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POSTAGENS, PANELAS E PROTESTOS


A melhor história das manifestações que ocorreram neste 15 de março, foi a minha mulher que trouxe para casa. Ao avistar, de dentro do carro, um grupo de “manifestantes” todo trabalhado no verde-e-amarelo, camisas da seleção brasileira, bandeiras, cornetas, apitos e latinhas de cerveja, ela não resistiu e fez para eles a seguinte pergunta: “Quanto foi o jogo?”. Sem baixaria ou ofensas, a turma apenas reagiu com expressões de incompreensão e cara de poucos amigos. O que nos fez concluir que, além de aulas de história e de leituras mais qualificadas, a este grupo que se agarra a ideia do impeachment como o caminho mágico para salvar o Brasil falta também uma coisa muito importante para encarar momentos difíceis: bom-humor.

E se lhes falta bom-humor para levar na esportiva um comentário contrário ou para avistar alguém vestido de vermelho sem rotulá-lo de “comunista” e querer agredi-lo, por outro lado sobra alegria e empolgação para ir a manifestação parecendo que está indo para uma edição da FIFA FAN FEST ou a um jogo de Copa. Num domingo em que a seleção canarinho não entrou em campo, camisas do Brasil de todas as épocas e de todas as Copas entraram em cena e protagonizaram os registros fotográficos dos protestos em todo o país. Aqui em Salvador, o clima era de celebração, agito e curtição. Manifestantes que mais pareciam foliões com roupas que seguiam o mesmo padrão cromático pareciam desfrutar uma manhã de carnaval fora de época, onde sobravam latinhas de cerveja e bandeiras do Brasil. Onde os sorrisos e as selfies superavam, com folga, reivindicações coerentes e argumentos sólidos.

Mas, o que há para se comemorar? Beber, cair e protestar? Não há tensão por conta de presença da polícia em eventos desta natureza? O que há de tão divertido em "combater a corrupção"? E qual o sentido de usar uma camisa com a marca da CBF para gritar “abaixo a corrupção”? Onde está a coerência nisto? Só se estas pessoas considerarem que a corrupção encontra-se “abaixo” do próprio queixo, costurada sobre o peito esquerdo. Ali está um símbolo claro de corrupção. Ao pensar sobre isso, minha mente só é capaz de resgatar a seguinte lembrança recente: 7x1 Alemanha.

O empoeirado e esgarçado argumento, nascido por volta de 1964, de que o "Brasil vai virar Cuba", que já vem se insinuando desde que o PT assumiu o poder, colocou o tornozelo de fora nas manifestações de junho de 2013 e ontem se revelou como um dos preferidos dos manifestantes. Há ainda uma versão mais atual que é o risco de que passemos por um processo de “Venezuelização”. É o tipo de ideia que chega a ser risível. O Brasil não vai virar nem Cuba, nem França, nem China, nem Venezuela e nem EUA.

É no mínimo curioso ver ou ouvir pessoas temerosas de que o Brasil se transforme num país onde nunca pisaram. Morei na Venezuela faz pouco tempo. Mantenho contato com amigos que fiz neste período principalmente através do Facebook. Eles relatam que, de fato, existem muitos problemas na condução do atual governo. Mas o que a imprensa brasileira, e a internacional, nos faz acreditar é bem diferente dos relatos que ouço de amigos venezuelanos. Nenhum deles usa o termo "ditadura" ao falarem de suas rotinas e de suas realidades.

O Brasil é o Brasil. Com todos os erros, falhas, contrastes e desigualdades acumuladas ou intensificadas no percurso de uma democracia que acabou de fazer 30 anos. Com tanto ainda para se amadurecer, vivemos numa nação que permite que pessoas digam as besteiras e os absurdos que quiserem diante do computador, nas varandas ou nas ruas. Não é fácil conciliar tantas diferenças e tantos abusos. Diante deste quadro de tensão, desta crise de representatividade, dos questionamentos cada vez mais contundentes sobre o modo como funciona o nosso sistema político, a presidenta Dilma e seu partido precisam tomar decisões mais efetivas daqui para frente. Caso contrário afastarão cada vez mais aqueles que um dia acreditaram neste projeto e, mais grave ainda, aumentarão o fôlego dos que, desde sempre, lutam do outro lado da disputa no campo político.

Relutei bastante em ligar a televisão durante o domingo de manifestações. Ao chegar em casa da rua, priorizei as redes sociais e os portais de notícias. Ligar a televisão aos domingos nunca é uma boa ideia. Mas fiquei curioso para confirmar o modo como a chamada "grande mídia", em especial a TV Globo, se debruçaria com tanto afinco a esta pauta. Não que isto seja proibido ou inaceitável. Mas porque será que a Globo não adota a mesma postura na cobertura de temas fundamentais como o extermínio da juventude negra nas periferias, o genocídio das populações indígenas, crimes de homofobia e machismo, descriminalização das drogas, só para ficar nos mais evidentes? Não satisfeitos em nos bombardear com os incontáveis flashes ao vivo, eles ainda encaixaram a pauta das manifestações nos momentos mais óbvios da grade como em todos os seus telejornais, no Fantástico e forçaram a barra ao introduzir o assunto nas edições do Esporte Espetacular e até do Faustão.

Ao desligar a telinha e correr para a internet a fim de acompanhar o comportamento festivo nas ruas neste 15 de março, o bate-panela nas varandas de prédios (em sua maior parte de bairros nobres das principais cidades do país) e os impropérios disparados contra a presidenta Dilma nas redes sociais, me vi obrigado a encarar a seguinte reflexão: a chamada “direita envergonhada” não só perdeu a vergonha, como ainda resolveu levar sua ignorância para passear. E o mais importante: as manifestações ganharam peso e corpo com a presença de outros setores da sociedade, deixando de ter presença exclusiva da chamada "Elite Branca" ou mais vulgarmente apelidados de "Coxinhas". Mais do que essa iguaria com recheio de frango, a "vitrine" que se tornou as avenidas de dezenas de cidades brasileiras, exibia "salgados" de todos os tipos e de todas as cores.

O que mais me deixa estarrecido, no entanto, é que mesmo os manifestantes mais moderados, que reconheceram diante da imprensa não haver qualquer fato gerador ou base jurídica para sustentar a ideia de impeachment, não se incomodaram em caminhar ombro a ombro com pessoas que clamavam por uma “intervenção militar” e todas as suas horrorosas variáveis.

 Não faz o menor sentido sair para uma manifestação nas ruas carregando um cartaz em que se pede a “intervenção militar”. É como entrar num restaurante de comida orgânica e pedir fast food. Bradar a favor de uma ditadura no Facebook também não faz o menor sentido. Em regimes ditatoriais uma ferramenta com as potencialidades desta rede social não existiria, não seria sequer permitida. Num regime de exceção, a atmosfera de repressão não só desestimularia a possibilidade de manifestações, como anularia qualquer ambiente onde alguém pudesse se sentir encorajado para dizer publicamente que a presidenta é “vaca”, “piranha” ou “vagabunda”. Por isto mesmo que não custa reforçar e repetir a frase que escutei de alguém próximo por esses dias e que não me sai da cabeça: “Ainda prefiro as vaias e os gritos de uma democracia do que o silêncio de uma ditadura”.


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GABRIEL CAMÕES
Ator, poeta, jornalista e colunista do ORNITORRINCO


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A REVOLUÇÃO ESTÁ SENDO TELEVISIONADA?
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PRECISAMOS FALAR SOBRE MACHISMO

Li esses dias um texto da Camila Moraes, publicado no site operamundi, que se conclui com a seguinte frase: “o machismo é um mal que se aprende. Por cores, brincadeiras e risadas”.

Estamos em 2015, na semana em que se celebra o Dia Internacional da Mulher e, não só por este motivo, mas independente do tempo ou do lugar em que vivemos, é fato que nós ainda precisamos falar sobre machismo. Todos nós. Mas quero falar aqui especialmente para nós, homens, filhos, irmãos, netos, pais, maridos, primos e amigos de mulheres. Precisamos fazer um esforço diário para emergir e respirar acima desse mar agressivo e revolto no qual estamos cotidianamente mergulhados e que, muitas vezes, consegue – por sua dimensão turbulenta – disfarçar ou pormenorizar máculas e cicatrizes que ações de cunho machista deixam em todos nós. Principalmente nas mulheres, é claro. Mas não só nelas. Em mim. Em você.

Enquanto ainda presenciarmos homens, em qualquer local público, se comportando como se estivessem dentro de um açougue. Enquanto for necessário que existam vagões exclusivos para mulheres no metrô das grandes cidades para evitar que possíveis “abusos” aconteçam. Enquanto uma mulher não tiver a tranquilidade de escolher a roupa que quiser para sair na rua sem ter que se preocupar se será assediada ou não por isso. Enquanto pensarmos que só um irmão é capaz de defender uma irmã e que o contrário não é possível. Enquanto acharmos que chorar é coisa de mulher ou que futebol é coisa de homem, azul para ele, rosa para ela, nós precisaremos falar sobre o machismo.

Enquanto jovens forem abusadas em trotes que propõem jogos e “brincadeiras” fundados em comportamentos violentos e desrespeitosos, como os casos comprovados que se repetem anualmente em instituições de ensino respeitadas como a faculdade de medicina da USP. Enquanto uma jornalista brasileira for gravemente ameaçada e receber pelo correio dezenas de pacotes contendo brinquedos eróticos, esterco, vermes de mosca, livros para emagrecer, apenas porque exerceu seu direito de se expressar e escreveu um artigo abordando o machismo no universo Nerd. E, por este motivo, seus agressores prometerem que só parariam com as ameaças depois que ela cometesse suicídio. Como não falar de machismo diante disto?

Enquanto as nossas adolescentes continuarem a cometer suicídio como forma de aplacar a dor e o desespero de ver a sua vida íntima completamente devassada através de fotos e vídeos, e os homens responsáveis por vazar esse conteúdo na web permanecerem impunes. Enquanto tivermos parlamentares como o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) que, por mais de uma vez insulta sua colega, a deputada Maria do Rosário (PT-RS), com dizeres como“não te estupro porque você não merece”, sem temer processos e amparado na certeza que nada lhe acontecerá. Enquanto a imprensa brasileira continuar a produzir “reportagens” calculando o quanto gasta de maquiagem a presidenta Dilma Rousseff, ou analisando seu penteado e sua vestimenta, se está certo ou errado, se combina ou se não combina, como isso tivesse realmente alguma relevância para o ambiente político ou para os rumos do nosso país, é um dever nosso conversar sobre machismo.

Enquanto mais da metade de nós brasileiros continuarmos a conhecer ao menos uma mulher que foi vítima de violência doméstica. Enquanto uma mulher for estuprada a cada 12 segundos neste país. Enquanto piadas irresponsáveis de figuras como Rafinha Bastos e Danilo Gentili continuarem sendo contadas sem melindres ou constrangimentos, em troca de aplausos e risos fáceis, colaborando e reforçando a ideia da mulher como objeto, é fundamental que falemos sobre machismo.





É então que chego ao recente episódio que colocou novamente o machismo no centro da discussão. Trata-se de um vídeo de uma entrevista concedida em maio de 2014 pelo ex-ator Alexandre Frota ao programa "Agora é Tarde" (TV Bandeirantes). Quase um ano depois este material reverberou com muita força nas redes sociais e provocou reações não só do movimento feminista, mas de vários outros setores da sociedade civil. Nele, Frota é entrevistado justamente por Rafinha Bastos, e consegue a proeza de arrancar risos e aplausos do público ao narrar que fez sexo a força com uma mãe de santo durante uma suposta visita a um terreiro de candomblé. Mesmo que não se trate de um episódio verdadeiro, além do machismo evidente no tom do discurso, em que ele incita clara e abertamente o estupro em rede nacional, Alexandre Frota ainda consegue demonstrar total ignorância e preconceito contra as religiões de matriz africana, ao usar uma série de rótulos rasos sobre o que é e o que faz uma mãe de santo.

É importante esclarecer que o que está em jogo aqui não é se o causo narrado por ele é real ou fictício. Não cabe, portanto, a defesa que Rafinha Bastos fez no seu perfil do twitter, ao dizer que “Aquilo nunca aconteceu. Se tivesse acontecido, ele estava na cadeia. Foi uma história inventada”. Ora, mesmo que não seja verdade, que não tenha havido a consumação do ato, ou uma confissão, o simples fato dele fantasiar um caso desta natureza e dizer isso – mesmo que em forma de piada – num programa televisivo de longo alcance, é mais do que um ato de irresponsabilidade. Se não dá para chamá-lo de "estuprador", e não dá mesmo, ao menos podemos afirmar que houve clara apologia ao estupro e evidente banalização da violência contra mulher. A gravidade do fato é indiscutível e ele, o programa e a emissora não podem ficar impunes. Precisam responder por isso.

Li artigos na web que se mostraram mais preocupados em definir o exagero e a radicalidade do tsunami de comentários de reprovação na internet, do que propriamente em discutir como atitudes machistas ainda são aceitas tão naturalmente na nossa sociedade, se reproduzindo das rodas de conversa de dentro de casa aos programas televisivos. A comparação mais infeliz, na minha opinião, foi a do músico e produtor Emir Ruivo, no blog Diário do Centro do Mundo, que usa a expressão "apedrejamento medieval" para se referir ao que ele chama de "histeria coletiva" no Facebook como reação ao episódio. Para ele, Frota não pode ser chamado de "estuprador", pois não passa de um molecão, bobo, misógino. Ora, se dá para dizer que ele é menos que um "estuprador", dá também para afirmar que ele é mais que um "molecão" de 50 anos.

O fato do vídeo ter se tornado um “viral” e, por conta disto, ter desencadeado um "massacre virtual", com certos exageros, é bem verdade, não o torna uma vítima e não o exime da responsabilidade do que declarou. A onda de reações, mesmo que carregada de certos excessos, é importante para ao menos sensibilizar o poder público, através do Ministério Público e de outros órgãos que tem o dever de analisar o caso e que podem (e devem), de fato, punir os envolvidos. Neste caso, especificamente, responsabilizar Alexandre Frota, o programa "Agora é Tarde" e a TV Bandeirantes. Enquanto não dermos um passo adiante, enquanto imperar a sensação de que "nada vai acontecer", enquanto os veículos de comunicação não agirem de forma responsável, enquanto atitudes machistas, racistas e homofóbicas forem motivo de piadas, enquanto houver audiência para programas como esse, enquanto houver aplausos para figuras como Alexandre Frota, não poderemos nos calar e será necessário falarmos sobre machismo.

Há muito mais em jogo nessa discussão toda, mas para não me alongar ainda mais... Evoco aqui a figura genial de Laerte, cartunista brasileiro que – a partir de 2010 – passou a se vestir de mulher, se posicionando para além das definições de gênero. Ao ser entrevistado por uma turma de jornalistas no programa Roda Viva (TV Cultura), em certo momento ele disparou: “Existiu a tal da revolução feminina, que é um dos marcos da humanidade. O que não aconteceu é a revolução masculina”. Diante disto, embora a realidade esteja nos mostrando mais sinais negativos do que avanços, eu procuro fazer a minha parte no convívio com homens e mulheres e sigo torcendo para que consigamos construir – com todo sacrifício que isto exigir de nós – uma sociedade com menos Frotas e mais Laertes.


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GABRIEL CAMÕES
Ator, poeta, jornalista e colunista do ORNITORRINCO


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CASEI COM A MINHA MELHOR AMIGA




Casei com minha melhor amiga. E nestes mais de 30 anos de existência, eu posso afirmar que não há sorte maior na vida. Eu poderia ter nascido rico, ter ganhado na loteria ou ter chegado neste mundo como filho de Chico Buarque. E é inegável que há um componente de sorte nestas três hipóteses já superadas. Só que faltam zeros à direita nas contas bancárias de meus pais e faz tempo que não entro numa casa lotérica. Eu não me chamo Sílvia, Helena ou Luísa e estou certo de que Chico não escreveu para mim a canção “O Filho Que Eu Quero Ter”.

Casei com minha melhor amiga e mesmo quando éramos apenas bons amigos, eu já percebia de alguma maneira que o destino reservara para nós algo grandioso. Nos conhecemos no teatro XVIII no dia 27 de março de 2003, data em que se comemora o dia mundial do teatro. Nove anos e meio depois, nos casamos num teatro com uma plateia lotada de amigos e familiares, além de um palco repleto de palhaços, incluindo eu e ela. E ao invés de alianças, trocamos tortas na cara.

Casei com minha melhor amiga e desde então dividimos a casa, os sonhos, as contas e os desafios. Não temos (e nem queremos) uma mansão. Mas temos a certeza de que podemos contar um com o outro e conversar sobre tudo. Não há espaço para mentiras ou para segredos, a não ser aqueles que compartilhamos. Mas há espaço para minhas brincadeiras mais idiotas e para os dengos infinitos que ela pede e os que ela oferece.

Casei com minha melhor amiga. E com ela sei que não existem as máscaras perigosas ou os jogos arriscados que a vida costuma impor. As máscaras que vestimos, quando queremos, nos servem apenas para colorir a rotina ou fazer graça. E os jogos aqui em casa... só os de tabuleiro, na mesa da sala junto com nosso filho. Nosso filho é também o nosso professor. Não faz ideia que nos ensina tanto quanto aprende conosco. E o desafio compartilhado de transformá-lo num homem íntegro e digno nos torna ainda mais cúmplices.

Foto: Agnes Cajaíba

Casei com minha melhor amiga e tenho a sorte de também ser o melhor amigo dela. E é engraçado perceber, nas diversas situações do cotidiano, o tamanho da nossa sintonia. São tantas as vezes em que falamos a mesma palavra juntos. E não cansamos de nos surpreender quando nos damos conta de que estamos cantarolando a mesma música ou pensando na mesma coisa. Ou quando sugerimos uma leitura, uma música ou um vídeo que o outro acabou de ver. E constantemente vestimos a mesma cor e rimos ao olhar um para o outro na hora de sair de casa.

Casei com minha melhor amiga e temos plena consciência de que nem tudo são flores, mesmo que ela tenha o charme de carregar essa palavra em espanhol como sobrenome. E nessa nossa caminhada temos aprendido que mais importante que o encontro das afinidades é a celebração das diferenças. E temos colocado as nossas em convívio em todos os lugares da casa. E acho que cada vez mais elas se aceitam. Ponto para nós.

Casei com minha melhor amiga e temos vivido experiências tão incríveis que fico meio chocado quando ouço ou vejo as pessoas desistindo de investir numa possível relação amorosa sob justificativas como “não posso, pois ele é só meu amigo” e suas tantas variações. É muito louco pensar dessa maneira. Talvez a vida ande tão confusa e os valores tão misturados que faz muita gente pensar que se interessar por alguém bacana ou se apaixonar por um amigo é uma coisa errada.

Casei com minha melhor amiga numa época em que tudo é tão etéreo, passageiro, descartável. Em que o pensador polonês Zygmunt Bauman batizou de a “era da liquidez” e em que vejo as pessoas se agarrando a qualquer subterfúgio para não se comprometerem... com a vida, com os outros ou consigo mesmas. Casar, portanto, torna-se um ato revolucionário. Um atestado de coragem. A vontade de abraçar um mesmo projeto. Escrever uma história juntos.

Casei com minha melhor amiga e juntos descobrimos, na leitura de um texto de Rubem Alves, uma incrível citação de Nietzsche que diz: “Ao pensar sobre a possibilidade do casamento, cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até sua velhice?’ Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar”.




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GABRIEL CAMÕES
Ator, poeta, jornalista e colunista do ORNITORRINCO


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HORA DE ESTICAR OS HORIZONTES - MANOEL DE BARROS (1916 - 2014)


A poesia é a infância da língua”. Com esta frase curta e arrebatadora, Manoel de Barros me ensinou mais sobre poesia do que qualquer livro, qualquer aula, qualquer paixão, qualquer olhar, qualquer cachoeira, qualquer entardecer... Pena que ganhei de presente tão tardiamente, das mãos do meu pai, a sua poesia completa. Só em 2009, com 25 anos de idade e já me aventurando por esse universo da escrita, que fui apresentado ao homem que “guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho: 1 abridor de amanhecer, 1 prego que farfalha, 1 encolhedor de rios e 1 esticador de horizonte”.

Aqui em Salvador, mais ou menos dois mil quilômetros distantes do Mato Grosso do Sul, morada do poeta por toda a vida, me avizinhei de Manoel sempre que li seus versos. O pequeno Bernardo e suas peraltagens, o diálogo das aves com as pedras, das rãs com rios, das formigas com as árvores, fundiram minha infância nas fazendas e sítios do interior da Bahia com as incursões poéticas de seus tempos de criança em Corumbá, cidade situada no pantanal matogrossense. Mas, com isto não quero aqui contribuir para reforçar o rótulo de “Poeta do Pantanal”, que já o vi recusar alegando que a poesia mexe com palavras e não com paisagens.

Mais do que a chance de visitar e viajar pelo Pantanal, guiado por suas metáforas e pelos seus versos, Manoel me fez ver o mundo dentro de uma flor. Só com ele eu fui realmente capaz de perceber a grandeza de um besouro. O quanto eu e uma pedra temos em comum. Ou que pode chover na palavra onde eu estou e que “sobre o nada eu tenho profundidades”. Ele me ensinou ainda que “poesia não é para compreender, mas para incorporar. Entender é parede: procure ser árvore”.

O que dizer de um homem que cria o verso “sapo é um pedaço de chão que pula”? Que é capaz de conciliar genialidade e simplicidade já nos títulos de suas obras? Como não se encantar ao encarar a capa de um livro que traga escrito “Arranjos Para Assobio” (1980), “O Guardador de Águas” (1989), “Livro Sobre Nada” (1996), “Retrato do Artista Quando Coisa” (1998) ou “Exercícios de Ser Criança” (2000)? Manoel de Barros lançou diversos livros, ganhou prêmios e honrarias, entre eles dois Jabutis. Mas isso pouco importa. Para ele o que vale mesmo é o jabuti virar pedra ou virar porta.



Declaro aqui, portanto, minha tristeza por saber que não terei mais a chance de ir ao Mato Grosso do Sul bater na sua porta e jogar conversa fora. Alimentei este sonho por muito tempo. Ao ler esta manhã sobre a sua partida, eu me lembrei de uma linda passagem do documentário “Só Dez Por Cento É Mentira” (2008), de Pedro Cezar, quando Manoel diz que “pra não morrer, tem que amarrar o tempo no poste. Eis a ciência da poesia: amarrar o tempo no poste”. Pois, é chegada a hora de desatar o nó do tempo e esticar os horizontes em outro lugar. Aqui me despeço do “menino que carregava água na peneira”. Adeus, Manoel. Os meus olhos jamais se encontrarão com os seus. Mas as suas metáforas nunca me deixarão.


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SE VIRA NOS 30


Esse ano eu cheguei aos 30 anos e tinha certeza de que quando atingisse esta marca tão simbólica eu seria dominado por uma onda devastadora de depressão e que iria me sentir velho acabado e caquético. Mas não foi exatamente o que aconteceu. Tinha muito medo dos 30. Mas este medo que me acompanhou, mais ou menos a partir dos 25, simplesmente sumiu ou esqueceu-se de aparecer no dia do meu aniversário. Fechar o ciclo de mais uma década me trouxe algumas reflexões interessantes. Ficar velho faz parte. Envelhecer bem é uma arte.

Não falo simplesmente de aceitar os cabelos brancos ou de não se importar em ser chamado de “tio” pelos colegas de seu filho na escola. Essa é a parte fácil da brincadeira. Mais do que encarar esses “ritos de passagem” com naturalidade, acho que o grande lance é tentar entender seu próprio tempo.

Na matemática o número 30 é exato e representa 30 em qualquer equação (aqui a minha referência é a matemática básica que aprendi na escola para passar de ano). Mas na vida real, os meus 30 não se igualam a uma vida de três décadas no Nepal, de quem teve esta idade em 1968, de quem nascerá em 2020 ou até do meu vizinho, que pode até ter a mesma idade que eu, mas tem uma vida completamente diferente e provavelmente nunca lerá este texto para concordar ou discordar de mim.

Não considero, portanto, que meus 30 anos sirvam de exemplo para ninguém e não tenho qualquer ambição de produzir uma cartilha comportamental recomendando algo do tipo “como chegar bem aos 30” ou “o segredo por trás dos 30” ou “10 passos para ter sucesso aos 30”. Eu só quero aqui dividir minhas impressões sobre como é chegar num momento da vida em que muita gente projeta um horizonte de complicações, em que o peso da idade ameaça se impor ou que supostamente o mundo passa a cobrar mais de você. Quem nunca ouviu de alguém da família a frase “você já está com quase 30 anos”, acompanhada de uma melodia que quase te convence de que você está prestes a cometer um crime? E aquele comentário de um amigo ou de um tio mais velho em tom de deboche que te faz esquecer a frase que foi realmente dita e uma constatação do tipo “caralho, estou fodido” lhe invade por completo?

O lance, como já disse, é entender seu próprio tempo. Compreender que é possível viver 30 anos em uma semana. Há quem consiga permanecer com 16 anos por décadas. Tem gente que com 14 já superou, e muito, os 30. Mas também tem quem faça 60, sem nem ter chegado perto dos 25. O meu tempo me fez ponderar que “ter 30” é bem diferente de “saber que tem 30”. Ter 30 anos para mim é só uma questão de tempo. É o andar dos ponteiros. Arrancar folha de calendário. Soprar velinhas. Mudar de número num formulário qualquer.

Com base na minha experiência, é mais do que superar o fato de que não morri com 27. Ao invés de medo, é sorte. Por ser pai de uma criança incrível de 9 anos e por ainda ter vivos os meus 4 avós. É mais bicicleta do que carro. É mais dia do que noite. É mais leite e pão do que cerveja e pizza. É mais casa do que rua. É mais samba do que rock. É mais política do que esporte. É aprender a ser pai e melhorar como filho. É cuidar melhor de si por sentir-se responsável por outras pessoas. É reconhecer o adulto que você precisa se tornar sem deixar de respeitar a criança que há em você. É saber levar a sério toda essa brincadeira.

Mas essa é a minha fórmula. Não é menos e nem mais. Nem todo mundo anseia constituir uma família, plantar uma árvore ou escrever um livro. Muita gente demora de entender algo tão simples. E para uns não acho que seja realmente simples. Tem gente que vive sem descobrir. Ou morre sem saber. Tudo isso para dizer que independente do que seus pais pensam ou desejam, de quem são seus amigos, de toda a pressão social, do mercado de trabalho, do seu gerente no banco, do resultado do jogo, do final da novela, das contas no fim do mês, enfim... O segredo é você. Você decide se quer ou como quer chegar aos 30.

Estamos todos subindo a mesma montanha. Há caminhos em todas as direções e escolhas por toda parte. Neste inevitável percurso – chame de mágica ou como quiser – a palavra “trinta”, embora não pareça, é capaz de se esticar a ponto de tornar-se maior que o “infinito”. Basta querer. Queira você ou não. Sim. Queira. Você. Ou não.

Gabriel Camões é palhaço, ator, poeta, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.

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ACOMPANHE AO VIVO - A TRAGÉDIA SEGUNDO A IMPRENSA


Estamos ao vivo, às 12h05, trazendo informações atualizadas sobre o avião que caiu numa área residencial no município de Santos na manhã de hoje. Temos agora a confirmação de que um dos candidatos à presidência estaria nesta aeronave. Aparentemente, sua mulher e seu filho mais novo também o acompanhavam. A informação que temos até o momento é de que não há sobreviventes. Você segue conosco acompanhando imagens ao vivo do local do acidente. O nosso helicóptero neste momento sobrevoa o local e vocês podem notar que há muitos destroços, muita fumaça e a casa atingida pelo jato está completamente destruída.

De acordo com informações do alto comando da Aeronáutica, a aeronave Sellia 220 WS prefíxo BR-EFE caiu por volta das 10h da manhã. No momento em que foi noticiado o acidente, a cúpula do partido já havia considerado a possibilidade de que fosse realmente o avião em que o candidato viajava. Segundo o Corpo de Bombeiros, há pelo menos 10 vítimas confirmadas. Você que acaba de ligar a televisão, às 12h11, seguimos ao vivo com as notícias desta tragédia que envolve o candidato à presidência. A equipe do candidato confirmou há pouco que ele partia do Rio de Janeiro e estava a caminho do Guarujá, no litoral de São Paulo. Aparentemente, sua mulher e seu filho do meio também estavam na aeronave.

Agora, às 12h14, você segue com imagens ao vivo do nosso helicóptero e pode notar que há muitos destroços e muita fumaça no local. É a segunda vez que repito essa mesma frase, eu sei. Já falamos a mesma coisa umas quatro ou cinco vezes, só que com palavras diferentes. As imagens que vocês acompanham não estão sendo mostradas com exclusividade por nós, pois o nosso repórter já avisou ao editor que duas outras emissoras também sobrevoam o local neste momento com os seus próprios helicópteros. Mas usaremos nossa influência e poder para falarmos com alguém muito importante antes de qualquer outro veículo. Só o que podemos dizer neste momento é que o acidente vitimou o candidato e, aparentemente, sua mulher e seu filho mais velho também estavam na aeronave.

São 12h22 e como ainda não temos uma fonte de peso para dar um depoimento, a família do candidato ainda não se pronunciou, temos que seguir mostrando as mesmas imagens do local do acidente. Não sabemos direito como fazer estas poucas informações renderem, mas nosso editor quer que seguremos a audiência e então continuamos com o helicóptero sobrevoando o bairro do Coqueiro onde agora há pouco o jato que levava o candidato à disputa presidencial caiu. Os anunciantes devem estar revoltados neste momento, 12h26, não pela morte do candidato, mas porque estamos no ar há mais de 20 minutos e ainda não encerramos o bloco para chamar os comerciais...

Temos agora uma informação! A mulher e o filho do candidato não estavam no avião. E não vamos pedir desculpas, até porque usamos a expressão “aparentemente”, justamente para não nos comprometermos. E para que vocês esqueçam rapidamente dessa derrapada jornalística, nossa equipe usou todo nosso aparato e conseguimos entrar em contato com outro candidato, que está neste momento, às 12h34, no Rio Grande do Sul e se mostrou chocado com a notícia da morte de um dos seus adversários. Ele parecia muito consternado com a notícia. Até parece que eles eram amigos, o que surpreende a todos. Se o candidato não tivesse morrido neste acidente, talvez o candidato não o elogiasse tanto assim, até porque eles estavam disputando a preferência do povo brasileiro. A notícia da morte de um dos candidatos já está confirmada, 12h37, e a Presidenta – que tenta a reeleição – ainda não se manifestou. Nem sabemos se ela está em uma reunião ou compromisso importante, mas só importa agora dizermos que não foi emitido nenhum comunicado oficial em seu nome. 12h38 e a qualquer momento a Presidenta vai se manifestar sobre esta tragédia. Tínhamos reservado uma parte desta edição para repercutir a morte de uma grande atriz americana cujo nome agora não importa ser mencionado, mas acho que agora não vai dar mais tempo. Em sete minutos o noticiário esportivo deveria entrar no ar, mas vamos seguir por mais alguns instantes com as mesmas imagens do local do acidente e vendo o quanto vocês resistem a essa enrolação.

O partido do candidato ainda não se pronunciou sobre como conduzirá a campanha a partir deste momento. Mesmo que esta seja uma atitude óbvia, estamos falando aqui para preencher o tempo. Atenção! Vamos agora, às 12h39, ao vivo com a nossa repórter que trará novas informações sobre o acidente.

— Olá, âncora. Estou falando daqui de um lugar diferente, com um jardim bonito ao fundo, pois sabemos que o público já estava para mudar de canal e vou dizer agora coisas que você já disse. A ideia é segurar a audiência mais um pouco e levantar a bola para o jornal da noite.

Obrigado a você, repórter. Voltamos ao estúdio, às 12h42, e temos agora a informação de que este é o assunto mais comentado nas redes sociais em todo o mundo. Na rede social com maior número de usuários neste momento há um bombardeio de links e imagens sobre este acidente que vitimou o candidato à presidência nesta manhã. A página do candidato recebeu 570 mil curtidas em menos de duas horas e já há previsões de que seu nome subirá nas pesquisas. Realmente, incrível...

Notas de pesar foram emitidas em tempo recorde por mais de 200 políticos brasileiros, através do seu exército de assessores. Todas dizendo mais ou menos a mesma coisa. Mas a amarga verdade é que rapidamente a vaga deixada por esse candidato será ocupada por um novo candidato e que o grande jogo político seguirá seu curso sem freios e impeditivos. Mas agora, 12h47, tem que parecer que estão todos muito sentidos e que foi uma grande perda para o país. E foi uma grande perda, realmente. O problema é que isso aqui é negócio e toda grande perda só estampa uma única capa e só rende manchete uma única vez.

Amanhã, como todos os outros veículos, cobriremos todas as movimentações sobre o enterro do candidato e nos esforçaremos para captar e exibir as imagens mais dramáticas da família e amigos próximos. Políticos importantes e personalidades de outras áreas serão entrevistados por nós. Algumas manifestarão seu pesar com verdadeira sinceridade. Não sei se com a mesma sinceridade que conduzi a edição de hoje, agora 12h51, deste telejornal. Outras farão com o simples objetivo de aparecer.

Mas, amanhã mesmo, este jornal fará algo que nenhum outro veículo de comunicação fará. Realizaremos uma entrevista exclusiva com o candidato que faleceu na manhã de hoje e ele nos dará detalhes, com exclusividade, deste grave acidente. Apresentarei o telejornal, ao vivo, diretamente do bairro que testemunhou esta histórica tragédia. Esperamos vocês.

Fiquem agora com os gols da rodada.


Gabriel Camões é palhaço, ator, poeta, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.

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JOGA FORA NO LIXO


No centro de Salvador, dois homens de meia-idade subiam uma ladeira bem inclinada e papeavam calorosamente sobre a política local. Eu seguia logo atrás deles, apressando o passo para ficar mais próximo da dupla e curioso para pescar alguma informação ou frase interessante daquela conversa. O que estava à esquerda, mais próximo da rua, ostentava um sorriso simpático, usava óculos de armação pesada e vestia uma farda com o nome de um edifício no bolso da camisa social. O outro parecia mais despojado, usava chinelos e bermuda, parecendo estar num dia de folga, dominava o rumo da prosa e era mais expansivo. Com o braço direito carregava algumas sacolas de compra e com a mão esquerda segurava uma latinha de cerveja.

Era uma cena aparentemente ingênua e agradável de ver. Só que após o derradeiro gole, sem pestanejar, ele simplesmente arremessou aquele objeto metálico para trás bem na minha direção e, após um ou dois quiques, a lata parou bem diante dos meus pés. Num único gesto, a simpatia recém-adquirida por aqueles dois senhores foi aniquilada por completo. Confesso que fico muito impressionado com a falta de vergonha de quem costuma agir assim. É realmente assustador perceber que já vivemos numa sociedade em que um sujeito se sente plenamente à vontade de jogar qualquer coisa no chão da rua mesmo na frente de dezenas de outros cidadãos que comungam daquele espaço.

Mais estarrecedor ainda é o fato de que em episódios desta natureza, quase sempre, somos coniventes com o gesto, simplesmente fingindo que não estamos vendo ou pensando: “não é problema meu” ou “não fui eu que joguei”. E cenas assim tendem a se tornar mais e mais corriqueiras, pois de acordo com dados de uma pesquisa divulgada em 2013 pela ABRELPE (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais), o lixo de todas as cores que produzimos nesta nação verde-e-amarela aumentou 21%. Mais do que o dobro do crescimento populacional no mesmo período analisado.

E um detalhe disto tudo é que boa parte deste lixo quase nunca vai para o lugar correto graças a atitudes como a do senhor que arremessou a latinha de cerveja na minha direção. Lá atrás, em 2010, um estudo realizado pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) apontou que a média diária de lixo produzido por cada brasileiro era de 1 kg. Neste mesmo material há a informação de que o país tinha, já naquele ano, um potencial para lucrar cerca de R$ 8 bilhões por ano com reciclagem, mas que arrecadava bem menos da metade deste valor.

Sei que este é um assunto com opiniões divergentes, e que estou abrindo outras janelas na conversa, e já vou logo confessando que não domino bem o tema e que até li algumas opiniões que defendem que a coleta seletiva não é verdadeiramente um negócio rentável. Mas dinheiro aqui é o que pouco importa. A consciência limpa (como a rua deveria também estar) de um cidadão não tem preço. A minha pelos menos não pode ser comprada ou negociada. Por isso cansei de ficar calado, catei aquela latinha no chão e gritei para o homem exibindo o objeto que ele havia acabado de se livrar:

- Ei, amigo, o senhor acha mesmo correto jogar o seu lixo na rua? Não poderia levar contigo até encontrar um local para jogar essa latinha?

O “pai” daquela lata reagiu como se eu estivesse falando em outro idioma com ele, apertou os olhos com um ar de estranhamento e me respondeu “na lata”:

- Hospital Português? Você quer saber onde fica? É só subir a rua, logo ali na frente...

Daí em diante, ao perceber que ele não estava disposto a admitir a culpa, eu alterei mais ainda o tom de voz e o chamei de mal-educado, falei sobre o mau exemplo que ele estava dando com aquele gesto e que não custava ele ter segurado o lixo por algum tempo. O amigo dele, meio constrangido, se esforçava para intermediar aquele entrevero explicando calmamente ao parceiro que eu não gostei dele ter atirado aquela coisa laranja que deve demorar uns 400 anos para a natureza dar conta. Mas o homem não parecia disposto a reconhecer a falha e insistiu na encenação de me explicar o caminho para o hospital que estava do outro lado da rua.

De lá para cá, não tenho como saber quantas latinhas mais “caíram” da mão dele. Depois do bate-boca, decidi caminhar carregando o lixo do meu algoz por uns vinte minutos em busca de uma lixeira, tonel ou algo parecido. Quase desisti, mas quando estava perto do meu destino final, achei um lixo improvisado numa caixa de papelão que um vendedor de água de coco colocou ao lado de sua barraca. Nas horas seguintes, fiquei pensando na experiência como um todo. E constatei que é complicado, para não dizer impossível, mudar os hábitos de uma população que produz cada vez mais lixo e que o número de lixeiras não acompanha o crescimento da papelada, das embalagens e porcarias que geramos.

As lixeiras de Salvador quando não estão destruídas, estão entupidas até a boca e com muito lixo espalhado ao seu redor. O próprio poder público não tem o devido cuidado e não oferece a estrutura necessária para nos estimular a despejar os nossos restos no lugar certo. Do mesmo modo que o cidadão, as prefeituras também não estão conseguindo dar o destino correto ao lixo recolhido nas ruas. Em 2010, foi criada a Política Nacional de Resíduos Sólidos para que acabássemos com os famosos “lixões” a céu aberto que temos espalhados pelo Brasil. Esta lei estabeleceu o prazo de 4 anos para a extinção dos “lixões” em todo o território nacional. QUATRO ANOS! O prazo terminou no último sábado (02 de agosto). Mais de 60% dos municípios brasileiros sequer cumpriram a lei. São mais de 78 mil toneladas de lixo por dia indo para o lugar errado.

E eu que sempre pensei que a expressão “Joga Fora no Lixo”, daquela animada canção eternizada na voz potente de Sandra de Sá, era uma redundância sem sentido, uma burrice imperdoável, estou começando a reconsiderar minha posição. O senhor que arremessou aquela latinha na minha direção, por exemplo, só captou as duas primeiras palavras do refrão. E enquanto eu compro briga e aceito carregar o lixo alheio ao caminhar por Salvador, enquanto as lixeiras são depredadas, enquanto Sandra de Sá não ficar rouca, eu torço para que as boas ideias ou as leis realmente importantes saiam do papel antes que ele seja amassado e arremessado num cesto de lixo.


Gabriel Camões é palhaço, ator, poeta, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.

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COPA COMPRADA NO CARTÃO



Até me envergonho em admitir, meus caros compatriotas, mas não há razão para pensarmos diferente do Rodrigo Constantino e do Reinaldo Azevedo desta vez. Mesmo eu, um brasileiro do tipo “sorriso amarelo”, sem muito orgulho e sem muito amor, sem ir ao estádio, sem comer coxinha de ossobuco, já acredito cegamente neste fato. E de fato eu coloco como um “fato”, pois as provas que vemos se multiplicarem por aí, já são capazes de nos fazerem abandonar o terreno das teorias da conspiração. Já dá para cravar: A Copa está comprada.

Não sei se serei capaz de enumerar todos os episódios que nos apontam o caminho claro e inquestionável para comprovação desta manobra engendrada pelo partido que governa este país desde 2003, mas farei aqui alguns passeios por algumas pistas que sopram para esta direção. O placar entre Brasil e Croácia foi 3x1. Invertendo os números finais da partida inaugural deste grande evento esportivo, com qual numeral ficamos? 13. E quem é o jogador do torneio que até agora fez mais gols numa mesma partida? O alemão Thomas Müller. E vocês sabem qual é o número da camisa dele? 13.

A final da Copa acontecerá em julho, especificamente no dia 13. E por qual razão tantos jogos tendo início às 13h, sendo que o sol é carrasco em várias das cidades-sede? Os jogadores que marcaram gols no jogo entre Honduras e Equador carregavam um mesmo número em seus respectivos uniformes. O número era 13. Além disto, pela primeira, vimos um México nos enfrentar vestidos de vermelho. E trajados com esta cor, não nos deixaram vencer. As duas marcas de cerveja que patrocinam o evento apostam no vermelho para exibir suas marcas e colorirem seus copos personalizados nas arenas Padrão FIFA que são como shoppings quando entramos e somos preenchidos por aquela sensação de que poderíamos estar em qualquer lugar do mundo.

Mesmo derrapadas mais graves de seleções de tradição como Espanha e Inglaterra, são contraprovas produzidas ardilosamente para desviar a nossa atenção. Mas se nos aprofundarmos mais atentamente a esta mesma questão, veremos que ela mostra equipes europeias eliminadas com a contribuição de seleções de natureza “bolivariana”, países atualmente ou recentemente governados por tendências de esquerda (Chile e Uruguai). Afinados ideologicamente com o PT, eles obviamente foram favorecidos pelo fato do Brasil ter despendido uma volumosa quantia para garantir que a Copa não nos escapasse por entre os dedos de Júlio Cesar ou pelos dribles errados de Neymar.

Diante de todos estes indícios, é óbvio que a presidente Dilma comprou esta Copa. Navegando insone pela internet de madrugada, ela encontrou uma promoção no Groupon. No Peixe Urbano é que não poderia ter sido, pois o site tem Luciano Huck como um dos seus donos. E todos nós sabemos que o marido da Angélica é amigo íntimo e cabo eleitoral declarado do tucano Aécio Neves. A pechincha encontrada por Dilma, além de garantir ao Brasil o seu sexto caneco, ainda dava direito a uma barca de Sushi de 46 peças e tudo por R$ 99,90. A presidenta passou no cartão corporativo que saiu do bolso do juiz. Cartão vermelho. Tarja preta. À vista. Só não vê quem não quer. Constantino viu. Azevedo viu.

VEJA você.
VEJA só.
VEJA, que lixo.


Gabriel Camões é palhaço, ator, poeta, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.

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O CÉU NOS PERTENCE - A HISTÓRIA DO VOO SEQUESTRADO EM 1972



Não lembro ao certo quando fiz minha primeira viagem de avião. Me arrisco a dizer que aconteceu lá pelos 7 ou 8 anos, ao lado de minha mãe e minha irmã, para conhecer São Paulo. Além do frio na barriga por ver aquele enorme trambolho com asas ser capaz de alçar voo, da excitação em ver lá de cima a minha cidade (Salvador) se transformar numa maquete gigantesca, lembro perfeitamente da sensação de pânico que me passou pela cabeça – graças a Hollywood – de ter ali a chance não desejada de viver um filme de ação caso estivesse eu a bordo de uma aeronave prestes a cair ou de ser sequestrada.

O maior culpado deste sentimento de aflição é “Passageiro 57”, filme de 1992 protagonizado por Wesley Snipes e que assisti tantas vezes no videocassete lá de casa que decorei todas as falas. Bem, o fato é que se eu tivesse nascido nos Estados Unidos lá por meados dos anos 60, cerca de duas décadas antes de quando realmente cheguei neste planeta, eu correria sérios riscos de que este delírio de criança se tornasse realidade. Quem me provou isso foi “O Céu Nos Pertence” (Editora Zahar/332 páginas), livro lançado recentemente pelo escritor e jornalista Brendan Koerner, com tradução de Alexandre Martins, disponível nas livrarias mais próximas e nas mais distantes também.

Escolhido como “o livro notável de 2013” pelo New York Times Book Review, ele narra um episódio real de um sequestro aéreo protagonizado por um casal em 1972. A façanha até hoje é conhecida como o sequestro de maior distância da história, pois partiu dos Estados Unidos e só foi terminar na África, ao pousar na cidade de Argel, capital da Argélia. Na minha primeira viagem de avião nenhum maluco apareceu para reivindicar o comando da aeronave... Mas o voo 701 da Western Airlines não teve a mesma sorte naquele junho de 1972, quando Roger Holder e Cathy Kerkow assumiram o comando para cruzar o oceano atlântico, com direito a “excesso de bagagem”, já que receberam um resgate de U$ 500 mil dólares.

A leitura vale muito não só pela maneira com que a obra narra este incrível episódio, reconhecendo e compartilhando com o leitor os erros, os acertos e os golpes de sorte que envolvem esta saga protagonizada por uma moça bonita buscando algum sentido pra vida e um jovem veterano de guerra ressentido com o tratamento que recebeu do país por quem ele literalmente “deu sangue”. Vale muito porque o autor aproveita também para lembrar outros casos de sequestros aéreos não menos extraordinários, sendo grande parte deles executado sem que fosse necessário o uso de bombas como ameaça a integridade dos passageiros.

Capa do livro e o autor, Brendan I. Koerner

O início da narrativa nos faz compreender o contexto que tornou possível esta “epidemia” (expressão escolhida na ocasião para se referir ao surto de sequestros de aviões daquele período), pois na época os detectores de metais, aparelhos de Raio-X e seguranças uniformizados não faziam parte da paisagem visual dos aeroportos. Havia situações de você entrar no avião, decolar e só lá em cima, entre uma turbulência e outra, alguém lhe cobrar por aquela viagem. Já pensou que surreal?

Outro aspecto intrigante elucidado pelo livro diz respeito aos perfis dos sequestradores, bem como os motivos que os levaram a cometer esses crimes. Comandaram sequestros “veteranos cansados, delirantes crônicos, jogadores compulsivos, empresários falidos, acadêmicos frustrados, criminosos de carreira e até mesmo adolescentes apaixonados” – só para ficar nos exemplos citados em um trecho do livro. Se fosse hoje em dia, poderíamos acrescentar categorias como “ex-BBB”, “ex-integrante de boyband” e “humorista rejeitado no Zorra Total”.

O autor ainda destaca a lenda etimológica para origem do verbo “sequestrar” na língua inglesa que resultou na expressão “to hijack”. Acredita-se que ela deriva daqueles que roubavam caminhões de carga e ao darem a voz de assalto, gritavam: “Hold your hands high, Jack!”. Pois quando a moda do sequestro começou a “ganhar asas”, a expressão foi também incorporada e reproduzida nesta nova modalidade, fazendo surgir o neologismo “skyjack”, que resulta da união entre as palavras “sky” (céu) e ‘hijack” (sequestro).

A constatação de Koerner, ao investigar com profundidade os casos mais emblemáticos deste fenômeno batizado de “pirataria aérea”, é que a maior parte dos aviões, ao serem desviados de seu curso original, tomava Cuba como seu novo destino, tanto pela proximidade geográfica quanto por questões políticas e ideológicas oriundas das relações estremecidas e nada amistosas entre a ilha caribenha e a terra do Tio Sam.

Os que se aventuravam a tomar o controle de uma aeronave, colocando-se como “inimigo da nação”, não demoravam a serem seduzidos pela ideia de que “o inimigo do meu inimigo só pode ser meu amigo”. Só que a realidade provara que a ideia de serem recebidos como heróis na ilha comandada por Fidel Castro raramente quebravam a barreira do devaneio... É ler para conferir os detalhes.

Mas vamos voltar à história mais importante da obra – a do casal que conseguiu levar o avião sequestrado até a Argélia. Não entrarei nos detalhes enriquecedores desta saga para não ser responsável por spoilers desagradáveis aos olhos dos leitores mais interessados. Mas é impressionante acompanhar, ao longo dos capítulos, os desdobramentos na vida destas duas criaturas, seus finais inusitados, cada um a sua maneira.

Só para despertar o interesse, posso dizer que a temporada na África os coloca em contato com um grupo de exilados do famoso grupo revolucionário Panteras Negras e, mais para frente, ao desviarem o curso desta aventura para solo europeu, a história põe no caminho do casal figuras como a cantora Joan Baez e o filósofo Jean-Paul Sartre.

Não tem para onde correr, ou melhor, para onde voar. É o típico livro que, mais cedo ou mais tarde, se tornará alvo da indústria cinematográfica. Resta saber quando Hollywood, que tem verdadeiro tesão em produzir filmes com essa temática, vide “Passageiro 57” e tantos outros, abraçará essa ideia. Se o Wesley Snipes não estivesse tão velho, eu iria sugerir o nome dele para o papel principal. Bem... Enquanto a ideia do filme não decola, recomendo a todos a leitura do livro, mas com a sincera ressalva de que ela não seja realizada durante o voo.


Gabriel Camões é palhaço, ator, poeta, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.

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CAIO CASTRO, O TEATRO, A GLOBO E A PALAVRA


Numa entrevista concedida em setembro do ano passado para o programa da onipresente apresentadora Marília Gabriela, este no canal GNT, o “ator” Caio Castro declarou, entre outras coisas, que não gosta de ir ao teatro e que só lê por obrigação. Cinco meses depois, graças ao fato desta profícua conversa ter sido reexibida pelo canal fechado, as declarações tiveram uma gigantesca repercussão nas redes sociais só nesta semana. A novela em que ele tantas vezes apareceu sem camisas no corpo e sem livros na mão, até já acabou. A trama de Walcyr Carrasco chegou ao fim e eu não consegui sequer identificar qual era a especialidade do médico que Caio Castro interpretava.

Eis que esta celeuma só foi pipocar meses depois do ocorrido, com direito a declarações duras de seus pares. Figuras como Ingrid Guimarães, Pedro Paulo Rangel e Miguel Falabella já se manifestaram criticando a postura do rapaz. Mas porque criticar o coleguinha? Por que apedrejá-lo quando ele tem a coragem de confirmar o que todos já sabíamos? O que esperar de um cara que com 25 anos se torna um ator rico e famoso e, ao invés de pegar parte da grana que ganhou e investir num centro cultural ou numa biblioteca, inaugura em São Paulo um restaurante chamado “Bistrô Faria Lima” e uma casa noturna chamada “Villa Carioca”?

O fato é que não há nada de estarrecedor na informação de que a ele não interessam as leituras e muito menos as idas ao teatro. Caio Castro é um produto fabricado num concurso de talentos do programa de Luciano Huck. Ele não é cria de um grande diretor teatral como alguns bons atores que acabam migrando para a TV com o objetivo de ampliar as possibilidades da carreira e ter a oportunidade de garantir uma condição financeira digna e merecida. Só que fazem isso sem nunca dar as costas para o teatro e sem esquecer de onde vieram.

Só que Caio Castro veio do Caldeirão. Seu padrinho é o marido de Angélica. "Loucura, loucura!" Seu “currículo” no Wikipédia só faz referências aos prêmios conquistados e papéis que interpretou na TV. Por que então o espanto em ouvi-lo dizer que não curte ir ao teatro? Assim como ele, grande parte dessa nova geração de atores que vemos em telenovelas também não curte teatro. Nem de ir e nem de fazer. Acham que é uma coisa velha, antiga, complicada de ser feita, que não dá dinheiro e que ninguém assiste. Para que insistir nessa furada então? Por que abraçar o duro e doloroso desafio de encarnar Hamlet, Calígula ou Édipo no palco, quando se pode ser o galã da novela das oito ou príncipe encantado da festa de quinze anos da filha de um fazendeiro milionário qualquer?

Espetáculos teatrais são normalmente encenados no mesmo horário da novela. Talvez este seja um ponto negativo para ele, como é para muitos. Por que sair de casa e pagar R$ 20 para ver o Nanini no palco, se eu posso vê-lo de graça na “Grande Família” toda semana? Por que encenar um texto desconhecido numa sala de espetáculos que comporta 60 pessoas, se eu posso ser visto por milhões de pessoas? É preciso ter, de alguma forma, recompensado o esforço de passar horas por dia na academia para poder tirar a camisa e provocar suspiros no horário nobre televisivo. E devemos admitir: não é Stanislavski e nem Grotowski que fará isso por ele.

É triste, eu sei, mas Caio Castro não é um ator que tem uma trajetória sólida no teatro. Mesmo tendo nascido em São Paulo, o que deu a ele a chance de conhecer mais de perto o trabalho de diretores como Antunes Filho, no Centro de Pesquisa Teatral (CPT), e Zé Celso Martinez Correia, no Teatro Oficina. É estranho pensar que alguém pode crescer, se tornar ator e não gostar de frequentar teatros numa cidade que respira cultura. Ser um ator paulista e não aproveitar a intensa programação de espetáculos incríveis, de grupos de todo o Brasil e de todas as partes do mundo, nos espaços culturais que formam a rede SESC-SP. Ser um ator paulista e não frequentar as noites e os teatros da Praça Roosevelt, no centro da cidade, ocupada por renomadas companhias como os Parlapatões e os Satyros, é (quase) um crime.

Porém, diante de tantos comentários, piadas e de tanta indignação em torno das declarações do rapaz, resolvi procurar a íntegra da entrevista no Google e no Youtube para matar minha curiosidade e ver de fato o teor das supostas asneiras que proferiu. Não encontrei. No site da Globo, para um internauta comum como eu, há apenas um trecho de dois minutos do referido papo com Gabi. Este pequeno vídeo, disponível para todos, destaca outra revelação, essa até mais surpreendente do que o que tem sido alardeado nos sites e portais de notícias: para alegria de Silas Malafaia e companhia, Caio Castro admite ser evangélico.

Coincidência ou não, com a sombra da Record colando em seu retrovisor, a Rede Globo tem empreendido desmedidos esforços para conquistar a confiança do público evangélico e aumentar sua audiência, inserindo personagens nas tramas das novelas, abordado assuntos de interesse desta parcela da população em programas como Globo Repórter e Profissão Repórter. Pois neste único trecho disponível no papo entre Caio e Gabi, ele declara: “Sou cristão desde pequeno, desde os meus 13 anos. Sou de igreja evangélica. Totalmente diferente de toda minha família, eu ia em acampamentos e conheci a palavra desde muito cedo”. Temos aqui algo incrível, o primeiro caso de alguém que conhece a palavra, mas não gosta de ler.


Gabriel Camões é palhaço, ator, poeta, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.

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FELIZ 2012


Enquanto nos aproximamos do final de 2013, lembro que tenho um grande amigo que está – neste exato momento – tentando celebrar o fim do ano de 2011. É preciso explicar que ele vive agora, no mesmo tempo que todos nós, mas decidiu realizar uma subversão cronológica e congelar o tempo com o firme propósito de se dedicar aos estudos para se tornar um diplomata. Orgulho-me dele e fico a admirá-lo por esta coragem. Mais ainda pela proeza de ter parado no tempo. Ou de ter parado no sonho e se desgarrado do tempo que corre para todos, mas não para esse meu amigo até que ele queira abraça-lo de volta.

Com uma barba modelo 2011 e um semblante rejuvenescido, ele costuma aparecer de vez em quando para um café ou um almoço e é sempre um prazer. Uma sorte tê-lo por perto, mesmo que a nossa coexistência já caminhe para quase três anos de distância espaço-temporal. Não dá para esconder que esta situação nos confunde em algumas situações. Mas nossa amizade supera relógios não sincronizados, e-mails de épocas distintas e outros exemplos capazes de provocar lapsos temporais.

O interessante é que isto não afeta em nada nossa amizade. Pelo contrário. Impressiono-o com notícias de agora (o meu agora), ao falar das manifestações de junho, a luta do povo nas ruas, o surgimento da Mídia Ninja e a rasteira bem dada na chamada “grande mídia”, políticos condenados pelo STF, a saga do ex-analista de inteligência americano Edward Snowden e outros assuntos futuros (para ele) que tanto o encantam. Não há para ele loucura ou conflito nessa discussão de assuntos que estão à frente de seu tempo. Embora ele tenha decidido parar em 2011, não perdeu o hábito de ler jornais, navegar por portais de notícias, livros de história do Brasil e do mundo, economia, política e outros assuntos e temas caros ao concurso de admissão a carreira diplomática.

Por outro lado, é a minha vez de ficar extasiado quando ele (no agora dele) refresca minha memória ao discorrer sobre os efeitos da chamada Primavera Árabe, a catástrofe nuclear em Fukushima, no Japão, o (suposto) assassinato de Bin Laden pelos americanos, a crise na zona do Euro, a morte de Steve Jobs e ainda do grande Moacyr Scliar, escritor que nós dois tanto admiramos, tendo ele inclusive já me presenteado com duas das suas obras. É a minha vez de ficar arrebatado quando ele me relata os detalhes e tece opiniões com o frescor daquele tempo e mantém preservado o calor dos acontecimentos.

Em questão de alguns dias, para muitos, um novo ano começa. O comércio baterá recorde de vendas de roupas brancas e Roberto Carlos fará mais um especial de fim de ano na TV. Diferente da minha infância ou da minha juventude já não me mobiliza mais tanto essa vontade em decidir sobre minha vestimenta ou o lugar onde passarei a “virada”. Casei com uma mulher incrível que não veste branco no dia 31 e celebra o ano novo no dia 20 de março. Amo-a ainda mais por isso. E como acabei de relatar, tenho um amigo genial que decidiu parar em 2011. Experiências e convivências valiosas que me tiram do lugar comum, das convenções e caretices repetidas ciclicamente pela maioria dos que vivem o mesmo tempo que eu.

Aproveito então a ocasião, mesmo soando clichê, para desejar um Feliz 2012 a Breno, esse amigo a quem dedico o “último” texto de 2013. Um feliz ano novo que pode ser agora, ou ontem, daqui um mês, ou quando ele quiser que seja.


Gabriel Camões é palhaço, ator, poeta, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.

* Foto no topo: Ilustração de Mario Zucca


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PASSEI EM BRANCO NA BLACK FRIDAY


Não foi por acaso que, subvertendo o sentimento que preenche o espírito de todo trabalhador no último “dia útil” da semana, eu despertei nesta sexta-feira com uma anômala e cavalar dose de melancolia. Acordei com uma dor de cabeça que não poderia ter vindo da única cerveja que tomei em casa na noite de quinta-feira. Uma dor de cabeça que, aos poucos, com o decorrer do dia, foi me revelando seus reais motivos: Black Friday. Pensei que o termo me era familiar, mas de algo que existia fora do Brasil, longe o suficiente para eu não me preocupar em sair para comprar o pão do dia seguinte num mercado próximo de casa.

Embora o desejo de consumir ainda não me consuma, o Encontro – com ou sem Fátima – devastador de uma atmosfera que interfere no meu Bem Estar na Bahia, Meio-Dia, não Vale a Pena Ver De Novo, pois invade minha casa antes da hora da Malhação, como uma Joia Rara que vai Além do Horizonte com The Voice que clama por Amor à Vida. Sem pedir licença, os tais “reclames do plim-plim” me tomaram de assalto. Uma onda de merchandising fuzilou minha consciência com anúncios apelativos, todos eles falados num tom elevado, palavras vomitadas, numa sequência nervosa que não deixava faltar expressões como “Black Friday”, “desconto especial”, “não perca” e “grande oportunidade”.

Não me importei com o fato do Ricardo surtar de vez, 
não vi nada de Insinuante nos anúncios, passei o dia sem 
influências Americanas ou uma dose Extra de consumismo. 
Não houve Ponto Frio que me seduzisse.

E o melhor (ou pior, não sei): tudo supostamente muito barato. Tão barato a ponto de fazer você se sentir muito burro se não aproveitasse. Ainda assim, não dormi abraçado com meu cartão de crédito e tampouco sonhei com um novo smartphone. Não acordei me sentindo mais rico, mesmo sabendo que meu salário chegaria justamente na Black Friday. Teoria da conspiração? Se fosse, não funcionou. Ao invés de me empolgar com a possibilidade de comprar uma geladeira nova (não estou precisando) e ganhar um fogão “inteiramente grátis”, lembrei-me de ir num caixa eletrônico e programar o pagamento da 1ª conta do mês.

Não me importei com o fato do Ricardo surtar de vez, não vi nada de Insinuante nos anúncios, passei o dia sem influências Americanas ou uma dose Extra de consumismo. Não houve Ponto Frio que me seduzisse. Achei essa história de Black Friday uma babaquice e firmemente não me entreguei às vitrines dos shoppings e prateleiras dos supermercados. Ao invés de pesquisar descontos “especiais” internet afora, preferi acompanhar as piadas e comentários nas redes sociais. Trocadilhos como “Black Fraude” e frases como “tudo pela metade do dobro” bateram recordes de compartilhamento. Fiz comentário em um post ou outro e reparei que as mesmas pessoas que ridicularizavam a versão brazuca da Black Friday eram as que curtiam páginas com promoções e descontos de tênis, roupas e o escambau.

Esse termo em inglês, já incorporado pelo mercado brasileiro, foi criado pelo varejo nos Estados Unidos para nomear uma ação de vendas anual realizada sempre na última sexta de novembro, logo após o feriado de Ação de Graças. Feriado que aqui nem sequer existe. O que existe são as ofertas absurdas do tipo ganhe um desconto de até R$ 10 mil num carro novo. O detalhe é que este produto custa R$ 200 mil. Sairia então praticamente “de graça”, por apenas R$ 190 mil? Fico pensando em quantas pessoas no Brasil teriam condições de fazer esta aquisição? Pensei em pessoas do meu círculo de convivência e não consegui visualizar ninguém fechando negócio na concessionária mais próxima.

Diante desta constatação, me fiz uma pergunta idiota e óbvia: para que diabos o comércio brasileiro resolve reproduzir essa fórmula consumista americana se os descontos aqui são comprovadamente mais modestos do que lá nos States? Já que fazer promoção é fazer a galera torrar a grana que tem e a que não tem, por que não fazer a coisa direito? No fim das contas, ou no início dos gastos, o que aumenta mais? O percentual de vendas ou o nosso complexo de vira-lata? E o que diminui mais? O preço das coisas que deixam de ser muito caras no Brasil para se tornarem “um pouco menos caras” ou a nossa capacidade de perceber que estamos sendo enganados?

Enquanto acreditamos levar vantagem na troca de seis por meia-dúzia, não pagamos à vista e perdemos de vista que o grau de endividamento dos brasileiros com o sistema financeiro nacional bateu novo recorde ao final do primeiro trimestre de 2013. Segundo o Banco Central, as dívidas das famílias correspondiam, em março, a 43,99% da renda anual. E mesmo assim, somos cada vez mais estimulados a gastar. E olhe que ainda nem chegamos ao natal, época da “cereja do bolo” para os comerciantes. Pensei nisso quando fui comprar o jornal hoje cedo e, durante os 10 minutos que folheei algumas revistas perto do meu trabalho, percebi que vivo numa nação em que um dono de banca de jornal passa mais tempo fazendo recarga de celulares do que vendendo publicações impressas.

Enquanto reclamamos dos preços, das desigualdades e da miséria no mundo, um hotel de luxo na África do Sul tem uma atração especial para os seus hóspedes: a Shanty Town, que reproduz uma favela para acomodar os clientes “mais extravagantes”. Não dá para achar, portanto, a Black Friday um absurdo se hoje vivemos no mundo em que a pobreza deixou de ser um problema e virou uma mercadoria. Experimentá-la de modo realista entrou para o rol de desejos dos milionários que sonham experimentar uma pseudo-pobreza ao passar um feriado num barraco com sistema de aquecimento e internet sem fio. E o "melhor" é que a aventura pode ser parcelada em várias vezes no cartão. Embora eles nem precisem disto. É a chance de comprarem do jeito que mais gostam: “tudo pela metade do dobro”.


Gabriel Camões é palhaço, ator, poeta, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.

*Foto do topo: Tiago Queiroz.
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ANTES DE MORRER, NOS CONCEDA UMA ENTREVISTA


“A televisão é a primeira cultura verdadeiramente democrática – a primeira cultura disponível para todos e totalmente governada pelo que as pessoas querem. A coisa mais aterrorizante é o que as pessoas querem”. 

(Clive Barnes – New York Times).


Não me lembro em que dia, horário ou emissora, vi a reportagem. Mas isso pouco importa. Ultimamente tanto faz ligar a televisão – lareira dos novos tempos – num telejornal da Globo, Bandeirantes ou Record. As notícias perecem e parecem (e são) iguais, as tragédias são as mesmas, bem como os interesses comerciais e a disputa sem limites entre essas empresas. O objetivo primário é um só: abocanhar a maior fatia possível de telespectadores. O que muda, quando muda, é o nome do repórter e o nome das fontes ou dos “especialistas” requisitados para legitimar o que se quer dizer. Ultimamente tanto faz assistir ou ler edições de segunda ou de quinta (com o perdão do trocadilho). O valor humano é subjugado pelo valor matemático. O que importa são os números no fim do mês. O quanto se vende resulta no quanto se lucra.

Mas a notícia que vi e que me deixou impressionado trazia um rapaz que havia acabado de sofrer uma batida de carro. Por sorte não aconteceu nada de grave e ele conseguiu sair de dentro do veículo apenas com alguns arranhões. Com a imagem do automóvel completamente amassado, enquadrado em segundo plano, a equipe de reportagem, excitada com a proeza de chegar poucos minutos após o acidente, narrava o óbvio para os telespectadores. A repórter, com uma dicção perfeita e uma maquiagem impecável, nos contava o que nós já estávamos vendo. A questão é que 30 segundos desta fórmula repetitiva é tempo mais que suficiente para fazer quem está em casa querer mudar de canal. 

As notícias perecem e parecem (e são) iguais, 
as tragédias são as mesmas, bem como os interesses 
comerciais e a disputa sem limites entre essas empresas. 
O objetivo primário é um só: abocanhar a maior fatia 
possível de telespectadores. 

Uma fala sincera poderia brotar no meio de todo aquele teatro capitaneado pela moça fantasiada de repórter e este, talvez, fosse o único artifício capaz de fazer o telespectador prender a respiração e até hesitar em apertar o botão do seu controle remoto. Mas a frase não veio. Com um sorriso no rosto e uma entonação que a fazia parecer simpática, a repórter pediu o que já era esperado: que ele relatasse o acidente. A questão é que o cara tinha acabado de pular uma fogueira, nascer de novo, e precisava de um tempo para respirar, se recompor, enfim. Na verdade, a última coisa que ele precisava naquele momento era dar uma entrevista para emissora A ou emissora B. 

Merecedora deste “prêmio” por ter saído a tempo da redação, enfrentado a selvageria do trânsito da sua cidade, o rapaz não tinha escolha: era sua obrigação atendê-la. Ir a um hospital fazer exames, receber os primeiros socorros ali mesmo no local do acidente ou partir para casa com o propósito de se recuperar do trauma, não podiam ser prioridades. Um plantão jornalístico é inegavelmente mais curto que uma vida e certamente mais doloroso que um choque a 100 km/h. O repouso e o atendimento médico à um jovem sempre podem esperar. O telejornal iria ao ar em poucos instantes e a emergência hospitalar funciona 24 horas. 

Ironias à parte, a reportagem teve o mesmo desfecho da que passou no dia anterior e que vai passar hoje, amanhã ou depois na sua TV. Perceba que quase sempre é uma pergunta óbvia e invasiva que provoca uma resposta sincera e constrangida. O que foge deste script não vai ao ar, a não ser num link ao vivo, onde tudo pode acontecer, mas que quase nunca foge do roteiro. O mais estarrecedor, no entanto, é perceber como os meus colegas de plantões e redações são capazes de endurecer – e de perder rapidamente a ternura – a cada pauta que são obrigados a cumprir. Relatam um caso de um pai de família que morreu eletrocutado ou de dois jovens brutalmente assassinados com o mesmo distanciamento que diriam uma receita de um bolo de chocolate ou o resultado do jogo do Brasil. Eu mesmo, depois de passar mais de um ano trabalhando numa redação de jornal, percebi que estava ficando assim.

Num plantão de redação aprendi que não há diferença de melodia na voz do seu superior quando ele lhe diz “quero que você acompanhe as provas do ENEM hoje em Salvador” ou “quero que você vá a um restaurante onde uma mulher foi assassinada a facadas nessa madrugada”. O objetivo para ele, no fim das contas, é o mesmo. Coordenar uma gincana com vários participantes que precisam produzir conteúdo o mais rápido possível. A missão, numa jornada de 10 a 12 horas, é preencher os espaços vazios numa determinada quantidade de papéis em branco que precisam ir para gráfica num horário definido e que, no dia seguinte, vão ser distribuídos e comercializados nas bancas de jornal mais próximas da sua casa. 

Inserido por um tempo nessa lógica perversa, passei por experiências que me fizeram refletir sobre o sentido da minha profissão. Escolho a palavra "sentido" propositalmente, pois ela guarda outras duas palavras importantes dentro dela: “caminho” e “sentimento”. Na minha primeira saída para uma pauta na rua, lembro que fui abordado e ameaçado por traficantes num bairro periférico de Salvador, porque no plantão nos pediram que fizéssemos um registro fotográfico de um senhor que tinha transplantado um rim através de um procedimento cirúrgico inédito na cidade. Eles nem sabiam se usariam a foto, mas nem por isso nos privaram do risco. Não conseguíamos achar a casa dele e entramos numa rua errada e a coisa só não complicou por conta da experiência e malandragem do nosso motorista.

Naquele dia, no meu primeiro plantão, antes de completar um mês de redação, pensei numa frase que nunca mais me saiu da cabeça. Como uma faca rasgando meu peito, ela me acompanhou quando conversei com uma mãe que havia perdido seu terceiro filho para o tráfico; também quando ouvi um rapaz que teve uma irmã assassinada por conta de uma rixa comercial; e ainda dialogando com uma esposa que não teve a chance de se despedir do marido que despencou de uma altura de 30 metros enquanto fazia um bico num fim de semana em Salvador.

Foi num momento de pura ilusão, num misto de dor e deboche que, ao ligar a TV, eu achei que aquela repórter, a mesma que entrevistava o rapaz do acidente de carro, tivesse a coragem de dizer a tal frase. Confesso que quando folheio os jornais na minha mesa de trabalho ou quando ouço rádio no carro, preservo no meu íntimo a esperança de um dia lê-la ou ouvi-la. Vê-la sair da boca de um colega de trabalho selaria uma vitória isolada, porém simbólica e significativa, de um jornalismo mais sincero. 

Uma frase cruel, que me fustiga por inteiro só de pensar, mas que revelaria o real objetivo que move as grandes corporações de comunicação que dominam a informação nos quatro cantos do mundo. Empresas que dizem servir o “interesse público” e produzir “informação de qualidade”, quando na verdade perseguem lucros altíssimos e constroem verdadeiros impérios. Palavras que me tiram o sono, que me causam uma dor latente, que não deveriam ser ditas e que, por isso mesmo, dizê-las seria um ato heróico de subversão neste mundo de pretensas verdades que o jornalismo insiste em nos empurrar goela abaixo. Uma expressão que sintetiza com clareza o que penso sobre a imprensa que temos hoje:

“Antes de morrer, nos conceda uma entrevista”.

Gabriel Camões é palhaço, ator, poeta, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.

*Ilustração no topo: Darren Bader.
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