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MÁRIO DE ANDRADE E A COISA TODA

No último dia 25 de fevereiro foi aniversário de 70 anos da morte de Mário de Andrade. Na mesmíssima data, não por acaso, suponho, Eduardo Jardim estava autografando seu mais recente livro Eu sou trezentos – Mário de Andrade vida e obra – a primeira biografia sobre o maior polígrafo brasileiro do século XX.

Mário, na minha adolescência e nos anos de graduação, foi um herói pra mim. Mesmo ele atolado de cigarros, ternos, vida burocrática, culpa católica e São Paulo, pela quantidade de palavras que ele escrevia por dia – numa tentativa de acompanhar seu pensamento, que por sua vez, tentava domar o mundo, o Brasil e a arte – saltava o genioso monstro da cultura. Naquela eu época não assimilava um décimo do que ele dizia naquela velocidade de livros de contos, poemas, crônicas, romances e cartas, muitas cartas: uma saraivada de tapas na cara a potência criadora nonstop de Mário. Mas, mesmo me desnorteando, a obra dele era, e é, o marco zero, o meu lugar pra começar a entender a literatura brasileira no século XX. Tipo entender o mapa da cidade de São Paulo a partir da Avenida Paulista. Ou o Rio de Janeiro a partir da orla marítima. Comecei a ler Oswald e Manuel por conta de Mário. Me apaixonei perdidamente pelos dois e pelos bastidores da Semana de 22. Pensar os três em conjunto, cada um, ao longo dos anos, colocando e tirando o corpo fora, oportunamente, numa dança de interesses éticos e estéticos, é o desenho perfeito do cerne do modernismo que me interessa. E sim, claro, depois vieram o grupo Verde de Minas e o modernismo caótico inexistente e latente do Rio de Janeiro, muito bem mapeado no livro de Mônica Velloso, que expandiram ainda mais a leitura da potência criadora desse período entreguerras tão lendário e tão caro pra todos nós.

O desdobramento do cismo que dividiu Oswald e Mário ainda é um dos pontos cruciais da vida e da obra geral da cultura brasileira. É ainda uma chaga aberta. Acho urgente abrir os arquivos e a memória e saber quantos socos foram desferidos, se foram desferidos, que comentários ferinos Oswald destruíram Mário. Acho urgente tirarmos Mário do armário de vez e desmontar um milhão de armadilhas construídas pela nossa “tradição” literária por conta desse imbróglio pessoal que velou uma série de leituras e oportunidades de potencializar Mário de uma forma transante jamais empreendida. Isso refletiria diretamente na divisão que, desde então criou-se entre a estética oswaldiana e a estética marioandradina ao longo do século XX e que acabou alicerçando algumas de nossas maiores verdades culturais. Acho que a destituição de Mário pelo Tropicalismo (com o aval do Concretismo, aquele trio de escritores que serviam como a internet da época) uma das maiores mancadas da nossa história. Entendo, claro, o jogo de poder inescapável condizente com a urgência e a explosão do projeto tropicalista. Oswald, mesmo morto, era o aval necessário para mandar as estruturas pelos ares. Oswald é gênio, é carnaval, é propulsor, é a ironia como São Paulo nunca tinha antes fabricado. Mas, hoje, 2015, num mundo atulhado de regras heteronormativas essenciais para o nascimento dos micro e macro fascismos diários que assistimos a cada dia, enxergo muito um lado nocivo da árvore genealógica do homem do Pau Brasil. Penso que se não fosse a libido de Caetano e Zé Celso, Oswald seria o aval pleno do machismo e do racismo que, vez em quando, pulula da Bossa Nova, que por sua vez se desdobra em algumas personalidades do Pasquim, e que desaguou em um tanto de coisas da "inteligência" brasileira de agora. Tudo por uma sucessão de erros. Tudo por uma questão de bipolaridade estética. Tudo por conta de um desentendimento entre Mário e Oswald, cujo barraco ninguém quis me contar durante os 12 anos que estudei literatura.

Depois desse desabafo que me aparece vez em quando como um soluço de bêbado, gostaria de dizer que comecei essa crônica por outro motivo. No livro de Eduardo Jardim, surge, antes de 22, a presença de Anita Malfatti na vida de Mário de Andrade. Sempre achei Anita tão feia e tão bonita como a Emily Dickinson. Diferentemente de Emily, Anita saiu de seu quarto muitas vezes, viajou pra Europa, estudou e pintou furiosamente – principalmente na década de 10 do século passado. Me tocou profundamente pensar que a história do modernismo paulista começou com os quadros dela sendo vistos pelo boquiaberto e jovem Mário. E que Anita, um tanto quanto insegura como Emily, desabou completamente depois da crítica feroz de Monteiro Lobato (que também pode ser alinhado com esse perfil possível da Bossa Nova e do Pasquim que citei no parágrafo acima) e nunca mais pintou do jeito que pintava. Mário, delicado e preciso, defendeu a amiga e, junto com Oswald, a partir do famoso artigo de Lobato, criou forças para levantar a Semana e logo em seguida a revista Klaxon. Anita, desconsolada, apaixonou-se por Mário, o amigo gay. Mário cortou um dobrado pra não deixar Anita ainda pior, reafirmando a amizade entre os dois e o talento extraordinário da pintora. E agora, passo as tardes pensando nesses dois casais modernistas: os carnudos, verborrágicos e porradeiros Oswald e Tarsila, que de fato casaram, brigaram e se largaram, e Mário e Anita, desengonçados, certeiros e polidos, sofrendo cada um com a sua sina particular, e ainda assim, companheiros. Fico aguardando que alguém me conte essa história do Brasil.

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CARNAVAL



Tem um par de anos que descobri que o carnaval carioca não tem muito que ver com isso que muita gente acha que tem. O meu carnaval – que não é só meu, mas também de uma massaroca deliciante de milhares de pessoas – não é o carnaval da Rede Globo, da Beija-Flor, dos camarotes de cerveja e dos sambas-enredo esdrúxulos. Nem dos blocos do Leblon e adjacências, com rapazes muito fortes sem camisa e mocinhas de precários adereços carnavalescos tresandando pujança. O carnaval que falo é o estalo, o estopim que serve à realização daquilo que Wilhelm Reich entendeu como satisfação da necessidade biológica do homem, da ativação da plenitude de suas faculdades, do desejo, do não encarceramento moral que gera os verdadeiros impulsos sádicos e violentos de toda a espécie. Mesmo que seja por um devir, mesmo que seja por poucos dias. O carnaval é o combustível saudável para atravessar um ano. E se estou citando um pensador que tomou tudo o que pode de Marx e Freud para enlouquecer no seu próprio pensamento é porque me posiciono e coloco os outros exemplos que citei num mesmo curral (est)ético-político, em oposição a esse trio libertário.

Pois então: passei um mês no Japão (e meus amigos estão cansados desse assunto lá no Facebook) provando diariamente o avesso de tudo o que existe no Brasil. Poucos dias antes de explodir a folia aqui, eu estava em Tóquio debaixo de 5 graus, cercado de japoneses mui elegantemente vestidos e mui silenciosos – uma multidão nas ruas, plenamente coordenada e com um único objetivo comum durante seus trajetos individuais: respeitar o espaço do próximo. A ordem em conjunto pressupõe uma homogeneidade, concluí. Daí posso dizer que pela quantidade de japoneses caminhando, em sua vasta maioria com trajes pretos especialmente desenhados para o frio, é difícil destacar as individualidades de cada pedestre naquele movimento de milhares de pernas. É preciso parar e deter-se num transeunte e sacar suas peculiaridades. Nas ruas, no metrô, nos trens a ordem homogênea é maior do que a personalidade de um indivíduo na terra do sol nascente.

Dois dias depois – ou uma semana, agora não lembro bem – eu estava devidamente fantasiado e caminhando, em ritmo de marchinha, pelos blocos do Centro do Rio de Janeiro. Numa esquina ou outra me dava conta desse contraste absurdo entre os dois lugares opostos no globo. O calor era de 35 graus. Diferentemente de Tóquio, onde cada pedestre na multidão tem um destino pessoal e intransferível, nos blocos todos seguem um destino comum: acompanhar o som da bateria, não importa como e quão longe ela for. Aqui a individualidade de cada fantasia salta aos olhos. Cada dia, cada fantasia dá as normas da personalidade do folião. A fantasia é a base. Construir a fantasia antes de sair de casa é determinante. Penso que cada um se entende do jeito que lhe for mais proveitoso em relação as vestes carnavalescas. Há gente que se fantasia em grupo. Há gente que cria grandes estruturas e se compromete levá-las nos ombros até o fim do dia. Eu penso que as fantasias dos blocos devem se basear em dois princípios: cores e aerodinâmica. Mas com conteúdo pré-determinado. Conteúdo esse que, bem como a persona/personalidade da fantasia, vai mudando de acordo com o trajeto, com o álcool, com os psicotrópicos, com o calor, com os beijos, com os abraços, com o sol e com o suor.

Outra coisa: não há perder-se no bloco. Há destacar-se. No sentido que melhor couber na cabeça do leitor. É assim: você começa com amigos, eles se distanciam, você fica admirando pessoas que talvez conheça, passam alguns minutos, encontra outros amigos, de repente os primeiros amigos se juntam a esse segundo grupo, a vida vale a pena. Todos somem. Você encontra uma outra única pessoa também a procura dos mesmos amigos. O bloco para numa praça. O bloco para debaixo do vão do MAM. Absolutamente todos se encontram. O mundo é um só. Congraçamento. Os vários personagens começam a pular cada um a seu modo. Se houver necessidade de subir no mobiliário urbano, suba. Destaque-se, junte um séquito, crie uma coreografia, incite os quadris alheios. Se preferir sente-se no meio-fio e observe o arco dos personagens. Como estavam horas atrás, nessa caminhada tão longa e como estão agora. Que adereços foram deixados para trás, que traços foram incorporados. Verifique verbalmente, ou não, se eles amam tudo isso da mesma forma que você está amando.

Há duas semelhanças grandes, porém, entre a multidão monocromática japonesa e o arco-íris prazenteiro carnavalesco dos cariocas na sua essência em fúria: 1) a não necessidade de se usar automóveis e 2) a destituição da ansiedade pessoal e coletiva. Há, é óbvio, uma extrema conexão entre as duas semelhanças, mas me atenho ao segundo ponto. Os relógios parece que deixaram de funcionar logo após o despertador acionado pela manhã que levanta o folião e o leva até o bloco. Muitos relógios foram roubados ao longo do bloco, é verdade, é fato. E isso não acaba com o carnaval de ninguém. Faz parte da multidão daqui. Da nossa nudez diante do mundo, da nossa selvageria diante do mundo. Do trato bruto com o outro. Mas é preciso aproveitar antes que a ansiedade retorne na quinta-feira. Descobri num Starbucks em Sendagaya, Tóquio, enquanto esperava o início de uma tarde igualmente prazenteira, mas dentro do Teatro Nacional Nô – um tanto mais monocórdica do que as tardes com as marchinhas lamartinescas – de onde vem a nossa ansiedade e a nossa selvageria. Havia um quadro com um imenso mapa-mundi exibindo o coffee belt, as zonas de produção de café, do planeta: exatamente entre os trópicos de câncer e capricórnio. Nesse um terço de planeta Terra deitam o Brasil, a América do Sul e um pedaço da América Central e do México, a África Central, a Índia, a Indonésia, um pedaço da Oceania, um tantinho da Península Ibérica e outro tantinho da Península Arábica. Todos nós – nós e eles – somos semelhantes nas cores, na intensidade das vivências, nos afetos, na miséria, na destruição, na sanguinolência, no amor. O mundo, descobri ali, deveria ser dividido em três e não entre norte e sul, ocidente e oriente. Porque descobri ali também que o Japão é o ocidente do ocidente. É tudo o que a Europa sonha todas as noites com a cabeça no travesseiro. Nós somos outra coisa. Tão bom e tão ruim quanto. De maneiras distintas. Muito distintas. Retornando ao assunto da ansiedade, talvez também exista uma semelhança com o terreno fértil para o plantio do café e nosso modus operandi sobre esse terreno. Talvez não.

Uma vez estava no trem de Osaka pra Kyoto observando os dedos dos passageiros. Não faço isso nunca, mas me dei conta de que todos os japoneses têm dedos lindíssimos: longos e de unhas retilíneas, tanto homens quanto mulheres. Porém, do meu lado sentou um par de mãos com dedos curtos de unhas roídas. Achei estranhíssimo e me detive sobre o japonês. Sua perna esquerda pulava, ansiosa. Num determinado momento ele sacou um pacotinho de “mixed nuts” da pasta e um latão de Sapporo. As pessoas não costumam comer nos trens paradores por lá, pois se parecem muito com os metrôs, onde as pessoas realmente não comem (já nos trens-bala come-se bastante). Ele dava goles da cerveja intercalando com pinçadas nervosas de unhas roídas no pacotinho dos salgadinhos. Mastigava, engolia. Mastigava, engolia. O conteúdo do pacotinho acabou e ele enrolou aquele resíduo plástico da forma menos japonesa possível, jogou dentro da valise, colocou o latão no parapeito da janela e puxou um livro em alemão sobre a história da Alemanha. Deteve-se durante 20 minutos, à 8 centímetros de distância dos olhos, em apenas duas páginas do livro. Um mapa e um texto explicativo sobre a República de Weimar. Senti a angústia irradiando daquilo tudo. Abri um sorriso imenso e ele nem percebeu. Queria abraçá-lo e dizer que entendia o que estava se passando: ele tinha a doencinha daqueles nascidos entre os trópicos de câncer e capricórnio. Era um semelhante. E assim como muitos de nós, ele parecia ler coisas que poderiam levar o pensamento a lugares erradíssimos. Eu queria levá-lo ao carnaval do Rio. Queria que transasse uma lisergia, que subisse no Carrocama do Opavivará, que trocasse uma ideia com o João, que tomasse banho de purpurina do Julio, que descesse até o chão com a Bruna e com a Renata, que beijasse o Daniel e a Zoé, que ouvisse a voz doce da Mari no meio daquele rocambole de pessoas brilhantes, que provasse da cerveja horrível que somos obrigados a tomar nesses dias. Mas já era a Estação de Kyoto e eu tinha que saltar. Ele permaneceu na República de Weimar. Talvez para sempre.

Tenho repetido repetidas vezes que foram duas viagens que fiz nesses primeiros meses de 2015: pro Japão e pro carnaval. Achava até ontem que o jetlag do carnaval estava sendo muito mais difícil de contornar do que o jetlag do Japão. O Domingos diz que quando você viaja o corpo chega antes, a alma vem depois. No carnaval acontece o contrário: a alma chega antes e o corpo fica lá. Percebo agora que não sei exatamente qual corpo meu encontrou que alma minha e em que momento esses pares estão vivendo juntos. Talvez, oxalá, eu viva o ano de 2015 no desvio entre o finito e o infinito, que, conforme disse Einstein, é um desvio tendencioso para o vermelho. Minha cor predileta sempre foi o azul. O que diria Reich sobre o azul? O sangue que corre nas nossas veias é vermelho como a bola no meio da bandeira do Japão. Nada será como antes. Oxalá.


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MARIANO MAROVATTO
Escritor, cantor, compositor e colunista do ORNITORRINCO  

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QUINZE NOTAS (E MEIA) PARA UMA CANÇÃO






1. Chris Cohen e Nedelle Torrisi eram um casal e um dia, na década passada, formaram um banda na Califórnia chamada Cryptacize. A primeira canção do grupo que ganhou um vídeo para o YouTube tinha um refrão com os versos que servem de epígrafe para esse texto: “every note is an unfinished song / we're all in a cosmic sing-a-long”.

2. Esse texto é dedicado pro Negro Leo.

3. O Negro Leo falou dia desses duas frases libertadoras: “Cultura é desordem. História é organização”. Pra quem ficou 12 anos na academia, como eu, fazendo uso da visão histórica da literatura, essa máxima tira um peso enorme pra continuar esse texto. Esse texto, portanto, se pretende cultura e não história.

4. O Morton Feldman, gênio da música norte-americana do século passado, amigo do John Cage, do Frank O'Hara, do Jackson Pollock, do Mark Rothko e de toda essa gente brilhante dos Estados Unidos, escreveu um texto chamado “The Anxiety of Art”, em 1965. Lá ele afirma que durante 10 anos ele fez música, com outras pessoas brilhantes, num ambiente livre do ranço acadêmico, nem um pouco preocupados com o futuro ou com o passado, ou seja, destituídos do peso da tradição.

5. Nesse texto o Morton Feldman diz uma coisa bonita: “o que fizemos não foi um protesto contra o passado. Se rebelar contra a história é fazer parte dela. Estávamos simplesmente não interessados com os processos históricos. Estávamos preocupados com o som em si. E o som não entende nada de história.”

5.1. Repetindo: “O som não entende nada de história”.

6. E foi isso que o Negro Leo falou outro dia numa palestra, sem mencionar o Feldman, mas, sem saber, concordando com ele: “Eu não penso muito em tradição porque são valores organizados hierarquicamente”. A necessidade de um tipo hegemônico de música, surge de acordo com a demanda que, depois de assimilada pelo mercado, não demora muito para ser diluída.

7. No dia da palestra do Negro Leo, usamos o exemplo do funk diluído da Annita (mas sem destituir o valor social e cultural que ela e todos os outros antecessores do funk diluído, como Claudinho e Buchecha, um dia tiveram). O que eu disse para o Negro Leo (citando uma colocação do Vitor Paiva) foi que podemos ficar horas tentando domar o funk dentro do nosso curralzinho cultural branquelo zona sul, pós-esquerda anos 60 carioca, que o funk vai continuar a existir lá fora, muito maior, muito mais poderoso do que todos nós juntos. É como os Estados Unidos com medo da China. Como diria o meu primo diplomata, os norte-americanos sabem que se os chineses, todos ao mesmo tempo, resolvessem fazer xixi no território dos EUA, toda a população morreria afogada. É uma força natural, política e social gigantesca, tanto a China quanto o funk, e nós, os “ocidentais”, jamais teremos controle sobre isso.

8. Mas voltando ao Morton Feldman, ele disse naquele mesmo texto que a música do início do século XX, na seara em que ele trabalhava, era muito patrulhada pelas forças germânicas de Schöenberg, Boulez (que é um francês muito diferente do Debussy ou do Satie) e até mesmo de Stockhausen. Havia um autoritarismo e uma pressão vindos da tradição musical do velho continente. Tudo feito fora daquela esfera nascida com o dodecafonismo não seria considerado arte com selo de qualidade e pedigree. Charles Ives, Varèse e Cage, segundo o Feldman, foram chamados de “iconoclastas”, que é um eufemismo, para a escola germânica, para compositores “não-profissionais”. Abrindo mais aspas de Morton: “Na música, quando você faz uma coisa nova, original, você é um amador. Os seus futuros imitadores, esses sim são os profissionais”. Fato.

9. E aí chegamos a maldição da tradição. A tradição, a evolução da música popular, pensada pelos brancos heterossexuais, é feita dessa camada espessa de replicação de um determinado gênero. Da faixa da MPB nascida do cancioneiro de todos os sub-Chico Buarques que conhecemos, por exemplo.

10. Aqui, parênteses. É uma receita conhecida replicar um Chico Buarque inteiro: junte um mínimo de beleza física, um mínimo de conhecimento da história do samba e um mínimo de saídas harmônicas modernosas e frases espertamente rimadas (não precisa chegar aos pés do Chico letrista, só o devir-Chico já está valendo). Cabe até uma transa desse ser replicante com a literatura, com o futebol e até com um discurso político bem articulado. Não à toa, todo jovem compositor quer ser de esquerda, tocar um bom violão, jogar futebol e ser o bonitão avistado na praia. A utópica felicidade da heteronormatividade artística do século XX.

11. Agora, replicar o Caetano é difícil porque exige mais leitura dos sub-Caetanos. E mais leituras para jovens compositores é um outro assunto que merece um outro texto. Fecha parênteses.

12. A tradição é um inchamento de um determinado estilo feito por seguidores profissionais que acabam inscrevendo determinado momento musical, ou tipo de composição, na história. Concordo mais uma vez, e sempre, com o Negro Leo que disse que as manifestações musicais incontornáveis populares – o funk recentemente, o samba anteriormente – transbordam dos seus limites originais e, por conta dessa demanda, acabam tornando-se “populista hegemônico”.

13. Quando a “tradição” e o “populista hegemônico” se fundem, ótimo! Aí todos ficam felizes, os compositores, os donos das gravadoras, o público, a TV e a academia. A conta fecha, tanto monetariamente quanto canonicamente. Mas isso é um objetivo ultrapassado.

14. Não se pode mais partir dessas premissas. É necessário desarticular esse tipo de pensamento porque ele é muito velho, muito século XX, mais velho que o Chico Buarque. A cultura é desordem. É necessário respeitar não a “evolução” musical – em outras palavras, o “maria vai com as outras” na música – mas sim as próprias verdades estéticas, que vem de lugares muito distintos dessa evolução caduca.

15. É necessário leitura e ouvidos. É necessário procurar outros processos. É necessário dar a atenção devida ao ruído. É necessário não mais procurar o lucro, porque ele quase já não existe. É necessário ser coerente com suas próprias vivências. É necessário um outro texto.


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ISLÂNDIA


Manuel Bandeira é o mais sincero dos oráculos. Somente ele pode nos dizer sem que levantemos a sobrancelha do porém, as orelhas do “mas, mas..”, que “a vida é uma agitação feroz e sem finalidade / que a vida é traição”. Bandeira deve ser o poeta predileto de Charlie Brown e deveria ser de toda a gente. Um dia eu resolvi ir para a Islândia. Aconteceu, finalmente, depois de mais de 30 anos de vida, depois de mais de 15 anos pensando na Islândia tal como a Pasárgada do Bandeira, d'eu ir pra Islândia. Disse para menos de cinco pessoas que iria para a Islândia. Três falaram que eu deveria era encontrar a aurora boreal. Fui então para a Islândia encontrar a aurora boreal e não vi a aurora boreal. Manuel Bandeira, seis poemas depois do poema dos versos que citei, escreveu que “os gelos polares tudo arrebentam”. E arrebentam mesmo, posso dizer agora que já fui e voltei da Islândia. E não há como tirar a razão de Manuel, que nunca foi à Islândia.

Por motivos que não cabem revelar aqui, antes estava em Lisboa, numa cama de hotel, querendo varar a janela do quarto e sumir por aí. Claro – ok – os motivos sempre vêm de expectativas não reveladas. Da miséria que é realizar que nada do que estava sendo planejado detalhadamente deu certo. Nada. E todo aquele mundo que você estava pisando um segundo atrás, cheio de prosperidade, transforma-se num mundo que incontornavelmente não é mais o seu. Daí a vontade de varar a janela e sumir. Sumir para onde, José? O planeta é tão pequeno agora. E não adianta o tempo parar ou correr desembestado porque o gosto da derrota será sempre a maior fadiga do ser humano. Mas, entre esperar a manhã e varar a janela, descobri um único jeito de ludibriar a derrota.

Meses depois do que estou contando aqui, meu amigo Sylvio Fraga Neto me copiaria de aniversário uns versos do Berrigan que traduzem perfeitamente esse sentimento vitorioso que é ludibriar a derrota:

“Yea, though I walk
through the valley of
the Shadow of Death, I
Shall fear no evil –
for I am a lot more
insane than
This Valley.”

Da mesma forma que dizem que dormir é para os bilionários, para passar sem medo pelo Vale da Sombra da Morte, por ser mais insano do que o Vale, é preciso também ter uns trocados (para curtir a insanidade plena). Quebrei meu porquinho no lugar da janela no hotel e comprei uma passagem da Icelandair.

Ao meu lado no voo, uma francesa muito bonita dispôs os quadradinhos de sua barra de chocolate no assento vazio entre ela e eu. Comi um. Depois ela deitou e dormiu usando as duas poltronas. Na minha frente uma outra moça lia um livro em chinês. Em volta todos falavam pausadamente o islandês. Na hora do pouso eu estava ouvindo a canção do Jonas Sá, “Looking for Joy”, na qual ele e Joana Adnet, pessoas que amo desde que amo a Islândia, cantam juntos. O avião aterrizou quando Jonas dizia o verso “I'm looking for the one who will be my home”. Cada avião da Icelandair é batizado com o nome de um vulcão da ilha. Cheguei no aeroporto de Keflavik com os óculos cheios de lágrimas.

Em frente ao hotel ficava um dos restaurantes mais famosos de Reykjavik onde você pode comer o melhor hambúrguer da ilha, ler livros em inglês e islandês – organizados por cores nas prateleiras abaixo do balcão –, tomar uma cerveja e lavar a sua roupa no subsolo do estabelecimento. Perguntei qual era a senha do wifi para o rapaz atrás do balcão e ele disse pausadamente: iloveyou. I – love – you.

Trezentos metros depois dali existe o Harpa, uma comoção arquitetônica no mundo das salas de espetáculo. Fui assistir John Adams tocado pela orquestra sinfônica islandesa na sala maior, e, na menorzinha, um trio punk formado por meninas lindíssimas e pouco asseadas que provavelmente falavam de morte enquanto revezavam baixo, guitarra e bateria. O Harpa fica na Baía de Kollafjordur, com vista para Videy. Videy é uma ilha e ao mesmo tempo uma das visões mais sublimes da fronteira do círculo polar ártico. Assim: imaginemos que uma parte do maciço da Tijuca seja um platô e que esse platô fique no mar, como se fosse o arquipélago das Cagarras, visto de Ipanema. Como era inverno, cubra o platô com uma espessa camada de neve e assista tudo isso com um vento de 20 quilômetros por hora.

Para estar na Islândia, é preciso saber ficar de pé. Durante a noite, o Harpa muda de cor inconsequentemente. Na saída do espetáculo, enquanto loiros de olhos azuis olhavam esse rapaz, mal vestido para um concerto, caminhando de botas e barba negra pelos corredores imensos, conheci a garota de casaco castanho.

Dois bares mais tarde, ou duas noites depois, uma moça loira e bêbada avisou no meu ouvido: “don't think so highly of yourself”. Não há motivos úteis para visitar a Islândia. No balcão estavam eu, brasileiro vindo de Portugal, um holandês com o coração partido vindo do México, uma cantora folk ruim, norte-americana, indo para o Japão e um islandês que mora na China, passando as férias na sua terra natal. Exceto o islandês, nós estávamos ali confortavelmente sem rumo, rindo do nosso segredo compartilhado, muito estranho ao resto do planeta Atlântico afora.

Nos dias que sucederam essas noites, comi filé de baleia e testículos de algum animal que não soube identificar, tomei café, caminhei pelo lago congelado, fui aos museus, comprei alguns livros e discos, escrevi um punhado de poemas, tomei banho a céu aberto em águas aquecidas por vulcões, vi de perto gêiseres explodindo e por alguns instantes estive na lua, alheio a qualquer tipo de expectativa mundana.




Um dia fui até a queda d'água de Gullfoss. Para chegar até Gullfoss, antes, atravessa-se a divisória das placas tectônicas americana e europeia. Existe um caminho imenso feito dessa divisória que a cada ano aumenta em largura, fazendo com que vagarosamente a Islândia expanda silenciosamente o seu território. Caminhar sobre um corte profundo da superfície da Terra a esmo é coisa muito séria. Qual a função de caminhar, ali naquele caminho natural mais exposto da geologia do planeta, senão apenas caminhar ali, de norte a sul? Uma imensa bandeira da Islândia, no ponto de encontro das excursões de ônibus naquela altura da estrada fazia lembrar que coisas assim acontecem quase que exclusivamente naquele país. Não dá para dar a certeza plena, já que a Terra é esse planetinha surpreendente e a Rússia, por exemplo, é uma coisa incontestavelmente imensurável.

Para chegar até Gullfoss existe uma trilha de tábuas de madeira muito escorregadias e um vento três vezes mais forte do que o da Baía de Kollafjordur. Não há outra opção a não ser vencer todos os degraus até a beira da queda d'água. Gullfoss estava quase congelada completamente, mas ali descobre-se que é impossível deter qualquer força da natureza mesmo usando outra força da natureza. A água jorrava azul pelos cantos do gelo branco e espumoso da queda. O barulho do vento congelava o nariz e as mãos. É preciso manter-se inclinado para frente para enfrentar esse gigante islandês. É necessário berrar e se debulhar em lágrimas. Ali foi o único lugar que a palavra “arrebatamento” fez sentido para mim. Escrevi depois num poema que “o maior amor da minha vida / foi o vento que não me derrubou”. E nada foi maior antes ou depois disso. É como a “Cantiga” de Bandeira: “quero ser feliz / nas ondas do mar / quero esquecer tudo / quero descansar”. Matéria que passa, “liberta para sempre da alma extinta”. Se fosse budista, era a iluminação. Se fosse grego, não era eureka. Era somente Bandeira que sabe da força do gelo polar, e nunca foi à Islândia.



Na última noite fui ao meu encontro com a aurora boreal, que não foi. Atravessei três horas de ônibus na madrugada, deitei na neve no mais completo breu do céu do hemisfério norte. Nessa hora, nos fones de ouvido, estava tocando Abbey Road. Expectativa para uma centena de pessoas que estavam espalhadas por ali. Nada no céu. De repente os cabos de força que atravessam o país, próximos de nós, exibiram uma surpreendente luz dourada. Uma, duas, dezenas de vezes. Não era a aurora boreal, mas era impressionante. Todos berravam atônitos. As nuvens tomaram conta do céu mais uma vez. Era hora de voltar para casa (casa?).

No ônibus, a simpática senhora guia, muito triste, avisou-nos que existe uma garantia de dois anos para vermos a aurora boreal e que a chance de enxergá-la é sempre de 50%. Talvez um percentual maior do que supõe a arte do encontro de Vinícius de Moraes. Gostaria muitíssimo que a passagem para a Islândia estivesse incluída nessa garantia. Para embalar o sono na estrada, a senhora guia contou-nos uma antiga história de fantasmas islandeses. Lá fora, o breu era completo. Sua última frase, antes de saltarmos do ônibus em Reykjavik, foi: “and remember, bring your children to Iceland”.

Bring your children to Iceland.

Bring your children to Iceland.




Poderia terminar essa crônica com algum achado moral, uma frase que possa nortear nossos descaminhos e que tenha palavras como “derrota”, “expectativa” e “casa” puxadas por outras como “arrebatamento”, “intensidades” e “sem finalidade” (que deveria ser uma palavra só, não duas). Mas no caminho da viagem elas se relacionaram e se desvencilharam de acordo com a paisagem. E, mesmo depois, já livre da derrota que carregava, o Bandeira muito sabiamente diria que “me arderá por toda a vida / a fina, a doce ferida...”. E arde. E sempre arderá. Cheguei no Rio de Janeiro dois dias depois, a tempo do início do carnaval.


Mariano Marovatto é escritor, cantor, compositor e colunista do ORNITORRINCO.
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BAKUNIN NO RIO E O DESMONTE DA INTELIGÊNCIA


Uma vez numa crônica, Mário de Andrade, pessoa das mais importantes do mundo, parafraseou uma frase de Confúcio: “se música e cortesia são bem compreendidas e estimadas, não há guerras”. Mário dizia que era uma maneira sutil e asiática de colocar abaixo todas as “pesadonas doutrinas europeias” que herdamos do homem branco, via Portugal. O que me lembra o que disse recentemente Eduardo Viveiros de Castro em entrevista ao Talk Show do Rafucko: “o que define os brancos é que eles nunca sabem quando parar de trabalhar, produzir, fabricar, parar de crescer, parar de destruir, até explodir a porra do planeta inteiro”. Mas, Mário mantinha essa visão exótica em relação às culturas asiáticas (adorava o Tao Te King e o gamelão indonésio), e mal sabia que – no décimo quarto ano do século XXI – a China parece ter assimilado muito melhor do que todas as culturas de origem europeia a capacidade de ilimitar-se dentro de um planeta tão limitado como a Terra.

Confúcio – visto nessa crônica de Mário como esse bom velhinho chinês e sábio –, foi na verdade o principal responsável pelo tamanho do monstro que é a China. Graças aos seus Analectos – a bíblia chinesa, sem eufemismos – a maior civilização asiática manteve sua orientação, sem muitos descarrilhos e com plenos interesses políticos, ao longo das eras para chegar onde está. O totalitarismo está nos cinco continentes. Se nosso modelo de macaqueação deixou de ser europeu para ser norte-americano, não mudará muito se for copiado do chinês.

Nossa civilização brasileira é jovem. Nelson Rodrigues, escritor incontornável que há pouco estava sendo lido num comercial da Claro estrelado por Neymar, já dizia para os jovens envelhecerem. A juventude seria burra para ele. Emburrecer a juventude é talvez a mais tradicional das políticas da história dos governos brasileiros. Jovens burros serão adultos manobráveis. Um exemplo muito claro, vindo do século passado: entre 1947 e 1964, o período que corresponde a uma “quarta república” brasileira, talvez tenha sido o momento de nossa história onde as políticas culturais e educacionais tenham surtido mais efeito. Claro que não era um mar de rosas, não foi antes e meu pessimismo afirma que não será depois. Mas uma enorme maturidade do pensamento, da música e da literatura brasileira (áreas que consigo refletir sobre) aconteceu nesse momento auge do Brasil moderno. E mais: nossos grandes heróis vivos e pensantes, nasceram nesse período no qual a educação, vista de hoje, parecia coisa dos sonhos. O problema foi o que sucedeu depois de 1964: Além de todo o terror do período militar (oficializado em dezembro de 68 com o AI-5), o desmonte educacional foi o outro principal mal gerenciada pelos generais. E, ao longo das últimas décadas, seu efeito parece ter sido tão tenebroso quanto.

Os cinco continentes também produzem antídotos para seus totalitarismos. Se não fossem essas vacinas representadas por filosofias e condutas de gente brilhante, não estaríamos aqui, por exemplo, fazendo esse site e discutindo o desmonte da educação brasileira. Mas a política de emburrecimento é tão forte quanto uma bomba atômica e causa problemas por gerações até mesmo para os poderosos responsáveis pelo próprio desmonte. 

Há poucos dias a polícia militar do Rio de Janeiro, a instituição que pessoalmente acho a mais execrável e mais mal falada dos últimos 12 meses no país (creio que vence a polícia de São Paulo nesses quesitos), colocou na sua lista de futuras prisões preventivas, um sujeito de nome eslavo chamado Mikhail Bakunin. Uma pena que foram avisados a tempo que Bakunin nunca pisou no Rio de Janeiro e morreu 138 anos atrás. Adoraria assistir (sentado) a perseguição de Mika pela cidade, ouvir o que o Beltrame, que infelizmente carrega o mesmo nome meu, teria a dizer sobre ele.

Mas emburreceram tanto a gente nesses últimos 50 anos que, se você não é graduado em história, jamais saberíamos que os anarquistas, no início do século XX, sofreram perseguições muito piores aqui no Brasil do que nossos presos preventivos de agora e (não posso medir, não tenho o direito, mas arrisco) do que os perseguidos pela ditadura. 

Eis um resumo:

Na década de 1920, o governo do presidente Artur Bernardes (1922-1926), esse cara que ninguém lembra pelo rosto, vivenciou, entre outras coisas, o Tenentismo, a revolução gaúcha de 1923 e a Semana de Arte Moderna (Artur sabia bem quem era Mário de Andrade). Assim ele é lembrado. Mas ele poderia ser lembrado de outro jeito: por exemplo, pela colônia penal de Clevelândia, próxima ao Oiapoque, fronteira com a Guiana Francesa (imagina, leitor que fazemos fronteira com a Guiana Francesa!). Colônia penal já é uma denominação tenebrosa e kafkiano. As condições de Clevelândia, porém, a assemelhava muito mais com um campo de concentração. Artur Bernardes talvez tenha sido o presidente que mais reprimiu revoltas trabalhistas na nossa história. Só que além de trabalhadores revoltados e devidamente reprimidos, presos e/ou mortos, havia uma caça mais ostensiva em relação aos anarquistas brasileiros. Não caberia aqui um estudo mais completo sobre a história do anarquismo no Brasil. Caberia, mas as linhas são curtas e meu conhecimento sobre o assunto é fraco. Segundo Carlo Romani, autor de belo artigo sobre Clevelândia disponível na internet, não havia outro tipo de presos políticos, de outra corrente libertária, senão a anarquista na tal colônia penal. A ideia do presidente Bernardes de confinar anarquistas na chamada “Sibéria brasileira” surgiu justamente depois de uma enxurrada de pedidos de habeas corpus que chegavam após as sucessivas prisões dos revoltosos. Enviá-los para o lugar mais distante do centro nevrálgico da jovem república brasileira seria uma forma eficaz de calar juristas, jornalistas e outras classes menos poderosas e numerosas daquele Brasil de apenas 30 milhões de pessoas ainda não conectadas às redes sociais pela internet. E assim foi feito “sem nenhum amparo legal e muitas vezes sem a existência sequer de processos correntes na justiça”. Prática um tanto comum até os dias de hoje. 

Sobre as condições dos presos em Clevelândia, o texto de Romani revela que:

“Dos 946 presos lá internados entre 1924 e 1927, 491 morreram, ou seja, mais da metade. Boa parte dos sobreviventes que retornaram ao Rio e a São Paulo, de onde foram em sua maioria retirados, permaneceu com traumas e sequelas para sempre. A malária, o impaludismo e outras doenças adquiridas naquelas paragens distantes, fizeram-lhes perpetuar o sofrimento.”

A história dos repressores entre os próprios repressores é tão fragmentada e diluída que menos de 100 anos depois, concursados da PM desconhecem não só a existência histórica de Mikhail Bakunin, mas também os fundamentos dos anarquistas, grandes inimigos dos militares brasileiros de outrora. O emburrecimento agenciado pelas forças totalitárias transformaram em décadas a palavra “anarquia” que chegou até nós como sinônimo de bagunça e desordem, sendo que etimologicamente ela significa “ausência de coerção” e não “ausência de ordem”. 

Triste, na realidade, constatar que escrevemos textos agora que assimilam regimes totalitários falidos aos acontecimentos da nossa semana. Não é a guerra que mata, mas sim a falência da inteligência. Falência essa em prol de hegemonia política, do petróleo, dos minérios, das religiões e outras coisas saídas da Idade do Bronze que se perpetuam até hoje (com exceção, claro, do petróleo, obsessão mais recente). 

A guerra que existe é a guerra contra a inteligência. O fato é que ela vem se mostrando, desde que nos entendemos enquanto seres que vivem em comunidade, tão ineficaz quanto a guerra às drogas ao longo da história. Mas isso é outro assunto (que é o mesmo). O que nos difere do resto de tudo que nós vemos nesse planetinha em ebulição e no universo imenso lá fora é essa tal inteligência. Só nos mantemos e manteremos vivos por conta dela. Daí sim podemos pensar em música e cortesia.

Mariano Marovatto é escritor, cantor, compositor e colunista do ORNITORRINCO.
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NOTAS SOBRE JOHN E GENA


Vamos falar de outra coisa.

O poeta Ismar Tirelli Neto esteve em Araraquara em companhia dos irmãos no último mês, terminando seu próximo livro. Caminhando pelas ruas dessa cidade que desconheço, ouviu uma transeunte ao telefone, segundo ele, “sem muito alarde, mas com voz firme, audível, articulando bem”, dizer:

– Eu quero o divórcio.

Love Streams é o último filme de John Cassavetes. Numa das cenas, a personagem de Gena Rowlands, Sarah, está diante de uma juíza, de seu advogado, de seu ex-marido (interpretado por Seymour Cassel), do advogado de seu ex-marido e de sua filha de 12 anos. O propósito do encontro é resolver as pendências do divórcio. Sarah ainda ama o ex-marido, tanto quanto ama sua filha. Ela ama a sua família que já não a admite porque Sarah tem problemas psiquiátricos. Num último suspiro de esperança, a personagem de Gena diz ao personagem de Seymour: 

– Não vamos nos separar. Eu já quase não estou mais maluca.

Os personagens que Cassavetes escreve para Rowlands sofrem quase todos do mesmo mal: amar demais. Vide Mabel de A Woman Under The Influence, talvez o filme em que Gena esteja mais bela de todos os longas de seu marido. Desamparada, de trejeitos caricatos, com longos cabelos louros despenteados, sorrindo e berrando, repleta de tiques de desespero. Sem filtros. Linda. Amando integralmente Nick, o personagem de Peter Falk, que também a ama inconsequentemente. O casal tem três filhos que só inspiram desamparo ao longo do filme. Parecem não caber na relação do casal, não caber naquela casa bagunçada. O amor é uma alegria dolorida. Um bem horrível, como diria Domenico Lancelotti, uma sucessão de intensidades aleatórias, como diria Maurice Pialat.

No primeiro filme de Cassavetes, Shadows, acontece o inverso do último filme. Talvez a frase mais marcante da película seja a da personagem interpretada por Lelia Goldoni, com olhos marejados e o peito cheio de angústia, após perder sua virgindade, de costas para o seu parceiro amoroso,  ela diz "Nunca pensei que poderia ser tão ruim." John Cassavetes me parece ter sido um desses homens intensos, tomado pelas suas paixões, do início ao fim da vida, como Mário de Andrade pelos cigarros e pelos textos. Por conta disso, pensando no contraponto entre Love Streams e Shadows, um dos grandes ensinamentos de John é provar que o começo pode ser muito mais doloroso, melancólico e desamparador do que o final. Se para a personagem de Lelia o início de sua vida amorosa é um vazio aterrador, para a Sarah de Gena o final é um entupimento de amor, uma esperança mortal de que devemos doar tudo a esse sentimento avassalador. Perder a consciência, o dinheiro, o rumo, a razão, mas continuar sonhando até o final abrupto da vida. Os finais são mais completos e maduros do que os começos.

John e Gena começaram a namorar quatro anos antes da gravação de Shadows. Diz a lenda que John se destruía de ciúmes por ela. Diz a lenda que eles brigavam todos os dias pelo amor do outro e que esse foi o pacto que fizeram para manterem-se juntos até o dia da morte de Cassavetes, no dia três de fevereiro de 1989.

Sarah, de Love Streams, vai ao psicólogo e explica, de frente para ele, que o amor é uma corrente que nunca cessa. O psicólogo responde seco "Ora, mas é claro que acaba." O psicólogo é interpretado pelo irmão de Gena.

John Cassavetes na abertura da série televisiva Johnny Staccato, na qual ele interpretou o personagem-título, aparece saindo de prédios, carros e becos com ar jovem e esbaforido. Jovialmente inconstante, em busca da volátil solidez que a relação com Gena proveria. John parecia um homem alto, mas não era. Na realidade ele abaixava o queixo e encarava todos com seus olhos faiscantes, onde ele guardou toda a sua potência, desde Johnny Staccato até Love Streams, filme em que é notável sua debilidade física provida pela cirrose hepática que o mataria poucos anos depois. Seus olhos e sua risada diabólica eram a resposta corporal de que ele ainda estava lá pelos seus filmes e por Gena.

A poeta Matilde Campilho mora em Cascais e outro dia escreveu que o rosto de Gena Rowlands não tem ligação nenhuma com o tempo físico. Michael Ventura, que acompanhou as gravações de Love Streams em Los Angeles, disse o mesmo. Disse que Gena tinha uma espécie de campo de força impenetrável enquanto se concentrava para entrar em cena. Todos a olhavam de uma distância respeitosa. Ventura disse também que Gena era a mais amável de todas no trato pessoal. A mais carinhosa e a mais reservada. Diz a lenda que Gena aprendeu durante dez anos a tocar piano e ninguém nunca soube, nem John. Um dia John chegou em casa e ouviu ela tocando uma peça lindíssima e perdeu o controle: 

– Como assim você está tocando piano?! O que está acontecendo!? Isso não tem cabimento! 

E os dois ficaram dez dias sem se falar. Quando voltaram, nunca mais tocaram no assunto. O amor é uma luta de todos os dias. Até o final redentor da vida.


Mariano Marovatto é escritor, cantor, compositor e colunista do ORNITORRINCO.
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FUTEBOL, MEMÓRIA E CETICISMO



Aquele vídeo do homem com sotaque britânico num talk show explicando aos norte-americanos como a FIFA é uma entidade tão assassina e corrupta feito um governo de um país ditatorial africano é bom no que diz respeito a sua eficaz simplicidade em colocar a tal entidade no seu devido lugar de criminosa diante do público televisivo dos Estados Unidos. O meu personalíssimo porém sobre o vídeo do homem com sotaque britânico é em relação a afirmação de que o futebol é uma religião e que ele, enquanto fervoroso devoto do esporte bretão, vai acompanhar os jogos com a culpa de saber que o seu deus é na realidade a personificação do diabo. Pois: eu nunca me entendi bem com crenças ao longo da vida. Analisando em retrospecto todos os capítulos da minha relação com religião, todos, sem exceção, me parecem uma triste perda de tempo em épocas sombrias que só se tornaram mais sombrias com o uso desses amuletos enquanto muletas.

Minha relação com o futebol é amorosa. Ou melhor, era amorosa. Era porque foi sempre uma relação da infância com o esporte: O álbum de figurinhas de 1986 que dividia com meu irmão, os jogos nos recreios de 1989, o ranking dos melhores jogadores da turma que eu mesmo estipulava (e humildemente me colocava em terceiro lugar), assistir o Zico jogar e ficar boquiaberto com a sua genialidade (coisa que não via em Ayrton Senna, por exemplo, embora tenha sido uma criança muito mais entusiasta da Fórmula 1 do que do futebol), os álbuns da Copa União, ver na TV os torcedores da falecida geral do Maracanã correndo em direção ao atacante para comemorar mais perto do seu ídolo o golaço que ele fez, enfim. Deixei de gostar de futebol aos 12 anos, mesma época que guardei meus Comandos em Ação pra sempre numa caixa. Na adolescência transformava as partidas obrigatórias do colégio num espetáculo surrealista: pegava a bola com a mão e saia correndo da quadra, berrava no ouvido dos atacantes adversários durante a cobrança de escanteio e estimulava a prática do porradobol entre meus colegas que lutavam jiu-jitsu. Importante frisar que nessa época eu era da galera do teatro e toda atividade em grupo e/ou perante um público era motivo pra diversão. Diversão para mim, pelo menos. Com exceção da admiração pelo Zico – que gerou a minha predileção pelo Flamengo – o fato é que nunca coloquei o futebol no lugar do fanatismo.

Meus grandes amigos flamenguistas Pedro Birman e Domingos Guimaraens tentaram me catequisar ao me levarem consecutivas vezes ao Maracanã na última década. Minha primeira vez por lá foi em 2006, um Fla Flu. Já tinha entrado no Coliseu de Roma mas nunca tinha entrado no antigo Maracanã. Foi assombroso. Era um dia nublado, as cores dos dois times em campo e a força da torcida rubro-negra talvez sejam as coisas mais arrebatadoras do futebol recente. Um espetáculo religioso muito mais bonito e com muito mais crueza do que qualquer encenação da paixão de Cristo em qualquer escala (pessoalmente suspeito que a hégira seja mais atordoante que um Fla Flu, mas nunca presenciei uma). Mas depois de anos seguidos – diga-se de passagem, sem nunca ver o Flamengo perder no Maracanã – o que mais me importava nesses dias era estar sentado ao lado dos meus melhores amigos para falar sobre a vida, entre uma jogada e outra.

Da copa de 86 só me lembro das ruas pintadas e do álbum de figurinhas de seis páginas. A copa de 90 me lembro muito bem, principalmente do gol do Caniggia contra o Brasil que assisti lá na casa da minha tia na Tijuca. Na copa de 94 estava tão angustiado na final que não vi as cobranças de pênaltis e sai do quarto escuro onde me tranquei somente quando iniciou a berraria pós-chute do Roberto Baggio para fora. Chorei com a vitória, mas lembro muito bem da cara de ceticismo do meu pai assistindo a comemoração do tetra. Tinha ali naquela euforia alguma coisa errada. Em 98 assisti os jogos com meus amigos, mas não lembro de nenhum. Lembro sim que no intervalo da final entre Brasil e França sai da casa de onde estava assistindo a partida na Gávea e fui andando até o Leblon encontrar outros amigos em outra casa. Não havia absolutamente nada nem ninguém nas ruas a não ser a voz do Galvão Bueno saindo pelas janelas de todos os prédios do caminho. Em 2002 passei parte da copa às voltas com meu apêndice: crise de apendicite, operação e recuperação. Vi a final sozinho deitado no meu quarto, ainda cheio de pontos no umbigo. Em 2006 e 2010 assisti ao lado do Domingos e do Pedro como se estivesse no Maracanã assistindo aquele Flamengo que nem era mais do Zico.

Nesses últimos momentos, antes do pontapé inicial da copa de 2014 no Itaquerão, já me ofereceram participação no bolão da galera, ingressos para assistir jogos com seleções que me apetecem como Irã e Honduras em cidades distantes como Manaus, por exemplo, e até já combinaram comigo, à moda carioca, diversos lugares para assistir os primeiros jogos do Brasil. Mas, fazer isso tudo em nome de que? Desde que tudo e todos saíram do armário da política em junho do ano passado – vejam bem, senhoras e senhores, já temos um ano que estamos diferentes – é impossível não enxergar todo esse espetáculo com o ceticismo (não digo pessimismo) que só cresce e amadurece desde então. Não há a menor graça no Neymar, no Felipão, no sei lá mais quem, nesse estádio que colocaram no lugar do Maracanã, nesses milhões de toneladas de armações de ferro e banners temporários espalhados pelas cidades-sede do mundial, nessa imensa quantidade de militares carregando fuzis e coletes à prova de balas ao lado de turistas coloridos e sorridentes, nessa estranha massa de brasileiros vestidos de verde e amarelo fazendo cosplay de brasileiros (como li outro dia no Facebook e achei muita graça), nessas bandeiras do Brasil feitas de plástico penduradas em algumas janelas residenciais e em todos os prédios públicos (como se o país fosse uma parada de 7 de setembro que durará um mês). Não há a menor graça nos que culpam exclusivamente o governo do PT em relação aos gastos criminosos da copa. Não tem a menor graça os que defendem o mundial em nome do PT. Os partidos políticos não tem a menor graça desde a propaganda eleitoral obrigatória de 1989. É de uma tristeza profunda saber que todos sabem, independentemente do seu ponto de vista ético e político, de alguma forma, a quem de fato interessa todo esse mega espetáculo faraônico da copa. A cada dia que cresce mais o nosso ceticismo, fica mais difícil distinguir os interessados no evento dos interesseiros do evento. Estamos sendo obrigados a comparecer na festa mais cafona do planeta. O Brasil são os outros. Há muita gente que pensa o mesmo e escreveu melhor do que isso. Muita gente vai apanhar, muita gente será presa, talvez pouca gente (ou muita gente) morra por não se alinhar à copa. Machado de Assis, nosso maior cético, uma vez escreveu que achava muito estranho as pessoas levarem uma vida normal na Rua do Ouvidor depois da traumática Guerra do Paraguai. Talvez muita gente tenha pensado o mesmo depois da Confederação dos Tamoios, da Revolta dos Malês, do massacre do Carandiru, da destruição do Quilombo dos Palmares. O mais assustador é realizar que o Pão de Açúcar continua e continuará impávido colosso mesmo depois de tanta estupidez. Talvez o que restará de bom do futebol será a memória. Talvez eu esteja enganado. Talvez não.


Mariano Marovatto é poeta, compositor e músico.
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SOBRE MULETAS E EPÍGRAFES


Nos últimos meses recolhi uns poucos temas bem específicos para dissertar sobre, por isso já começo esse texto pedindo perdão. Se não estou por aí a falar das maravilhas islandesas, por exemplo, provavelmente estou monologando sobre o "Casa", meu próximo livro que já tem nome, mas ainda carece de alguns poemas para ficar pronto. Além do título e dos poemas faltantes, "Casa" tem também duas partes. A primeira está pronta e a segunda não. As duas partes, ao longo do processo de maturação do livro, que tem um ano e meio quase, ganharam epígrafes nesse período. 

Para melhor afeição ao vocábulo chave desse texto (tão caro ao mundo dos escritores), vale recorrer ao dicionário de termos literários para deixar de dúvidas. Pois bem, o dicionário explica que modernamente as epígrafes servem aos livros como “lema ou divisa”, e complementa: “A epígrafe obedece não só a imperativos da moda como a tendências ideológicas e subjetivas: de certo modo, basta o seu exame para nos fornecer uma ideia da doutrina básica de um poeta ou romancista, o seu nível cultural, etc.”

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A tentativa de abarcar todas as possibilidades de casa, 
seja ela uma pessoa, um trem, uma cidade, um vulcão, 
uma ilha, um chope. É a percepção de que a casa é o mundo, 
de que o amor/casa é um conceito que se expande, feito o universo.
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Pois. Meu primeiro livro que, pouco espertamente chama-se "O primeiro voo", possui de epígrafe um pensamento anotado por Leonardo da Vinci sobre sua máquina de voar que nunca voou. Para meu azar, pouco tempo depois "O código da Vinci" virou um dos maiores best sellers mundiais, e meu primeiro livro, que já deixei desmamar por desgosto logo que saiu da gráfica, caiu no terrível limbo das tendências-ideológicas-e-subjetivas que nunca mais voltei a crer na vida. É bem possível que a epígrafe seja muito responsável por esse desamor com o livro, além dos poemas, claro. Mais recentemente, há dois anos, publiquei "Mulheres feias sobre patins", um livro repleto de “kkk” e versos mais sarcásticos do que, digamos, originais. Por conter apenas 17 poemas, a função da epígrafe no "Mulheres..." foi bem sucedida, pois, sendo duas num livro tão pequeno, serviram (na minha cabeça) de desculpa para que o invisível talvez inexistente público pudesse, à sua vontade, abrir novas possibilidades de interpretação, o que garantiria um voo mais longo para esse projétil poético de pouco fôlego. Tomara. 


O leitor já deve ter percebido a falta de carinho do autor pelos seus livros. Sim, é verdade: não gosto deles e não é charme. Porém, com o "Casa" a coisa parece ter mudado de figura. O livro tem se tornado, ao longo da gestação, meu objeto de predileção. Tanto que, como disse no início, tenho monologado bastante sobre ele, o que é coisa rara pois não sou de falar por aí e muito menos de falar do que tenho escrito. E o carinho por ele é tanto que este texto é sobre as epígrafes que não estarão no livro. Veja só em que maçada você se meteu, leitor que nunca leu um verso meu.

O livro teria três epígrafes, duas para a primeira parte e uma, maior, para a segunda. Foi quando encontrei a terceira das citações que o projeto de enchê-lo com elas foi descartado. A poeta Matilde Campilho, esta força da natureza, comparável somente às quedas d'água da Islândia, me veio com a punchline demolidora. Mostrei a ela outro dia, como de costume, os avanços do livro, entre eles a nova epígrafe. Ela sentenciou: “é muito bonita a frase, sim. Mas acho que epígrafes são como muletas. E você já não precisa de muletas”. Não soube por um segundo se agradecia ou se chorava. Depois de pensativa pausa dramática, respondi: “Você tem toda razão”. Destituídas ou não, as três epígrafes são ainda as vigas, mesmo que ocultas, para que a casa fique de pé, mesmo com essa metáfora fajuta de casa e vigas. A primeira delas é da poeta paulista Julia de Souza que em março desse ano, 2014, publicou na revista Piauí o belo “Poema para esgotar a casa”. O poema inteiro é assombrosamente uma espécie de comentário – quase um prefácio – do livro, mesmo a poeta desconhecendo por completo o meu projeto literário. Entre as diversas passagens que remetiam as entrelinhas da primeira parte de "Casa", como: as ambiências claustrofóbicas de alguns dos textos (“que a casa seja um aquário / seja um museu”), ou da única narrativa possível a ser feita é aquela a partir de dentro da casa (“já é impossível pensar / o mundo sem a mediação / da casa”) e até da relação da casa com a ruína (“é preciso interditar a casa / deixar que o mato a engula / cresça sem rodeios”), foi o verso posto entre parênteses, recurso frequente nos poemas da Julia, “(teria sido preciso esgotar o tema da casa)”, o mais acertado como primeiro mote do livro.

Por que "Casa"? A primeira imagem que me veio agora para explicar o título do livro é a do retorno de Ulisses para os braços de Penélope, para a casa, o leito dos dois feito do tronco maciço de uma árvore centenária, representando a solidez e a profunda raiz do amor entre eles. Acontece que mesmo depois dos dois best sellers que nunca deram dinheiro para Homero, diz o mito – a revista de fofocas de então – que Ulisses e Penélope, como qualquer casal do século XXI, também pediram arrego e se separaram. O que foi feito daquela cama feita de tronco maciço? Dos móveis da sala? Como dividir de forma justa tantos jarros gregos? Ninguém sabe, ninguém contou. Como diz a Julia, teria sido preciso esgotar o tema da casa, mas não deu. Os mitos gregos, despedaçados, não deram conta do recado. O que nos chegou foi o rumor da vida de solteiro de Ulisses e Penélope disperso entre escritos milenares com qualidade inferior a homérica. Miriam Sutter, minha professora de cultura greco-latina da graduação, deve saber. Eu talvez soubesse, não sei mais. 

Essa incapacidade de contar os capítulos finais de uma casa, o espaço entre o abandono dela e a transformação desse abandono em ruína e dessa ruína em patrimônio imemorial – tal como o que nos sobrou da arquitetura grega – é um dos pontos de Roland Barthes no seu inescapável "Fragmentos de um discurso amoroso". Lá, ele diz:
Não posso eu mesmo (sujeito enamorado) construir até o fim minha história de amor: sou seu poeta (o recitante) apenas quanto ao começo; o fim dessa história, assim como minha própria morte, pertence aos outros; a eles cabe escrever esse romance, narrativa exterior, mítica.
Pois bem. A primeira parte de "Casa" corre afobada para dar cabo à história dessa casa do poema, dessa casa mítica, vamos dizer. Há insinuações estranhas de que o final está perto, mas a coisa termina insuficiente. Surge então a necessidade de evocar o autor da segunda epígrafe, que acompanharia o verso da Julia de Souza nessa primeira parte: senhoras e senhores, Albert Camus. O argelino em 1937 escreveu a seguinte passagem em um de seus cadernos/diários:
Aedificabo et destruam [Edificarei e destruirei], diz Montherlant. Eu prefiro: Aedificabo et destruat [Edificarei e que se destrua]. A alternância não vai de mim para mim mesmo. Mas do mundo para mim e de mim para o mundo. Questão de humildade.
Deixando de lado a falsa humildade do ganhador do prêmio Nobel, percebe-se que Camus pensa da mesma forma que Barthes em relação ao perecimento da casa/amor: o que vem depois não diz respeito a quem construiu, pertence aos outros, ao mundo lá fora. Edificarei e que se destrua. Para dar continuidade a esse roteiro possível do meu livro de poemas, agora com a casa da primeira parte já demolida, foi necessário não confrontar as observações de Barthes e Camus, não criando um trajeto funéreo de um eu lírico carpideiro a espera milenar da transformação da casa abandonada em ruína protegida pela Unesco. A segunda parte tornou-se uma diversidade de começos e tropeços, uma tentativa de abarcar todas as possibilidades de casa, seja ela uma pessoa, um trem, uma cidade, um vulcão, uma ilha, um chope. É a percepção de que a casa é o mundo, de que o amor/casa é um conceito que se expande, feito o universo. E existe uma beleza devastadora nesse lugar total que acaba sendo lugar nenhum, que a terceira e última não-epígrafe do livro diria:
But she is sitting in my place / devastating beauty in my place / and I'm absent from the place I ought to be [Mas ela está sentada no meu lugar / uma beleza devastadora no meu lugar / e eu estou ausente do lugar em que deveria estar].
Esses três versos são da canção “The Heart Knows Better” do disco Blemish de David Sylvian. Um dos meus discos prediletos – e preciso dizer, um dos melhores discos feitos na década de zero –, Blemish, vejam só, foi composto e gravado durante o mês em que Sylvian desmontava sua casa, depois de um longo relacionamento com a poeta, compositora e fotógrafa Ingrid Chavez. Estar ausente do lugar em que se deveria estar é estar em todos os outros lugares. Retomando a querida Matilde, não há muletas possíveis que acompanhem tamanha expansão. As epígrafes são os sinais espalhados por todos esses outros lugares. Toda casa será ruína. Toda ruína conta o início de uma história.


Mariano Marovatto é poeta, compositor e músico.
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