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A FALA DE NINGUÉM: SOBRE A RETÓRICA DE AÉCIO


Existem inúmeros critérios para se definir o voto por um candidato: currículo, ideologia, partido, alianças, assessores, e mesmo simpatia pela figura. Sim, isto o que diz do tom de voz, do vestuário, do uso das palavras, pontos tão longe da política em si, muitas vezes fazem a via de conquista entre a pessoa do palanque e o eleitor. Não se pode negar que o jeito desengonçado de Eduardo Jorge, por exemplo, foi a abertura para uma relação mais jovial com a sua figura, e que os cachos, o sotaque, os olhos ternos e a firmeza calma de Luciana Genro tenham sido o caminho para uma escuta de suas pautas. Ainda que fora das propostas e das questões de gestão, talvez não seja mero detalhe o modo como uma figura pública se porta diante da plateia, ainda mais quando quer cativá-la.

Já vi muitos estarem de acordo com Aécio Neves, quando ele mesmo se diz “o candidato mais preparado”, ao apontar a sua oratória. Destacou-se em imagens na internet inclusive a falta de papéis em sua bancada como fator de preparo. Quando fala, Aécio não perde o raciocínio, e ao ser acuado, consegue ainda bater no oponente. Dilma, ao contrário, gagueja, titubeia, gesticula muito e consulta seu calhamaço. Ela, que não tem a mesma capacidade do antecessor Lula em desfazer a tensão de uma pergunta, quebrar protocolos com gracejos ou histórias, chega a inclinar o corpo para trás ao defender-se e, ainda rígida, rebate, às vezes sem confiança.

Aécio é impecável, Dilma varia: a questão é se qual dos dois modos é uma virtude política. A ausência de erros e a inteireza de gestos e de falas pode remete à ideia de lugar nenhum, de alguém que fala de uma ausência para outra, sem manter contato com o que diz, o que o contrário da política, que é em nome de um lugar e de uma situação. Aécio fala muito bem, mas por parecer dirigir-se a uma camada etérea, que pode ser o eleitorado invisível, que ele transcenda do olhar da câmera, ou a um plano de ideias que não precisa associar-se com o mundo, a razão pela razão.

O candidato mineiro se intitula como a “onda da razão”, o que seria um valor por si. A razão, entretanto, pode ser o sustento de todos os discursos e jogos argumentativos, em que premissas e conclusão bem relacionadas podem levar sempre à vitória, ainda a custo da verdade. Pode-se com lógica dizer que se X então Y, e Y é Z, então X é Z, sem se importar com o que seja mesmo X, Y ou Z. Marina Silva chegou a assumir o mesmo e nos últimos momentos se expressava com um olhar mais lateral, um sorriso confiante, claramente orientado por marqueteiros. Ela não teve a mesma habilidade, ou não se sentiu à vontade, por algum constrangimento existencial. Aécio não, Aécio vive neste modo, e não duvidaria de que fora de espaços públicos ele ainda se porte do mesmo modo.

A razão defendida promove sim a análise mais fina da realidade, mas se utilizada a favor da realidade: ela também pode ser um modo de se estar fora, acima dela, e não tocá-la apesar de fingir com eficiência que sim. Quem confia tanto no poder do discurso, o que não vale apenas para os candidatos, talvez já tenha descolado as palavras das coisas e sabe que pode manusear as coisas por uma via de interesse, se as palavras apontarem para outra. Ou ter a justificativa pronta antes de qualquer acontecimento, a ponto de enquadrá-lo previamente no que se deseja. Pelo olhar triunfante, o meio sorriso, a ironia programada, que se repetem entre perguntas e respostas, tenho em Aécio a sensação de que as coisas mesmas não importam, só os fins. Até quando relatou uma história de sua avó, no debate da Globo, se comunicava como quem ensaia e sabe dos efeitos que vai causar, sem ter sequer a imagem do conteúdo entre os seus olhos.

A retórica é uma técnica antiga, dos gregos ainda, apropriada aos debates na ágora. Desde lá, sabe-se que o manuseio habilidoso pode convencer multidões em causa própria e que alguns homens, ditos os sofistas, eram capazes de defender tão bem quanto atacar um mesmo conteúdo. Votações inteiras, que diziam de assuntos reais, como guerras e condenações, poderiam ser decididas por jogos de palavras, onde nem as guerras nem as condenações entravam de fato, e sim as tendências e os interesses periféricos. Quem os denunciou foi Sócrates, com o ardil de desenvolver o seu próprio método, que conseguia colocar as palavras do oponente contra ele mesmo e provar o vazio do conteúdo. Dilma não é nenhum Sócrates: não sabe retirar o feitiço do oponente, evidenciar o jogo. Ela responde a Aécio como se ele de fato lhe estivesse falando, como se ele estivesse interessado nos temas e não nos impactos. Os recursos de Aécio ficam ainda mais em evidência neste vai-e-vem, e ele parece ainda mais habilidoso em dispor de qualquer ideia ante qualquer outra. Dilma assim ora acerta ora erra. No entanto, este “descuido”, que a faz parecer acreditar que o outro está presente, é o que a torna presente. A variação e a preocupação em conseguir alguma realidade ao expressar-se, ainda que equivocada, mostra o mínimo de contato, e é o contato que eu ao menos espero da política.


Saulo Dourado é escritor e professor de filosofia
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SÓ NÃO ENTRE EM NENHUMA CORRIDA DE CAVALOS


Na ocasião de meu aniversário de um quarto de século e do lançamento do meu primeiro livro de contos, procurei o meu tio-avô no interior para pedir conselhos. Ou para me acalmar do pavor, se não forem essas duas ações uma só. Estava ele no quintal com as suas ferramentas, sujo de terra nas botas e de graxa entre os dedos. Nunca para de fazer algo, nem quando conversamos com ele. Por isso é preciso encostar-se à parede e falar ante o seu perfil grave, concentrado. Comecei então a dizer frases seguidas, preocupações e anseios que, se não forem logo respondidas, causam um embaraço em quem as enunciou. Meu tio-avô deixou que isto acontecesse, que eu visse a bobagem com que pássaros, umbuzeiros e mandacaru me encarassem. “Olha...”, começou ele, polindo alguma peça de motor. “Só não entre em nenhuma corrida de cavalos, com o resto se salva. Do contrário, é você inquieto com o porte do animal, se ele é bom, se ele é veloz, é você precisando olhar toda hora pro lado, se medir, ver o outro distante. Nesse caso, só quem perde tem alguma chance de não viver depois em danação... E só alguma chance”.

Meu tio-avô viveu sempre na minha cidade natal do interior da Bahia, entre a roça e o comércio. Viajou a título de negócios, visitas de família e saúde. Anotou tudo o que pediram empréstimo, mas não negou pedido. Foi rigoroso com desvios de conduta e não compreendeu mudanças de época, o que distanciou pessoas e o tornou fácil para rótulo de ranzinza. Não era frequente eu mesmo querer ouvi-lo, um certo temor pelos seus cortes de raiz com os fingimentos e as amabilidades sociais que também aprendi, mas naquela tarde não procuraria outro lugar: “Isso de escrever vai te por com muitas vontades. Vai ter gente pra te olhar com diferença, outra parte com esse rancor de corrida. E vão te dar espaço pra você falar do que quiser e você vai querer beneficar os que te olham com diferença e contrariar os que sentem rancor. Nesse momento você entra no jogo e vai querer estar certo. Certo!”. Neste momento, meu tio-avô lava bem as mãos: “Na verdade mesmo, no duro das coisas, a gente não está certo nunca. A gente pode falar de pássaro, mas não pia, a gente pode contar a árvore, mas não tem folha... O que se faz é montar um sentido, colocar beleza, mas certo ninguém está: todo mundo só pode olhar de dentro, e o certo é quem apontaria de fora”.

73 anos, e não leu muito mais do que a Bíblia e seus livros sem capa. Em alguns, chegou ele a riscar o título para não saberem qual. No mais, meu tio-avô tem a perícia dos trabalhos manuais, o que não consegui imitar com o tempo. Sei que parto do pressuposto de me saber do “intelecto”, e daí prescindir das mãos, porém já entendo quanto a separação foi uma bobagem. Os antigos sabiam que mexer com a matéria era um pretexto para a transformação interna. Meu tio-avô me entregou a chave de fenda e os parafusos com a porca. Não queria que eu o ajudasse, e sim que eu o entendesse. E disse por fim: “O que interessa é estar com outras pessoas, elas fazendo o que quiserem. Ninguém se realiza com coisa alguma. Não tem nada que faça bem, a gente é que faz as coisas serem boas ou não. Quem for atrás de lua pensando no foguete não vai achar a lua nem chegando lá! Aperte isso aí mais... Vamos, aperte! Olha... O mundo é só pretexto”.

Quando nós nos sentamos para o café com pão e manteiga, ele me contou histórias de coices e plantações, falou de traidores e de política. A minha tia-avó se aproximou com mais leite e me sorriu secretamente. Ele só parou quando cansou-se de falar e emendou: “É só porque você pediu. Nosso gosto é de expandir os caminhos e levar pessoas com a gente. Se você entrar em algum lugar que não caiba mais ninguém, vai morrer ali. A todo lugar que você for, e ainda mais se achar que um dia for subir, busque levar gente com você. Se não é por generosidade, é por sobrevivência. E eles que levem outras... Que na força do se fazer sentido, viver pra si mesmo carece de tanta explicação quanto viver pro outro. E sem-razão por sem-razão, Deus o sabe, a melhor é a acompanhada”. Assim terminou o pão molhado no café, limpou as mãos grandes no pano de prato por perto e se levantou para entrar.

Saulo Dourado é escritor e professor de filosofia.
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POR QUE FALAR?



Pessoas reclamam que outras não lhe atenderam certas expectativas e, ao serem questionadas se estas outras sabiam do que era esperado, logo há uma esquiva e a desculpa de que estava “subentendido”. Este é o pretexto para muito se evitar falar das intenções, dos sentimentos, dos pressupostos e das experiências: o “subentendido”, que significa, se já não ficou claro, entender abaixo da aparição ou da evidência. Em um exemplo, você guarda as próprias chaves sempre na gaveta azul. Para você, as chaves estão subentendidas à ideia da gaveta e de sua cor. Se alguém procura uma das chaves, você aponta a gaveta azul e isto é o suficiente. Contudo, o outro pode só ficar parado, olhando para o ponto indicado, porque não sabe que você liga uma coisa à outra.

Muitos alegam que falar contraria o “mistério”, fonte de encanto para relações. Falar seria racionalizar, analisar, o que é oposto à sensação. Neste caso, confunde-se falar com explicar. Posso dizer o que são as coisas para mim, sem tentar criar um sistema a partir destes significados. No romance “A insustentável leveza do ser”, de Milan Kundera, o autor vê um casal de personagens se desentender e cria para os dois um dicionário, a fim de que saibam o tom que cada um carrega para as palavras mais importantes. Mas só o leitor tem acesso ao léxico, e a distância dos significados logo corrompe o casal, que atribui à distância e à separação o mesmo “mistério” que os uniu.

Também se acredita que falar é o mesmo que já saber: só dizemos o que já pensamos e concluímos, e se não concluímos, ainda não podemos dizer. Falar assim não seria arriscar, não seria duvidar-se, mas garantir a palavra. Falar é prometer, e promessa é forte. Um amigo, um familiar, um namorado pode ficar tempos em especulação sobre o outro enquanto está com ele, sem que este desconfie do que é considerado em seu nome. Às vezes só o descobre na anunciação conclusiva, em que já é despedido, ferido ou mesmo exaltado injustamente, sem que o outro tenha podido intervir ou reinventar. Este outro ainda carregará para si a culpa de não ter entendido a tempo “os sinais”.

E quais recursos se têm quando a outra pessoa se cala? Uns deles são as próprias experiências. Podem ser suficientes em algumas situações, se ainda há uma grande intuição, mas o acerto é incompleto, deixa uma sobra para a próxima rodada, e ainda gera um esforço que logo sofre desgaste. Em tantos outros casos, o que acontece é se projetar o que se viveu para enxergar aquilo que a outra pessoa guarda. O impasse para o propósito é que “cada pessoa é um ponto singularíssimo na Natureza, onde acontecimentos se cruzaram uma única vez”, como escreve Hermann Hesse em Demian. Hoje, pessoas podem conviver tendo sido criadas em países diferentes ou em religiões diversas ou vindo de outra camada econômica. A piada e a gíria de um bairro já não funcionam no bairro seguinte. Como meia palavra pode bastar, se seu complemento pressupõe um mundo que talvez não esteja ali?

Outro recurso é a generalidade. Para compreender uma pessoa em particular, eu utilizo o que parece pensar o gênero a que ela pertence. Para saber como pensa uma mulher e como ela reagiria ao que pretendo, eu extrapolo para o que deve pensar ou reagir A Mulher em geral. Aos mesmos fins existe O Homem, O Nordestino, O Favelado, num tempo em que uma das grandes lutas é vencer rótulos e conceitos preconcebidos. O silêncio pode levantar, sob as bandeiras da “naturalidade” e da “espontaneidade”, uma série de preconceitos velados, e pelo bem do fluxo se preferir a convenção. Esquece-se que em nossa “naturalidade” e “espontaneidade” mora uma legião de modelos arcaicos vinda de geração a geração, que em nós causa uma luta constante. Superá-la é também um passo que marca um indivíduo, e uma oportunidade de alguém se tornar singular em meio às generalidades é se mostrando para além delas.

Temos a ideia antiga de que o momento mais singular e pessoal, na verdade, é quando meditamos, isto é, ao nos retirarmos com os nossos pensamentos. Penso, logo existo. Chega a ser expressivo o número de pessoas que pedem um “tempo para pensar” ou que estão em uma fase de “autodescoberta”, e ninguém acha curioso o porquê de isto ser atribuído à solidão com tanta obviedade. Não poderia um tema ser encarado com uma presença, ganhando-se inclusive no empenho de fazer sentido para um novo olhar e percebendo-se nas lacunas do próprio discurso? Não haveria com alguém a possibilidade real da pergunta? Uma pessoa leva muito a sério os seus meses de meditação, mas gargalha se um garoto joga damas sozinho na calçada.

As palavras podem ser imprecisas, traduções infiéis da realidade, códigos feitos por convenção, o que seria um perigo nosso colocar tanta confiança no seu uso. Eis uma ideia que pode servir de defesa para o silêncio, mas se a tomamos em outro ângulo, ela mesma pode servir ao propósito contrário. Falo porque sou e o mundo é impreciso, infiel e inventado, pois se houvesse a precisão, a fidelidade e a realidade por ela mesma eu não precisaria provocar significados. Em outro exemplo, tome uma pessoa que se sente mal com o cheiro de uma comida, pois a lembra da morte da avó. O motivo é que, no instante em que lhe deram a notícia, cozinhava-se o alimento em sua casa! Qual é a melhor possibilidade de não lhe prepararem o prato no aniversário?


Saulo Dourado é escritor e professor de filosofia.
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