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LINGUAS E EXPRESSÕES


A experiência de viajar para um país de outra língua costuma sempre ser estimulante, excitante e, para alguns, um grande desafio, principalmente, quando não se sabe nada da língua do lugar, nem mesmo dizer “obrigado”. E não me refiro a dificuldade envolvida em aprender húngaro, tcheco ou russo. Para o brasileiro, por exemplo, viajar pode ser uma grande aventura até mesmo quando o destino é Buenos Aires. Infelizmente, o inglês e o espanhol são aprendidos de qualquer maneira nas escolas, e essa não é uma falha dos professores, nem dos educadores, mas dos alunos que têm preguiça, que argumentam que aprender português já é muito difícil e que só não matam as aulas com mais frequência porque sabem que precisam de algum conhecimento básico para passar no vestibular.

Na Suécia a coisa é bem diferente, o jovem estudante quando chega no último ano escolhe um país da Europa para passar o verão estudando outra língua e com isso aumentar sua média e conseguir uma vaga na faculdade. Ou seja, o aprendizado de uma outra língua não é uma obrigação chata, mas uma ferramenta útil, que o guia até a faculdade e aumenta suas chances de trabalho no futuro. Quem me conta isso é Olenka, uma jovem sueca de 18 anos que quer ser engenheira e trabalhar na Alemanha quando se formar. Além dela, centenas de outros jovens da mesma idade da França, Holanda e Finlândia estão em Berlim fazendo a mesma coisa: aprendendo alemão 6 horas por dia de segunda a sexta em pleno verão.

Uma nova língua aproxima os interesses. Com ela se descobrem novas bandas, novos autores, novas comidas, novos costumes. A língua só é uma barreira pra quem tem preguiça, porque sua grande beleza é conectar lugares completamente diferentes num mesmo conjunto de referências históricas e culturais, sem que eles percam sua identidade. Por exemplo, Munique, Viena e Zurique são cidades de países diferentes, mas que falam a mesma língua. Passeando por elas é possível perceber as peculiaridades de cada tradição e ver como elas se cruzam e se entrelaçam. Esses pontos de contato estão na arquitetura, no comportamento, na culinária e principalmente na arte.


Da língua expressionista

Nos museus Lenbachhaus, Pinakotkee der Moderne (Munique), Leopold (Viena) e Kunsthaus (Zurique) encontram-se os trabalhos dos principais artistas pós-impressionistas, fauvistas, dadaístas, cubistas e principalmente expressionistas, do início do século XX. Pelos seus corredores, é possível ver os trabalhos de lendas como Klimt, Picasso, Klee, Dali e outros, mas o que mais chama atenção é poder acompanhar com detalhes os processos criativos de três artistas: Schiele, Kirchner e Kandinsky. Três gênios, que escreveram, cada um a sua maneira, a história do expressionismo alemão.

Mas, o que muitas vezes passa despercebido é que quando se diz expressionismo alemão, na verdade se está dizendo “da língua alemã“, e não “nacional”. Ou seja, esse movimento tão influente na história da arte não tem nada de nacionalista, pelo contrário, a arte criada por esses artistas não possuía fronteiras geográficas. Egon Schiele, por exemplo, era austríaco, desenvolveu sua obra ainda muito jovem, e seus auto-retratos e paisagens chamaram a atenção, devido ao uso de cores fortes e pesadas que não correspondiam a realidade. Precursor do Expressionismo, ele foi o primeiro a dar uma visão subjetiva da realidade a sua volta transmitindo a angústia do autor. A atmosfera pesada da Áustria antes e durante a Primeira Guerra Mundial encontra sua maior expressão nos seus quadros. Ironicamente, o jovem pintor morreria de gripe espanhola no dia da Anistia da Guerra.

Kirchner era alemão, nasceu numa cidade pequena chamada Aschaffenburg e em 1095, durante o período que estudou na escola técnica de Dresden, formou o grupo “Die Brücke” (A Ponte). Ao contrário do que de costume se pensa sobre a maneira como os artistas expressionistas criavam seus quadros, Kirchner não pintava rápido para “dar conta de emoção”. Ao contrário, era obcecado pelos detalhes e desenhava milhares de vezes uma mesma cena antes de começar a elaborar a composição do quadro e escolher as cores. Essas sempre contrastantes e assumindo cada vez mais uma forma abstrata e não decorativa. Os temas preferidos eram cenas comuns do dia a dia das cidades. Se apaixonou por Berlim e sua vida noturna, buscando inspiração em bares, cabarés e shows de music hall. Pintou inúmeros quadros de mulheres nuas dançando, explorando o aspecto do movimento como abstração da figura humana. Durante a guerra, essa abstração se transformaria em destruição, e passaria a se retratar como doente ou decepado em seus auto-retratos. Atormentado, Kirchner foi aconselhado pelos amigos a se mudar para Suíça.



O russo Wassily Kandinsky se mudou para Munique para estudar pintura e na década de 10, realizou com alguns colegas artistas uma visita a uma pequena cidade chamada Murnau. Lá encontraram nas cores das casas e na atmosfera bucólica os temas de uma pintura que buscava a radicalidade da cor e das formas. De volta a Munique, fundaram o “Der Blaue Reiter” (O Cavalheiro Azul) um grupo expressionista que se opunha a idéia racionalista do cubismo, e que buscava ver a natureza e o homem a partir das sensações. Anos mais tarde, com o fim do grupo em 1914 (ano do início da guerra), Kandinsky se dedicaria com ainda mais radicalidade a abstração das cores e formas, e passaria a classificar suas obras em três categorias: inspirações, improvisações e combinações. Na primeira delas, ele mantinha o ideal expressionista de pintar o mundo exterior dando uma forma subjetiva. Os temas das telas ainda podiam ser reconhecidos de alguma forma. Nas improvisações, o que passava a ser representado não era mais o mundo exterior, mas a interioridade da natureza, buscando o seu lado místico e espiritual e não científico. Um bom exemplo, é o quadro que pinta a experiência sonora da apresentação do músico austríaco dodecafono Schoenberg, em Munique. E por fim, nas combinações, o pintor desenvolveu telas em que misturava os dois conceitos anteriores. Kandinsky é a ultima fronteira do expressionismo, ele se apropria com tanta intensidade das ideias do movimento, que cria o seu próprio: o abstracionismo.

Agora, é fascinante constatar que esses artistas, que viveram e produziram sua arte durante o mesmo período, se comunicavam e trocavam suas ideias e certezas por meio de publicações, cartas, quando não, realizando exposições em lugares diferentes para apresentar o que estavam fazendo. É claro, que o motivo de tamanha pluralidade e efervescência criativa foi a comunicação entre esses sujeitos pensantes. Viajar, estudar em outro lugar, conhecer novos lugares, falar diferentes línguas, tudo isso era muito comum na Europa do início do sec XX e continua sendo até hoje.


Fabrício Belsoff é ator, bailarino, artista visual e diretor da ocupação 'No Lugar' no Teatro Ipanema.
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SÓ A ARGENTINA PODE VINGAR O BRASIL




Ainda de ressaca da derrota humilhante para a Alemanha e ainda confuso com as reflexões surgidas desde então, o brasileiro se depara com mais um dilema diante da classificação da Argentina para a final: torcer ou não torcer?

Sabe-se que a velocidade com que a seleção alemã fez cinco gols em vinte minutos será inversamente proporcional a nossa capacidade de superar essa derrota. Apesar disso, alguns esforços estão sendo feitos para tentar esquecer essa dor. Com a saída da Holanda na quarta-feira, receio que a maioria dos torcedores brasileiros não assistam mais nenhuma partida desse campeonato.

A disputa pelo terceiro lugar corre o risco de ser completamente ignorada. Não pelo receio de ver repetido contra a Holanda o resultado da partida anterior, mas porque existe algo de muito problemático na nossa cultura esportiva que não valoriza nada que não seja a vitória. A medalha de prata e de bronze só tem gosto amargo de derrota pra quem não entende nada de esporte. Essa falta de noção do que é o espírito esportivo é o que nos faz esquecer tão rapidamente de atletas como Yara Marques (1º medalha de bronze no pentatlo moderno) ou nos lembrar do Rubinho Barrichello com tanto cinismo.

Embora no segundo tempo contra a Alemanha, os jogadores brasileiros tenham jogado melhor, as imagens dos torcedores abandonando o estádio antes do fim da partida refletiu a mentalidade covarde de toda a torcida brasileira, que a essa altura do jogo só torcia para que ele acabasse. Mais agonizante que o segundo tempo contra a Alemanha será a partida inteira contra a Holanda. E é por essa razão que talvez nossos jogadores disputem o terceiro lugar diante de um estádio minguado e sem o apoio de que precisam.

Já o motivo porque o brasileiro talvez não assista a final é mais complexo porque mistura dois sentimentos: orgulho e inveja. Em primeiro lugar, a simples visão dos habilidosos jogadores alemães se movimentando pelo gramado será insuportável para o orgulho ferido do brasileiro. Depois, nosso ódio sem explicação contra os argentinos não vai mudar só porque Messi e seus companheiros juraram nos vingar. O brasileiro é invejoso e não quer que um time das Américas vença, porque sabe o que isso representa: perdemos nosso posto de melhores do mundo para nossos “hermanos”. A vitória da Argentina deflagraria que o antagonismo do melhor futebol não está polarizado entre eficiência européia e talento latino e provaria que o futebol não precisa deixar de ser bonito e espontâneo pra vencer.

Por isso, lamento que os brasileiros nos próximos dias vão se distanciar completamente do assunto Copa. Será como se a Copa já tivesse acabado. Mas, ao contrário do que se poderia imaginar, não vão dirigir sua atenção aos assuntos sérios como eleição ou os bombardeios da faixa de Gaza. Vão voltar sua atenção a coisas banais; a um filme que vai passar no SBT, ou a boa e velha trama das oito, porque o cinismo é a melhor forma de exercer a arrogância de quem não tem mais chance de ganhar. O torcedor brasileiro torce e grita com toda força sua vitória, mas quando perde não sabe o que fazer. Parece que não nos foi ensinado que mesmo na derrota se aplaude um time, se reconhece os erros sem caçar um culpado, e principalmente, não se queima a bandeira.

Nossa maior vergonha dessa copa não vai ser a derrota humilhante para Alemanha, nem o escândalo da máfia dos ingressos, mas a nossa falta de cordialidade e espírito esportivo. Não é de se espantar que Podolski tenha chamado atenção por ter publicado no twitter um comentário em que reconhecia a importância do futebol brasileiro e saldava o adversário. Não estamos falando de um jogador experiente, mas de um “garoto” de 29 anos que sabe como é importante para um atleta ter esse senso de respeito. Aliás, tal atitude também se reflete na torcida alemã. Após a derrota pensei que seria escurraçado pelas ruas de berlim só por ser brasileiro, mas curiosamente, os alemães se desculpavam por terem promovido tamanho sofrimento.

Felizmente, acredito que alguns torcedores brasileiros vão deixar o orgulho de lado e vão oferecer o prestígio que a seleção brasileira precisa para enfrentar a Holanda na disputa do terceiro lugar, e não repetir a vergonha de 74 quando perdemos para Polônia. Já o dilema da final, talvez seja mais difícil de ser resolvido racionalmente, mas os verdadeiros amantes do futebol sabem que ignorar esse jogo seria uma estupidez. Quem gosta de futebol sabe que Alemanha e Argentina possuem uma tradição de confrontos em finais (primeira vez em 86, no México, quando a Argentina foi tricampeã, e na Copa seguinte na Itália, quando a Alemanha igualou o feito). E por isso, imagino que irão lotar o Maracanã no maior confronto do futebol do século XXI, em que uma das seleções quebrará o jejum de mais de 20 anos e se tornará tetracampeã.


Fabrício Belsoff é ator, bailarino, artista visual e diretor da ocupação 'No Lugar' no Teatro Ipanema.
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O HERÓI GREGO BRASILEIRO



O herói brasileiro é de pele morena, tem o cabelo pintado de loiro, joga futebol e atende pelo nome de Neymar. Ele é talentoso, simpático, sorridente, fofo e enche os brasileiros de orgulho e ternura. Assim como Pelé, Garrincha e outros heróis brasileiros de origem humilde, Neymar começou a carreira muito cedo. Do início da categoria de base do Santos até a polêmica transferência para o Barcelona no valor de R$ 57 milhões de euros, passou por muitos desafios, mas garantiu seu lugar de protagonista do Panteão, digo, seleção brasileira. Neymar é a personificação do filho pródigo.

Sua graça não tem fronteiras, ela encanta a todos, especialmente os europeus. Por aqui, Neymar é símbolo da cultura brasileira. Não tem Lula, Caetano, Gil, Zumbi dos Palmares que sobreviva a febre Neymar. A primeira coisa que todos os gringos mencionam quando descobrem que sou brasileiro é: eu amo o Neymar. Pena que não tive a ideia de trazer camisas da seleção para vender por aqui, teria ficado rico.

Entretanto, desde a partida de sexta-feira contra a Colômbia, a trajetória do herói parece ter encontrado um outro rumo: o infortúnio. A joelhada do jogador colombiano Zúñiga nas costas de Neymar doeu não só nele, mas no coração do magnífico coro de torcedores brasileiros que chorou vendo a imagem aérea do garoto prodígio saindo do estádio carregado na maca da equipe médica. Na manhã seguinte, a notícia de que o herói estaria fora do resto da competição soou como uma profecia do Oráculo de Delfos, o tão temido Templo do Deus Ápolo. E me fez lembrar do mito grego de Aquiles.

Aquiles é o protagonista da Ilíada, de Homero, que narra os acontecimentos do nono ano da Guerra de Tróia. Ele é filho de Peleu (mortal) e Tétis, uma Nereida, que visando fortalecer sua natureza, mergulhou-o ainda bebê nas águas do Rio Estige. No entanto, o banho que o teria feito imortal, deixou uma parte do seu corpo vulnerável, o calcanhar, por onde ela o teria segurado. Mais tarde, sua mãe profetiza que ele poderia escolher entre dois destinos: lutar em Troia e alcançar a glória eterna, mas morrer jovem, ou permanecer em sua terra natal e ter uma longa vida, mas sendo logo esquecido.

A glória eterna é um dos temas da narrativa clássica do mito de Aquiles e é também a grande busca de todo jogador de futebol. Todos eles aprendem desde início, que não é de dinheiro, nem de troféus que se vive um ídolo, mas dos seus gols inesquecíveis, dos seus dribles únicos, dos seus feitos, da sua glória. E assim como lutar em Tróia era para Aquiles sua chance de conquistar a glória eterna, é na Copa do Mundo e só nela, que o jogador de futebol tem sua chance de se eternizar.

Mas, segundo os gregos, a trajetória do herói não é fácil, ela é marcada por inúmeros desafios. Muito antes de alcançar sua glória morrendo em Tróia, com um flecha envenenada que atingiu seu calcanhar, Aquiles se afastou do campo de batalha devido a uma desavença com Agamenon, deixando seus mirmidões (lendário exército da Tessália) sem líder. A fratura de Neymar também o afasta da Copa deixando seus companheiros de combate sem liderança. Ela é uma complicação.

No jargão do roteiro de cinema, complicação é quando o protagonista passa por uma série de situações que modificam sua trajetória de forma irreparável, intensificando o conflito da história. Bom, basta saber desse pequeno aspecto da teledramaturgia, para saber porque a imagem da joelhada já foi mais veiculada na Rede Globo do que os episódios das novelas das seis e das setes somadas, segundo o site Uol. A emissora sabe muito bem que a imagem em questão produz um efeito tão apelativo pois revela a frágil condição de mortal do herói, tornando-o mais humanizado e aproximando-o dos dilemas do espectador.

Assim como Aquiles, Neymar não é um Deus, mas um mortal. A ele lhe foi concedido todas as qualidades e talentos que o tornam especial, e que por consequência exigem dele respeito e admiração pelos Deuses, se não quiser ser punido. Mas, a saída de Neymar da Copa não chega a ser uma punição dos Deuses, mas sim uma “complicação” em sua trajetória. Se Neymar tiver a coragem de enfrentar seus desafios como outros heróis fizeram – como o Fenômeno – talvez ele consiga atingir a glória.

Porém, essa conquista só será possível agora, se o exército sem liderança encontrar uma figura que substitua seu herói temporariamente. Na Ilíada, quando as tropas gregas estavam a beira da completa destruição, Pátrocolo liderou os mirmidões na batalha, passando-se por Aquiles, após vestir sua armadura. Ele obteve sucesso, mas acabou sendo morto por Heitor, causando a fúria de Aquiles e seu retorno a batalha. Se na partida de hoje contra a Alemanha, David Luiz conseguir se passar por Neymar, com sua crescente popularidade e carismática cabeleira, talvez o Brasil ainda tenha alguma chance de conseguir um desfecho feliz nessa história.


Fabrício Belsoff é ator, bailarino, artista visual e diretor da ocupação 'No Lugar' no Teatro Ipanema.
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VERFREMDUNGSEFFEKT GOL


Minhas lembranças mais remotas me dizem que a Copa do Mundo sempre foi um período especial, alegre e cheio de emoções para mim e para todos os outros brasileiros. Com a chegada desse período tão aguardado, surge uma rara oportunidade de enchermos a boca para dizermos o quanto somos bons: pentacampeões. Eu mesmo fico besta quando digo que já vi o Brasil ser campeão do mundo duas vezes, e que meus pais já viram três, e que tem avô de amigo que é velho que nem o Zagallo e acompanhou todas as conquistas. Jura? Quem me dera ser Deca! Acho que é o que todo brasileiro pensa, ver o Brasil bater todos os recordes e ser o único país dez vezes campeão da copa do mundo. No fundo, o que todo brasileiro quer é fazer parte da história.

Agora, assistindo ao campeonato daqui da Alemanha, me sinto carregado de certo Verfremdungseffekt, o tal efeito de estranhamento/estrangeiramento (em alemão, “fremd” significa estranho e estrangeiro ao mesmo tempo) que Brecht conceituou como o modo de fazer o espectador assistir a um espetáculo como um estrangeiro vê um cidade pela primeira vez, ou seja, com distanciamento crítico. E penso que a coisa ficou ainda mais emotiva e histérica, afinal a cada toque de bola, a cada cobrança de pênalti as pessoas parecem ser tomadas não só pelas suas próprias emoções, como também pelas alheias, transmitidas por milhares de torcedores ao redor do país através de seus celulares e aplicativos, cada um tentando comemorar o gol com um gesto particular. Cada um tentando imortalizar o momento que fará parte de mais uma página da história do seu país: o hexacampeonato.

Mas o quanto disso tem valor? Seriam os austríacos piores porque comemoram até hoje a Copa de 1982, a única da qual eles participaram? É claro que não, afinal eles se orgulham de outras coisas como Freud, Reich, Schoenberg, Viena (capital cultural da música clássica, escolhida como moradia por Mozart e Beethoven) e uma arquitetura riquíssima, que vai do período Barroco ao Gótico. O futebol passa longe de ser uma ferramenta de afirmação histórica pros austríacos. Aliás, a história tem um gosto amargo, afinal eles foram responsáveis pelas duas grandes guerras mundiais; declararam a primeira, em 1914, quando o herdeiro do império austríaco Franz Ferdinand (sim, não é só um nome de uma banda de rock) foi assassinado na Tchecoslováquia, (república checa) e na segunda, de forma indireta, pois Hitler não era alemão, mas austríaco. E essa história é bem conhecida e eles estudam bem direitinho, não tentam se esquecer, como costumamos fazer no Brasil com os casos em que sentimos vergonha, como nossa ditadura.

Em 1970, a imagem de Pelé pulando e socando o ar resumia num único gesto a angústia de uma nação marcada por uma ditadura militar que já durava seis anos, junto com o grito de vitória preso na garganta desde 1962. Agora, agora todo mundo parece estar pulando no ar e socando e chutando pra todos os lados! Talvez, essa seja a marca da nossa geração no Brasil: nos tornamos reféns das nossas emoções e não sabemos nem mesmo porque torcemos por um país, cuja ditadura durou 21 anos, e que até hoje não puniu seus torturadores.

E mesmo que o jovem intelectual brasileiro argumente que a oposição entre emoção e razão é velha e ultrapassada, que nossa cultura do espontâneo, do samba e do futebol é tão relevante quanto a tradição letrada, que a Copa do Mundo é o exemplo da superação das contradições hegelianas, me pergunto se isso não é só mais um clichê para salvaguardar nosso desejo oculto de gritar que somos melhores que os outros em alguma coisa, nem que seja simplesmente na maneira que conduzimos a bola até o gol do adversário. Não é a toa que o brasileiro vaia o hino da seleção adversária, porque não há respeito nenhum, somente arrogância e desejo de vingança contra nem se sabe o quê.

Em 1990, eu tinha seis anos e não me lembro de ter torcido, mas lembro da coleção de copos da Pepsi, principalmente do que tinha o rosto do Careca, um craque que foi esquecido porque não foi campeão. Em 1994, enlouqueci e quase não ouvi a gritaria do Galvão Bueno na TV, porque estava batucando na panela com uma colher de pau debaixo da pia da cozinha da casa da minha vó, como se fosse um índio numa espécie de mandinga maluca. Em 1998, fiquei triste e chorei. Em 2002, comemorei, mas sem o mesmo entusiasmo, talvez porque os jogos eram cedo demais e eu estava sempre de ressaca. Em 2006, vi o Brasil ser desclassificado do camarim do teatro e logo em seguida entrei em cena pra fazer uma comédia, ou seja, “no time for tears”. E em 2010, eu juro que não me lembro. Acho que já faz algum tempo que deixei de torcer pela seleção brasileira. E isso é tão claro pra mim, que nem tenho dúvida quando alguém me pergunta porque não estou no Brasil durante a Copa. Me interesso por futebol amador, acho fascinante a galera jogando bola no campinho de areia e depois bebendo cerveja, mas profissional, não curto, não. Não gosto da Fifa, da CBF, do que o Ronaldo Fenômeno se tornou e não curto Copacabana quando lotada de turistas, a rua fica cheia de caixa de pizza da Dominos pelo chão. É deprê.

Não torço pro Brasil perder, porque acho ingênuo quem acredita que isso faria o pobre torcedor brasileiro refletir mais sobre política ou sua condição social. Pelo contrário, o alienado não se cura com tristeza, nem com alegria, mas com informação. Ele precisa ler Machado de Assis para saber que louco é ele mesmo e não o mundo. E também não gostaria que algo tão dramático, quanto a derrota na final de 50 pro Uruguai no Maracanã, voltasse a acontecer, porque acredito que essas lembranças ficam marcadas na memória das pessoas e só aumentam ainda mais o impulso de vingança e acumulam no coração do brasileiro um ódio, que só se cura com mais ufanismo.

Porém, não queria que o Julio César fosse o herói da semana. Ao invés da cria da Gávea (por sinal, a coisa mais estúpida que li, até mesmo durante a Copa, os flamenguistas inventam uma maneira de se sentirem superiores aos demais brasileiros, simplesmente pelo fato de terem nascido ou sido criados na Gávea, provando que além de ufanista o brasileiro é bairrista e provinciano) preferia que nosso herói fosse da Penha, como Augusto Boal, esse sim um cara que “salvou” o Brasil do “realismo” chato e mostrou que assim como o futebol, o teatro deveria ser experimentado como um jogo de reflexões sobre nossos papéis sociais e políticos.

Estou torcendo para outras seleções como Argélia, Nigéria e Grécia. Infelizmente, durante a elaboração desse texto, a Grécia perdeu pra Costa Rica (o que por um lado me agrada, afinal, a impressionante quantidade de seleções das américas derrotando seleções da Europa nessa Copa é um sinal da revolta pós-colonialista no futebol?). Porém, o que me comove é que os gregos tinham motivos de sobra para torcer por sua seleção, afinal, não lhes sobram muitas outras fontes de alegria, vivendo num país, que sofre a maior crise econômica da Europa e com os maiores índices de desemprego. Depois dos turcos e dos italianos, os gregos formam a maior colônia de imigrantes na Alemanha, e hoje a noite é possível ver um monte deles chorando pelas mesas dos bares. Isso prova que futebol nada tem a ver com justiça, nem com religião, pois se tivesse eles estariam muito bem amparados por Athenas ou Apolo. Mas esses são deuses do passado.

Na teoria, o brasileiro não precisa tanto desse título quanto os gregos, nigerianos ou argelinos, porque temos muitas outras vitórias para comemorar, como os dez anos do programa Fome Zero, ou o início da Comissão da Verdade. Mas quem paga R$ 999,90 num ingresso da Copa para xingar seus governantes, não deve estar muito feliz com essas conquistas. Afinal, elas só beneficiam o pobre torcedor brasileiro, que reza pra Deus todos os dias, agradecendo pela comida, pedindo saúde pros familiares nos corredores do SUS à espera de atendimento e rogando por proteção para seleção. Como Hulk disse, graça à Deus deu tudo certo! Bom, se Deus é mesmo brasileiro, ele já deve estar bastante cansado!


Fabrício Belsoff é ator, bailarino, artista visual e diretor da ocupação 'No Lugar' no Teatro Ipanema.
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