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PELO DIREITO DE ESCOLHA, SEM O PESO DA CULPA

No sexto episódio da quarta temporada do seriado Girls, a nova namorada de Adam, Mimi Rose, o informa que fez um aborto. A cena dá um susto até em feministas que, como eu, defendem a descriminalização do aborto desde os 12 anos de idade. O meu choque obviamente não veio do ato em si, mas do modo como Mimi Rose conta isso ao seu namorado. Ela simplesmente informa que não pode ir correr com ele porque fez um aborto no dia anterior.

Ninguém espera ver essa frase em uma série. No momento em que ela surge pensamos em muitas coisas: “O quê? Como assim?” , “Quem faz um aborto e fica tão calma?” e, claro, “Como ela conta pro namorado desse jeito?”. Adam reage exatamente de acordo com essas três dúvidas, mas sua incompreensão rapidamente se transforma em raiva. Não é que ele necessariamente queira ser pai, sua indignação tem mais relação com o quanto ele é dispensável para sua namorada, porque em nenhum momento ela pede sua opinião ou ajuda. No final do episódio, quando os dois se reconciliam, Mimi Rose explica que realmente não precisa dele, mas que isso não significa que não queira estar com ele — um momento que parece ser a descoberta de um novo mundo nessa série em que quase todos os relacionamentos possuem dinâmicas abusivas.

Mimi-Rose (Gillian Jacobs) em Girls. 


Com essa cena, Girls, uma série que comete tantos equívocos, fez algo brilhante e muito útil. É desconcertante ver um mulher falando sobre seu aborto de modo decidido, calmo e sem pedir permissão ao seu namorado ou a qualquer pessoa. Não porque essa postura seja algo incomum ou inaceitável, mas não é isso que estamos acostumados a ver na TV. O fato da maioria das obras não passarem no teste de bechdel explica perfeitamente ao que nós, mulheres, supostamente ainda servimos: O eixo de nossa existência ainda são os homens. A mídia — e não só a má publicidade, mas até as obras consideradas de alta qualidade por alguns, como o filme indicado ao Oscar, Boyhood — colocam a mulher em uma posição que não possui vontade própria. 

Quando o assunto é gravidez, as coisas ficam ainda mais terríveis. Mulheres grávidas são seres imprevisíveis, dominadas por desejos bizarros, ainda mais emotivas e instáveis do que a “mulher normal”. Não existe uma cena de parto em que uma mulher não sofra terrivelmente (e por isso agradeço ao reality show Keeping up with the Kardashian pelo lindo momento em que Kourtney Kardashian puxa sozinha seu primeiro filho de sua barriga sem dar um único grito de dor). Gravidez indesejada é um tema limitado às personagens adolescentes ou desvirtuadas. É improvável que uma mulher adulta e com estabilidade financeira escolha não ser mãe. Segundo Hollywoood, o destino de uma mulher feliz é uma agenda cheia e um lar a sua espera. É cada vez mais recorrente filmes sobre mulheres bem sucedidas profissionalmente que precisam se desdobrar para dar conta de tudo, ou seja, para serem também uma boa esposa e mãe. O que essas tramas dizem de modo não tão sutil é que até podemos ocupar posições de poder, mas não seremos um exemplo de sucesso (ou o mais cruel, de felicidade) enquanto não formos escolhidas para ser a progenitora de um lar.

Mimi-Rose (Gillian Jacobs) e seu namorado Adam (Adam Driver)


Seguindo essa lógica, é algo surreal que uma mulher possa escolher não ser mãe e lidar com isso sem se desesperar. A calma de Mimi Rose é chocante, porque ninguém nunca nos disse que um aborto pode não ser um evento trágico. O aborto é um tema tabu de tal modo que até quem apoia sua legalização pode cair em moralismos em sua defesa. Frases como “Sou a favor da descriminalização do aborto com as suas devidas regras” ou “Sou contra a criminalização, mas é um tema delicado que precisa ser discutido, não pode ser banalizado” foram muito comuns nas últimas semanas quando um desafio cretino foi lançado no Facebook. Obviamente, não faltou a opinião daqueles que nunca entenderam na pele o risco de uma gravidez indesejada. Os homens continuam muito preocupados com o direito à paternidade, enquanto nós precisamos lutar para nos desvencilhar de um suposto dever. Mas, em geral, homens e mulheres querem dar uma opinião pessoal sobre algo que não os diz respeito. A mulher grávida parece ser o corpo mais desapropriado de voz que existe. De acordo com o tribunal das redes sociais, ela não pode fazer uma decisão sozinha e, se fizer, deve carregar uma responsabilidade, ou seria a culpa? A verdade é que a sociedade pode estar disposta a conceder direitos às mulheres, mas nunca a liberdade de escolha. A defesa ressabida do aborto demonstra um medo da banalização do tema, o que é sempre justificado com (insira um tom de nobreza humanista) a preocupação com a vida, mas sabemos bem que se trata de impor limites. Afinal, como será esse mundo em que as mulheres podem decidir sobre seus corpos sem nem se sentirem um pouco mal por isso?

Mimi-rose fez uma escolha sozinha e lidou com ela sem culpa. Ela sabe, nas suas próprias palavras, que um punhado de células não pode decidir todo seu destino. Girls contribui para que mais mulheres saibam disso.

PS: Não tenho propriedade para falar pelas mulheres que fizeram abortos. Com esse texto não quero desrespeitar o modo como algumas mulheres viveram isso, a questão não é apontar a maneira certa de se comportar, mas nos dar outras possibilidades e, principalmente, reafirmar que a escolha é nossa do início ao fim. Além disso, é muito importante ressaltar que no Brasil a descriminalização do aborto vai muito além da garantia de um direito. Mulheres abortam todos os dias. Aquelas que são de classe média ou alta pagam caro por isso, enquanto as mulheres pobres correm o risco de pagar com suas próprias vidas. É preciso legalizar o aborto para garantir que mais nenhuma mulher morra ou seja presa por fazer essa escolha.


Taís Bravo está no mestrado em filosofia na UFF. 
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O FEMINISMO É PARA TODOS?



Tavi Gevinson uma vez disse “O feminismo não é um livro de regras, é uma discussão, uma conversa, um processo”. É porque concordo com essa ideia que faço o esforço de escrever esse texto. Nada do que digo aqui deve ser compreendido como um julgamento, mas como uma avaliação a partir da minha experiência pessoal. Para que isso não soe como um relativismo, talvez seja melhor começar explicando minha compreensão sobre o feminismo. Acredito que o feminismo é – e deve ser – um movimento plural, cheio de conflitos, porque está salvo de uma ideologia e de uma moral. Mas, enquanto feminista, tenho um código ético – que é bem diferente de regras – que passa sobretudo por uma máxima: dar voz às mulheres. Então penso que o feminismo é uma luta plural e sem códigos resolvidos que quer dar voz às mulheres.

Para mim o feminismo é extremamente importante, porque como mulher sou estimulada a não participar de uma série de experiências que a sociedade julga inapropriada para o meu sexo. Ser feminista é algo antigo no que sou por esse simples e egocêntrico motivo. Muitas mulheres precisam do feminismo por razões muito mais urgentes e hoje tento pensar meu engajamento mais a partir delas do que de mim. No entanto, o feminismo é e sempre será uma luta pessoal em que está em jogo o meu direito de escolher como quero viver. Este texto nasce a partir de um incômodo com as pessoas que confundem o feminismo com um livro de regras ou que não respeitam esse movimento enquanto um processo individual pelo qual cada mulher pode conquistar seu próprio empoderamento. 

O feminismo ganhou força nos últimos anos. Essa afirmação pode ser contestável, porque estou falando a partir do que vejo e eu sou uma mulher privilegiada de classe média que mora no Rio de Janeiro e tem acesso (até demais) à internet. Sei que a violência de gênero está firme em muitos lugares do mundo. Mas, com o pouco que a internet consegue, já vejo algumas mudanças. Pelo menos entre eu e minhas amigas há uma indignação mais evidente, não conseguimos mais aturar caladas os assédios cotidianos e essa revolta produz uma união, nos apoiamos. Mas mulheres unidas em uma causa que diz respeito só a elas incomoda, incomoda muito. Junto com essa força vieram inúmeros haters fundamentalistas ou simplesmente babacas que fazem questão de nos ofender em caixas de comentário da internet e na vida real (se é que se pode se fazer essa distinção). É terrível, mas faz parte e é preciso não se abater. Vivemos em um tempo com muitas possibilidades e algumas pessoas, diante do perigo da liberdade, só sabem chamar pelos pais, por uma ordem que diga como o mundo deve ser. 

Porém, não só de violência explícita é feita a repressão. Atualmente vejo um número maior de homens que se posicionam a favor do feminismo e isso é, obviamente, ótimo. No entanto, frequentemente esse apoio vem junto com ressalvas. Aí já não sei se alguns homens estão apenas confusos, mas tentando honestamente entender e participar do feminismo, ou se esse posicionamento é resultado de motivos desonestos. Um exemplo é a onda de escritores que resolveram se ocupar do tema “A Mulher”. Esses textos escritos por homens que amam as mulheres e acham que elas vão dominar o mundo (oi?) são sempre muito elogiosos e passam por temas que vão desde cortes de cabelo – que aparentemente revelam a essência de um ser humano (se ele for do sexo feminino, é claro) – até o gosto por dar. Seria muito engraçado, se esse tipo de literatura ruim não gerasse tanta admiração (e não estivesse ocupando um lugar que poderia ser para alguém que tem algo relevante para dizer). Tenho certeza que esses escritores acham que são feministas. Eu me pergunto quantos textos escritos por mulheres eles leêm. Me pergunto até que ponto eles vão apoiar o feminismo ou se só gostam de mulheres livres quando é conveniente. 

É claro que existem homens que apoiam o feminismo para além desse feminismo feito para pegar mulher. Mas em muitos casos ainda falta uma consciência sobre o modo de se colocar e de expressar suas opiniões. Basicamente, ainda existe muito apego às opiniões. O que eu gostaria de pedir a um homem que se preocupa com a liberdade das mulheres e que quer apoiar o movimento feminista é: esqueça um pouco de você e de suas opiniões por um tempo. Aliás, esse é o conselho que eu dou a qualquer ser humano que queira viver alguma aprendizagem na vida, porque, enquanto nos agarramos as nossas convicções, não há espaço para o novo. No caso de um engajamento em um movimento social é ainda mais necessário, porque você nunca pode compreender a vivência de um grupo oprimido, se não abandonar suas impressões que pertencem a um grupo opressor (Eu , por exemplo, não posso falar pelas mulheres negras, não tenho como compreender de verdade o tipo de opressão que elas vivem, são elas que devem comunicar suas experiências). Observo muitos homens com boas intenções dando opiniões sobre o feminismo e profundamente ofendidos quando uma mulher o refuta. Por que quando um homem fala em defesa da mulher, ele não aceita que uma delas discorde ou o questione seu posicionamento? E por que as mulheres negam essa defesa? E principalmente, se trata de uma opinião ou de um mero pitaco dado sem uma reflexão mais atenta e de fato preocupada com o movimento? Esse tipo de comentário – especialmente em redes sociais – parte de uma tentativa de diálogo ou de uma simples vontade de expor uma opinião engajada e esclarecida? 

Acho que essas são algumas questões que a devemos nos colocar quando vamos opinar sobre uma minoria que sofre algum tipo de repressão. É o mínimo que se deve pensar antes de falar ou de escrever. Se queremos dialogar para tentarmos juntos vencer as desiguldades e injustiças, devemos questionar o nosso privilégio e atentar para que nosso discurso não ratifique de alguma forma a opressão. Escrevo aqui em terceira pessoa para deixar claro que é um processo e que estou nesse processo. Para mim, o feminismo não é um girl power que serve apenas para eu ser livre em minha realidade privilegiada, minha luta não acaba em mim, em função disso, preciso ter a sensibilidade para perceber quando é a hora de falar e quando é a de ouvir. Isso não é apenas um modo de ser gentil com o outro e permitir que ele fale por conta própria de suas experiências. Partir do pressuposto de que alguém precisa ser salvo já é reduzir sua autonomia e cair na mesma lógica que provoca todo tipo de violência. 

Portanto, o que eu gostaria de pedir a um homem que queira apoiar ao feminismo é que antes faça parte: leia textos e livros escritos por mulheres, converse com mulheres, observe como somos olhadas e tratadas nas ruas. E se não poder opinar é incômodo, pense que está indo no caminho certo para compreender qual foi a realidade das mulheres por séculos (milênios?). Um bom livro para entender isso é “Um teto todo seu” em que Virginia Woolf fala sobre as necessidades materiais para que uma mulher possa se tornar uma escritora. Talvez esse tipo de leitura ilumine a questão e demonstre que são anos e anos de silêncio forçado das mais diversas formas, através de constrangimentos morais impostos pelas normas da sociedade ou de impossibilidades financeiras. Jane Austen escreveu seus livros na sala comum de sua casa e precisava esconder seus escritos toda vez que alguém passava por perto. Quando um homem parou para me encarar na rua sussurrando coisas incompreensíveis e eu perguntei “O que foi?” causei uma irritação próxima ao ridículo e recebi como resposta um “Não posso olhar, não?” junto com alguns xingamentos. Em outro caso de reação parecida ouvi “Pra mim mulher é pior que animal, é só um buraco”. Há anos homens falam o tempo inteiro as coisas mais impensadas e violentas. Quantas mulheres podem contar suas experiências de vida sem sofrerem algum tipo de recriminação? Muitas vezes nem nos consultórios médicos podemos ser honestas. Por que alguém deve falar pelas mulheres? O que se encobre nessa necessidade tão urgente de opinar? 

O feminismo é para todos, já que a violência do sexismo afeta ambos os gêneros. Mas ele é um movimento que parte das mulheres e é sobre as mulheres. Isso não se trata de superioridade feminina ou ressentimento pelos homens, é apenas um modo de tentar reverter a desigualdade histórica que condenou milhares de mulheres ao silêncio. O feminismo é um movimento para dar voz às mulheres para que elas possam viver suas próprias experiências, dores, erros, descobertas e para que elas mesmas se salvem da violência a que são submetidas.


Taís Bravo está no mestrado em filosofia na UFF. 
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AMORES (IMAGINÁRIOS) DURAM 90 MINUTOS


Cenários distintos que abrigam gestos e anseios de uma mesma temporalidade, "Amores Imaginários" e "Histórias de amor duram apenas 90 minutos" são dois olhares singulares sobre um comportamento convergente: a consagração do amor como sentido existencial.

Os dois filmes são produtos de um tempo no qual as barreiras parecem extintas e as repressões morais caducas, apontando a promessa de uma liberdade inédita. Contudo, em um mar de possibilidades, a ideia de não ter raiz a qual se agarrar assusta, a sensação de boiar é tamanha que só resta um enjôo, lá do fundo urge o nada. Defronte este temor, reagem dois comportamentos: a apatia e o desespero para se criar qualquer ideia que resista ao fluir.

Espelho nítido (talvez demais) deste anseio, "Amores Imaginários" movimenta-se em um tom cômico ambíguo – no qual a ironia insinua tanto humor quanto desprezo –, sustentando seu carisma pela empatia que produz. O diretor canadense Xavier Dolan retrata um grupo marcante de seu tempo; jovens de gestos e gostos catalogados em um tipo que se espalha pelas grandes metrópoles do globo – vá a uma universidade de Comunicação ou Cinema e contemple alguns exemplos. Parte de sua graça e força reside na identificação que isto produz, mas, se por um lado o aconchego empático e o humor têm a ação conservadora de naturalizar estes comportamentos – tornando-os não só aceitáveis como também impassíveis de transformações –, por outro há o azedo da ironia que, mesmo desprovido de fôlego subversivo, delineia uma crítica.


Sem início e fim, a trama circula por amores obsessivos, um em especial: Francis e Marie, dois amigos que criam uma batalha para conquistar o amor de Nicolas, um rapaz de beleza clássica e estonteante (Nicolas é o Tadzio dos anos 2000). O termo “conquistar” não é o mais apropriado. Esta paixão não guarda uma vontade honesta de se realizar, é essencialmente frívola e inatingível. O que se deseja é um conceito de amor idealizado e puro, afastado da materialidade de seu valor brutal. A beleza límpida de Nicolas é, portanto, concha que resguarda este conceito. Amar, neste caso, não é uma experiência na qual dois (ou mais) seres se encontram e se entregam no risco da vida compartilhada, mas uma adoração impune. O amor torna-se um campo desgarrado da realidade, onde reina a felicidade eterna e perfeita, longe do múltiplo e deteriorável do corpo. Medíocre e egocêntrico, o amor como gesto para um é pleno em desperdício e insatisfação. E o sexo se encaixa como a realização de uma tarefa, uma necessidade física sem qualquer encanto ou troca – também com um enfoque exclusivamente individual, faz-se sexo pelo prazer (impotente) próprio.

Talvez pelo ar lascivo que inspira o Rio de Janeiro, em "Histórias de amor duram apenas 90 minutos" a vontade de amar faz um caminho inverso ao de "Amores Imaginários" e se confunde com o prazer sexual. O amor é desejo – e desejar vai direto aos nervos, ao corpo, tão distinto da distância do adorar. No entanto, este deleite corpóreo é também contagiado de idealismo, a matéria é celebrada pelo gozo, o instante extremo que produz, e é este que se pretende sustentar, renegando o que há de efêmero e finito na carne.

O anti-herói de "Histórias de amor..." é interpretado pelo já conhecido ator Caio Blat, que faz Zeca, um escritor sem obra e inspiração que passa os dias a vagar. Carente de rotina e responsabilidades ele percebe-se solto. Nenhuma ação define ou dá sentido a sua vida. Assim cai sobre si o extremo da angústia, mas esta é sentimento de instante – tal como o gozo –, se esvai e, então, chega à apatia. De tanto tédio – estado árido que não tem o vigor e o entretenimento sadomasoquista da angústia – Zeca inventa a paixão e lança-se num malabarismo de corpos que não dá chance ao marasmo. Ao criar um triângulo amoroso ele não ganha apenas o prazer sexual em dobro, mas principalmente a adrenalina aflitiva da culpa e do medo.


A surpresa vem quando até aquilo que aparenta ser a melhor maneira de desfrutar sua existência – amar duas mulheres ao mesmo tempo – o aflige. Seguindo a regra da insatisfação crônica e das neuroses, Zeca põe tudo a perder. Quando suas histórias de amor acabam, resta somente o gosto do nada, do não-vivido que a fantasia proporciona. É a hora que a decisão se revela (embora estivesse sempre presente): Matar-se em nome da impossibilidade de uma vivência romântica de pleno gozo ou colar na rotina, no pobre do homem, na matéria em seu nível mais mesquinho em ser um eu?

O final de "Histórias de amor duram apenas 90 minutos" pode se agarrar a seu início, mas, ao contrário de "Amores Imaginários", como um movimento de superação, uma onda que rebenta dos redemoinhos viciosos. O diretor Paulo Halm conduz Zeca à salvação, aquela em que não há nada de sublime, mas acolhe o que é ameno e mundano, onde o ofício supera o mito do dom e não há vontade de vida, pois se experiencia esta.

Ambos os filmes, como produções artísticas, são narrativas que acolhem, exacerbam e revelam elementos de nosso tempo. O que há de mais comum nessas interpretações é também o mais sintomático: este amor contido nos títulos. Quando se busca o amor para que este dê eixo a própria existência, o resultado é uma posição autocentrada deste sentimento. Assim, a ideia de amar é mais desejada do que o outro, do que a pessoa que se ama. Quando só se procura o mesmo não ocorre o encontro. Com preguiça e temor se esquiva de qualquer vivência, em nome de uma absoluta e estéril fruição egocêntrica. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman explica melhor: “A promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a experiência amorosa à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço." O amor, espaço de dois, se mostra agora devaneio narcisista.


Taís Bravo está no mestrado em filosofia na UFF. 
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DO AMOR, ALGUNS PENSAMENTOS


Nota inicial: Tenho dificuldade para escrever textos em tom de denúncia; primeiro, porque apontar os erros alheios me parece uma tendência atual que mais inviabiliza debates do que promove transformações, mas, principalmente, porque considero essa postura uma fuga de si mesmo. Desejo que essa crítica se faça de modo que eu não me esqueça dos sapatos que também calço. Em outras palavras, as de Caetano — que já me denunciam — Neguinho, que eu falo, é nóis.

O Rio de Janeiro vive um tempo terrível, governado por homens interessados em sua potência de cidade-mercadoria. O lugar, enquanto ocupado por pessoas reais, isso é, de uma dimensão que vai além de um cartão postal, se desintegra. Os discursos de melhorias são convincentes para muitos, a mídia transmite um incrível projeto de revitalização, há obras por todos os cantos e um brilho no olhar daquele que brinca de Lego com o território alheio, Dudu. A cidade parece guiada por um ditadura consentida. Muitos reclamam da desorganização, do caos, do trânsito — que é o terceiro pior do mundo —, da violência e da corrupção. Entre as queixas, às vezes escorrem soluções.

Uma vez um garoto de rua tentou entrar sem pagar no ônibus que eu estava. O motorista violentamente o mandou sair, passageiros concordavam, então, o garoto anunciou que tacaria pedras, era um ônibus com ar-condicionado e janelas de vidros grossos que não se quebrariam com a pedra, todos sabiam disso, mas o garoto expulso só tinha esse gesto para se auto-afirmar e sua ousadia era suficiente para amedrontar. Ele tacou as pedras, todos faziam caras de horror, nada aconteceu, nem rachaduras, e prosseguimos a viagem, uma senhora chocada dizia "Mas como pode? Não tem ninguém, nem uma fiscalização, eles fazem o que querem". Ela sentia falta da repressão policial. Obviamente eu não usaria essas palavras, só queria uma proteção, só queria que as coisas permanecessem nos seus lugares. É atendendo a esses pedidos que a polícia começará a fiscalizar ônibus que saem da Zona Norte carioca em direção às praias da Zona Sul. Quem paga imposto alto e quem veio diretamente da Europa conhecer nossas maravilhas não pode sofrer a violência de arrastões. Nossos governantes sabem o que fazem e nossa população parece saber o que quer.

Uma história de amor não deveria ter nada a ver com isso, mas toda vez que assisto a série do canal Multishow chamada Do Amor me pergunto: Quanto vale essa vista?

A série conta a história de Lulu, uma fotógrafa que busca o amor no Rio de Janeiro. Na primeira temporada ela se apaixonou por Pio, um jovem professor de filosofia que está terminando sua tese de doutorado, mas já mora em um apartamento incrível com vista para a Lagoa. Eu, enquanto estudante de filosofia, me impressionava. Como a maioria dos meus amigos, não tenho grana para bancar nem o aluguel de uma kitnet. Até aí era apenas uma questão curiosa, mas normal, a ficção está cheia de personagens que vivem de modo misterioso e não há nada muito grotesco na licença poética que ignora a bolha imobiliária do Rio de Janeiro.


Porém, a segunda temporada mostrou o tamanho da relevância dos territórios da série. A beleza da Zona Sul não é apenas um fundo cenográfico, é o único lugar possível para originar e justificar as vivências daqueles personagens. Porque na segunda temporada, talvez cansados de circular apenas do Leblon até Ipanema, os personages sobem o morro para realizar uma ocupação artística. Mas a ocupação não ocorre em um morro qualquer, é o Vidigal. É uma favela pacificada e com uma das mais belas vistas da cidade. A série faz uso disso, os primeiros episódios em que aparece o Ocupa Vidigal, a câmera mostra mais o mar do que os barracos. Além da ficção, o mercado também faz uso disso, bares, albergues e casas noturnas começam a se tornarem populares nos morros da Zona Sul carioca; agora que há a pacificação, é possível dançar Get Lucky e ainda desfrutar uma vista privilegiada sem correr riscos. O privilégio torna a vida mais cara, centenas de moradores precisam procurar outro lugar para viver, alguns pagam o preço da paz com a própria vida e outros ganham muitos likes no Instagram. Do Amor me faz perguntar quanto vale, porque a beleza nunca é gratuita; a beleza da cidade e a beleza de Lulu tem um preço, mas ninguém parece precisar pensar sobre isso.


Há uma cena que resume o motivo deste texto. Uma personagem ao tentar convencer Lulu a participar da ocupação diz "De início eu achei meio árido, seco, mas também faz parte da nossa cidade, né? É necessário". A favela enquanto compreendida como uma parte da cidade que precisa ser visitada, mais ainda, ajudada, é o local propício de uma missão civilizatória, a mesma que começou no Brasil em 1500 e que ainda persiste. Essa fala confessa essa crença, os produtores da série apostam em um público e ignoram que a criatividade carioca permite que a TV à cabo suba até a favela.

Voltando ao ônibus, eu também não fiz nada, não me ofereci para pagar a passagem, não argumentei com o motorista, não defendi o garoto ou me defendi. A única coisa que eu desejava era que o conflito acabasse logo para eu seguir com minhas obrigações sem precisar lidar com o que eu não via solução.
Mais cedo ou mais tarde, por compaixão ou justiça, a pedra nos atinge.


Taís Bravo está no mestrado em filosofia na UFF. 
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* Imagem no topo: Accident Series by Zeren Badar
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FRANCES HA - A VIDA NA ERA DA PROPRIEDADE PRIVADA


Todo texto guarda uma motivação egoísta. Há os poemas prontos para seduzir, os panfletos políticos, autoconvecimento, reafirmações, o gozo com a linguagem... Quase tudo que escrevo vem dessa necessidade de firmar em matéria o que eu aprendo distraída – caneta encostando no papel cada sílaba até formar o significado. Esse texto vem de um lugar bem óbvio, sua mensagem está há anos no telefone sem fio da civilização. Poderia ser um guia para sair nas revistas da banca que ficam entre as receitas e técnicas de emagrecimento.

Que o amor deve ser livre, que a posse nos torna mesquinhos e que a vida está do lado de fora, abundante de feridas, pedras e rosas-paralelepípedos, são obviedades repetidas há mais de meio século.

No entanto, em 2013, estabelecimentos na Lapa me cobram até dois reais para usar o vazo sanitário.

A propriedade privada não é cruel apenas em limites geográficos, mas também determina o que é emocional. Edifícios, fones, aplicativos e relacionamentos sérios fazem parte de um mesmo projeto de mundo (e cada um guarda sua própria maravilha).

Dois filmes carregam essas questões, os dois são fábulas contemporâneas: Medianeras e Frances Ha. Enquanto o primeiro tem um tom de denúncia-tentativa e usa o problema dos limites territoriais para aludir à reclusão crescente em um mundo individualista, o segundo percorre, sem narrativa ou discurso crítico, uma história que ocorre todos os dias em diferentes graus.

A história de Frances Ha é a história da perda das propriedades privadas. Frances tem uma vida mais ou menos legal, mais ou menos frustrante, mas ela tem uma vida. Até que as coisas começam a despencar: primeiro ela perde o namorado (mas isso não tem muita importância na verdade)¹, depois ela perde o apartamento, depois ela perde a melhor amiga – o fim do mundo –, então, ela encontra um novo apartamento mas perde o emprego e com isso perde de novo o apartamento. Tudo o que ocorre na trama é em função dessas posses que estruturam a vida de Frances: minha melhor amiga, meu apartamento, meu emprego.

Obviamente não são perdas nem um pouco fúteis, mas neste caldo nada é de uma gravidade alarmante. Frances é uma loirinha de 27 anos, instruída, com pais presentes (que moram em casa própria no interior dos EUA, longe do sonho juvenil que é New York), e inúmeras possibilidades de empregos que lhe ajudariam a pagar a conta, embora sejam extremamente desinteressantes. Então por que Frances Ha existe? Por que entramos em uma sala de cinema, com nossos lugares assegurados no momento da compra, para nos comover com a história desse filme?

Há uma cena decisiva que pode justificar ou não o filme. É essa cena que define quem vai amar Frances Ha e quem vai esquecer. Frances está no ápice das perdas estruturais quando vai jantar no apartamento de um casal que vive a fábula completa: sem amam, têm filhos, empregos que lhe trazem sucesso, e além do apartamento em New York, também são proprietários de outro em Paris. Frances não tem nada, nem uma ambição para se afirmar. Um tanto fora de si – pelo contraste, pelo álcool –, ela diz, em um tom que vai do adorável ao maníaco, o que deseja. O que Frances quer para sua vida é um momento. O momento em que ela estará numa festa conversando com algumas pessoas e o seu amor também estará nessa festa conversando com outras pessoas, então eles trocarão um olhar, um olhar que será um elo, uma confissão, um refúgio. Frances não quer só encontrar essa pessoa, mas o olhar dela que vai se infiltrar num ambiente público. Não é só o amor, mas o abrigo que este pode ser.

Frances Ha não é apenas a história da perda das propriedades privadas, mas da era em que a vida só se sustenta nesse âmbito. É preciso amar, é preciso ser, é preciso ter. As pessoas, o trabalho, a casa, a narrativa sempre em primeira pessoa. Quando a vida é re-significada a partir do privado, nos tornamos mais propensos à neurose, às tempestades em copo d'água e desejos anêmicos. A classe média sofre. Não adianta debochar de sua dor, é preciso ir até o sintoma que está na sua comoção (no cinema, nas formaturas, nos matrimônios, academias, lojas de departamento) e encarar que as angústias passíveis ao ridículo são o berço dos horrores reais.

O capitalismo, como esses filmes, também é feito de fábula; toda mercadoria ocupa uma função exata em cada narrativa. O amor tem lugar para você?


Taís Bravo está no mestrado em filosofia na UFF. 
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[1] É interessante que há uma nova geração de mulheres produzindo séries e filmes nos quais o amor romântico não é a questão central das protagonistas. Embora a ausência de uma preocupação quanto a ter ou não um namorado seja um avanço em termos de gênero (é ótimo ver uma personagem que nem faz uso da palavra relacionamento e muito menos casamento), isto não significa que Frances não tenha uma postura que romantiza a vida. Além disso, é óbvio que a segurança de ser amada recai sobre sua melhor amiga de modo que é só uma transação de posses e não uma transformação definitiva (e feminismo é mais interessante quando busca uma mudança da estrutura patriarcal).


_*Fotos do filme Frances Ha.
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