Mostrando postagens com marcador Domingos Guimaraens. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Domingos Guimaraens. Mostrar todas as postagens

A POÉTICA PATÉTICA DAS MANIFESTAÇÕES




Nesse 15 de março de 2015, 200 mil pessoas tomaram as ruas, mais de 1 milhão de pessoas estavam nas ruas, 7 bilhões caminharam pela avenida Paulista. Além dessa guerra de números o noticiário do dia foi tomado por uma ostensiva cobertura das manifestações contra o governo, contra a corrupção e, em muitos casos, a favor da volta da ditadura militar. Assisti boa parte disso através da televisão e da internet, sempre sem som, atento apenas às imagens. Fiquei de olho nos cartazes, nas mensagens. Sua poética patética me deixou desesperançoso.

Sempre que penso em manifestações populares é inevitável voltar ao maio de 68 na França, quando os estudantes ocuparam as ruas de Paris exigindo muita coisa. Além da importância do movimento diante do cenário político francês sempre me chamou a atenção a potência do uso das palavras que marcaram os muros daquele mês. “Ouse pensar, ouse falar, ouse agir”, “L’imagination au povoir”, “É proibido proibir”, “Soyez realiste demandez l’impossible”, e o bonito jogo de palavras criado pelo slogan “rêve générale” que pede um sonho generalizado ao mesmo tempo que combina a sonoridade de rêve (sonho) com grève (que é greve mesmo).

“Sem forma revolucionária, não há arte revolucionária” disse Maiakóvsky, há quase 100 anos, lá pros lados da União Soviética em ebulição. Se nenhuma manifestação popular de rua foi tão poética quanto o maio de 68, as ruas do Brasil em 2013 foram ocupadas por textos mais bem humorados. As pichações nos muros e as faixas coletivas deram lugar aos cartazes individuais com reivindicações pessoais. O aumento da tarifa do transporte público foi o estopim, mas quando o Movimento Passe Livre (MPL) tomou porrada em São Paulo o “não é só pelos 0, 20 centavos” começou a circular. “Se a tarifa não baixar a cidade vai parar”, “tem tanta coisa errada que não cabe em um cartaz”, “Por uma vida sem catracas”, “Sexo é amor, sacanagem é R$2,95” são alguns exemplos do que se pedia naquele momento. O auge se deu num cartaz em branco que apareceu em Recife, no vídeo o cidadão explica que faltou lápis na escola e não deu pra escrever o cartaz. Arte conceitual presente nas ruas! Mas aí a coisa tomou um rumo estranho, com camisas da seleção fora de época, caras pintadas e hino nacional.

Foi esse clima estranho que senti amplificado ontem. Ver 200 mil ou 1 milhão nas ruas mostrando sua opinião me parece sempre bom, fico muito feliz de viver em um país no qual é possível manifestar-se. Estranho talvez é ver que em 2013 a bala de borracha e o gás lacrimogênio fizeram sucesso e nesse 2015 tudo ocorreu na santa paz de Deus, melhor assim. Mas esse texto não é sobre polícia, é sobre poesia.

Que poesia pobre a que vi nessas mensagens desse março de 2015. “Chega de ditadura de imprensa por decreto”, “Feminicídio sim, fomenicídio não #forapt”, “Intervenção militar constitucional”, “Fora satã comunista”, “Chega de doutrinação marxista, fora Paulo Freire”, “We want military intervention now”, “Reforma política é golpe”, “Fora supremo, Fora Dilma, queremos só ministério público e polícia Federal”. Eu podia continuar detalhando a falta de pensamento poético dessas frases, mas acho que não precisa, você sabe mais de poesia do que eu. Além disso a burrice e o delírio que esses pedidos trazem faz tudo ficar surrealista! Intervenção alienígena já! Nós terráqueos não sabemos governar esse planeta!

A coisa é séria e embora eu concorde que o governo não tem ajudado, cavando sua própria cova, a saída não é por aí. Há muito a ser feito como por exemplo uma política séria sobre legalização das drogas, um papo sobre desmilitarização da polícia, uma caminhada consistente quando o assunto é homofobia e igualdade de gêneros, até uma escalada global e uma luta por um mundo onde todos possamos transitar livremente, sem passaportes, sem fronteiras. A insatisfação é grande, mas o que vi ontem me entristeceu, é o contrário de tudo que acredito. Um grito reacionário, um pedido de linchamento, uma exaltação da época mais tenebrosa que esse país já viveu e tudo isso através de textos mal escritos e sem nenhuma poesia.

Se está difícil concordar com o PT está muito mais difícil concordar com o pessoal que foi pra rua ontem. Espero que a presidenta tenha razão quando diz que uma manifestação contrária ao governo mostra que vivemos numa democracia madura. Que ela, a democracia, não caia de madura e fique de pé. Tem gente que quer ganhar nas armas, na porrada, mas nosso campo de luta é outro.

Todo poder à imaginação, porque pelo menos na poesia tá tranquilo, nós somos mais fortes.


doming.jpg
DOMINGOS GUIMARAENS
Doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO

Leia mais

> Continue Lendo

40 ANOS DA ESCOLA DE ARTES VISUAIS DO PARQUE LAGE



Este ano a Escola de Artes Visuais do Parque Lage completa 40 anos. Ontem, no aniversário do Rio de Janeiro, o parque e o casarão foram ocupados por inúmeras atividades. Música, dança, balões solares, poesia e até artes visuais. Sob nova direção, desde o ano passado, a EAV ganhou um novo fôlego transdisciplinar e volta a ser espaço de intensas pesquisas artísticas dentro do clima libertário que a caracterizou desde a primeira gestão de Rubens Gerchman, em 1975.

Tenho uma relação visceral com a escola desde as colônias de férias da infância, por ter acompanhado de perto quando Luiz Alphonsus, meu pai, foi diretor nos anos 90 e mais tarde sendo aluno. Quantas festas antológicas, quanta coisa aprendi por ali, quanta gente boa conheci. As histórias que pairam sobre e sob aquele cantinho da cidade remontam momentos fundamentais dos seus 450 anos. Lembro algumas delas aqui.

Aqui onde estamos um dia foi um Engenho onde escravos foram castigados e hoje um batuque, um batuque, um batuque. Os grilhões na antiga lavanderia, a capelinha e as cavalariças são memórias de outra época, quando o sujeito que deu nome à lagoa (Rodrigo de Freitas) comprou o engenho e transformou em fazenda. Já o casarão do Parque Lage é uma espécie de Taj Mahal brasileiro, foi erguido nos anos 20 com as argamassas do amor (e do dinheiro) de Henrique Lage pela cantora lírica Italiana Gabriella Besanzoni. Esse parque tem histórias que são suas, que são nossas, que começam pulando o muro que não existia na época na qual os jardins iam até a beira da lagoa e Besanzoni mergulhava cantando. Conta-se que os peixes colocavam a cabeça pra fora da água para ouvir e ver seu canto. Isso antes dos anos 30 quando essa arquitetura de castelo foi perfeita para ser transformada na fortaleza comunista que resistiu até 35 quando o governo Vargas derrotou os revoltosos em batalha na praia vermelha. Intentona comunista, chamaram os preconceituosos.

Aqui aos pés do Cristo o espírito festeiro de Besanzoni ainda paira, Chico Xavier psicografou sua voz melodiosa e encenou aqui a primeira ópera psicografada do mundo. Na mesa do salão nobre sapateiam os que ali foram velados, como Glauber Rocha, Odete Lara e tanta gente. Aqui nessa piscina é caldeirão de feijoada todo dia com Macunaíma derrotando o gigante e recuperando sua Muiraquitã. Em todo o canto é Terra em Transe então se concentre entre em transe e transe no terraço. A sala selada abaixo do salão nobre oculta os tesouros do desmonte do Morro do Castelo, túneis subterrâneos ligam essas câmaras secretas à lavanderia dos escravos, à Alto Paraíso e, é claro, Machu Picchu. Mas de todas essas histórias fantásticas conta-se uma que dizem ser mentira.

Foi numa segunda-feira de carnaval dos anos 60. Terça-feira gorda é feriado mas, mesmo pra quem não acredita, segunda de carnaval é dia útil. Aproveitando-se dessa brecha na lei de Momo Roberto Marinho organizou um leilão na data festiva e arrematou sozinho o Parque Lage na má intensão de construir o Projac ali. E a história poderia ser essa, não teria Macunaíma, Glauber Rocha, Zé Celso, Marcia X, nem ninguém hoje na piscina, tudo seria o estúdio 5 gravando o Caldeirão do Huck.

Mas alto lá, Carlos Lacerda era então governador do estado da Guanabara. Empombado que era com Roberto Marinho por motivos políticos e pessoais resolveu dar um castigo no nosso Mr. Burns. Lacerda desapropriou, estatizou e tornou o Parque Lage público. Não fez isso porque era bonzinho, mas por vingança pessoal, pra atacar o Dr. Roberto. O que é pior para um magnata capitalista do que tirar o que é dele e dar para o povo? Carlos Frederico Lacerda, que tinha esse nome em homenagem a Karl Marx e Friedrich Engels, era mesmo de direita, aliado aos udenistas, tentou derrubar presidente e o escambau. Já o Dr. Roberto dispensa apresentações.

Mas quando eu olho praquela piscina e sinto o cheiro dos corpos dos dois ardendo no feijão quente, eu os devoro sorrindo de como é bom ver dois reacionários se engalfinhando por mesquinharias pessoais, mas que acabam deixando, debaixo de cada árvore daquele parque, um sorriso de criança. Sorrisos que em 1975 viraram a potência da Escola de Artes Visuais do Parque Lage. A história não parou por aí e muita gente seguiu construindo na raça a Escola enquanto outros, muitas vezes, tentaram tirá-la de lá. Por isso tomemos com carinho o Parque Lage, sempre lutando com amor para que ele seja para sempre de todos nós.


doming.jpg
DOMINGOS GUIMARAENS
Doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO



Leia também

- NA GUINÉ-EQUATORIAL NÃO ESTÁ LEGAL, MUITO MENOS NO BRASIL
- A PRÉ-HISTÓRIA DA PSICODELIA
- AI QUE PREGUIÇA REVOLUCIONÁRIA!
- AS COINCIDÊNCIAS DOS DIAS
- A EPIDEMIA DE PAUDESELFIE QUE ASSOLOU #GRATIDÃO E #VIDALOKA
> Continue Lendo

NA GUINÉ-EQUATORIAL NÃO ESTÁ LEGAL, MUITO MENOS NO BRASIL


A economia do carnaval é um emaranhado de números milionários vindos de lugares estranhos e difíceis de se decifrar. A polêmica com a Beija-Flor de Nilópolis que patrocinada por um sanguinário ditador da Guiné Equatorial um saiu vencedora desse carnaval 2015 expõe a economia do carnaval oficial. A Beija-Flor ficou marcada porque ganhou, mas nem vou perder meu tempo nomeando outras escolas que sobrevivem com a grana do tráfico, dos bicheiros e da milícia. O suor das comunidades é muito bonito, o carnaval é uma festa linda, mas o que rola nos bastidores é tenebroso, ainda mais por contar com o apoio de todas as esferas do governo e da mídia oficial.

Perguntado sobre o assunto o puxador Neguinho da Beija-Flor não se intimidou e disparou: “se hoje temos o maior espetáculo audiovisual do planeta, agradeça à contravenção”. Neguinho tem toda a razão. O samba foi um ritmo perseguido no início do século passado e assim se juntou com o jogo do bicho, com o tráfico e com outros setores marginalizados. O samba foi legalizado, mas o jogo do bicho e as drogas não. Sendo assim continuam participando da festa com a grana do sangue. Não o sangue do pé da passista ou da mão das costureiras que se esfalfam por quase nada pra fazer o carnaval acontecer, mas do sangue do crime organizado. Um crime que tem sua cabeça longe dos morros e das periferias, nas altas esferas do poder.

A Guiné Equatorial, do sanguinário ditador, não patrocinou apenas uma escola do carnaval carioca. Pela segunda vez em quatro anos o país também sediou a Copa Africana de Nações, organizada pela FIFA. A instituição Suíça adorada por muitos vem trilhando o caminho da corrupção mundial com seu torneio principal: a Copa do Mundo. África do Sul em 2010, Brasil em 2014, Rússia em 2018 e Qatar em 2022. Uma trilha sinistra que vai pilhando três países em desenvolvimento, conhecidos por suas corrupções ontológicas, e na crista da onda com a sigla BRICS; e termina num canto do planeta, num país sem nenhuma tradição futebolística, riquíssimo em petróleo, comandado por uma mesma família desde o século XIX, onde os partidos políticos são proibidos e uma ideia de eleições para um parlamento foi prometida para 2005, mas enterrada indefinidamente.

Passamos no ano passado pela festa que é sediar uma Copa do Mundo, continuamos vivendo na tristeza que é sediar uma Copa do Mundo. Com o carnaval oficial não é muito diferente e as emoções e energias se misturam. O fluxo da grana vem e vai construindo e destruindo coisas belas, cada vez mais de um jeito tão tudo-ao-mesmo-tempo-agora que fica difícil entender se o que passou foi prazer ou dor. Isso não é um privilégio do carnaval ou do futebol, acontece também com o cinema, o mundo das artes, a televisão, as pesquisas científicas. Está tudo aí pra quem quiser ver. É tudo tão às claras que nos cega!

Diante disso sobra a velha pelada de rua, um evento mundial que não precisa de patrocinadores pois é autogestionado e autofinanciado. Assim como o carnaval de rua do Rio de Janeiro e outros cantos, que mesmo sofrendo o assédio das grandes distribuidoras de cerveja, continua gratuito e mágico, um ritual de travestimentos e transmutações que ainda nos permite cantar na rua a dor e o prazer que é viver nesse mundo de tão profundas contradições.


doming.jpg
DOMINGOS GUIMARAENS
Doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO


> Continue Lendo

A PRÉ-HISTÓRIA DA PSICODELIA



Acabo de ler o The Long Trip – A prehistory of Psychedelia do inglês Paul Devereux. Lançando mão da arqueologia, da antropologia, da linguística para fazer uma longa viagem psicodélica através das eras, Devereux chega a uma constatação matadora: vivemos numa sociedade excêntrica no que diz respeito a sua relação com o uso das drogas psicoativas.

Sua longa pesquisa mostra como o uso das drogas está presente de forma ritualística em quase todas as sociedades pré-históricas, estabelecendo o sentido de pré-histórico não como um período determinado no tempo, mas como uma relação dos povos com um tempo cíclico sem catalogação e não com um tempo linear catalogado. Sendo assim a pré-história europeia termina antes da pré-história na América do Sul. O século XX é o filho equivocado dessas eras, um yuppie ligado no que é real, contra o imaginativo, caretão e cerceador.  

As maiores críticas de Devereux à proibição das drogas no século XX é que as pesquisas científicas sobre essas substâncias sofreram enormes interdições e, por um enorme preconceito, mesmo os estudos mais sérios, ficam relegados a um segundo escalão intelectual. A proibição do LSD nos EUA é um exemplo disso. Ao ser sintetizada pelo químico suíço Albert Hofmann [1] em 1938 a substância passou a ser pesquisada para o uso medicinal, mas só chamou a atenção da CIA nos anos 60, com o crescimento de seu uso recreativo por parte da população americana. A CIA realizou uma série de pesquisas sobre a substância levando em conta seu potencial para o uso militar na alteração do humor, na limpeza de memórias indesejáveis e na lavagem cerebral. Sem encontrar os resultados esperados o governo Americano resolveu proibir a substância.

A viagem de Devereux começa com um intenso relato de sua primeira experiência justamente com o LSD e de como ele criou um grupo de amigos que experimentavam, de forma controlada, as fronteiras finais dos estados de consciência alterada. Aldous Huxley, entre outros autores, abriu a cabeça de Paul, seus amigos e toda uma geração dos anos 60 para a retomada dessa longa viagem através da consciência humana, depois da interrupção sofrida pelas proibições que começaram nos anos 30. Devereux não é apenas um doidão inconsequente e alerta para o perigo das drogas e seu uso sem cautela, sendo essa uma de suas críticas à geração hippie dos anos 60 e 70 que estaria ligadona, mas não sintonizada.

O livro caminha da idade da pedra europeia, passando pela África xamanista e se estende pelas tribos do novo mundo. A pesquisa acaba se concentrando no ocidente, pois, segundo Devereux, das mais de meio milhão de espécies da flora do planeta umas 150 tem propriedades psicoativas e 130 delas se concentram no hemisfério ocidental. Como a enorme maioria dessas dádivas da natureza foram descobertas pelos pajés e xamãs do novo mundo o maior capítulo dá conta da pré-história psicodélica nas Américas. Mesmo indo tão longe o livro traça muitos paralelos com tempos históricos mais próximos de nós como a Grécia antiga, a Europa medieval e a guerra às drogas durante o século XX.

A leitura do livro deixa claro como nós, seres humanos dos séculos XX e XXI, temos um enorme preconceito e sabemos muito pouco sobre como usar essas substâncias. Com muita informação, pesquisa e grandes doses de humor, Devereux te conquista ao naturalizar entre os humanos o uso das substâncias psicoativas. Para ele somos todos hoje seres biologicamente ilegais, uma vez que temos opiáceos em nosso fluido cérebro espinhal. Os títulos dos capítulos como: Stoned at the Bones [2], sobre o uso de ópio e canábis na idade da pedra, e High old times in the new world [3], sobre o uso de substâncias psicoativas no novo mundo, dão o tom da escrita fluida e canabinóica do livro.  Uma pena que uma pesquisa como essa, publicada em 1997, não tenha uma tradução em português.  

A literatura não fica de fora dessa onda e Aldous Huxley, Thomas de Quincey, Charles Baudelaire, Bob Dylan, Allen Ginsberg são chamados pra uma conversa de igual pra igual com os xamãs, pajés e seus pupilos que empreendem uma profunda viagem química por dentro da consciência e do inconsciente humanos.

O livro mágico de Devereux nos conta uma intensa e lisérgica história sobre uma longa pesquisa humana com as drogas, uma pesquisa que nos leva a questionamentos filosóficos sobre o que é realidade e o que não é. A viagem pelos estados alterados de consciência nos permitem ver que existe uma matriz n-dimensional no universo que nos rodeia e que não necessariamente precisamos ficar trancados nesse modelo ao qual chamamos realidade.

Segue a luta de muita gente contra a guerra às drogas e por uma política educativa e informativa sobre alucinógenos e substâncias psicoativas. Independente dos impedimentos legais a longa viagem através da consciência humana continuará rumo ao futuro, assim como emergiu, misteriosamente, no passado.


__________________________________________
[1] Albert Hoffman morreu em 2008, aos 102 anos de muitas viagens, lutando pela legalização e pelo ensino do uso das substâncias farmacológicas psicoativas.
[2] Doido de pedra até o osso.
[3] Altos velhos tempos no novo mundo. (traduções livres)


doming.jpg
DOMINGOS GUIMARAENS
Doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO


Leia também

- A CULTURA DA VIOLÊNCIA
- NÓS, ELES E O ATENTADO AOS CHARGISTAS
- ILUSTRADORES EM RESPOSTA AO ATENTADO CONTRA O CHARLIE HEBDO
- EM BUSCA DO LEITOR PERDIDO

> Continue Lendo

CONTRA A PENA DE MORTE

No sábado 17 de janeiro de 2015 o brasileiro Marco Archer foi executado na Indonésia acusado de tráfico de drogas. Marco entrou no país em 2003 com 13 quilos de cocaína escondidos na estrutura de uma asa delta. Foram 11 anos em cadeias pela Indonésia até ser executado.

O Brasil aboliu oficialmente a pena de morte em 1889, com a proclamação da república, e desde 1876 nenhum brasileiro havia sido oficialmente executado pelo Estado. É trágico pensar nisso olhando em volta e sentindo o cheiro de pólvora no ar quando contabilizamos a quantidade de traficantes mortos pela polícia no país. Matar traficante é algo naturalizado, não é lei, mas é prática, costume nacional aplaudido por muitos, mortes que inclusive já foram traduzidas em bonificações para os policiais em seus contracheques. A morte e a violência estão no DNA de nossa polícia.

No caso do brasileiro preso na Indonésia não adiantou pedido de clemência da Dilma, nem do Papa, o governo não perdoou e matou mesmo, por lei. Após a execução o presidente da Indonésia, Joko Widodo, disparou a seguinte declaração: “Isso vai enviar uma mensagem aos membros dos cartéis de droga”. Essa frase é, para mim, a cereja do bolo da boçalidade humana. Caro Widodo, aqui no Brasil matamos traficantes de drogas todos os dias numa batalha cruel e sem sentido que extermina os mais pobres e cria zonas de conflito no meio dos lugares mais carentes; e mesmo assim, caro Widodo, isso não adianta nada, não é recado nenhum para os membros dos cartéis.

Até quando a guerra às drogas será a saída? Quando o pessoal vai perceber que só a legalização e a regulamentação das drogas é o caminho para a paz? A guerra aos narcotraficantes e as penas de morte matam muito mais do que qualquer droga já matou na história do mundo.

Viajando da Ásia para a Europa chegamos à França, um país símbolo da democracia e dos filósofos bem pensantes, mas que só aboliu a pena de morte em 1981. O discurso do ministro da justiça na véspera da votação da abolição é algo que me enche de esperança. Robert Banditer mandou a seguinte letra: “Porque nenhum homem é inteiramente responsável, porque nenhuma justiça pode ser absolutamente infalível, a pena de morte é moralmente inaceitável”. Palmas para ele. Mas continua pensando assim a França? Não tenho certeza.

Diante dos recentes atentados ao jornal Charlie Hebdo, que tragicamente vitimaram alguns cartunistas franceses, o papo que surge na França é um referendo sobre a pena de morte, o fechamento das fronteiras e aviões de hora em hora enviando imigrantes pra fora do país. Não importa se você concorda ou não com as charges do Charlie Hebdo, se quer o fim dos extremistas, se quer iniciar uma guerra ao terror. O mais estúpido aqui é achar que se fechar numa gaiola e matar quem faz o que você não gosta é a saída para um mundo melhor. Nem a muralha da China impediu a queda do império, diga-se de passagem.

A burrice humana não tem mesmo limite e é evidente que as mentes pensantes não são as que governam o mundo. Voltando a questão das drogas os EUA proibiram o uso da maconha nos anos 1930, por uma série de razões políticas. Quando a II Guerra Mundial apertou, nos anos 1940, a situação da proibição da maconha ficou complicada. Todos os cordames dos navios, assim como eram as velas que descobriram o mundo no século XVI, eram feitos de cânhamo. O algodão foi eleito o substituto na época, mas o material era menos resistente e não tão versátil, nada bom para uma guerra. O que os EUA fizeram? Suspenderam a proibição da maconha e iniciaram uma massiva campanha chamada Hemp for victory. Bob Marley tem convulsões no túmulo agora. Nesse vídeo você pode ver como o governo americano se esforçou para ensinar cinematograficamente os benefícios da cannabis sativa para a guerra e a matança.

Nessa lógica boçal na qual funciona o mundo o que vale é matar. Se alguém trafica drogas você vai e mata ele, se alguém publica conteúdos dos quais você discorda você vai lá e mata ele, se a maconha é boa pra guerra e pra matar gente que liberem a maconha, mas e pro pessoal ficar doidão? Isso jamais! Não é produtivo. O que vale é matar, matar e matar. Talvez por isso tenham crucificado Jesus, uma bela pena de morte para um terrorista que salvava putas e traficava vinho dizendo que era água. Mas se mesmo assim você é a favor da pena de morte fica tranquilo, eu não vou querer te matar, pra mim tá tranquilo se a gente simplesmente não se falar. Um abraço.


_______________
Imagem de capa: 3 de Mayo, Goya, 1814, Museo del Prado, Madrid.


Domingos Guimaraens é doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO.
Facebook 



::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

Leia também

- A CULTURA DA VIOLÊNCIA
- NÓS, ELES E O ATENTADO AOS CHARGISTAS
- ILUSTRADORES EM RESPOSTA AO ATENTADO CONTRA O CHARLIE HEBDO
- EM BUSCA DO LEITOR PERDIDO
- RETROSPECTIVA ORNITORRINCO - TEXTOS MAIS LIDOS DE 2014

> Continue Lendo

A MAGIA DO NATAL SÓ EXISTE NA COMPLETA AUSÊNCIA DE RESPONSABILIDADE COM PORRA NENHUMA.


Foi num Natal há quase 30 anos na casa dos meus tios Carlos e Rosa. Família enorme, mais de 20 primos reunidos, aquele caos das festas de Natal que você ainda acha divertido quando é muito pequeno. Já era de noite, mas o calor não dava trégua, quando meu primo mais velho desceu de rapel do sótão do apartamento vestido de Papai Noel. Eu não era tão novo assim, já estava numa idade na qual a história do bom velhinho começa a ficar meio estranha, principalmente pra quem mora num país tropical. Um senhor todo encasacado, sempre dentro de um quadro com muita neve, desce pela lareira da casa e distribui presentes para todas as crianças do mundo. Tudo certo ele ser onipresente, meio Deus, tudo bem os bilhões de presentes (ele teve um ano e a ajuda de duendes para fabricá-los), mas a neve o frio, os casacos, a lareira, nada disso combina com a paisagem do pessoal suado, camisas empapadas, testas brilhantes. Mas mesmo assim eu ainda não era tão velho o que me permitia querer acreditar um pouco mais nessa história que me trazia alguns benefícios materiais. Só que nessa noite o Papai Noel desceu mesmo do telhado da casa distribuindo presentes, foi um lance mágico, um dos primeiros estados de epifania dos quais me lembro. A magia do natal se fazia completa, uma noite que me faz até hoje ter uma vaga ternura por essa festa.  

Cada vez mais é difícil lembrar dessa noite e não enxergar meu primo Carlos Antônio por trás daquela roupa, morrendo de calor, talvez envergonhado (embora não parecesse no momento) dando presentes que alguém tinha comprado e que ele não fazia a menor ideia do que eram. Ali a certeza era de que Papai Noel havia se materializado e os presentes tinham sido feitos por duendes durante um longo e duro ano de trabalho no pólo norte. Mas a magia não vinha só disso, vinha também da materialização de tudo de uma forma espontânea e descompromissada. O peru de natal e toda a comida que magicamente aparecem na mesa, a decoração que surge do nada, os litros de refrigerante ofertados como água, a logística do transporte de todos para uma mesma casa que foi magicamente preparada para receber 57 pessoas, o trânsito que não importa como flui pois o tempo e você possuem laços interativos fluidos e rasos. Quando se é criança e não se tem nenhuma responsabilidade com porra nenhuma é mole ter uma epifania com Papai Noel. O tempo passa, você cresce, e a cada ano uma pequena tarefa lhe é imposta nessa data. Isso começa justamente no momento em que os vestígios de uma consciência, a formação da memória, e da capacidade de compreender minimamente a realidade surgem no seu corpo. Sendo assim a janela entre você viver um momento mágico e poder tomar consciência de que está vivendo um momento mágico é muito pequena.

As tarefas impostas no natal começam pequenas e lúdicas, como decorar a árvore, e vão se adensando e entrando no plano do tédio do cotidiano da vida adulta como: carregar uma sacola de compras, ajudar a guardar tudo no porta malas do carro e transfundir todo o conteúdo para a geladeira; até você ir crescendo (sofrendo com a inexorabilidade do avanço do tempo linear) e ter que ajudar na arrumação da casa, na compra dos presentes, na elaboração e logística da lista do amigo oculto, em se foder no trânsito para o super mercado, com o tempo e você já mantendo uma relação áspera e profunda, fazer compras, carregar as sacolas até o porta malas, transfundir tudo para a geladeira, pedir o gelo, cuidar da chegada do gelo, começar a pagar por isso tudo e, se der tempo (e é bom que dê), buscar no aeroporto aquela sua tia que chega dos EUA na manhã do dia 24 de Dezembro. Não há magia que resista a tudo isso e talvez por isso os padres de Dijon, na França, tenham queimado um Papai Noel em praça pública na frente de centenas de crianças de orfanatos locais em 1951 [1]. Não tinha nada a ver com a ideia de que Papai Noel estava substituindo a importância de Jesus e devia ser incinerado. Foi um gesto filantrópico dos padres poupando as crianças da frustração futura com a perda da magia para o massacre das obrigações adultas cotidianas.

Mas, se dentro de todo esse caos, em algum lugar você conseguir se conectar com sua criança interior, naquela breve janela que une consciência, memória e magia, talvez você consiga resgatar alguma vaga ternura no meio dessa noite quente do aniversário de Jesus. Escrevo isso pingando de suor no sótão de uma casa em Búzios vestido de Papai Noel, me deram o sinal e eu devo descer com o presente e repetir o gesto do meu primo há quase 30 anos. Hesito por um instante. Talvez seja uma maldade mentir assim para as crianças que estão lá embaixo, mas penso que talvez algumas delas estejam naquela breve janela, me sinto um mártir bem feitor, um salvador, o que me conforta de um jeito egoísta, bem cristão, bem ao estilo materialista Papai Noel. Tô descendo criançada. Hohoho...  

____________________________ 
[1] Para ter uma visão mais completa e séria sobre esse incidente você pode ler o livrinho O Suplício do Papai Noel do Claude Lévi-Strauss, a melhor leitura de Natal para a vida adulta.


::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

Leia também

- VEM AÍ O INACREDITÁVEL 2015
- ANOTAÇÕES FORTUITAS DE FIM DE ANO
- ESTANDO LONGE DO FATO DE ESTAR MEIO QUE PERTO DE TUDO
- AI QUE PREGUIÇA REVOLUCIONÁRIA!
- MELHORES LEITURAS (2014)

> Continue Lendo

ADEUS, CHAVES - ROBERTO BOLAÑOS (1929 - 2014)



"Prefiro morrer do que perder a vida", assim o Chapolin Colorado se jogava em missões suicidas para salvar os mais desesperados. Morrer e perder a vida são mesmo coisas muito diferentes, até porque você pode perder a vida e continuar vivo.

Roberto Gomes Bolaños morreu aos 85 anos no México, ganhou a vida com personagens que fizeram mais pela união da América latina do que qualquer política de Estado. Viaje por aí e pergunte quem é Chiquinha, Chaves, Seu Madruga, Kiko, Dona Florinda e até os menos famosos, como a Popis e o professor Chapatin, e verá como eles estão impressos no inconsciente coletivo de 90% dos latino americanos.

Sim, no Brasil os nomes foram modificados, as músicas traduzidas, as referências históricas transmutadas para cá e até a geografia mudou quando num dos episódios Acapulco virou o Guarujá. Em português as vozes dubladas são singelas e ingênuas imitando crianças usando adultos falando num tom mais fino. No espanhol original carregam uma estranheza e uma dramaticidade no tom grave dos atores adultos interpretando crianças. Mas isso só adiciona mais uma camada de riqueza à obra do Chesperito – apelido do figuraço Roberto Gomes Bolaños poucos conhecem por aqui. Foi dado a ele por um diretor de cinema que viu em seus textos e roteiros a genialidade de um pequeno Shakespeare. Bolaños tinha apenas 1,60m.


Pra minha formação Bolaños foi tão ou mais importante que o Bardo inglês. Foi num de seus programas especiais que vi pela primeira vez, aos 5 ou 6 anos, a história de Dom Quixote. Uma paródia tosca e maravilhosa com Seu Madruga lutando contra os moinhos, apaixonado-se por Dulcinea del Toboso e com o Chaves no papel de seu fiel escudeiro Sancho Pança, levando os mesmos cascudos, com aquele mesmo efeito sonoro agudo estridente, enquanto cavalgavam o Rocinante e o Rucio. A imagem desses dois personagens nunca saiu da minha cabeça e décadas mais tarde, quando li o livro de Cervantes, eu via os rostos do Chaves e do Seu Madruga o que criou uma aproximação afetiva fundamental para que eu chegasse ao fim dos dois volumes daquele texto denso que fundou o romance moderno. Isso sem falar que a musiquinha instrumental que todos temos na cabeça é a Marcha Turca Opus 113 do Bethoven tocada num sintetizador anos 70.

Embora Roberto Gomes Bolaños tenha escrito livros, poemas, dirigido filmes – um deles sobre futebol contando com Pelé no elenco –, Chaves é até hoje o seu maior sucesso, um fenômeno de audiência. O programa ainda é um dos carros chefes da Televisa no México e é insistentemente reprisado no Brasil, pelo SBT, em dois horários. A estratégia do programa com personagens eternos, que nunca envelhecem ou nem mesmo mudam de roupa, numa estrutura dramática que, ao estilo Teletubbies, se repete infinitamente com pequenas alterações aqui e ali, conquistou as crianças que mesmo depois de adultos continuaram a prestigiar a atração. Os atores que interpretaram esses personagens ficaram fortemente colados a eles levando-os debaixo da pele até a hora da morte, o que é a um só tempo fascinante e amedrontador.

Florinda Meza e Roberto Bolaños
Nos bastidores do Chaves muita coisa aconteceu com esses pessoal. Dona Florinda era casada com Kiko e se separou dele para ficar com o Chaves. Kiko saiu do programa e criou seu próprio show, Roberto tentou proibi-lo de seguir com a ideia, mas ator e personagem já eram indissociáveis. A vida dá voltas e espero que eles tenham se perdoado e se abraçado e se amado porque Kiko e Chaves são algo de um ideal de amizade infantil que eu pretenderia eterna.

Mas o que mais me intriga não é nada disso desse banal da vida. O que mais me move até hoje é que o Chaves (ou Chavo, que significa menino em espanhol) tinha um nome que ele nunca conseguia pronunciar, sendo sempre interrompido. Assim também acontecia com sua casa, que não era o Barril, mas o número 8 da vila, uma casa que nunca apareceu em nenhum episódio.

Talvez o Chaves tivesse um nome impronunciável como o de um Deus. Talvez o 8 fosse a metáfora do infinito e sua casa fosse toda aquela vila do inferno onde o tempo não passa e por isso o Don Ramón deverá eternamente 14 meses de aluguel.

Esses pensamentos me acalmam porque sinto que Roberto Gomez Bolaños não morreu. Ele, assim como Elvis, Michael Jackson ou o Pernalonga, não morrerão jamais, vivendo pra sempre não em nossos corações, mas de verdade, fisicamente, entre nós.






::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::


Leia também


> Continue Lendo

A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM



Eurico Miranda voltou! Sua chapa venceu as eleições no Clube de Regatas Vasco da Gama e em breve deve elegê-lo presidente para substituir Roberto Dinamite num mandato de três anos. Parece uma espécie de máquina do tempo, de volta à primeira década do século XXI quando a Colina famosa era comandada pelo mafioso do charuto malvado. 

Eurico é uma figura folclórica do futebol, um desses ícones da anomalia que é a cartolagem no Brasil, não importa de que time ou divisão você esteja falando. O mafioso cruz-maltino via o jogo fumando um charutão sinistro do alto do seu camarote em São Januário, invadia o campo, brigava com geral. Mandou o então governador Garotinho calar a boca quando o alambrado de São Januário caiu quase matando todo mundo na final do campeonato brasileiro de 2000. Disse que no Estado mandava o governador, mas em São Janú mandava ele. Roubou a renda de um jogo, saindo do estádio com o dinheiro vivo numa maleta, para ser assaltado a poucos metros dali por pessoas que não conseguiu identificar. Mas quando ele era presidente o Vasco não estava essa draga! Ou seja, Eurico é uma espécie de Maluf do futebol: o famoso rouba, mas faz. É isso que os vascaínos querem? É isso que queremos todos? 

Tenho grandes amigos, vascaínos iluminados e inteligentes, que defendem a volta do Eurico. Do desespero de um torcedor sedento por títulos pode-se esperar tudo. Ainda mais com o arsenal de histórias fantásticas de insubordinação contra o Estado e contra grandes corporações que o Eurico carrega. A mais famosa é a sequência da história do governador, quando o jogo da final de 2000 foi finalmente cancelado por falta de segurança e transferido para o Maracanã em janeiro do ano seguinte. Eurico botou o cancelamento da partida na conta da Globo, principalmente do comentarista José Roberto Wright, que insistia que era impossível o jogo prosseguir. Globo e Eurico foram rivais a vida toda, mas ele deu uma estocada na emissora que ela nunca conseguiu responder. No Maracanã, no jogo remarcado, o Vasco entrou em campo com um logo enorme do SBT estampado na camisa. Assim, de surpresa, sem contar nada pra ninguém. Foi realmente cômico ver o Galvão Bueno pasmo, sem conseguir tecer nenhum comentário sobre a cena. Calar o Galvão é mesmo um feito, mas não é por isso que eu tenho que gostar da volta do Eurico, um sujeito que deixou endividado até o prédio do qual foi síndico.

O jornalista americano Franklin Foer escreveu um livrinho chamado Como o futebol explica o mundo. O livro conta com muitos artigos interessantes sobre futebol, globalização e política ao redor do mundo. O caso brasileiro descrito por Foer é justamente a administração Eurico Miranda no Vasco. O texto começa com uma emocionante descrição da São Januário mítica e se afunda nos desmandos do mafioso Dr. Eurico. Pra quem quer conhecer o que é essa figura nefasta e folclórica do futebol brasileiro vale a leitura. Vale também ficar de olho no noticiário, não tenho dúvida que vem mais bala de calibre gigante disparada dos altos camarotes da Colina.




:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

> Continue Lendo

LEGALIZE AS DROGAS VOCÊ MESMO!

Agora a Câmara dos Deputados disponibiliza em seu site uma série de enquetes sobre os projetos de lei que tramitam por Brasília. As enquetes não tem nenhum valor legal como plebiscito ou referendo, mas uma votação expressiva num tema como a legalização das drogas ou o conceito do núcleo familiar no estatuto da família ou a desmilitarização das polícias, pode influenciar muito os deputados na hora da votação.

Clique AQUI e tenha acesso a lista de enquetes.

As eleições passaram, mas nossa participação democrática continua! Brasília precisa saber o que pensamos, Brasília é uma ilha. Braxília como diz o poeta Nicolas Behr em seu livro Brasilíada:

desconstruir jk
reconstruir braxília
desbrasilianizar jk
rebraxilianizar brasília
rejuscelinizar braxília
desjuscelinizar jk

reinventar a cidade inventada

Nicolas Behr

> Continue Lendo

O IMPÉRIO DA MATA ATLÂNTICA

Podemos contar a história de um povo, de um reino, de um país. Mas como contar a história de uma floresta? Como a vida daquele bioma pode ser descrita em palavras?

Warren Dean conta a história da Mata Atlântica brasileira no livro A ferro e Fogo - A história da devastação da Mata Atlântica brasileira. Uma história contada como quem vê a ascensão e a queda de um império. O caminho desde os princípios geológicos da mata, passando pelas primeiras intervenções e ocupações por caçadores nômades e populações indígenas, até a chegada dos portugueses, com o gesto tão simbólico de derrubar uma árvore para fazer uma cruz!

O império da Mata Atlântica resiste agonizante durante o século XX e hoje sobrevive em alguns bolsões isolados. O desequilíbrio é um padrão na natureza, um bambolê que gira transformando o que há em volta. Como conseguir viver em simbiose com a natureza, como ser a natureza, como buscar uma ecologia que não seja ecofascista, mas sim uma ecologia social, humana?

São questões que o livro não responde, mas que a história do império da Mata Atlântica brasileira nos conta apaixonadamente. Vale muito a leitura dessa visão da história do Brasil a partir da vida de nossas florestas devastadas.
> Continue Lendo

JINGLES DE CAMPANHA – AQUELA MUSIQUINHA PRA TE CONQUISTAR (PARTE II)


Em 1989, acompanhei ainda criança a primeira eleição para presidente do Brasil em quase 30 anos. E, de todas que me lembro, a de 1989 é mesmo imbatível. Seja pelos folclóricos candidatos nanicos, como Marronzinho (Ele vai falar!) ou o tresloucado Enéas, que a cada programa fazia um jingle-rap raivoso nos seus quinze segundos. Ulysses Guimarães, o Sr. Diretas Já, tinha uma musiquinha ao estilo Varre, varre vassourinha. Bote fé no velhinho acabava com a molecagem que tinha por aí, unindo o país do Oiapoque ao Chuí. Brizola, que sempre dizia, num inesquecível tom de pilhéria gaúcha, que o primeiro ato do seu governo seria acabar com a Rede Globo de televisão, tinha um jingle meio deprê mas impossível de tirar da cabeça. A surreal campanha de Silvio Santos, que entrou no lugar de um candidato que “milagrosamente” desistira, não tinha nem o nome na cédula eleitoral e acabou impedido de concorrer, teve um jingle genial bem ao estilo Baú da Felicidade. Assistir à então TVS ou o programa eleitoral era a mesma coisa.

A união das forças, as mãos jungidas, as mesmas que trabalham e constroem o futuro são o tom de muitas campanhas. Ainda em 1989, Guilherme Afif apostou nisso. O clip do jingle só tinha mãozadas. A música era bizarra: juntos chegaremos lá / à sombra das palmeiras / onde canta o sabiá. Citar a Canção do exílio de Gonçalves Dias depois dos anos de ditadura poderia até fazer sentido, mas a anistia completava 10 anos e considerar esses versos como os do Brasil brasileiro que se queria construir era anacrônico demais até mesmo pra 1989. O sujeito passou batido pela Semana de 1922, não viu entendeu nada nem viu coisa nenhuma sobre o modernismo brasileiro.

Uma eleição pra presidente é como um campeonato de futebol: muita gente começa a disputa, mas, em algum momento, se configura um mano a mano final. A disputa Kennedy vs. Nixon, da qual falei no último post, teve no Brasil um paralelo semelhante: Lula vs. Collor nas eleições de 1989. Enquanto o candidato do PT era chamado de sapo barbudo pelos adversários e fazia questão de se manter apegado às suas origens, usando a barba como um símbolo próprio, o candidato do desconhecido PRN mostrava-se atlético, jovial, aditivado, desfilando com sua futura primeira dama que, apesar de vestir roupas mais espalhafatosas que elegantes, era jovem, loura e bela. No famoso debate de 1989, Lula e Collor se confrontaram. A voz rouca do líder sindical, seu mau jeito dentro do terno e sua vasta e desgrenhada barba contrastaram com a cara lavada e bronzeada de Collor, seu terno bem cortado e seu porte de menino de boa família. Além disso, a tendenciosa edição feita pelo Jornal Nacional contribuiu enormemente para que as elites, e até o povão (que poderia se identificar com Lula), acreditassem na piada de mau gosto que era Fernando Collor de Melo.

Os jingles desses dois presidentes mostram bem a diferença das campanhas. O Collorir de novo não era uma boa música, pouca gente lembra, mas acabou colando. Se a campanha de Collor não ficou lembrada pelo jingle, ficou tatuada na memória pelo slogan: o caçador de Marajás apareceu como aquele velho salvador da pátria que buscamos desde Dom Sebastião em Portugal. Com um espanador na mão, Collor dizia que faria uma limpeza no Brasil, acabando com os marajás que maltratavam o povo. Essa ideia de limpeza da sujeira política que atrapalha o país não é nova e foi requentada de outra campanha vencedora, a de Jânio Quadros em 1961. O Varre, varre, vassourinha prometia varrer a bandalheira e moralizar o país. As trajetórias meteórica de ambos no poder também foram parecidas, embora com enredos diferentes: enquanto Jânio renunciou forçado por “forças ocultas”, Collor sofreu impeachment ao vivo e a cores em plena TV Globo, sua aliada de outrora...

Mas e o jingle do Lula? Ah! Esse é inesquecível. Com um massivo apoio da classe artística, a música de Lula contou com um coro de gente famosa de fazer inveja aos concorrentes. Lula lá era emoção pura, meu primeiro voto, valeu a espera, um Brasil criança, esperança, felicidade genuína que chegaria como chega um abraço na hora mais necessária. Porém, ao posar de homem do povo, perdeu as eleições para o recorrente “santo milagreiro” e não foi dessa vez que o Lula colocou a faixa no peito.

Lula Lá, porém, lembrava outra canção, vinda do Chile um anos antes. La alegria ya viene foi composta para ser o tema da oposição no plebiscito que, em 1988, escolheria pela continuidade, ou não, da ditadura do General Pinochet. Dizer NO era dar um basta à ditadura e apostar num outro futuro. A campanha inicialmente montada pela esquerda chilena era baseada nas torturas, no terror dos tempos de chumbo, mas um publicitário radicado há anos nos EUA convenceu o pessoal que soava melhor “vender” a idéia de uma felicidade futura do que o medo da continuidade do passado recente. Os chilenos acabaram por “comprar” a felicidade e o NO, com uma boa ajuda Norte Americana que não se interessava mais pelo ditador, ganhou de lavada do SI do Pinochet.

Se por um lado a alegria é uma estratégia muito usada, o medo é igualmente muito explorado. Regina Duarte ficou famosa na campanha de 2002 aparecendo no programa do PSDB com a famosa frase “eu tenho medo”. Medo de perder o poder é um medo legítimo, quem não teria? As pesquisas apontavam a primeira vitória de um “repaginado” Lula, agora com a barba e ternos bem cortados, começava ali a longa trajetória do Serra como segundo colocado. E, quando confirmada a vitória da esquerda, os marketeiros de plantão já tinham em mãos a camisa com a provocação pronta: "A esperança venceu o medo".

Nos EUA, o medo imperou nas campanhas durante a Guerra Fria. Não era bem um jingle, mas o spot televisivo conhecido como Daisy ficou super famoso. Uma linda menininha contava pétalas de uma flor até um zoom no seu rosto assustado começar uma contagem regressiva e terminar com uma explosão atômica e uma flor radioativa subindo pelos ares. O voto nos EUA não é obrigatório e a campanha pedia para que os americanos saíssem no dia 3 de novembro para votar em Lyndon Johnson: os riscos eram altos demais pra você ficar em casa.

Voltando ao Brasil de hoje, podemos perceber como as eleições de 1989 foram uma espécie de laboratório da democracia brasileira e que quem votou ali era cobaia de uma experiência nova depois dos 25 anos de ditadura militar. A democracia contemporânea, tal como conhecemos hoje, começa na eleição de 1994. Só nos últimos 20 anos temos voto universal, presidentes que cumprem todo o mandato com reeleição ou sucessão pacífica e democrática. Estamos engatinhando nesse lance de democracia. Na eleição que inaugura essa nova era da política brasileira vence a ideia das mãos. Mãos como união, como metonímia do poder do corpo, a mão dos acordos fechados num aperto. Usando a imagem dos cinco dedos e resgatando as cinco metas de Juscelino, Fernando Henrique Cardoso, apoiado pelo sucesso do plano Real, chega à presidência na voz de Dominguinhos no ano do tetra da seleção brasileira. Tá na sua mão / na minha mão / na mão da gente / fazer de Fernando Henrique o nosso presidente.

Além do Dominguinhos, outros grandes nomes da nossa música entraram nessa jogada e fizeram jingles importantes. Recentemente, lembro da eleição pra prefeito do Rio de Janeiro em 2012 e Caetano Veloso fechando com Freixo. Breno Goes e Gustavo Levy também são autores da música. Eu gostava da música, da ideia, do conceito, mas o sambão safado Somos um Rio acompanhou Eduardo Paes até a acachapante vitória. Preto Jóia, Diogo Nogueira, Dudu Nobre, Fundo de Quintal, Almir Guineto, Molejo, Mc Anitta, Buchecha e mais uma pá de gente apoiou o Dudinha. Agora em 2014, Jorge Ben entrou na roda e não apostou na força das mãos. Meteu os pés pelas mãos e fez o jingle de Pezão. “O véio dançô”! Mas do jeito que tá a concorrência pra governador, nem foi a pior escolha possível a do Jorge. (Fã é foda, sempre defendendo o ídolo.)

Outro mega-star que entrou sem querer na campanha de 2014 foi o Rei Roberto Carlos. Todo horário eleitoral parece um misto de piada com delírio, mas o palhaço Tiririca levou isso a sério e assim foi o deputado mais votado da história nas eleições em 2010! Agora em 2014, ele não fez por menos, criando uma paródia da música O portão e misturando com a polêmica que foi a aparição do Rei na campanha da Friboi pra vender carne sendo ele vegetariano. Não sei se o Rei endossa a campanha do palhaço, mas a coisa tá descontrolada! “Vote no Tiririca: pior do que tá não fica”.

Perto disso só mesmo a memória auditiva de Pedro Rocha e Amora Pera, que me contaram um clássico do interior do Piauí pra ser cantado na melodia da marchinha: Taí eu fiz tudo pra você gostar de mim. A pérola máxima dos jingles universais é: “Piracuruca, todo mundo vai votar SeuAntônioJesus / Pois foi ele que trouxe pra nós a água e a luz / todo mundo, todo mundo / vai votar Seuantôniojesus”. Assim mesmo, com a métrica exprimida estilo Bob Dylan em SeuAntônioJesus.

No fim das contas, as estratégias de música, clipes de imagem, maquiagem e discurso são muito parecidas entre todos os partidos no mundo todo. Os marqueteiros dominam. Marcelo Adnet, comediante mestre em criar jingles de improviso, fez um clip de campanha política escrutinando toda a verdade sobre as técnicas publicitárias para conquistar o eleitor.

Metáforas bonitas com a natureza, imagens de muita prosperidade e desenvolvimento, comunhão e todos são iguais não param de ser produzidas. Assim é o jingle da FRELIMO, a Frente de Libertação de Moçambique, que já lutou guerra sangrenta pela independência do país seguida de uma guerra civil pela manutenção do poder. Hoje a FRELIMO é puro marketing e chama todos para a escolher a melhor governação. A Jamaica fica cheia de swing no spot de rádio do People Nacional Party. A Índia, a maior democracia do planeta, também tem seus jingles, esse é do Congress Party United Progressive Alliance. Embora eu não tenha entendido nada do que diz, acho que vale a citação, pois, ouvindo o som e vendo as imagens, ao estilo Bollywood, você já entende tudo.

Nessas eleições presidenciais de 2014 no Brasil o único jingle que destoa da mesmice é o de Eduardo, o Jorge. O discurso de Eduardo e sua música apostam em propostas mais concretas. Ideias que muitos consideram delirantes, mas que eu acho apenas o mínimo do bom senso. Claro que parte de seu defesa aberta sobre a legalização de todas as drogas psicoativas vem da impossibilidade política de que sua campanha saia vencedora. Mas é muito bom ver um candidato aproveitando esse tempo nobre que lhe é ofertado no horário político não apenas para fazer seu nome, mas defendendo uma causa importante.

Fora isso segue o marketing político crescendo e varrendo as questões importantes pra debaixo do tapete. Enquanto o Tiririca, mesmo com toda a sua genialidade de palhaço, for o deputado mais votado (ele, hoje, lidera as pesquisas mesmo sem jamais ter feito um único discurso na Câmara ao longo de seu primeiro mandato), a coisa tende, sim, a ficar pior. Ainda assim, sigo sendo a favor do voto. Gosto desse exercício democrático, mesmo achando difícil votar naquela urninha eletrônica e achar que algo vai realmente mudar. Lembrando sempre que o voto é só um pedacinho da prática democrática e que nossa luta diária, cobrando dos representantes que elegemos e agindo localmente, são fundamentais para mudarmos o mundo.

Que o marketing político não apague nossos sonhos, não derrote nossos ideais. Sigamos sonhando, por exemplo, na batida do Uruguai, aquela fazenda modelo ao sul da América do Sul. Vamos Pepe, Pepe con la gente!, Rock Uruguaio e Mujica neles em 2009 pra terminar sonhando com a legalização universal da maconha, do aborto, do casamento gay e de um mundo melhor para todos.


Domingos Guimaraens é doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO.
Facebook / Site



Esse texto contou com a colaboração de Pedro Birman
> Continue Lendo