Mostrando postagens com marcador Sahara Boreas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sahara Boreas. Mostrar todas as postagens

THOMAS SANKARA, O CHE AFRICANO


Quando eu tinha 14 anos, o professor de Geografia (que muito apropriadamente se chamava Mr. Mount) decidiu que tínhamos que saber de cor todos os países africanos e suas capitais. Desde então mais de dez anos se passaram e apesar de ter feito viagens ao norte de África, ter feito amigos de vários países Africanos nunca mais me esqueci que a capital de Burkina Faso é Ouagadougou. Na altura lembro de ter achado a sonoridade da capital algo muito memorável.

Este ano (que passa) fui convidada a assistir um filme da mostra de filmes Africanos que estavam sendo exibidos no Instituto Moreira Salles, e qual não foi a minha surpresa quando já atrasada chego na sala e descubro que o filme é sobre Burkina Faso, mais especificamente sobre Thomas Sankara. Talvez uma das pessoas mais interessantes do continente Africano, que eu nunca tinha ouvido falar.

Burkina Faso é um país sem acesso ao mar que tem como fronteiras seis países; Mali, Níger, Benin, Togo, Gana e Costa de Marfim. Em 1983, o ano em que Thomas Sankara, por meio de um golpe de estado se tornou presidente, o país era um dos mais pobres do mundo e tinha parado o seu desenvolvimento desde a sua independência em 1960. Thomas Sankara de 33 anos que era um jovem idealista, impaciente, com ideias muito progressistas e uma veia marxista, decidiu rebatizar o seu pais (que se chamava Alto Volta) de Burkina Faso – Terra dos Homens Íntegros.

Thomas é ainda hoje conhecido pela juventude local como o “Che Africano”. As suas ideias tiveram repercussão por todo o continente, o que assustou vários lideres de outros países. Em especifico da França e da Costa do Marfim. A Costa do Marfim utilizava mão de obra barata de Burkina, e a França retirava grande parte da riqueza da Costa do Marfim (e de outras de suas ex-colonias) por meio de contratos que mantinham o espirito neocolonialista.

Sankara era avidamente anti-imperialismo e anti-neocolonialismo, para isso ele sentia que era necessário autonomia em todos os sentidos (principalmente não depender de importações). Ele era também muito a favor de uma África Unida, “produire en Afrique, transformer en Afrique et consumire en Afrique”, produzir e consumir produtos africanos. Ele era a grande antítese do que se chama de afro-pessimismo: “Devemos aceitar o modo de viver Africano, que é a única maneira de viver livre e dignamente”.

Como presidente ele tomou várias decisões e medidas inéditas a um chefe de estado Africano. Começou por diminuir o seu salario, dos ministros e de outros altos funcionários do governo. Vendeu os Mercedes (carros oficiais do estado) e comprou Renault 5s (na altura o carro mais barato em Burkina Faso). Anulou todos os privilégios dos membros do governo, incluindo que ninguém voava em 1ª classe. Julgou os ex-membros do governo por desvio de verbas e corrupção. Pôs fim ao imposto colonial, e acabou com a distribuição feudal de terras (distribuindo a terra aos camponeses).

Um dos seus feitos mais impressionantes foi ter atingido a autonomia alimentar de Burkina em apenas 4 anos (a produção de trigo aumentou de 1700kg/ha para 3800kg/ha). Na sua ânsia de alojar, alimentar e cuidar da população, vacinou 2.5milhões de Burkinabés em apenas uma semana, começou vários programas de alojamento social, e construção de estradas e ferrovias – tudo sem dinheiro, e sem apoio de grandes empresas ou outros países. Ele via estes projetos como oportunidades do povo fazer parte da construção de Burkina Faso.

Ele foi o primeiro chefe de estado Africano a reconhecer os direitos das mulheres, e de ativamente tentar mudar a cultura Burkinense (onde a mulher era vista como inferior). Ele foi o grande catalizador da emancipação feminina no seu pais, criando trabalhos, introduzindo mulheres na formação militar e elegendo varias mulheres como suas Ministras.

Muito preocupado com a educação do seu país, ele educava a população com slogans e inseria-os na construção do pais, criando assembleias gerais, tribunais populares da revolução, e o movimento pioneiro – onde crianças até aos 12 eram formadas ideologicamente e politicamente contra a voracidade, egoísmo e egocentrismo. Ele era acreditava também na formação politica dos militares “um militar sem formação politica e ideológica, é um criminoso em potência.”

Ele começou programas de esporte coletivos, onde ele e o seu número dois (Blaise Comparoe) participavam assim como ministros, cidadãos e camponeses. E começou também os bailes populares, onde se encontrava todo tipo de gente de todos os extratos sociais, incluindo o Thomas em pessoa. Mas como guitarrista exímio, ele ia só para tocar na banda.

Mas nem tudo era tão cor-de-rosa, os sindicatos e oposição não tinham efeito no seu governo, e durante uma greve de professores, ele prendeu 1400 professores. (As greves eram vistas como movimentos contra a revolução porque quem era a favor da revolução resolvia-se nas assembleias).

Sankara tinha muito carisma, algo muito evidente nas suas entrevistas e seus discursos, (que se encontram facilmente no youtube). As suas ideias progressistas como acabar com o dever de pagar a divida fizerem com que tivesse apoio de vários (Fidel Castro, Jerry John Rawlings, a juventude Africana) mas também que se tornasse inimigo de outros, principalmente lideres de países africanos com conexões fortes com os seus ex-colonizadores. Os mais preocupados eram François Mitterrand (o então presidente da França), e o presidente da Costa do Marfim.

A 15 de Outubro de 1987, o número 2 e melhor amigo de Sankara, Blaise Comparoe (com o apoio do presidente da Costa do Marfim) assassinou Thomas e se elegeu presidente. Apesar da população chorar a sua morte, traços do seu governo foram apagados e acusaram Thomas de ter enriquecido a custa da população. Ao invadirem a sua casa a procura de provas não encontraram nada a não ser suas guitarras e bicicletas. Blaise começou a partir de então uma politica de cooperação e se manteve no poder 27 anos. Em novembro deste ano devido a uma revolta dos jovens Burkinabés, ele renunciou do poder e fugiu para a Costa do Marfim.

Thomas que nas suas próprias palavras se sentia “mal amado e mal compreendido” em África acabou por aceitar morrer (ele foi avisado que Blaise preparava um golpe, mas insistiu que a amizade não se trai), mas vive ainda hoje na memória de todos os Burkinabés como símbolo de esperança.

Respeitou o seu lema até ao fim. A pátria ou A morte. Venceremos.


::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

Leia também

- ADULTOS QUE MORAM EM ÁRVORES
- DIÁRIO DO MÉXICO
- A HISTÓRIA DA BELEZA
- O FIM DA ARTE É LIBERTAR

> Continue Lendo

A INSPIRAÇÃO É MULHER


A inspiração é uma menina muito egoísta. Vem e vai a seu bel-prazer. Te joga no chão no meio da noite, te faz uma emboscada numa viagem de metrô, te surpreende no meio do duche, te pisca o olho num simples atravessar de rua. Musa. Chata. Linda. Ela é aquele relacionamento tipo booty-call que você não quer ter. Você nunca consegue chamar para nada, mas quando ela aparece em plena madrugada não tem como falar não.

E ela é assim com todos. Libertina e libertária. Mulher, sim. Claro. Daquelas que não se deixam agarrar; as imprevisíveis. Mas que nos tocam o suficiente para alimentar a esperança que um dia quem sabe talvez caia de vez e constante nos nossos braços. Ela é de todos e não de ninguém. Uma Leila Diniz da vida. Musa. Chata. Quando aparece ninguém fica indiferente, mais paixão, mais clareza, mais vontade.

O seu desaparecimento leva a página em branco, ao tédio, à confusão. Mas ela tem uma irmã, sim mais feia, sim, sem tanto encanto, mas que ajuda nos dias (meses, anos) em que a inspiração vai tomar banhos de sol. A disciplina é das duas a irmã mais metódica e mais paciente. Ela é a que senta do seu lado, faz chá, te instiga a trabalhar, a pensar. Querida disciplina. Ela também não é fácil. Não se deixa apegar a qualquer um, apenas aos que merecem. Mas quando merece é casamento.

Nenhuma das duas anda parando aqui em casa. A inspiração nem sei quando foi a última vez que a senti no corpo. A disciplina, bem, temos as nossas diferenças. Até temos trabalhado no nosso relacionamento mas parece que não há química. Durante muito tempo acreditei que a inspiração só vinha em momentos maus, e do que era sofrimento se materializava algo de valor. Logo eu era o oposto do Vinicius, não era o apaixonar-me mas o fim que me instigava a escrever.

Com o tempo, para minha grande surpresa entendi que também conseguia escrever em momentos felizes. Mas sem dúvida é a urgência do fim, a tristeza, a saudade que a fazem aparecer. Não que tenha que escrever sobre isso, apenas tem que ser esse o estado de espírito.

Inspiração, se me lês, só queria te avisar que nada tá particularmente bem, podemos trabalhar em cima disso.

Não sei porque ela não me liga mais, nem responde minhas mensagens no whatsapp. E escusado será dizer que drogas não funcionam. Pelo menos não comigo. Não há green fairy que a faça correr para os meus braços. Se alguém com mais sorte que eu tiver em contato direto com ela (a inspiração! A disciplina eu tenho o número) falem para ela passar aqui para a gente sei lá, fazer um 7-minute dancing party, não preciso mais que isso. O meu endereço é Rua Jangadeiros 28. Valeu.


Sahara Boreas estuda Cultura e Comunicação Alimentar.
> Continue Lendo

VIAJO PORQUE PRECISO, VOLTO PORQUE... NÃO, NÃO VOLTO


A vida é um movimento só e por isso gosto de ir embora. E gosto de voltar. Às vezes gosto até de não voltar. Fugir me agrada. Muitas vezes gosto mais do longe do que do perto. Estar longe aguça a criatividade, treina o desapego, trabalha a imaginação, me dá espaço. Sei que a minha sina é partir e por isso não tenho pressa.

Desde que fiz minha primeira viagem de avião sozinha, aos 10 anos, de Paris para Lisboa, viajar se tornou algo essencial. Eu, minúscula e magricela na imensidão que era o Charles de Gaulle. Foi o primeiro hit, sentir toda aquela adrenalina de partir, aquele sentimento de power-woman prematuro, independência e medo – viajando encontrei um espaço entre espaços que é meu. Viajando entendi que o caminho é o que me interessa.

Por isso sempre me senti em casa em aeroportos, sempre gostei de viajar de avião, de trem e sempre fui fã de roadtrips. Porque para frisar o clichê, o destino realmente pouco interessa, ele é importante apenas para dar a direção.

No Brasil aprendi a gostar de viajar de ônibus e achar uma viagem de seis horas uma coisa perfeitamente normal e curta. Gosto de parar onde todo mundo corre. Gosto de observar as pessoas em seus movimentos, imaginar histórias, torna-los as personagens principais da minha sessão da tarde.

No que já percorri por aí, descobri que as rodoviárias brasileiras são mais fascinantes que qualquer aeroporto internacional. Aeroporto é cinema, Hollywood. As grandes cenas de reencontro, desde o casal que se vê de novo, a família que se funde em abraços, aos amigos que aparecem com cachos de banana na cabeça para receber a amiga. Aeroporto é mercado de luxo, espaço amplo, lojas de marca, restaurantes conhecidos, segurança.

Já as rodoviárias são telenovela, das baratas e antigas. Cenas de trama e traição, mil e um tons de pele, coragem de fazer 500 a 2000 km para ir visitar a mãe. Isso é amor, isso sim é vontade de viajar. E para quem não entende o que é fazer 25 horas de viagem só para ir para a Bahia, digo-vos é muito mais agradável do que parece, e atrevo-me até a dizer que é uma escolha bastante "civilizada".

No mais, sempre gostei de andar, sempre tive dificuldade em ficar sentada e quieta durante muito tempo e ao que alguns são "commitment freaks", eu sou também, mas com cidades. Dizer que vou ficar aqui nos próximos anos me dá falta de ar, assim como dizer que vou voltar ou que vou morar os próximos 3 anos em Berlim. Partir é preciso. E acredito que um dia, voltar seja necessário. Pois se me perguntarem "Quer passar um ano aqui?", eu vou.


Sahara Boreas estuda Cultura e Comunicação Alimentar.
> Continue Lendo

DOIS MINUTOS SOBRE AMOR, FUTURO E PIPOCA



Desde os meus 10 anos de idade quando o Messenger e o mIRC começavam a ganhar popularidade, ouço dizer que a internet vai acabar com as relações sociais entre humanos. Pequena, e depois mais adolescente sentada no sofá ou na mesa, ouvia atenta e já com uma certa saudade, de como em alguns anos não saberíamos mais ler expressões faciais e nos tornaríamos inaptos socialmente. Pois quinze anos se passaram e vi passar por mim o Altavista, Yahoo, Google, Orkut, Facebook, Flickr, Instagram, Gtalk, Whatsapp e What not, hoje em dia está mais do que certo que pelo menos o olhar surpreso, a duckface, e a carinha triste são expressões que a moda das selfies não nos deixa esquecer.

Viramos emoticons humanos e estamos mais conectados do que nunca. O quanto disso interessa não sei – li um estudo recentemente que só conseguimos estabelecer conexões verdadeiras com 150 pessoas durante a vida. Por isso, para aqueles que se orgulham de ter 1.000 amigos no Facebook, serve de pouco. Com a velocidade desenvolvemos a comunicação com poucas letras e embora não passemos tanto tempo lendo expressões faciais, aprendemos a ler pontos finais, vírgulas, espaços e silêncios nas milhões de mensagens que trocamos. Sim, a vida vai se tornando cada vez mais a leitura (muitas vezes errônea) das nossas interpretações das palavras dos outros.

E se as amizades se tornam mais superficiais, e a leitura dos outros mais críptica, o que acontece com Amor neste século? Não me preocupo tanto comigo, já que a minha geração não é totalmente digital e ainda gosta do ocasional roça-roça, cafezinho e flaneios no parque, mas tenho 5 irmãos que já saíram da barriga com celulares na mão postando no Snapchat e aflige-me pensar como serão as relações do futuro. Acima de tudo, como serão os casamentos amorosos do futuro?

Mas a quebra de paradigmas começou conosco. Somos a primeira geração que metade ou mais da metade dos progenitores estão divorciados, o que nos deixa extremamente pessimistas ou românticos incuráveis no que toca a relacionamentos. Além do mais somos as vítimas-protagonistas da terceira revolução sexual (ou quarta, já não sei a quantas vamos). Vivemos a época da experimentação. Tudo se questiona e se permite, principalmente em relação a sexualidade. Que bom que tudo possa ser questionado e que hoje dispomos de mais alternativas para o prazer. Quem sabe no futuro não nos tornemos um grupo de seres iluminados estilo eunucos que só precisam conversar pela tela, como já refletiu Spike Jonze em seu filme Her, atestando que nem que seja com um Sistema Operacional a gente vai sempre precisar se relacionar.

Hoje são poucos os que realmente acreditam (inabalavelmente) em casamento até ao fim da vida – tem quem aceite a escapadinha fora da fronteira. Tem quem quer só morar junto e tem quem nem morar junto quer. Tem quem tem fobia de se relacionar ou quem quer se relacionar com todo mundo e tem até quem casa pela igreja de vestido branco e música do Lionel Richie. Com a expectativa de vida na média dos 80 anos, os amores podem ser vários e de variadíssimas formas; marido, filhos, cachorro, aquele pé de manjericão no fundo da varanda.

Fala-se pelas esquinas que caminhamos para relacionamentos mais verdadeiros, conosco e com o outro e que isso pode incluir aceitar (ou não) certos requisitos outrora obrigatórios. Acho que estamos entrando na época dos relacionamentos feitos à medida, já que muitos andam largando o molde. Minha mãe acha que, como qualquer moda, é possível que a do casamento vitalício volte um dia. Talvez até num estilo versão beta 2.0.

Mas obstante tudo isto, uma coisa está certa, independentemente do formato de relacionamentos, somos e seremos (pelo menos até um futuro próximo) uma espécie muito carente. Está certo e sabido – e descansem que tenho a confirmação dos mais novos – que a gente gosta mesmo é de se apaixonar, amar e comer pipoca junto (salgada em cima e doce em baixo, é claro).


Sahara Boreas estuda Cultura e Comunicação Alimentar.
> Continue Lendo

DA INCERTEZA DE SER EU A TODA HORA E TODO MOMENTO


Uma vez quando fui fazer/ter uma dessas experiências esotéricas para me conhecer melhor, desvendar segredos da minha pessoa através do outro, dos céus, da lua, do i-Ching, deparei-me com duas situações diferentes, duas informações que me marcaram bastante, ambas transmitidas por homens. A primeira era que eu tinha que aprender a relaxar, que eu tinha a mania de controlar tudo. É verdade, tenho. Tenho tendência a querer encontrar as certezas, estudar situações até encontrar as verdades absolutas. Acho que me movo no preto e branco, não entendo isso dos cinzentos. Essa coisa tão inerente ao brasileiro de deixar fluir é algo com que me debato bastante, pra mim é muito difícil. Gosto do constante, do certo, do branco ou do preto.

Acho que como espécie ainda tendemos muito para a segurança da constância e consequentemente do controle. Por isso criamos códigos de conduta, etiqueta, instituições, nacionalismos. A incerteza é algo que nos deixa muito inseguros, a incerteza sobre nós, sobre o outro.

Outro dia, ao por pela primeira vez uns tênis, lembrei-me imediatamente do primeiro dia de aula na escola nova de quando eu tinha 13 anos. Lembro-me do mesmo sentimento ao andar, os pés desconfortáveis no sapato ainda não moldado, e aquele sentimento de que toda a gente vai perceber que os meus sapatos são novos pela maneira tosca que estou a andar, e ninguém vai querer falar comigo. Não posso negar que ainda hoje, adulta, nos primeiros 15 minutos em que andei com tênis novos aqui em São Paulo, fui atacada pela mesma insegurança, achando o tênis branco demais, os meus pés grandes demais, as pessoas me olhando esquisito.

Enfim, aos poucos vou entendendo que a vida é mais em tons cinzentos. Eu própria que sempre me achei e sempre lutei para ser tão preto-ou-branco, descubro em mim vários graus de cinzento. E isso me leva à segunda informação que me foi transmitida, que era que eu não sou uma, mas três. Ou seja, eu não sou apenas eu, sou eu + eu + eu. Isto só veio confirmar uma suspeita que temia a um tempo: a inconstância vive dentro de mim. A única certeza é que sou várias (naquela altura era três, hoje começo achar que sou 4 ou 5), é incerto quem sou eu a toda hora e a todo o momento. É muitíssimo irônico que eu, aquela que tende a controlar, que tende para a constância, nem em mim própria consigo aquilo que prego.

O melhor é mesmo mudar de doutrina. Na verdade é necessário. Reparo isso não só comigo mesma, mas mesmo com os outros. Estamos tão habituados a constância dos outros que quando eles agem de uma maneira que não a deles é o fim do mundo. Sou uma pessoa muito alegre e sempre que fico calada ou fico mais introspectiva, é um choque muito grande para os outros à minha volta, eles ressentem-se muito e às vezes culpam-se. É preciso aceitar a incerteza para aceitar o outro melhor e para se aceitar melhor. Perceber que não somos seres encafuados dentro de um quadrado, que mudamos constantemente e constantemente aprendemos e crescemos para fora das bordas.


Sahara Boreas estuda Cultura e Comunicação Alimentar.
> Continue Lendo

O BLOCO ACABOU MAS NÃO SAIU DE MIM


Me deparo com resquícios do carnaval por onde passo. Purpurina no chão do banheiro, uma pluma roxa solitária no canto da sala, a marchinha que não sai da cabeça, o grito "não vai ter Copa" enquanto lavo a louça e o coração apertado que é, já era, já foi, agora só para o ano que vem.

Tem quem diga que se a vida fosse um carnaval duraria muito pouco. Mas ao ver como o meu corpo pede mais, anseia por mais felicidade desmedida, corpos soltos e corações abertos, não vejo qual seria o problema de morrer no cume desse ápice. Bem no meio da muvuca, entre suor, chuva e cerveja, se permitindo ser você-multidão-amor.

O ano começa assim, já na ânsia do fim. Na procura do próximo momento onde todo mundo vai largar os corpos em casa e sair só com seus espíritos purpurinados abertos a qualquer coisa porque no carnaval vale tudo. No carnaval você se fantasia para finalmente ser você mesmo, todas as suas vontades e desejos à flor da pele. Mas está claro que carnaval só tem um e é só uma vez no ano. Quem combinou isto? E por que seguimos aceitando este contrato de liberdade total durante apenas 5 dias?

Com o começo do ano, a fluidez dos sorrisos é guardada nas gavetas, as casas são limpas, as fantasias são escondidas no fundo do armário e a coragem de encarar as tristezas e dores do dia-a-dia é resgatada do canto de onde foi largada no começo da semana. Os corpos se tornam rígidos de novo, nos escondemos agora por detrás de uma máscara de preceitos e condutas sociais tornando privado aquilo que tornamos tão público. E assim seguimos, vivendo, limpos de tudo o que suamos ao som de surdos e trompetes em uma semana de catarse e êxtase.

Até o próximo as memórias hão de perdurar. Há de haver histórias, flashbacks e músicas que vão roubar sorrisos momentâneos da explosão de cores e de corpos que vivenciamos juntos. E tem também os amores, paixões e paixonetas frutos desse carnaval que se procuram e se encontram ou se deixam para apenas alimentar de histórias a grama do aterro.

Carnaval é cometa. É repentino e deixa marcas. Mas é necessário? Será que não somos capazes de nos permitirmos o coração leve assim nos outros 360 dias do ano? Como seria uma sociedade carnavalesca? Impossível e caótica ou feliz demais-da-conta? Mas se há uma certeza neste país inflacionado é que, enquanto índio quiser apito, vai ter carnaval fevereiro ou março, por isso podemos seguir descansados – se não foi desta vez que você virou pedra do chão da Lapa, terá sempre o próximo. De resto, nada importa.


Sahara Boreas estuda Cultura e Comunicação Alimentar.

* Imagem de capa: Erica Catarina
> Continue Lendo

NÃO EXISTE BRISA EM SP


Não passa uma brisa. Está um calor dos infernos, e BB King toca “Live in Africa" no escuro da sala. Descobri o prazer de viver no escuro quando faz muito calor e de viver de janelas escancaradas para a vida dos outros. A vizinha da frente já me conhece os peitos de cor. Sempre que volto do banho, lá está ela, a fumar o seu cigarro ou de olhos cabisbaixos para a rua, aqueles olhos de quem vê as mesmas cenas todos os dias.

São Paulo é sem dúvida uma cidade peculiar, cidades pequenas dentro de uma cidade grande, ou uma cidade grande rodeada de cidades pequenas. Tudo espremido dentro de um só espaço pulsante ocupado por 20 milhões, a grande maioria que suspeito serem nordestinos. São Paulo é sem dúvida concrete jungle, mas até agora tenho vivenciado a cidade de maneira muito diferente do que se espera da mesma, nada daquele apartamento no 10º andar ou do visual do mar cinzento de prédios. Acredito que a diferença entre onde moro aqui em São Paulo e Lavras em Minas Gerais é mínima.

Sensação de vila, lojas dentro das garagens, botecos sujos mas limpos, as pessoas sentadas nas ruas, lembra muito pequenas cidades do interior. Se bem que aqui em Santa Cecilia os mendigos e usuários de crack se aninham todos no maior amor contra uma parede a ver as horas passar, exceto aos domingos. Sábado é noite de festa embaixo do minhocão, e no domingo, dia de feira, eles se encontram espalhados pelo bairro, ressacados, dormindo até bem depois do meio dia. Inclusive dormem bem, vários têm colchões bem melhores que o meu.

A boca aqui do bairro é bem à porta de minha casa, fato que descobri só à poucas semanas. Até então achava que era só uns molequinhos gente-boa-toda-vida que ficavam sentados na minha porta fumando maconha. Sei sempre quando chegam porque a casa fica com um cheiro forte a posto 9. De casa até ao meu trabalho (três estações de metrô apenas) parece uma cidade completamente diferente — de Lavras-like para Manhattan-wannabe — São Paulo é uma cidade de contradições.

—
São Paulo é uma cidade de contradições e personagens. 
Tudo nela é cinema, cada esquina, cada encontro, cada 
prédio velho. O homem que vende mapa-múndi na rua 
e que secretamente lê Rousseau, o homem que se diz ser 
o ódio para quem o quiser ouvir na porta do metrô. Já até 
vi um homem afiar uma faca no passeio em plena Avenida 
Faria Lima, como se fosse a coisa mais natural do mundo
—

Contradições e personagens, tudo nela é cinema, cada esquina, cada encontro, cada prédio velho. Deparo-me com as mais diversas personagens todos os dias; o casal judeu que namora à um metro de distância, o homem que vende mapa-múndi na rua e que secretamente lê Rousseau, o homem que se diz ser o ódio para quem o quiser ouvir na porta do metrô. Já até vi um homem afiar uma faca no passeio em plena Avenida Faria Lima, como se fosse a coisa mais natural do mundo. O meu preferido é o Pool-man, que aparece em dias de muito calor com vinte piscinas de plástico de variadíssimas cores e tamanhos penduradas na cabeça e nos braços tentando enfim conquistar algum simpatizante.

Também apanho as conversas mais estranhas no metrô. Hoje, alguém que não consegui ver a cara, se apresentou ao telefone com um “Olá Doce, daqui Clark”. Ultimamente começo a achar também que Deus me anda a mandar mensagens através das camisas dos transeuntes. Aqui em SP deve ser moda andar com camisas com escritos, em dias de muito calor já recebi um “endless summer”, um dia Ele mandou-me um “nobody remembers the good girl” que abalou as minhas entranhas, e quando estou naqueles dias em que penso demasiado ele já mandou (mais do que uma vez) “la vie est par etrê vivre”. Às vezes Ele manda umas mensagens com erros ortográficos, que eu aceito todavia. Vai ver que é de ter tanta gente reunida nesta cidade que Ele se manifesta com mais frequência mas menos atenção.

A vida não é fácil, principalmente em noites como esta que não passa uma brisa, e não há nem praia nem piscina para afogar os pés — mas é divertida, e amigos não faltam, e quem sabe um dia não faço uma simpatia ao Pool-man para acabar logo com esse calor.


Sahara Boreas estuda Cultura e Comunicação Alimentar.
* Imagem no topo: Mary Jane
> Continue Lendo

SER OU NÃO SER BOT


Recentemente conheci Saharabot, através do app “What would I say”, que cria um “status” como se fosse eu, e que hoje inunda a minha timeline com as dezenas de status dos outros BOTs que convivem comigo neste espaço azul chamado Facebook. Conversamos por mais ou menos uma hora.

Saharabot : You want a gente bater um papo!

Então vai, meu BOT, ou minha BOT – tem gênero essa coisa? – vamos bater um papo. Que tal a vida desse lado? A vida programada, sem necessidade de sentido? O falar sem pensar, sem sentir? A criação de frases aleatórias?

Saharabot: On my little eye something blue. Tive num boteco na Lapa, saudades. I look só enchem o saco.

É poeta, só pode... Depois de algum tempo entendi que meu BOT fala muito do Rio, de saudades, de beijar, de margarina, de ir embora e que apesar de não fazer sentido no que diz, tem lá sua graça. O melhor desta brincadeira, é que você consegue se ver refletido no espelho dessa imensa rede de informações que é a internet. Estes são os seus ecos, seus lixos ou suas preciosidades, dependendo do ponto de vista. Através desse app, você satisfaz a curiosidade inerente de se ver de fora.

—
Para quê conversar? Para quê perder tempo em escrever 
aos amigos, até mesmo em utilizar o Facebook para nos 
mantermos à par com a vida dos que estão longe e perto? 
Ao invés disso, podemos utilizar nossos BOTs para uma 
comunicação ininterrupta com toda a gente! 
—

Depois de perder algum tempo com isto, ficou bem fácil imaginar as futuras relações virtuais que teremos uns com os outros. Que serão, indeed, cada vez mais virtuais.

Para quê conversar? Para quê perder tempo em escrever aos amigos, até mesmo em utilizar o Facebook para nos mantermos à par com a vida dos que estão longe e perto? Ao invés disso, podemos utilizar nossos BOTs para uma comunicação ininterrupta com toda a gente! Já imaginou? Nunca ninguém vai se sentir sozinho, ou desamado – BOTs conversando com BOTs em frases leves e soltas, e a gente com tempo para fazer... alguma coisa.

Saharabot: De malas e bagagens para o CARNAVAAL.

Pode ser que sim, pode ser que tenhamos mais tempo para alimentar uma nova rede social onde através da tela dos nossos computadores, tablets e celulares conseguimos tocar uns nos outros, puxar cabelos, beijar, sei lá.

Será que ao caminhar para uma menor distância nos limites físico-virtuais, caminhamos também para uma maior distância físico-real? Será que os dois são inversamente proporcionais? Ou seja, será que caminhamos para um futuro de maior isolamento? Menos tátil? Menos agarrar, abraçar, sentir a pele, ler expressões faciais?

Saharabot: Tudo teu é essa foto.

Apesar de não sermos uma geração totalmente digital (já que quando nascemos não nos deram para a mão um iPhone ou iPad), somos já uma geração que prefere mandar um email ou um torpedo do que ligar, ou do que ter que dar noticias ou pedir satisfações cara a cara. A distância, o écran nos faz sentir mais confortáveis, nos dá aquele sentimento de (falsa) segurança.

A minha verdadeira pergunta é: será que o futuro que nos espera é o de que acabaremos socialmente incapazes? Ou começarmos a usar as pessoas só para necessidades físicas e fisiológicas e que mesmo para isso se inventem apps e what-nots, como é o caso do Grindr?

O que acontecerá ao velho; boy meets girl (ou boy meets boy/girl meets girl) na paragem do ônibus, na praia, na noitada, na festa de fulano de tal? Ou à ir casa de alguém, ir na praia, dançar com desconhecidos...

Ou será que só deixando nossos BOTs falando por nós mesmos, é que aí sim teremos tempo livre para finalmente viver?

Saharabot: <3 você vai?


Sahara Boreas estuda Cultura e Comunicação Alimentar.
> Continue Lendo

NOW I WANNA DANCE, I WANNA WIN


Pode ser que tenha visto muitos filmes na minha adolescência, pode ser que tenha vivido muito tempo fora, mas a verdade é que no momento agora, desdenho a minha língua. Português é brega na cama. E atenção, acho a língua portuguesa uma das línguas mais bonitas do mundo para falar de paixão, de amor (dos outros), de saudade de todos.

Ler Camões falando “que amor é fogo que arde sem se ver”, Florbela Espanca amando perdidamente, Antônio Ramos Rosa que não pode adiar o amor “ainda que a noite pese e aurora indecisa demore”, Fernando Pessoa (apesar de o achar tão pessimista e tão tipicamente lisboeta) desconstruindo a mulher virgem “que ama louca e perdidamente porque a fome das emoções é mais terrível do que a da sexualidade”, tudo isso é bonito demais. O português escrito, lido para dentro ou em voz alta, tem uma certa complexidade mística para quem não entoa as últimas siílabas e fala em mono-tom. É, português de Portugal é minha língua-mãe, e para mim o seu ser-escrito é algo maravilhoso, é muita emoção para uma língua que falando não se exalta, não abre o tom.

Mas “cumpriu-se o mar” e o Português do Brasil se tornou minha mãe adotiva. Mãe essa que me encanta com o seu rebolar de coxas. É mais soltinha, às vezes nem segue todas as regras mas é uma língua que se faz e desfaz na boca. O que há para não amar em Caju e Castanha? O que dizer de Cecilia Meirelles que sabe que eu tenho um medo; “Acabar”, e que sabiamente me diz “és sempre o outro, que és sempre o mesmo”. Ou de Drummond que bem sabe “que de tudo fica um pouco, às vezes um botão, às vezes um rato”. Ou Vinícius, eternamente apaixonado, lucidamente diz “que era preciso fugir, para não perder o único instante em que foste realmente a ausência de sofrimento. Em que realmente foste a serenidade”.

É muito amor por essa língua. Como canta Letícia Novaes “quando cê chega é cataploft”, porque é mesmo. Não dá para explicar a felicidade de estar em outro lugar do mundo e de repente, no metrô, no ônibus, na rua sem querer e sem esperar ouvir alguém falar português, é delicinha-de-meu-deus. É relaxamento total do corpo, gostoso demais. É cataploft cataploft cataploft, vontade de sair atrás dos compatriotas de sorriso no rosto.

Como tenho dito “meu português” (sotaque) nunca vai desaparecer (apesar do “meu brasileiro” disfarçar bem minhas origens) e nem meu amor e admiração por uma das mais complexas gramáticas do mundo. Mas, apesar de tudo isso e de todo o resto, sempre achei mais bonito um “I love you” à um “te amo”/ “amo-te”. Normalmente não falo isso para qualquer um, falei só para duas pessoas em meus 25 anos de vida, e não falo muito para não gastar porque acaba perdendo seu peso de moeda de ouro. Mas desde sempre o amo-te me soou brega, telenovela portuguesa barata. E o te amo me soa a novela da Globo – o português nesse momento me soa falso, faz de mim personagem de uma trama que não é minha, em um momento que é para ser de derradeira verdade.

Nunca soube explicar porquê, mas na intimidade dos momentos, minha língua foge para o inglês. Tenho que explicar também que estudo inglês desde os treze anos, por isso é uma língua recorrente em minha vida. Não é psycho-wannabe-mania de querer falar o que não falo.

Mas sempre achei que teria com o inglês uma relação mais professional, de estudo, vá, e não é que ela se instalou no meu lobo temporal medial como aquela a utilizar em momentos de extrema intimidade? Já tentei lutar contra isso, já inclusive tentei falar “te amo”, e já falei, mas sempre me sabe a sabor artificial. Aí meu coração corre para o inglês porque me soa mais verdadeiro.

Comecei falando que português era brega na cama. E não me levem à mal, não acho mal nenhum, e estou bem acostumada a encontrar minha língua amada entre lençóis. Falo que acho brega saindo da minha boca, não que seja muito de monólogos ou diálogos, nem solto um “oh baby, oh baby”. E quando a situação pede, é ao português que recorro. Mas há muita despersonalização no momento. Não parece minha voz, e demora muito tempo para 1) Formar uma frase, 2) Entender que fui eu que falei. Às vezes dá muita vontade de soltar uma frasezinha em inglês, mas já imaginou a situação? Você nem sabe que falo inglês, e ai dou uma de Pulp Fiction e solto um “Now I wanna dance, I wanna win. I want that trophy, so dance good”. Não tem como.

E na falta de melhor, largo a vontade e esqueço as frases.


Sahara Boreas estuda Cultura e Comunicação Alimentar.

*Foto no topo: Robyn Stacey
> Continue Lendo

DE AMORES PLATÔNICOS E OUTROS TAIS


Adoro amar à distancia. Amar sem conhecer o objeto, admirar sem tocar. Gosto principalmente de imaginar histórias com terceiros que nunca se hão de realizar. É ainda melhor, porque não é na realização que está o prazer mas sim na criação. Normalmente conhecer os objetos de admiração leva a desilusões profundas, a pessoa real nunca é tão feita a medida, passei a minha adolescência aprendendo isso.

Desde pequena que adoro ler, a minha madrasta dizia inclusive que eu, com certeza, tinha alguma coisa de autista porque desaparecia para dentro dos livros e ficava horas sem comunicar com o fora. As minhas amigas gostavam de adormecer com as historias que inventava para elas e para os seus amores platônicos, e os meus namorados constroem comigo histórias de possíveis futuros quando o presente nos separa — há qualquer coisa na criação de histórias e enredos, na criação de universos de amores paralelos que junta as pessoas. Junta não à fisicalidade do momento que nunca há de acontecer, mas na esperança e no conforto de que são histórias que podemos tocar em loop, limando as arestas, que podemos guardar sempre se repetindo em duelo mortal com as nossas do dia a dia que seguem jamais se repetindo.

Amor platônico é dos mais bonitos e mais utópicos. Não é idolatria, é amor, admiração, respeito, vontade de cheirar o cabelo. É amar o objeto da sua imaginação, no fundo dos fundos é se amar em outro. Pode-se dizer que é um amor egoísta, um amor que não quer se concretizar, que quer só viver do que é irreal e cor de rosa. Mas é um amor que não faz mal, porque não há dor, sofrimentos ou ansiedade. Ou melhor, pode haver, se você for novato em amar platonicamente — mas todos os amantes platônicos sabem que existem certas regra; o objeto do seu amor platônico não deve ser conhecido. Se for, tem que rapidamente apagar todos os registos de histórias, personalidades e fotografias mentais do arquivo-memória. O objeto do seu amor platônico é um aparte, nunca o todo, para se ter, inclusive ao mesmo tempo, outros amores. Nunca faça do seu amor platônico o único amor da sua vida. O objeto do seu amor platônico não é real. É a famosa "olhe com os olhos, não olhe com as mãos". Amor platônico não é stalking-psycho-mania, é leve, é distração. Amor platônico é dormir sesta em rede pela tarde adentro.

—
Amor platônico é dos mais bonitos e mais utópicos. 
É amar o objeto da sua imaginação, no fundo dos fundos 
é se amar em outro. Pode-se dizer que é um amor egoísta, 
um amor que não quer se concretizar mas é um amor que 
não faz mal, porque não há dor, sofrimentos ou ansiedade. 
—

Meus amores platônicos mudam porque até eles me desiludem num momento ou no outro. Umas vezes voltam a reconquistar meu coração e então gosto deles continuamente. Não necessariamente imaginando historias de amor e loucuras — às vezes sim —, outras vezes basta me saber que existem ou existiram. 

Já amei Dali profundamente. Mas aí me chateei, o cara é muito doido, muita porra-louca, muitos traumas naquela cabeça. Me apaixonei pela historia de Hemingway e de sua mulher, e amava assim secretamente Ernest por ele ser escritor perdido em Paris, vivendo do nada e voltando de noite para sua mulher. Ela que tinha ido viver a aventura dele. Mas aí descobri que ele traiu a mulher dele, e pronto, lá desceu Ernestinho do pedestal. Por cantores/guitarristas também desenvolvo algumas paixões, mais por uma curiosidade daqueles dedos plonc plonc plinc nas cordas da guitarra — é uma curiosidade muito sexual sim —, e ai bota Chico mas bota mais Devendra. Daí descobri que Devendra já tinha vários cabelos brancos (é que amores platônicos são imortais pelo menos na imaginação) mas aí me reconquistou falando espanhol numa entrevista. Vai entender, o espanhol tem esse efeito em mim.

Agora, meu maior e mais bonito amor, em honra de quem nomeio todas a minhas bicicletas é Gabito. Gabriel Garcia Marques. Nosso amor começou quando tinha uns 18 anos e li "Cem anos de solidão". Nosso amor vai continuando forte. Li toda a sua obra num ato de amor profundo e posso dizer que cada vez fui me apaixonando mais, principalmente quando me deparei com o "Outono do Patriarca", que para mim, é sem dúvidas, sua maior obra de arte — por ser tão completamente diferente e desafiador ao que chamamos de literatura. Sempre que qualquer coisa ruim acontece, um namoro que termina, uma verdade que vem a tona, preciso de ler Gabito. Como se pelo os seus livros ele me reconfortasse — figura não-correspondente do meu maior amor. Fico triste de ele estar demente, mas percebo que seja uma sina familiar, felizmente continua vivo! E isso me aquece o coração, quando alguém o arrefece.


Sahara Boreas estuda Cultura e Comunicação Alimentar.
> Continue Lendo

RASCUNHO PARA UM ROMANCE


Um dia vou escrever algo que começa com o seguinte anúncio:

"Periquita procura Heavy-Rocker para se aquecer, com seus longos cabelos de head-banguer, nas noites frias de São Paulo, para passeios na Augusta durante a alvorada e para transas incansáveis de domingo à tarde ao som de System of a Down."

A história vai começar com uma menina periquitérrima de Niterói, estilo poposuda, vestido à vácuo e salto alto, que se muda para São Paulo à trabalho e que o desespero de estar há 6 meses sem encontrar alguém lhe leva a postar este anúncio. Mas calma, ela não é uma periquita qualquer. Ela é, no fundo, uma periquita dark. Frequentadora assídua da Augusta. Ela tem uma curiosidade quase mórbida pelo dark side, mas não quer comprometer seu estilo, afinal ela se amarra em Naldo. Então decide que o melhor é conhecer bem um adepto deste time.

Pausa para olhar meus cabelos brancos precoces — não gosto muito deles, mas há que dizer que eles brilham que é uma maravilha.

Ok, então de volta à historia da Periquita. O nome continua indefinido porque a inspiração ainda não bateu. Enfim, a história segue e alguém responde o seu anúncio. É Pedro, adora System of a Down e tem a curiosidade de estar com periquitas. Sempre amou meninas alternativas, punk-metal, skaters, chifres em riste. As transas incansáveis nas tardes de domingo aliciou-o logo. Os amigos o chamam de Garras, 27 anos estilo dark bear, barba e cabelos compridos mas meio agarrado com as ladies.

Pedro responde o anúncio e combinam de se encontrar num bar.

Pausa para pensar no futuro. Alguém aqui vai ter que mudar, ou a Periquita vira 100% dark, ou o dark vira play. Ou não?

Bem, hão de se encontrar num bar qualquer meio trash meio cool da Augusta, numa quinta à noite. Periquita vê Bear. Pensa que nunca viu tanto pelo num homem, mas não se incomoda com isso. Bear vê Periquita e gosta do que vê. Conversam, aquela conversa que não interessa a ninguém: nome, idade, proveniência, trabalho, gosta de São Paulo?, faz o que por aqui? E pela graça das improbabilidades, se gostam, se atraem, e têm conversa um para o outro.

Não vamos inventar que passaram a noite toda conversando e que se despediram no final da noite com um adeus e foram tomar café no dia seguinte e acabaram se casando dois anos depois. Nããão. Saíram do bar, e Bear convidou a mina para irem na casa dele. E ela foi — vá lá, duas pessoas que se conhecem por anúncio não estão procurando amor, estão procurando luxúria — fast food da carência. Despe despe Periquita, gostosa, baixinha, peitão. Despe Bear, alto, tosco, mas homem. Se entregam num ato que ela achou que seria mais bruto e que ele achou que seria mais energético, mas bom, glorificam o excitamento de quem se entrega ao errado.

Aí ela se liga que ele não era assim tão dark — tinha até vinil de Roberto Carlos. Perdeu o tesão, pegou as suas coisas e foi embora, deixando Bear meio perdido, fumando cigarro na cama.

Pausa para terminar. Por enquanto.


Sahara Boreas estuda Cultura e Comunicação Alimentar.
> Continue Lendo

CRÔNICAS DE UM BAMBI APRISIONADO


A pergunta que me passa pela cabeça é a seguinte: "Se já acabei, posso ir embora?". E embora esta pequena pergunta passeie de um lado para o outro na minha caixa craniana, não encontro a força para fazê-la crescer no espaço branco deste escritório. A verdade é que sei a resposta, e a resposta é não. Tenho um horário. Das 9h às 18h é para ficar sentada, eu e as outras 30 pessoas com quem compartilho este espaço aberto, fingindo liberdade.

A liberdade aqui é para dentro da cabeça e do computador pra fora. Liberdade física não existe. Almoços na cantina, que é no andar de cima, a senhora do lanche que passa às 16h para satisfazer a fome de ficar sentado, o banheiro à três passos de distancia, e as janelas que deixam apenas passar a luz mas que não deixam ver o que está do lado de fora. Ainda consigo ver algumas folhas balançando ao sabor do vento.

Se tenho mais uma hora para gastar e já fiz tudo o que tinha para fazer, ou as circunstâncias me fazem ter que esperar por outro alguém mais afortunado que teve de viajar à trabalho, outra pergunta nasce no canto esquerdo superior direito "Como é que eles aguentam?". Todos de testa franzida, muito compenetrados no computador. Entendo que uns tenham um trabalho melhor do que os outros, mas no fim do dia, é muito fábrica. Tem um horário, tem metas, tem procedimentos sempre iguais, muita repetição, e é assim todos os dias até, quem sabe, três anos depois conseguir subir um degrau, ou meio vai lá. Surpresas não, que isso é desgraça! Originalidade só dentro do formato, e sair do escritório em plena luz do dia está fora de questão. Perde-se tempo.


Há pouco tempo me disseram que o meu animal espiritual era um veado bebê, e agora tudo faz sentido porque me sinto muito como o Bambi preso na sala de estar. Não entendo a satisfação de um trabalho assim. Serve só mesmo para falar que está na empresa tal, que recebe tanto, que pode trabalhar sem se responsabilizar pelo o que a empresa faz porque não há vínculo, mas há dinheiro. Sempre falei que queria um trabalho que eu adorasse e que me excitasse continuamente. Ok este está longe de ser isso - mas não entendo os outros, é isso mesmo? Era este o seu sonho? Ter essa vidinha medíocre, de fazer algo muito pouco criativo, até pouco produtivo porque aqui não se cria, aqui se vende. Então venda-se! O seu tempo, a sua doce juventude, o seu corpinho, a sua energia tudo para vender mais um chocolate. Ah delícia.

Ontem cheguei em casa morta, o que não me ajuda porque tenho um trabalho para a faculdade atrasado, mas, enfim mortinha de que? De estar sentada? Hummm... tem algo de muito errado na maneira como tudo isso funciona, quer dizer, a escola te ensina a essa cega obediência do senta, levanta, volta a sentar, se concentra, faz, teve boa nota (viva!), teve má nota (reprova).

E não me levem a mal, adoro aprender, sou muito a favor da troca de conhecimento, informação, adoro ouvir e adoro estudar. Mas é incrivel como tudo está muito bem montado, ou não? Ou só sou eu? Bambi alucinando? É que para fazer o que você quer, você tem que mentir: Ah hoje tenho médico, estou doente, tenho que ir tirar o meu R.G.  Só assim você exerce a sua liberdade, sente o sol na pele. Por isso não posso estar alucinando, não devia ser uma obrigação (e é uma obrigação silenciosa controlada pelo bônus). Devia ser vontade mesmo quando não é, não devia ser "trabalho", devia ser trabalho-smileyface-muitoamor.

Ah quer saber? Cansei.. aqui vai meu grito de Ipiranga: Vou no médico!


Sahara Boreas estuda Cultura e Comunicação Alimentar.
> Continue Lendo