novo na Terra! A probabilidade é mínima, claro. E não vou fazer essa conta porque pode incluir variantes como estarmos ou não na mesma cidade, o que aumenta bastante as chances. Ainda assim serão poucas.

Eu coleciono rostos, com fotos ou sem, que eu cruzei desde a primeira vez que eu viajei sem meus pais. Foi também a primeira vez que eu peguei um avião e que eu tive um passaporte. Eu tinha 15 anos e descobri que o mundo acontecia simultaneamente à São Clemente, e que era bilhões de vezes maior que os trajetos que eu fazia nos circulares e no 522, que não era circular mas me trazia de volta pra casa. Não sei por onde andam esses rostos. Onde estão neste exato momento, com o quê estão trabalhando, se estão satisfeitos. Se acordam cedo amanhã, se alguma vez pensaram em mim. É honesto. Esse encontro que é quase um esbarrão na multidão do acaso. Estamos todos unidos pelo chão.


Clara Cavour é documentarista.
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