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CÊ ME ENCONTRA EM BANGLADESH

Adriana Varejão
Esses dias, aqui em São Paulo, eu tava pensando numa visita que fiz a Inhotim ano passado. Mais precisamente numa das esculturas, que nem é das minhas preferidas, mas que me pegou em algum lugar que eu não sei explicar. Eu costumo dar sempre um jeito de explicar as coisas, mas é só meu vício com palavras porque, na verdade, nunca sei exatamente o que estou falando embora muitas vezes pareça que sim.

Voltando. Estava pensando no muro da Adriana Varejão; de azulejos brancos cujo interior é feito de carne vermelha.

Coincidentemente, nesse exato instante de memória, recebi um link com a foto do casal que foi encontrado abraçado sob os escombros do desabamento da indústria têxtil em Bangladesh (do hindu, bengala), em abril deste ano, que matou oitocentas e três pessoas.

Foi instantâneo chorar.

Amores que se encontram nos escombros me comovem. Não sei se é porque venho acompanhando o início de dois amigos muito queridos bem de pertinho, mas ando ainda mais sensível à importância dos encontros. Acredito em desabamento e acredito em reconstrução. Acredito em morrer abraçado e que fazer essa escolha é sobrepor o amor à vida. Isso é coragem. Eu que nem sei ao certo a diferença entre vida, coragem e amor.

Sempre tive muito medo de amar porque sabia que, no dia em que isso acontecesse de verdade, eu seria a mais cafona das pessoas entregues no mundo, sem pudor; de pernas e punhos abertos e pés para fora da coberta. Mais que isso, ia gostar do rolê e perder, pela primeira vez, o controle sobre o rumo das coisas. Então amava sem de fato amar. Amava de soslaio; fazendo sempre outra coisa no meio. Amava mais o amor que pensava sentir do que a pessoa a quem o dedicava.

Até que amei. Amei com tudo dentro.

E fiquei cafona. E abri pernas e punho. E perdi o controle sobre o rumo das coisas. E conheci a lama com a intimidade da Demi Moore em ‘Ghost, Do Outro Lado da Vida’. Hoje minha casa tá cheia de jarro de tudo que é formato, tamanho, cheiro, peso, variedade de ocre.

Sou romântica do tipo que canta ‘Nem Morta’ aos berros na Feira de São Cristovão sem conseguir chegar nos agudos por causa da batata que nasce na garganta. Sou infame a ponto de ter vontade de chorar ao adentrar a Feira de São Cristóvão só por aquilo existir do jeito que existe. E compro CDs volume 7. Acho rádio uma roleta russa aterrorizante; nunca se sabe que maldita lembrança vai te assaltar. Qualquer coisa melosa eu dedico. Tudo o que toca na Antena 1 e na JB FMs é de morte e dedicável e, posto que meu transporte depois das dez é taxi, daí tu tira.



Admiro o que é genuíno até o último pelo exagero, pela intensidade desmedida. Acho raro, tenho apreço, todavia uma certa timidez - se bem me invento, arrogante - por gostar tanto de contrastes e acabar sendo o oposto do que sou e tudo ao mesmo tempo só que nada. Mas uma coisa sim, tudo o que sou, sou pra caralho enquanto sendo. Contudo dentro. Aos que ofereço meu caos de inteireza, que me devolvam a gentileza de guardar com cuidado; só faço isso parindo.

Sou um Florentino Ariza, uma Evita Perón, a Rainha Vitória, uma Mata Hara, uma Jouliette Drouett, um Menelau, uma Pilar, a Bonnie do Clyde, a Fera da Bela, o Vagabundo da Dama, um Romeu, uma Julieta e um sol em peixes. Sou toda sua por dentro e muito minha por fora. Problemas de superego atrasado, meu caro Freud; e da lua em libra, vênus em aquário. Aquário é o botafogo dos signos, mas, em quadratura com leão, salve-se quem puder.Tem também um tal de urano no centro de tudo que, pelo que entendi, me fode os tempos. Segundo minha amada astróloga Glaucia, é só concentrar minha Medeia no trabalho que eu chego muito lá (entende-se ‘lá’ por qualquer lugar menos infernal do que o que eu vivo dentro aqui). Tenho aí a vida toda pra resolver (isso é muita Claudia para pouco assento). Por enquanto sou mesmo capaz de construir um Taj Mahal e iniciar guerras em Tróia e, confesso, tenho orgulho disso em meio a tanta covardia.

Descobri que a obra de Adriana chama-se ‘Linda do Rosário’, em homenagem ao casal de amantes que decidiu dar lugar a ‘um amor de tantas rugas’ e permaneceu no hotel homônimo - que desabou no Rio em 2002 - até a morte, juntos, também abraçados, nus, sobre os restos de uma cama.

Entendi por que a lembrança, por que as lágrimas e por que o link no timming. Se eu disser agora que aqui, escrevendo este texto, no meu shuffle, começou a tocar ‘Conversa de Botas Batidas’ eu sei que ninguém vai acreditar. Mas não me importo. Como não me importo em acreditar sozinha na vida do amor com a verdade que o faço, mesmo mediante a tanta falta de fé no cara. Levanto a bandeira do cólera na minha nau de saudade que não temo sentir e grito agudo com batata e tudo: eu só quero um amor que resista a desabamentos.



*O título deste texto é da música ‘Loteria’ da banda Letuce.



Luana Carvalho é escritora, cantora e compositora.


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CINEMA SAFARI


Ela vai. Vejo cá sua touca e meias de mesmo verde e alguns crespos fios ruivos que insistem. No semblante dela pouco resistem o medo ou a tristeza. O semblante dela teima com rugas, olhos pequenos e os dentes tantos. Digo toda cirurgia “bom show. Não vá muito longe”. E, embora tenha já ido longe demais, até hoje volta sempre ela que nunca sei se vai mesmo voltar.

Envelheço dez anos feito eu fosse uma casa. Fico pensando nos animais que têm a sorte da não consciência da morte e são por isso imortais enquanto vivos. O uirapuru canta enquanto espera que todos os outros pássaros se alimentem e, só quando vazio o habitat, se aproxima para comer, mal sabendo que pode, antes, morrer de fome cantando. O filhote da girafa ao nascer despenca de dois metros e meio do ventre de sua mãe que não se deita pra parir. Num único dia uma andorinha come duas mil moscas. Nenhum deles pensa na morte ou, porquanto, na vida.

Os ponteiros, enquanto ela lá, apontam todos pra minha falta, pro meu buraco. Os ponteiros, enquanto ela, aprontam todos com a minha coragem. Eu sei que quando ela vai, leva emprestados todo órgão ou membro que em mim habitam. E que, caso não volte ela, terei eu que aprender a viver ôca pelos dias que se seguem. Tem que é no vazio que se instauram as lembranças e que são elas inexauríveis. Os espinhos do porco-espinho o ajudam a flutuar na água. Tem um músculo na minha garganta que eu só sei que existe quando desliza a maca, no bater das portas do centro cirúrgico. Tem também o soro. Tem a criança. Tem um astronauta pirofágico que pousa no topo de minha cabeça. Tem a música de Caetano, qualquer uma. Tem o resto que sou eu a penas.

Ernesto Artillo
No meu bairro imaginário vou ao cinema no enquanto das suturas dela. E me enternece a bilheteira que jura me vender uma história. Dá-se que lembro nada sobre filme algum que tenha visto nos durantes. A memória do Peixe Dourado dura apenas três segundos. Tem também o pipoqueiro muito generoso no leite condensado. Leite condensado é das invenções mais geniais da humanidade; dessas coisas que o homem cria contra a morte. Mas nessa hora desce só salgado que é pra manter a pressão.

Fico sentada tecendo retalhos de nossas vidas e é desesperador a pouca memória que me sobra de minha infância. Começo a ter palpitações em pensar na falta da dela completando a minha pouca. Tem eu que só ela lembra. Esse vai pro limbo. E isso que a gente tem de eu começar uma história e ela terminar: “mãe, e quando o meu sonho era ir morar no polo nor?/” - ela - “/te pra ter uma criação de pinguins. E quando você inventou na escola que tinha em casa um elefante que não crescia? Me conta a história do sonho que você teve com a zebra que vinha do mar pra falar que tua sorte acabara ali?”. Não fosse por este texto, os pinguins, o elefante, desapareceriam com ela no dia de sua morte sem zebra.


Na maioria das vezes estou sozinha na sala. Nada muito diferente da vida. No saguão do cinema preferido do meu bairro imaginário tem um café, um sebo que é também uma loja de coisinhas, um banco de mogno no meio de tudo, cadeiras debruçadas sobre mesas e um sofá. E uma espécie de cumplicidade residente no espaço inabitado senão por pássaros e répteis; todos absolutamente silenciosos. Outros bichos são restritos às salas de exibição. Os pássaros cantam todos, mas só sei disso porque têm bicos que abrem e fecham, cada espécie na coreografia que lhe cabe. Som nenhum a não ser o que faço na minha cabeça enquanto equilibro o astronauta.


No cinema do meu bairro imaginário tem em cada quina um relógio de pé. E do lado de cada relógio, um mastro de bandeira tremular com uma foto de cada pessoa morta da minha vida. No verso de cada foto, um tipo de árvore diferente. Milhões de árvores são plantadas acidentalmente por esquilos que enterram suas nozes e esquecem onde as esconderam. São os pássaros que mantém as bandeiras em movimento, vento não há. Ora pessoa, ora árvore. Toda hora saudade. E o pânico de que em breve minha mãe estampe as bandeiras do meu cinema preferido. Me mantenho atenta à sua imagem como se estivesse ao seu lado enquanto abrem o corpo onde morei. As abelhas dormem nunca. Não existem répteis no Polo Norte.


Quando volto pra buscar minha mãe ela está sempre me esperando. Quando eu era criança minha mãe se atrasava pra tudo. Hoje está ela sempre lá; nos delirios pós-anestésicos quando teima em discorrer sobre obediência e lucidez. Minha mãe tem muito medo da loucura. Me pergunta as horas com intervalos mínimos e se assegura ciente do tempo que passou. O recorde de tempo de vôo de uma galinha é de treze segundos. Quando volto pra buscá-la, num percurso que vai do CTI ao quarto do hospital em que está internada faz ano, parece que todo o meu pavor perde o sentido como fora bobagem. Ela não me deixa nunca, essa mulher. É casada com a vida sob lealdade de um touro. E não me deixa. Jamais.


Mas a verdade é que cada vez que minha mãe veste toucas e meias verdes, morre ela um pouco aqui. E com ela morro eu. Porque nos enquantos de cinema é como se ela não existisse no mundo a não ser no meu desejo. Na minha súplica. Nas bandeiras que não refletem seu rosto para mim; pra me manter respirando enquanto minha mãe nem isso senão por aparelhos. Os mosquitos são atraídos duas vezes mais pelo azul que por qualquer outra cor. E eu já me sinto uma casa antiga de cor qualquer, pé direito alto e fiação comprometida.


Pelas minhas contas, nos últimos seis anos, eu já devo ter dado até logo sem saber se era adeus à minha mãe pelo menos umas catorze vezes. As minhocas podem ter até quinze pares de coração. Uma formiga consegue carregar qualquer coisa que tenha cinquenta vezes o tamanho de seu peso. Eu sou gente só.



Luana Carvalho é escritora, cantora e compositora.

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