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EXISTÊNCIAS INOMINÁVEIS


A psiquiatria possui uma serie de diagnósticos distintos e atribui a loucura de fato aos esquizofrênicos, podendo outras estruturas perpassarem os surtos psicóticos sem no entanto serem categorizados como esquizofrênicos, ou loucos.

Eu que não acredito em diagnósticos, nem em estruturas, fui diagnosticada dos meus dezenove aos meus 24 anos como limítrofe, ou portadora do Transtorno de Personalidade Borderline, um quadro crônico e estrutural que limitaria meu devir por toda a minha existência.

Durante esses cincos anos em que me tratei em uma clinica psiquiátrica e obtive tratamento terapêutico e farmacológico, ouvi repetidas vezes o nome do meu diagnóstico e todos os sintomas comportamentais que o definiam e por consequência me definiam. Ou me definhavam?

Saber-me doente e entender a causa de todas as ações da minha vida era um paradoxo despotencializador, a doença me justificava, o que é tranquilizante, ao mesmo tempo em que permitia que o Manual de Diágnosticos e Transtornos Mentais, o DSM, condicionasse as possibilidades da minha história.

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Os nomes dados às patologias, principalmente àquelas 
que estão atribuídas a personalidade e são, de acordo 
com a psiquiatria, formas adoecidas de existir, não 
contribuem para que o sujeito possa construir uma 
vida mais livre e distante das dores. 
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Eu não era borderline antes de ganhar esse nome, mas após assim ser chamada me tornei esse nome, entrei no modo da narrativa clássica e permiti que minha subjetividade fosse institucionalizada.

Seria o diagnostico um título à prisão? Um nome determinante na narrativa de si? Me atrevo a dizer que definições podem assumir o papel de cárcere. Os personagens pós-dramáticos, como os de Sarah Kane, com suas personalidades maleáveis e não constituídas não seriam parte dos mesmos corpos que a psiquiatria patologiza? Esse corpo que não separa bem a linha dos acontecimentos internos e externos, por não ter tão definida as suas fronteiras, não seria uma potência de criação? As doenças psiquiátricas, principalmente o Transtorno de Personalidade Borderline não seriam formas de existir próximas aos personagens do pós-drama? Não seria o DSM parecido com narrativa clássica?

De acordo com o DSM IV:

Critérios Diagnósticos para F60.31 - 301.83 Transtorno da Personalidade Borderline: Um padrão invasivo de instabilidade dos relacionamentos interpessoais, auto-imagem e afetos e acentuada impulsividade, que começa no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos, como indicado por cinco (ou mais) dos seguintes critérios: 

1) Esforços frenéticos para evitar um abandono real ou imaginado. Nota: Não incluir comportamento suicida ou automutilante, coberto no Critério 5[617].
2) Um padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos, caracterizado pela alternância entre extremos de idealização e desvalorização.
3) Perturbação da identidade, instabilidade acentuada e resistente da auto-imagem ou do sentimento de self.
4) Impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente prejudiciais à própria pessoa (por ex., gastos financeiros, sexo, abuso de substâncias, direção imprudente, comer compulsivamente). Nota: Não incluir comportamento suicida ou automutilante.
5) Recorrência de comportamento, gestos ou ameaças suicidas ou de comportamento automutilante.
6) Instabilidade afetiva devido a uma acentuada reatividade do humor (por ex., episódios de intensa disforia, irritabilidade ou ansiedade geralmente durando algumas horas e apenas raramente mais de alguns dias).
7) Sentimentos crônicos de vazio.
8) Raiva inadequada e intensa ou dificuldade em controlar a raiva (por ex., demonstrações freqüentes de irritação, raiva constante, lutas corporais recorrentes).
9) Ideação paranóide transitória e relacionada ao estresse ou severos sintomas dissociativos.

Nesse quadro de critérios utilizados para o diagnóstico do Transtorno de Personalidade Borderline encontramos um arsenal de características que se retro alimentam e são possíveis ferramentas-justificativas para qualquer comportamento do ser humano ai enquadrado.


Ainda hoje a trajetória do herói de Joseph Campbell é muito utilizada como modelo de narrativa, com algumas adequações, obviamente. Na trajetória do herói temos um protagonista vivendo em seu mundo comum, quando esse recebe o chamado para a aventura e tem que passar por uma série de etapas até conquistar o elixir. Essa personagem precisa ter uma personalidade muito bem definida e um pathos que será trabalhado ao longo de sua jornada em direção ao elixir.

Numa travessura comparativa, atrevo-me a dizer que pensamos os outros e a vida tal qual no exemplo acima, acreditamos na unidade do caráter das pessoas e que esses são constituídos coerentemente por uma série de qualidades e defeitos atribuídos a sua história, ou a questões genéticas e biológicas. Em inglês o nome utilizado para personagem é character, que não coincidentemente também significa caráter.

A maioria dos livros sobre roteiro e drama utilizados como fontes de estudo no mundo todo são de autores estados unidenses e a maioria deles possui uma forte conexão com a configuração do monomito estruturada por Campbell. O DSM, Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais, que agora chega a sua quinta edição, também é um manual escrito por estados unidenses, e guarda algumas semelhanças muito curiosas com os manuais de roteiro.


Os personagens dos filmes que seguem essa linha resguardam uma unidade, uma coesão de ser, e aí reside grande parte do sucesso desses filmes que causam imediata empatia por se parecerem com o nosso ideário humano. Só é difícil responder quem veio primeiro, o ideário ou a narrativa.

A psiquiatria parece ansiar por algo semelhante com suas patologias. Tenta costurar personalidades em nomenclaturas que dão conta de encarcerar em nomes, existências inomináveis, adjetivando de transtornos comportamentos humanos que fogem a rédea fascista da união e questionam com seus corpos as possibilidades do existir.

A necessidade de normalização dos sujeitos preconiza a ideia de um individuo ideal, de um herói curado de sua paixão, quando na verdade não há nenhum modelo possível de normalidade.

Os nomes dados às patologias, principalmente àquelas que estão atribuídas a personalidade e são, de acordo com a psiquiatria, formas adoecidas de existir, não contribuem para que o sujeito possa construir uma vida mais livre e distante das dores. Pelo contrário, muitas vezes essas designações o escravizam quando os fazem crer que não podem devir para além disso.


CONCLUSÃO

Existe na loucura um lugar fronteiriço, uma beira, uma linha tênue quase inexistente e é nesse corpo, nesse corpo de pele esfolada que a escrita pós-dramática pode encontrar uma potência para além da folha.

No pós-drama a narrativa clássica e as trajetórias do herói descansam de seus papéis de pais e permitem que invertamos os passos e as certezas do tempo. A palavra recebe autorização para dançar no compasso dos atravessamentos internos.

Avizinhar a loucura com a dramaturgia é abrir um campo de possibilidades outras, é permitir que o corpo seja parte dessa narrativa, não separando os processos imaginativos dos reais, questionando constantemente os limites desse. É retirar o caráter patológico e engessado de um personagem, lhe dando a possibilidade de extensão de si mesmo, lhe permitindo tornar-se constantemente outro.


Tayana Dantas é atriz, dramaturga, poeta e letrista.
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PARA TODOS OS MEUS AMIGOS, VIVOS E MORTOS, QUE VIRAM O MAR PELA JANELA


Ele via o mar pelas janelas, sentia o movimento ondulante da água e ficava vez ou outra mareado.

Todas as manhãs, depois do café da manhã, eu sentava no sofá da sala de convivência e esperava ele sair do quarto. Ele nunca tomava café da manhã conosco. Ele abria a porta do quarto, sentava ao meu lado no sofá e sorria, um riso curto, miúdo, tal qual era a sua pequeneza de menino quase homem, o rosto ainda amassado de quem havia demorado para dormir e por consequência demorado a acordar.

Se aproximar dele era quase como se aproximar de um gato, devagar e honestamente eu ia me achegando, curiosa por aquela juventude estranha de quem não quer muito papo e está quase sempre de ressaca. Ele sempre queria saber em que lugar estávamos, quando iriamos aportar e se eu sabia o nome do comandante do dia. Das poucas vezes que o vi rindo de fato, o tema era sempre o mesmo, o uniforme esquisito da tripulação.

O Reynaldo, meu amigo, vez ou outra chorava olhando para ele. Reynaldo era homem-pai e reconhecia no rosto de Marcos o filho que agora vivia distante dos olhos dele, ou outro que nascerá sem o seu reconhecimento e que existe nele de um jeito desconhecido e profundamente doloroso.

Eu não via o mar pelas janelas, as águas que escorriam do meu rosto logo que cheguei, pouco a pouco se tornaram ouvidos e vontade de abraço, braços longos que submergiam dos fundos mais sensíveis e salgados de mim. Eu me secava no tecido das histórias dos meus colegas de andar.

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Eu me auto-internei em um hospital psiquiátrico na
cidade do Rio de Janeiro, em Dezembro de 2012 onde 
passei uma semana, inclusive o Natal. Deixei o hospital 
no último dia do ano de 2012. Deixei, em 2012 também, 
um monte de outras coisas. 
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A Ana, que carregava o fim do meu nome no dela, trouxe para a sua cabine uma porção de gente junto; Carlos o professor de direito, Luisa a pianista e Leo um garoto que entendia de astros. Ana queria encontrar um amor, viajava em busca do tal que seria capaz de amar as multidões que residem em uma mesma mulher. Ela era talentosa para arte, fazia objetos-obras enigmáticos e escolhia qual de nós os poderia ver fora do embrulho. Na verdade eu fui a única (posso me gabar) que recebeu autorização para olhar. No embrulho da obra que abri havia os seguintes dizeres: “Só é permitido a abertura pelas mãos de quem tem o coração puro”, nunca achei que tivesse tal coração, mas Ana me garantiu que sim e naquele dia eu chorei, um choro diferente daquele que me levara a arrumar as malas e estar ali.


Voltando da área de lazer com o Reynaldo, encontramos Marcos em cima dos móveis, desesperado, ele gritava para que eu e Reynaldo subíssemos também, a tripulação era má e estávamos sendo conduzidos para algum lugar muito ruim, ele garantira. Enquanto Marcos berrava, os tripulantes o pegaram com força e aplicaram nele uma injeção que o fez amolecer em segundos. Ele olhou para mim e para o Reynaldo, de um jeito fundo, mais fundo que qual quer oceano e perguntou com o resto de força que tinha “Até quando não existimos”? e foi levado para o seu quarto.

Eu me decidi então que no dia seguinte, quando Marcos acordasse com a sua ressaca e juventude, eu iria lhe devolver toda a sua honestidade e contrariar seus pais, contando finalmente para ele a onde estávamos e para onde pretendiam nós levar, embora eu desconfiasse que Marcos já soubesse.

Me sentei no sofá, Reynaldo me deixou sozinha, não queria estar lá quando ele descobrisse a verdade. Meu coração estava acelerado, meu corpo todo tremia, mas eu estava decidida.

Ele saiu do seu quarto, sentou no sofá e perguntou o meu nome: “Tayana” eu disse, ele riu e respondeu na hora “Que nome esquisito, né?” concordei, era esquisito mesmo ter o meu nome e ele ser esse, esse que nem fui eu que escolhi, e é mesmo muito esquisito eu ter mudado de cara várias vezes e continuar a vestir o mesmo nome, “Tayana” essa roupa velha, herança da menina bronzeada e do surf que um dia existiu.
Dessa vez fui eu que perguntei onde estávamos e ele disse que acreditava estar em algum lugar próximo a Campos dos Goytacazes, o que não deixava de ser, de certa maneira, “Estamos em Botafogo”’ eu disse, ele quis saber se na praia e após um longo suspiro respondi “Não, estamos em um hospital”. Ele ficou nervoso por alguns segundos, olhou para o meu antebraço direito, enfaixado, e eu, ao notar o olhar dele, tirei os esparadrapos e desenfaixei, lhe deixando nu, à vista pela primeira vez das minhas marcas ainda não cicatrizadas, “Você tentou se matar, Thais?”.
“Não, eu só quis me machucar... Eu tava triste”.
“E eu? Eu estou com alguma doença grave? Porque meu pai não vem me ver?”.
“Ele vem todos os dias”.
“Eu estou com Alzheimer? Por isso eu não lembro de nada?”.
“Não, você está sem memória por causa dos remédios”.
“Remédios para que?”.
“Você teve um surto psicótico”.
“Ai meu Deus, agora lascou, eu fiquei doido, foi? Agora lascou, preciso avisar a minha namorada. Não, não posso avisar a ela. Isso aqui é um hospício? Tá todo mundo doido? “.
“Acho que sim, acho que tá todo mundo doido”.
“E agora Taína, agora que eu tô doido, eu era o capitão da plataforma, o que eu vou ser agora?”.
“Acho que de agora em diante, agora que estamos loucos, eu, você e todo mundo, agora, acho que podemos ser qual quer coisa, Marcos”.
“Ai meu deus, o que eu vou ser agora? Como é mesmo seu nome?”.

Marcos podia ver mar pela janela, onde eu só conseguia ver grades, Marcos me conseguia ver Taína, Thaís, menina, moça, Talita e até conseguia esquecer meu nome, mesmo se eu lhe falasse de cinco e cinco minutos. Marcos sentia o movimento da terra que meus labirintos desatentos não percebiam. Marcos podia ser qual quer coisa, mas ele só queria ser Marcos.

Eu me auto-internei em um hospital psiquiátrico na cidade do Rio de Janeiro, em Dezembro de 2012 onde passei uma semana, inclusive o Natal. Deixei o hospital no último dia do ano de 2012. Deixei, em 2012 também, um monte de outras coisas.

Para ser aceito em um hospital psiquiátrico você precisa ser revistado, ficar pelado e de quatro para que a enfermeira cheque se você não está carregando nada em nenhuma parte do seu corpo. Você não pode usar cadarço, nem celular, nem laço, nem faca, nem drogas, nem sonhos. Em um hospital psiquiátrico você fica preso, como fica preso o presidiário e você é tratado como uma criança bem boba e incapaz de entender, em um hospital psiquiátrico você não pode se apaixonar, nem abraçar o amigo que chora, nem discutir o seu diagnostico com a vossa autoridade o psiquiatra, em um hospital psiquiátrico você está louco e só está louco, mas não está só.


Tayana Dantas é atriz, dramaturga, poeta e letrista.
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TUDO QUE FUNCIONA 24 HORAS É BOM


Voltando para casa agora, às três e pouco da madrugada, perto de virar à esquina da minha casa, vejo as luzes acesas da Pet Shop 24 horas e sinto uma paz enorme. Não só pelo fato de ter um gato e talvez precisar desse serviço um dia, não. As coisas que funcionam 24 horas me trazem paz.

Eu sempre tive dificuldade de dormir a noite, tinha uma sensação muito forte de estar sozinha. Quando criança achava que eu era a única pessoa acordada no mundo e isso era aterrorizante. E se de repente houvesse um ataque em massa dos guaxinins sem mães, ou do império das lesmas e só houvesse eu para lutar com eles? Era muita responsabilidade. Ficava feliz quando tinha alguma festa de adulto lá em casa porque quando tinha festa as pessoas ficavam acordadas e eu podia dormir. Era quase sempre assim nas madrugadas insones, quando o sol saia e eu ouvia os primeiros movimentos humanos, conseguia dormir e dormia bem. Lembro de passar mal uma vez de madrugada e ir para o hospital. Nesse dia descobri que existiam hospitais 24 horas e tinha um bem pertinho da minha casa e que nos hospitais as pessoas não dormiam nunca e eu podia dormir tranquila. Sempre dormi muito bem em hospitais.

Adoro farmácias 24 horas, já desci aqui pela rua e sentei em frente de uma na calçada mais de uma vez. O sono chega rapidinho e depois de saber o nome do atendente e um pouco da vida dele, eu já posso dormir.

A clínica da minha psicóloga é 24 horas e você pode ir lá se não conseguir dormir, ou se tiver muitos pesadelos, mas não é um serviço que deve ser muito utilizado, ela já me explicou.

Os frentistas são sempre muito simpáticos comigo, os do posto da rua do lado já me conhecem pelo apelido e vez ou outra dividimos a caneca de leite das 02:00 da manhã.

Garçons, seguranças, motoristas de táxi e de caminhão, bêbados dos botecos de esquina, DJ’s, meninas insones, povo da clínica da minha psicóloga e outros que o nome-coisa me fugiu agora, são eles os protetores noturnos, o exército que lutará comigo caso o império das lesmas ou os guaxinins sem mães pensem em destruir a humanidade.

É preciso orar por eles, é preciso orar para que o vigia noturno não durma na cadeira como vez ou outra eu vejo o Edmilson fazer, é preciso orar pelo fim do Rivotril para que meninas insones não caiam na tentação de tomar um, como já fiz algumas vezes. É preciso orar pelo arrebite, pelo bate-estaca, pelas luzes que piscam, pela cachaça e pelo petróleo. A segurança da humanidade depende disso.

Guaxinins a parte, escrevo isso em homenagem à todas as pessoas que trabalham de madrugada e existem enquanto eu hoje, finalmente, posso dormir, ou apenas não me sentir tão sozinha.


Tayana Dantas é atriz, dramaturga, poeta e letrista.
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SOBRE VITÓRIA E LEONARDO


Ilustração: Tierney Gearon


Eu vim de um lugar com nome de vencedor, um vencedor desconhecido, que venceu uma batalha desconhecida, que têm heróis desconhecidos, e famosos desconhecidos e um sotaque desconhecido. Cresci ali, entre as gotas de sucesso de uma vila sem vizinhos, entre o Rio de Janeiro e a Bahia, apesar de viver entre eles, nunca foram vizinhos. Estudei em um colégio de moças muito bonitas, famosas moças desconhecidas. Tive aula de etiqueta no lugar de filosofia. O meu colégio tinha nome de gênio, mas não tolerava a diferença.


O uniforme não tinha a cara do lugar de onde eu vim, porque o lugar de onde eu vim não queria ter cara. O colégio tinha uniforme inglês e high school e todo mundo tinha que usar o mesmo tênis.

Tinha uma menina negra no meu colégio, a única negra, pelo menos na minha sala, e teve um dia que ela voltou de Salvador com um cabelo bonito, cheio de tererê e tava muito legal e diferente, mas o colégio achou aquilo um desrespeito e pediu para que a menina tirasse ou se retirasse do colégio, ela se retirou e todo mundo da minha classe achou aquilo um absurdo, mas ninguém fez nada. As meninas, minhas amigas, eram as moças mais bonitas da cidade, já eu sempre tive vocação para esquisita, embora naquele tempo me empenhasse em parecer bonita toda vez que abandonava meu quarto.


Com o tempo eu fui achando que ser esquisito era mais bonito que ser bonito.


Aos dezoito anos eu decidi sair da minha cidade, deixar o entre, e fui morar no Rio de Janeiro, isso é uma coisa comum de ser feita na cidade de onde vim. Os artistas vão embora para o Rio, para São Paulo, para o Recife, para a Bahia, é que a minha cidade não gosta da arte quando a arte é feita por lá, mas adora quando ela vêm de famosos conhecidos.


A escola que estudei, a tal com nome de gênio, é ainda hoje a escola mais cara e desejada da cidade. É lá que os empresários de sucesso colocam seus filhos e filhas. Nessa escola, meninas não podem jogar futebol porque é um esporte de meninos. Ninguém pode ter tatuagem ou piercing porque, bom, eles nunca disseram o porque. Lá eles ensinam que a Inglaterra e os Estados Unidos são lugares muito bacanas e que dançar funk é coisa de gente baixa (quando eu ouvi isso pela primeira vez imaginei os meninos mais baixos da turma rebolando).


Eu tenho seis irmãos. Estudamos todos lá, menos um, mas isso é um outro papo. Eu e o mais velho já estamos na faculdade, os outros quatro ainda estão lá.


As minhas amigas continuam sendo minhas amigas embora eu tenha me tornado uma mulher esquisita e elas continuem sendo lindas e chiques.


Eu tenho outros amigos, também muito esquisitos, que hoje moram no Rio como eu e que vieram de lá como eu, e nós estamos bolando um plano, um plano muito esquisito e pretencioso de re-ocupar o lugar sem cara e dar a ele um corpo.



Tayana Dantas é atriz, dramaturga, poeta e letrista.

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