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PODEMOS TIRAR, SE ACHAR MELHOR


Imaginem que moleza seria se, pra cada gafe, tropeço, incoerência, contradição, injustiça, descuido, vexame, erro, asnice, vacilo, deslize, ilegalidade, corrupção ou desacerto que cometêssemos houvesse a agência britânica de notícias Reuters para tirar nosso erro da história, se achássemos melhor? “Podemos tirar, se achar melhor” é o trending topic do regozijo, o hashtag redentor, nossa máxima reveladora, a nova sugestão para o lugar do “ordem e progresso”, a perfeita tradução do mínimo sentimento de desconfiança de quem tem mais do que merda na cabeça. É como aquele aparelho do filme ‘Homens de Preto’ que, em um flash, apaga a memória de todos que viram ou tomaram conhecimento da presença de alienígenas na terra. Os alienígenas, no caso, são os diversos casos de corrupção que envolvem os tucanos desde os anos 1990, e que permanecem esquecidos nos corredores ideológicos da nossa nada imparcial imprensa nacional. Nós somos a testemunha desmemoriada, atônita após o clarão de luz, sem expressão facial ou capacidade de reação, perdida na ausência de uma das peças do quebra-cabeça, enquanto a imprensa insiste em nos dizer que o puzzle está completo, ainda que o banguela mapa político nacional esteja diante do nosso nariz. No meio da avenida, uma família inteira de ET’s, perfeitamente verdes, com quatro dedos e armas de raio lazer em punho salta de um disco voador que acabou de pousar diante de nós. Na capa do Globo, nada além da nova novela – a velha novela que favorece o próprio jornal.

“Podemos tirar, se achar melhor” é encontrar o namoradinho ou a namoradinha na cama com seu melhor amigo, ou descobrir seu sócio com a boca na botija roubando direto da sua carteira: é possível fingir que nada foi abalado, que a confiança pode ser restaurada, dizer que perdoa, que aceita ou fingir que não viu e esperar a vida voltar a ser a mesma. A verdade, no entanto, é que, especialmente em relações que exigem somente a confiança para continuarem a existir, certas coisas jamais podem ser magoadas. “Mesmo que eu te perdoe, que acredite que você não quis me magoar, eu simplesmente não confio mais em você”. No caso, a namorada traída é a população de leitores otários, e o namoradinho é a maior agência de notícias do mundo, nua sob os lençóis de FH.

“Podemos tirar, se achar melhor” é o anti Watergate. É a antítese da entrevista do jornalista britânico David Frost com o ex-presidente norte-americano Richard Nixon, na qual Frost conseguiu extrair do único presidente dos EUA a renunciar do cargo que, para ele, quando um presidente faz algo ilegal, então não é ilegal. Nem precisamos ir tão longe, é o anti Operação Lava-Jato naquilo que ela tem de mais genuinamente vitorioso: a denúncia, investigação e eventual prisão de políticos envolvidos com corrupção. É a reedição do Escândalo da Parabólica, em 1994, quando o então ministro da Fazenda Rubens Ricupero, um dos pais do Plano Real, sem saber que sua fala estava sendo transmitida num vazamento do sinal do satélite, vaticinou um lema nacional, “Eu não tenho escrúpulos. Eu acho que é isso mesmo, o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”, disse Ricupero. O ex ministro se aposentou como diplomata e hoje é presidente de um instituto de pesquisas e debates sobre problemas institucionais como educação, segurança, política econômica e desenvolvimento.

“Podemos tirar, se achar melhor” é o lado somente cego da justiça. É uma balança que já vem com uma tonelada de chumbo em um dos lados, mas que se diz perfeitamente regulada. É a defesa da meritocracia que não se importa em partir de princípios desiguais. É a Anistia ampla, geral e irrestrita que não leva em consideração o fato de que um dos lados anistiados já foi preso, condenado, torturado e eventualmente morto – ou que finge que o crime cometido por uma ou mais pessoas possui o mesmo peso de um crime cometido pelo estado. É o sucesso absoluto de uma canção conquistado com o alto custo de milhões de dinheiros em jabá. É a campanha que responsabiliza o consumo cotidiano de água pela resolução da crise hídrica, sem mencionar o fato de que esse consumo representa somente 4% do problema, enquanto o agronegócio morde 70% da água do país – responsabilizando o indivíduo sem reconhecer os processos muito mais perversos conduzidos pelo poder público. É a capa da Veja gritando louros para o sucesso de Eduardo Cunha, sem uma palavra sequer sobre seu nome na lista do Janot. É a dor da verdade evidente, do óbvio escancarado, da confirmação daquilo que nos dói admitir, mas que está em nossa cara. Fica, aliás, a sugestão da frase como novo slogan da agência e dos jornais brasileiros: Reuters – podemos tirar, se achar melhor.

Apesar do potencial publicitário e do charme cativante, “Podemos tirar, se achar melhor” não será a frase musa do verão. Provavelmente não se transformará em slogan instantâneo, não estampará camisetas de grife nem campanhas de cerveja, não entrará para os anais da história nem se tornará jargão generalista para indicar todo e qualquer caso de omissão ou conivência jornalística – afinal, quem escreve a história? "Podemos tirar, se achar melhor" provavelmente não estampará sequer um canto de página nos principais jornais nem será recitada pela voz aveludada dos apresentadores de telejornais. A internet aparentemente é o único antídoto minimamente eficiente para esse enorme aparelho amnésico chamado grande mídia. Dos memes aos blogs, passando pelos nada meros post pessoais que denunciam tais incongruências, a internet, desde junho de 2013 com a mídia ninja e seus diversos afluentes, parece enfim ter ganhado algum sentido mais profundo. Mas, não nos enganemos, mesmo esse sentido eles podem dar um jeito de tirar, se descobrirem como – pois achar melhor tirar eu tenho certeza que eles acham.


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VITOR PAIVA
Escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO




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JONAS SÁ E A NUDEZ CENSURADA


Censuras, proibições, impedimentos em qualquer instância, contra qualquer tema – mas principalmente contra produções artísticas – costumam possuir a mesma função: tentar transformar certo aspecto do mundo real em algo inexistente que convêm ao censor. As possibilidades de censuras são muitas, da autocensura à censura econômica, e crer que elas um dia possam deixar de existir seria pura ingenuidade.

Há alguns casos, no entanto, que não revelam nada além da maneira infantil com que nos tratamos – e nos permitimos ser controlados pela politicagem mera que traveste certos moralismos de estimação. Recentemente, o compositor carioca Jonas Sá teve a capa de seu disco impedida, de maneira indireta porém mais eficiente e orquestrada do que se fosse proibida pelo Dops. E o motivo é tão banal que assusta: a nudez.

A história é simples. Jonas havia finalizado o seu segundo disco, Blam! Blam!, estava com o show de lançamento marcado, contrato assinado, esperando a arte final da capa e do libreto para mandar o disco para a fábrica. E a capa veio, exatamente como ele desejara: frondosamente estampando a anatomia de uma mulher nua – negra, diga-se de passagem – com tudo que se tem direito: coxas, umbigo, púbis e pêlos. Não é de hoje que a temática erótica permeia a obra de Jonas, e Blam! Blam! pretende justamente penetrar esse universo ainda mais. Daí, portanto, a razão de ser da capa que, no mundo real, não precisaria de justificativa alguma. É bonita, não ofende ninguém, e é exatamente o que o artista quis. Ponto.

Mas as fábricas de disco pensam diferente. Um a um, todos os representantes procurados pela gravadora negaram-se a imprimir o disco, pelo mesmíssimo motivo: não podem sequer pensar em desagradar os evangélicos e católicos, seus principais clientes – que poderiam deixar de utilizar os serviços de uma fábrica que imprimisse qualquer coisa que se assemelhasse com aquilo que consideram impuro, imoral ou pecaminoso. Imaginem se, sem querer, enviamos uma caixa do Blam! Blam! ao Padre Marcelo, justificou um dos fabricantes. Respondo: faria um bem danado ao padre.

O libreto do CD também é ilustrado por imagens eróticas que, segundo os tais fabricantes, poderiam ofender os religiosos que os sustentam, como os últimos clientes a venderem milhões de discos no país. Basta olhar pra ver que a capa, assim como o disco, é linda, em nada ofensiva, agressiva ou escandalosa – isso, é claro, para quem vive no mundo real, e não sob a égide de uma mitologia infantil, paranóica e autoritária. Quem teria medo ou aversão a algo tão maravilhoso quanto um corpo nu? E pior ainda é saber que não se trata nem ao menos de uma questão moral verdadeira, que poderia valer o debate, mas sim, de um posicionamento meramente financeiro – a mais eficiente das proibições. Como se não bastassem os diversos problemas que envolvem hoje a indústria fonográfica, agora é preciso discutir religião e política com os fabricantes.

De todas as contraindicações fabricadas pela igreja a fim de fazer a manutenção de seu poder e influência, a rejeição ao sexo e à sexualidade me parece a mais intrigante. Para além do fato de só haver vida através do sexo, tais proibições revelam nada além da própria obsessão dessas instituições com o que enxergam de perverso no tema – e que, através de seu poder de manipulação, é passado aos fiéis. Como explicou Freud, quando a igreja fala de sexo, sabemos mais sobre a Igreja do que sobre sexo. Enquanto as religiões representam o medo, a morte, a contração e a proibição, o sexo é de fato o outro lado da moeda: vida, desejo, prazer.



Naquele passado longínquo em que música importava, e que cada novo disco abria uma possibilidade de transformação, não foram poucos os artistas que tiveram suas capas censuradas – e, quase todos, pelo mesmo motivo que foi o disco do Jonas.

Hendrix teve a belíssima capa de seu terceiro disco, Electric Ladyland, de 1968, censurada por estampar mais de uma dezena de mulheres nuas, de todas as cores, tipos e tamanhos. No mesmo ano, John Lennon e Yoko Ono foram obrigados a lançar seu Two Virgins com um envelope marrom cobrindo a nudez de ambos. Gal Costa passou por algo semelhante com Índia, de 1973, lançado com um plástico azul que cobria a anatomia da cantora – o que, em ambos os casos, só aumentou a curiosidade e a vendagem dos discos.

Efeito similar aconteceu com Yesterday & Today, dos Beatles, que, em sua primeira versão, trazia na capa a banda coberta de carnes cruas e bonecas desmembradas. O disco foi recolhido e, os poucos que ainda possuem uma cópia original, conseguem vende-la hoje por até 40 mil dólares. A capa de Gal – de autoria de Waly Salomão – foi praticamente copiada pela banda americana Black Crowes, no disco Amorica, de 1994. E copiada também foi a reação dos censores, que não gostaram de ver um diminuto biquíni estampado com a bandeira americana revelando pelos pubianos na capa de um disco.

A lista segue: Beggar’s Banquet, dos Stones, também de 1968 – que ano! - foi banido por trazer um banheiro imundo como capa. Diamond Dogs, do Bowie, em 1974 teve a arte refeita, para que o homem-cachorro em que o cantor se transforma não mostrasse nada que se parecesse com um pênis.

E não para por aí: em 1991 o Nirvana teve de apagar o piruzinho do bebê nadador da icônica capa de seu Nevermind para que o disco pudesse ser vendido nas redes de lojas Wal-Mart e K-Mart (a nudez de um bebê ser potencialmente ofensiva é algo que assombra). Até o Strokes, já em 2001, terminou mudando a linda capa de seu disco de estreia, Is This It, nos EUA, pela forte conotação sexual que trazia. A lista poderia seguir por mais páginas e páginas.

Jonas deu seu jeito, encontrando enfim uma fábrica laica, e Blam! Blam! sairá em breve, para deleite de nossos ouvidos e olhos. Porém, para isso, quase perdeu seu contrato, precisou atrasar seu lançamento em meses – e, consequentemente, se viu impedido de trabalhar. Já era hora de entendermos que quando um discurso tenta proibir algo tão real e natural quanto a nudez ou o sexo para manter sua pureza e contundência, é necessariamente sinal de que ele não é tão puro ou contundente assim. A sexualidade e, principalmente, nossos corpos, são elementos maravilhosos da vida, e necessariamente não ofendem ninguém. O discurso que aplicamos sobre esses corpos é que é a questão. Porém, se música boa ofende, a resposta só pode estar nos anos e anos de porcaria – tanto musical quanto filosófica – a que tais censores insistem em se submeter.


Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.



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O QUE QUER DIZER MARINA SILVA?


Após o óbito, se deu o óbvio, e Marina Silva foi confirmada como candidata à presidência da república pelo PSB. Sabemos pouco sobre o que será sua campanha, e menos ainda sobre seu governo. Muito se falou sobre as últimas pesquisas, realizadas ainda sob o efeito emocional e midiático da morte de Eduardo Campos, mas quase nada sobre planos de governo, alianças, alicerces políticos, em resposta às dúvidas que essa candidatura levanta. Tudo é névoa e confusão até aqui.

Marina é uma candidata originalmente de esquerda, que em princípio traz ventos progressistas para a política brasileira. Seu engajamento no que diz respeito à questão ambiental é louvável e significativo, mas não me parece suficiente para justificar uma eleição para presidente. No mais, as coisas se confundem quando a candidata afirma, por conta de suas crenças religiosas, certas opiniões conservadoras sobre tópicos caros ao rumo do país, como a legalização das drogas e do aborto, o casamento gay e as pesquisas com células tronco. A própria necessidade que Marina sente de reafirmar sua religiosidade quando discute tais tópicos sugere o espaço que o assunto já ocupa – e principalmente, pode vir a ocupar – em sua eventual agenda política.

Marina já se colocou por diversas vezes contraria ao casamento gay. Segundo ela, seria a distorção de uma instituição milenar que deve unir necessariamente pessoas de sexos diferentes. Aos poucos, porém, incluiu nessa opinião o adendo de que tal grupo deve ter seu direito civil garantido. É uma posição que confunde. Se ela crê nesse direito, por que sente a necessidade de se dizer pessoalmente – religiosamente – contra, quando perguntada? Por que não simplesmente defende o que entende como um direito democrático? Como pode não enxergar a influência que tal posição pessoal teria, caso falasse como presidenta da república? Se entende o que é e defende o estado laico, por que Marina insiste em incluir a religião como filtro para questões de foro constitucional?

Sabemos a resposta. Porém, da mesma forma que acontece com as doações de empresas para campanhas, o posicionamento conservador que garante a adesão de certos grupos também será cobrado futuramente, caso a candidata seja eleita. Marina parece tentar manter o diálogo ao mesmo tempo com uma frente progressista de eleitores e com os mais conservadores. Marina é e não é.

Sobre o aborto e as pesquisas de célula tronco, o mesmo: se diz pessoalmente contra, mas sugere a realização de plebiscitos. Tal recurso parece simplesmente fazer a manutenção dessa névoa ao seu redor. Um plebiscito pode ser o paroxismo da participação democrática, mas merece cuidado em questões como essas, a fim de não servir simplesmente como a manutenção de uma tirania da maioria. O direito das minorias não deve ser julgado pela maioria favorecida. A justiça, a equidade e eventuais opiniões dissonantes ou decisões impopulares, que visem avanços ou transformações no país, não podem ser impedidos pelo mero desejo abstrato da massa – em nome de deus, por exemplo. É preciso entender qual é o país que Marina quer ajudar a construir. Imaginem se certos indivíduos que comentam reportagens na internet tivessem poder de veto ou voto sobre leis de direitos humanos. Onde estaríamos?

Marina sabe que os conservadores e os religiosos formam essa maioria no Brasil. O estado não pode permitir que, em nome da religião – uma filosofia abstrata, sem bases científicas respeitadas, que não visa a realidade e a equidade – seja decidido o destino das milhares de mulheres pobres que abortam diariamente em verdadeiros açougues, colocando em risco suas vidas – para não falar do direito que possuem sobre o próprio corpo, e do machismo velado que há por trás dessa posição.

Os evangélicos de Brasília, além de colecionarem processos por corrupção, infelizmente parecem atuar somente para impedir a garantia desses direitos e o questionamento realista sobre assuntos tão caros e tão atrasados, em nome da manutenção de preconceitos milenares. Para que se tornem uma bancada respeitável – não por decreto divino, mas por atuação política – é fundamental que tanto os eleitores quanto os políticos evangélicos abandonem a defesa cega de seus preceitos religiosos como se fossem leis. A bancada evangélica deveria justamente deixar de ser uma bancada evangélica, para se tornar uma bancada política. Enquanto isso não se dá, é fundamental sabermos o que Marina pensa de fato, para entendermos o tamanho de sua autonomia, e quem será o deus de um eventual governo seu.


Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.





*Imagem: Pintura sobre foto da Marina Silva: Gabriel Pardal
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UMA SELEÇÃO SEM CABEÇA



Para além do futebol apresentado pelo Brasil na partida contra a Alemanha – ou da ausência dele –, há alguns anos que nos falta inteligência na seleção. Nem de longe esse foi o único ou mesmo o principal problema de nosso escrete – que começa fora de campo, na desorganização dos torneios nacionais e na regência criminosa de nosso futebol. Mas, junto de tudo isso, é notória a escassez de inteligência e personalidade nos personagens da equipe nacional.

Evidentemente que não estou considerando “inteligente” aquele que leu mais livros, possui mais diplomas ou ganhou mais dinheiro, mas sim o que demonstra autonomia na maneira de pensar, capacidade de compreender situações diversas, antecipar questões e oferecer soluções múltiplas – e, acima de tudo, de fugir do óbvio, tanto na forma de jogar, quanto de falar, de agir, de ser.

Pode parecer muito, mas a seleção, acreditem ou não, já foi formada por jogadores assim: Didi, Zico, Sócrates, Rivelino, Garrincha – sim, inteligentíssimo – Romário, Nilton Santos, Falcão, Rivaldo, Casagrande, Carlos Alberto Torres, Tostão, Amarildo e, é claro, Pelé – que compensava a aparente falta de inteligência fora do campo pela habilidade sobrenatural que tinha com a bola nos pés – entre muitos outros. Jogadores com personalidade, capazes de equilibrar razão e emoção, usando ambas em favor do time – como artistas, que sabem criar, pensar, improvisar.

Me marcou a cena do zagueiro David Luiz apontando aos céus assim que se deu o apito final, de maneira idêntica ao agradecimento que faz quando vence uma partida. Ele, é claro, não foi o único: a maioria dos jogadores brasileiros rezou ou citou deus em suas declarações. Crer em deus ou contar com ele em um jogo de futebol não é necessariamente sinônimo de falta de inteligência – ainda que não consiga entender como alguém acredita que deus seria tão injusto com os jogadores e torcedores do time derrotado ao interferir no resultado – mas é angustiante enxergar os vários óbvios motivos, táticos e estruturais, que levaram ao trágico ocorrido no Mineirão e, ainda assim, assistir aos jogadores citando deus como justificativa e, ao mesmo tempo, solução.

Além de mal falarem sobre futebol, como especialistas que deveriam ser – parece que não sabem se aprofundar minimamente sobre seu próprio trabalho – grande parte dos jogadores age como bonecos, fabricados industrialmente para jogar bola – no mero sentido mecânico da coisa – e enriquecer. Quando falam, é como se reproduzissem dois parágrafos do mesmo livro de autoajuda: um para a vitória, outro para a derrota. Alguns, como Neymar, ao menos compensam com a bola nos pés, mas personalidade é justamente o que permite que alguém cresça diante das adversidades, apresente soluções interessantes e até mesmo tombe com dignidade –  impedindo o lado emocional de transbordar e afundar um coletivo. Só teremos jogadores de criação se tivermos pessoas assim.

A excessiva importância do técnico é hoje um sintoma evidente dessa diluição da personalidade dos jogadores – e, consequentemente, do grupo. Não sei se o ego do Felipão impediu a presença de lideranças efetivas dentro dessa seleção, mas me parece impossível sequer pensar em um líder sem imaginar alguém que justamente fuja do óbvio, que seja capaz de se destacar da massa e chamar a responsabilidade pra si – não para deus ou qualquer outra opção metafísica. Alguém inteligente que goste de jogar futebol ao menos tanto quanto gosta de ganhar dinheiro.

Para completar o tiro na têmpora da seleção, não ajudaram em nada as declarações de que já estávamos com a mão na taça antes mesmo do mundial começar – o clima de que tínhamos a obrigação de ganhar a Copa em casa, ainda mais sobre um grupo que, em sua maioria, não passa dos vinte e poucos anos. Tais afirmações, vindas da própria comissão técnica brasileira, revelam a maneira quase transcendental com que nossa campanha foi tratada, como se tivéssemos que vencer para além da qualidade do nosso futebol. Só que Copa do Mundo é cruel, e, por isso, ainda resta no torneio certa beleza: é possível ganhar o título sem jogar o melhor futebol, como se deu com a Itália contra o Brasil em 1982. Mas é impossível que um time ruim seja campeão.

A pressão publicitária e a débil e excessiva cobertura midiática são talvez as peças fundamentais para entender essa equação. Se o verdadeiro assunto até no apoio a Neymar antes da partida contra a Alemanha era os cifrões, como esperar futebol de verdade de um grupo de publicitários? A derrota para Alemanha não me parece que será marcante como foi o Maracanazzo do Uruguai, porque o futebol hoje não tem mais a aura que tinha em 1950 – ainda que, no campo, não se compare: contra o Uruguai, nós ao menos disputamos o jogo. Porém, há muito tempo que o business venceu o sonho.

No entanto, não se pode esquecer que, mesmo ganhando cifras desumanas, os jogadores são os que menos têm culpa. São pessoas, ainda moleques – e, quero crer, que amam o esporte. Não deve ser fácil defender a camisa da CBF, como é cada vez mais difícil torcer por esse escudo. Talvez só mesmo deixando a cabeça em casa e colocando o coração na ponta da chuteira. Mas nem sempre o coração basta – às vezes, é preciso pensar.


Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.






*Imagem: Cristophe Simon/AFP
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QUEM PAGA R$990 PARA XINGAR A PRESIDENTA DO PAÍS?



A elite branca de São Paulo, capaz de pagar os preços abusivos do mundial da FIFA, junto das celebridades e dos realmente ricos – que jamais pagam pra estar em lugar nenhum – xingou a presidenta Dilma no jogo de abertura da Copa do Mundo. Para além da dedução óbvia a que se pode chegar diante do fato – qual a surpresa sobre o posicionamento político, social, estético, humano dessa turma? –, vale frisar que essa é a mesma elite que jamais vaiou Paulo Maluf, entre tantos outros, e que, do alto de sua influência, nunca pressionou ninguém para que o julgamento a respeito do mensalão tucano ou o escândalo do metrô de São Paulo fossem sequer tratados com seriedade.

No mais, pouca coisa é tão vazia quanto mandar alguém tomar no cu como protesto. Além da origem obviamente homofóbica do xingamento – que já passou da hora de deixar de ser utilizado como forma de ofensa –, xingar alguém é simplesmente não ter ou não saber o que dizer, e apelar para o ódio mero – como uma criança faz quando não tem argumentos, e quer porque quer alguma coisa.

Havia mais negros no campo, vestindo a camisa amarela, do que era possível ver na arquibancada – o que esvazia em muito o futebol como uma das principais expressões populares brasileiras. Porque sim, parte da riqueza e da força desse esporte é misturar, promover o encontro, na arquibancada e em campo, das mais diversas origens, cores, classes sociais, nacionalidades e crenças politicas. Ou ao menos era, pois, pelo visto, o esforço dos responsáveis pelo futebol brasileiro e mundial em elitizar os estádios vai conseguindo apartar o futebol do povo. Pois a mistura não é, ou era, também uma das grandes forças do próprio Brasil, para além do repúdio que provoca em certos setores sociais? Esses são os mesmos engravatados que ainda hão de conseguir nos tornar somente meros exportadores de talentos, ao invés de protagonistas do espetáculo que nossos próprios artistas oferecem em campos fora daqui, espalhados pelo mundo.

As arquibancadas jamais primaram pela inteligência ou coerência na hora de atacar os adversários com palavras. Xingamentos homofóbicos são seguidos de convites para que a torcida adversária sente no pau da torcida que grita. Nunca entendi. É claro que, no calor do momento e da multidão, é difícil esperar sabedoria de qualquer aglomeração, e parte da coisa é a diversão da implicância e nada mais, como crianças de fato – agora no bom sentido, desde que sem as barbáries habituais. Porém, dois casos que contrariam a máxima supracitada são memoráveis: um, de quando a torcida do Flamengo reverteu a então tentativa de ofensa adversária em gritar “Silêncio na favela” quando marcavam um gol contra o Rubro-negro, ao entoar “festa na favela” para celebrar; e outro, da torcida do West Ham, da Inglaterra, que, diante de uma elástica goleada imposta pelo Manchester City ao seu time, cantou: “Nós perdemos toda semana. Vocês não são tão especiais. Nós perdemos toda semana”. Coisa de gênio, honrando a tradição do melhor humor inglês.

A verdade é que existem várias Copas do Mundo em andamento: uma é a Copa da FIFA, que impõe regras inacreditáveis, rasga nossa constituição – e de qualquer país em que aporte para realizar seu torneio, diga-se de passagem – promove a homogeneização dos estádios – pela TV, não há charme nenhum nas tais arenas; o jogo poderia estar acontecendo em qualquer lugar do mundo – a elitização, gentrificação e despolitização de um cenário que se encontra em absoluta ebulição, tentando transformar tudo em uma ficção sem graça, pasteurizada e delirante; outra é o Mundial de Futebol, disputado no campo, que ainda mantém, não se sabe até quando, sinais da aura de outrora, de um esporte que nos move e que é especial, e que ainda oferta prazer e emoção para o torcedor e o jogador. Por último, há a Copa fora dos estádios, dentro desse caldeirão fervente das manifestações e da polícia, que começou mal, muito mal. Espancar manifestantes por simplesmente estarem se manifestando, esse sim ainda tem de ser o assunto. É evidente que cada uma dessas Copas atravessa a outra. Cabe ao futuro fazer com que o Mundial de Futebol paute a instituição que for realiza-lo, e não o contrário – e que a FIFA jamais paute coisa alguma novamente nesse país e, preferencialmente, em país nenhum.

Sobre a qualidade da festa de abertura da Copa – que foi, de fato, bastante fraca – falem com a FIFA e com a tal organização belga e italiana, responsáveis pela cerimônia – e, em nome da coerência mínima, não reclamem sobre os custos do evento se consideraram a festa “pobre”. Vale o porém de que nenhuma abertura ou encerramento de qualquer desses megaeventos esportivos costuma ser muito melhor. Mas seria bonito que a festa tivesse uma mínima cara de Brasil, mesmo que fosse óbvia: um desfile de escola de samba, sobre a história das Copas ou do futebol brasileiro mesmo, encerrado com um show do Jorge Ben, do Gil, até mesmo da Ivete, ou qualquer outro artista que fizesse o estádio cantar. E sobre o xingamento à presidenta, bem, enquanto ele não vier também dos funcionários dos estádios, do povo que não pôde comprar ingressos, de TODOS que amam esse esporte e ainda dão sentido à bagunça que é o futebol brasileiro, não vale nem o começo do debate. Não é política, nem é novidade – e não fará nenhuma diferença.


Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.
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LENDO MEMÓRIAS DO CÁRCERE GRIPADO




Graciliano Ramos, ou Senhor Fulano de Tal, como, em Memórias do Cárcere, ele preferiu se chamar, estava chegando na Colônia Correcional de Ilha Grande – após algum tempo detido no Recife, uma viagem desumana encarcerado no abjeto porão do navio Manaus, e meses aprisionado no Pavilhão dos Primários, no Rio – quando uma forte gripe me tomou. Começou como uma pequena sequência de espirros na madrugada, que aos poucos se tornou uma leve sinusite, e logo, a dor no corpo, a moleza, o desejo de não fazer nada confirmaram o diagnóstico. E junto, o pior dos sintomas: quando me gripo, logo deixo de sentir o gosto da comida. Dividi, então, com Graciliano o desanimo diante das refeições. Ele, incapaz de pensar em comer pelo cenário fétido e a própria condição física em que se encontrava, e eu, que poderia engolir faisão, peixe cru ou pão com manteiga que tudo teria gosto de papel.

Duram pouco minhas gripes, mas ainda assim foi difícil acompanhar as dores do fulano Graciliano em sua chegada à Colônia. Não quero comparar a dureza de dois ou três dias chafurdados no sofá com o que se passava com os prisioneiros companheiros do escritor. Longe de mim. Gripe é quase bom, ainda mais diante dos deletérios impostos sobre os supostos comunistas que, como Graciliano, se viram apartados de sua vida e de si por conta da paranoia que tomou o governo brasileiro depois da Intentona Comunista de 1935. Mas o fato é que uma boa leitura lhe toma a casa, o corpo, lhe tinge a roupa e as paredes, dobra o tempo e te leva, nos melhores casos, a dividir sensações com o personagem. As dores de uma cirurgia mal feita, as semanas em jejum, o frio, os cigarros infinitos garantiam a Graciliano que o fim estava próximo. Meu mal estar se misturou então com o mal estar de se deitar em uma cama sem colchão. Fechei o livro em certo ponto, pois começava a crer que minha gripe era na verdade uma tuberculose ou coisa que o valha, e que não conseguiria chegar a acompanhar Graciliano em liberdade – mesmo que fosse pela pena de Silviano Santiago, que, anos depois da morte do autor, escreveu o último capitulo que o Fulano de Tal não chegou a grafar, mas que sempre prometeu que seria o final de suas memórias do cárcere: em liberdade.

Sei que o personagem não morre no final, e principalmente, sei que a gripe passa – que tenho comida de sobra, que estou livre, que minha vida é boa e que em questão de horas voltarei a sentir o gosto das coisas. Graciliano não nos permite sentir piedade de seu calvário, ao mesmo tempo em que nos obriga a engolir cada sensação que lhe atravessa com a agudez precisa e direta de sua sentenças curtas. Não há herói nem vilão em suas memórias. Há somente a circunstância, o trágico da vida que se deu, que estava acontecendo, que era como era. Visto que minha náusea era um bálsamo perto do horror descrito, mesmo tossindo no sofá, mole e fraco, acompanhei Graciliano em um cigarro para retomar a leitura.

O autor não se diz comunista, não se reconhece como operário, nem como burguês. Se localiza no vão dos rótulos, no hiato das definições, assim como sua literatura – a qual ele também não atribui valor especial. Mas é impossível não pensar no horror de quem ainda vive, nas mesmas ou em piores condições, o sofrimento do aprisionamento injusto. Ou mesmo justo, pois sabemos que o sistema carcerário brasileiro não nos leva a melhoria social alguma.

Não digo, com isso, que não se deva punir os que cometem crimes, e não tenho uma ideia clara e eficiente que possa substituir o sistema que temos, mas não é preciso ser um Graciliano Ramos para se ter certeza de que a justiça e suas condenações são falhas, muito pouco eficientes, injustas muitas vezes, e que, em todos os casos, não transformam o réu – a não ser em uma versão agravada do que o levou a cometer o delito. Se alguém sai do cárcere reformado, melhor do que entrou, é por força própria e nada mais.

O sistema que pune os criminosos é também um crime. O guarda manco e vesgo afirma para Graciliano sobre o propósito de sua estadia no cárcere: “Aqui não vêm corrigir-se. Vêm morrer”. Graciliano não cometeu crime algum. Como em tantos casos cotidianos contemporâneos, ele só precisou parecer com o que se considerava o perfil de um criminoso para ser punido. A punição prévia é sempre o primeiro passo do fascismo. 1936 é amanhã.

A educação que já possuía permitiu ao escritor suportar e transformar a experiência em literatura. Meu remédio para a gripe já começava a fazer efeito quando Graciliano soube que deixaria a Colônia. Respirei melhor assim que ele finalmente elevou a cabeça para receber o vento no rosto. Ainda não estava livre, mas enfim pode saborear um naco de goiabada que lhe foi salvador. Senti com ele o gosto do doce – e me senti ridículo por lamentar minha gripe em consonância com sua história.

Mas os grandes livros nos fazem isso: são todos escritos especificamente para nós e sobre cada um de nós. Dei de ombros para os restos de sintoma que ainda me tomavam, e vim escrever, com o mesmo pouco apreço pelas minhas linhas que o fulano do livro sente pelas anotações que escreve ainda na cadeia, e que ao fim, joga ao mar. Graciliano nos obriga sempre a desmistificar os heróis, os vilões, as dores, as generalizações, os rótulos, os destinos e a literatura. Reconsiderem, portanto, algum eventual mal humor, alguma secura ou dureza minha em um futuro próximo; não sou eu, é o Graciliano. Daqui a pouco passa. Ao menos, até a próxima gripe – ou leitura.


Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.
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GARCÍA MÁRQUEZ E O SÉCULO XX


Nasci em março de 1983. O século XX começava a se despedir, e sua coleção de fatos históricos, devidamente documentados, se apresentava, ao longo de minha infância e adolescência, como uma melancólica e deliciosa sombra sobre minhas referências e memórias de estimação – minha própria história, mas na qual não estive presente. Todo o porvir parecia importar menos do que as coisas que haviam acontecido nos oitenta e três anos anteriores a mim. Sempre amei o Século XX, me lambuzando na aura – palavra-chave – que ele impôs, ainda que como farsa, sobre nós. Em troca veio as saudades do que não vivi.

Nessa época, meu saudoso amigo Thomaz Lacerda e eu nos perguntávamos diariamente quando é que finalmente viveríamos um fato histórico de verdade. Ponderávamos sobre a queda do Muro de Berlim, que vimos, mas rapidamente concluíamos que não era suficiente; queríamos um daqueles momentos em que todos os habitantes da terra se sentem conectados, pelos quais pra sempre saberíamos dizer onde estávamos quando soubemos, como nossos pais com a morte do Kennedy, o golpe militar, a chegada do homem na lua ou o assassinato de John Lennon. 

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Poucas pessoas fizeram tanto pela afirmação da perso-
nalidade latino americana recente quanto García Márquez. 
Ele mostrou que não era preciso continuar, de modo 
tão servil, desejando se tornar americano ou europeu 
para se sentir parte de uma história.
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Assim que o segundo avião bateu contra o World Trade Center, na manhã do dia 11 de Setembro de 2001, o telefone da minha casa tocou (ainda não tinha celular). Era o Thomaz, que me disse simplesmente: “Pronto. Aconteceu. Curte ai. Depois nos falamos”, e desligou. Sabia exatamente do que ele estava falando. As coisas seriam diferentes dali pra frente. Em se tratando de tempo, nada é absoluto, e é fácil imaginar uma criança nascida em 1883 lamentando não ter vivido as maravilhas daquele século que se encerrava, aguardando alguma coisa verdadeiramente importante por vir no insosso século XX que viria a começar. Mas, pra nós, foi suficiente: nos sentíamos finalmente assistindo a História. 

Quando soube da morte de Gabriel García Márquez, pensei no meu amigo Thomaz. Não sei se ele apreciava a obra do autor colombiano, mas sei o quanto colecionava fatos históricos, e admirava o século passado, que insiste em não terminar. Se estivesse vivo, aposto que Thomaz teria me telefonado no último dia 17. A morte de García Márquez é não só a morte de um herói, de um gênio, do maior autor latino americano que conhecemos, mas também mais uma morte do século XX – feito a confirmação da saudade de um amigo que já não está.

Poucas pessoas fizeram tanto pela afirmação da personalidade latino americana recente quanto Gabriel García Márquez. Sem jamais ignorar as mazelas do povo de cá, Márquez mostrou que não era preciso continuar, de modo tão servil, desejando se tornar americano ou europeu para se sentir parte de uma história – de uma personalidade – épica e profunda. A mesma coisa fez a Revolução Cubana, que ele tanto admirava. "Cem Anos de Solidão" provoca no mundo, ao menos pelo longo instante amorfo da leitura, o desejo de se percorrer as veias abertas da América Latina, como aprendizado e aventura. Pelos olhos de Márquez, temos o compromisso de nos tornarmos uma versão melhor de nós mesmos, sem veladamente desejar assumir outra personalidade – e pior: a de nossos opressores.

Quando digo nós mesmos, estou também falando de nós, brasileiros, ainda que não nos vejamos tanto como latino americanos. No entanto, para além da diferença de colonização e, logo, de língua, a raiz mais forte que nos liga aos nossos hermanos talvez seja justamente a história de opressão, subserviência, exploração e sobrevivência – física e cultural – da América Latina, que é peculiar a todos nós. Macondo também é aqui.

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Quando um herói como García Márquez morre, é preciso 
beber. Se você não for de beber, que dê uma trepada, uma 
cambalhota, um grito ou qualquer outra coisa que nos expanda, 
que nos leve a uma epifania minimamente mágica e fora do usual.
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"Cem anos de Solidão" foi o primeiro livro adulto que li. Imediatamente enlouqueci; comprei toda a obra do Gabo, e passei uma porção de meses imerso no universo fantástico que é o imaginário de nosso próprio continente. No entanto, ainda que "Cem anos..." seja a obra prima de Márquez, meu coração escolhe "Amor nos Tempos do Cólera" para levar pra uma ilha deserta. Ler a história de amor entre Firmina e Florentino foi uma das grandes experiências literárias de minha vida, justamente por ter sido uma das mais velozes: gastei uma noite somente, algumas horas sem tirar os olhos do livro pra nada, até chegar ao fim do Amor. O sol nasceu e, ainda inebriado pela viagem que tinha acabado de viver, eu era outra pessoa.

Quando um herói como García Márquez morre, é preciso beber. Se você não for de beber, que dê uma trepada, uma cambalhota, um grito ou qualquer outra coisa que nos expanda, que nos leve a uma epifania minimamente mágica e fora do usual. Nessas horas o Século XX volta a pairar sobre nós, como a lembrança de um período ainda cheio de aura e significado, em que pessoas, fatos, obras e gestos importavam mais do que os meios pelos quais recebemos tais notícias. Lou Reed também se foi recentemente e, me perguntando quantos desses raros personagens ainda vivem, me vi diante da estranha possibilidade da extinção dos heróis.

A máxima de Bertold Brecht sobre a tristeza de um povo que ainda precisa de heróis é certeira – talvez até demais, tal qual uma apocalíptica profecia às avessas. Oriunda da peça "Galileo", escrita por Brecht no final dos anos 1930, a frase oferece uma revisão iconoclasta da redenção ilusória que o herói nos trouxe ao longo da história. Se há um herói, é porque ainda precisamos ser salvos, e nisso Brecht tem toda razão – não há salvação. No entanto, os dilemas e horrores do mundo seguem firmes. Só é possível ser iconoclasta quando há ícones. O jogo mudou, mas parecemos mais vazios do que nunca – será que assim se sentia o menino do final do Século XIX? Se o herói é um sintoma, mais triste ainda me parece ser um povo que simplesmente não os tem.

Depois de milhares de anos da história da cultura – e das incontáveis convulsões que nossa cultura viveu –, com a pulverização desse jogo, ganhamos a possibilidade de experimentar muitos talentos diversos, não mais sufocados pela figura centralizadora do ícone. Em troca, porém, temos o paradoxo de nos sentirmos vazios pela ausência do significado – ou da sensação de significado, ao menos – que esse um herói nos dava. Para além da nostalgia mera, o mundo mudou. A aura pode ter desaparecido com nossa reprodutibilidade técnica, e talvez nunca mais venhamos a viver o surgimento de um novo García Márquez – aparentemente o mundo não mais quer, não mais permite, não mais lucra com isso. Mas ainda precisamos de histórias, gestos e pessoas que importem. Adoraria saber a posição do Thomaz sobre as manifestações de Junho, a Copa do Mundo no Brasil ou as eleições por vir. Tenho certeza que chegaríamos ao menos a uma conclusão em comum: não há aplicativo do iPhone ou selfie no Facebook que sacie o anseio por significado de nossos corações e mentes.


Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.
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UMA OUTRA COPA DE 1970


Dia desses, passeando pelo oceano árido da programação de TV, me deparei com um documentário sobre a Copa do Mundo de 1970. Havia um prato de comida fumegante diante de mim, pronto para ser devorado, e um filme sobre essa Copa – naquele colorido pálido e anacrônico que é o colorido mais bonito que as transmissões de futebol já produziram – era, portanto, um excelente acompanhamento para o meu feijão com arroz. De cara achei curioso descobrir que, apesar da direção ser de um mexicano, a produção fosse norte americana, visto que a América de cima é notoriamente avessa ao que chamam de “soccer”, com direito até a narração em inglês. Fui em frente. E alguns estranhos pontos me assaltaram as ideias.

Toda vez que o documentário falava da seleção brasileira, o texto narrado – escrito por dois ingleses – oferecia alguns segundos elogiando o futebol da equipe, para então, a cada gol sofrido, destilar um pequeno ensaio sobre o déficit defensivo da equipe verde e amarela. Félix, nosso goleiro, segundo as entrelinhas do texto, não merecia nem o banco do Madureira. Verdade que a defesa brasileira não era grande coisa, but that’s not the point. Vencemos todas as seis partidas, marcamos 19 gols – sofremos 7 –, goleamos a Itália na final, pelos pés de poetas como Rivelino, Jairzinho, Tostão, Gérson, Carlos Alberto e Pelé, e alguém vem me falar da nossa defesa? Quem daria atenção à eventual unha encravada diante do esplendor da beleza de uma Brigitte Bardot?

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Ao menos, na história do futebol não são os americanos 
que mandam – e me provoca um prazer cívico o fato de 
algo tão popular não ser protagonizado pelo American Way, 
não por qualquer afirmação anti-americana, 
mas pelo simples prazer da pluralidade.
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No entanto, o que mais me coçou a têmpora foi fato de que, acima de tudo, o filme defendia a tese de que a partida que eternizou e fez da Copa de 1970 a maior de todas não foi, por exemplo, a final, em que sapecamos um incontestável 4 x 1 na Itália, então bicampeã do mundo como nós, nem qualquer outra da seleção que terminou levando pra casa a taça Jules Rimet. Segundo o documentário, o que colocou essa Copa no topo da história foi a semifinal disputada por Itália e Alemanha. Entre uma garfada e outra, me vi diante de um reescrever da história, uma nova versão, uma sucessão de pinceladas em cores inéditas sobre algo até então íntimo e inquestionável. Engasguei no bife.

Não que a tal disputa entre italianos e alemães para ver quem iria à final contra o Brasil não tenha sido emocionante. Foi um dos grandes jogos da história dos mundiais. A Itália abriu o placar aos oito minutos do primeiro tempo, e segurou a pressão alemã – apostando no poderio defensivo que até hoje lhe é peculiar – até os acréscimos finais, quando finalmente a Alemanha conseguiu vencer a barreira azurra e empatar. Foram para a prorrogação, e então o improvável se deu.

Seleção Brasileira de 1970

Com quatro minutos, a Alemanha virou o jogo. Quatro minutos depois, a Itália empatou. Passados outros seis minutos, ainda no primeiro tempo da prorrogação, a Itália passou novamente no placar. Intervalo. No início do segundo tempo, a Alemanha empata, mas, poucos lances após o reinício da partida, Gianni Rivera define o placar e sacramenta a vitória italiana: 4 x 3, com 5 gols marcados na prorrogação.

Assim, meu dilema não se deu pelo justo elogio a esse match, mas por ouvir, dito em inglês – que sempre parece a língua da versão oficial dos fatos – que foi por essa partida que a Copa de 1970 tornou-se tão memorável. Não foi, segundo o tal olhar euroyankee, pela cabeçada indefensável de Pelé que o goleiro inglês Gordon Banks conseguiu impedir, em elasticidade paranormal, nem pela jogada de Tostão e Pelé na pintura que foi o gol de Jairzinho, nessa mesma partida contra os ingleses. Até mesmo último gol da copa, do capitão Carlos Alberto, chutando rente a grama até estufar as redes do estádio Azteca, no México, após bola enfiada com displicência artística por Pelé não mereceu especial distinção. Nada disso importou mais do que a vitória italiana na semifinal. O título propriamente foi descrito com metade da excitação. O fato do filme mal mencionar o drible da vaca sem tocar na bola que Pelé aplicou no goleiro uruguaio fez então sentido, pois o pragmatismo anglo-saxão não eternizaria uma bola que não entrou. 

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Muito antes de 1970, Nietzsche já nos explicou que 
só a interpretação é verídica. Toda leitura de um fato 
é uma interpretação pessoal sobre outra interpretação.
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E eis o óbvio: não existem fatos, só existem versões. Me lembro a estranha epifania que foi descobrir que o mundo considerava – ainda considera – os irmãos Wright, e não Santos Dumont, os inventores do avião. Não que o fato do mundo dizer que algo é real torne essa veracidade incontestável – quantas não são as mentiras que acreditamos, e quantas não devem ser as verdades que não sabemos que não aconteceram? – mas cresci crendo que era incontestável o título de Pai da Aviação dado a Santos Dumont. Verdade seja dita, os irmãos americanos de fato voaram três anos antes. Porém, o fizeram sem testemunhas, e decolando com seu avião de uma colina – o que está mais para cair do que voar, visto que Santos Dumont saiu do chão e pousou por meios próprios. E convenhamos: numa mesa de bar, um feito desse calibre,realizado sem testemunhas, vale uma salva de gargalhadas. Segundo meus conhecimentos de aviação – que são nulos – a verdade é que os três, e muitos outros, são os pais da criança. O brasileiro é reconhecido pelo mundo como um dos mais importantes inventores para a aviação moderna, mas seu pioneirismo é contestado. E cada um que ache o que quiser. Ao menos, na história do futebol não são os americanos que mandam – e me provoca um deleite cívico o fato de algo tão popular não ser protagonizado pelo American Way, não por qualquer afirmação anti-americana, mas pelo simples prazer da pluralidade. Muito antes de 1970, Nietzsche já nos explicou que só a interpretação é verídica. Toda leitura de um fato é uma interpretação pessoal sobre outra interpretação, e não há o fato em si.

Para mim, a Copa de 1970 é a maior de todas pelo gol que Pelé não fez do meio de campo, pela raça com que vencemos o Uruguai nas semifinais, pelas seis vitórias brasileiras em seis partidas, por termos escolhido atacar inclementemente – Zagalo teria dito que enquanto continuássemos fazendo quase o triplo de gols que sofríamos, não haveria problema – por termos nos tornado os primeiros tri campeões mundiais, pela despedida de Pelé das Copas, e muito mais. A disputa entre Itália e Alemanha foi especial, mas um jogo lá e cá, repleto de gols e decido no final pode acontecer em qualquer Taça Guanabara. Já o futebol daquela Seleção Brasileira, não. Aquilo sim foi raro, poético, histórico. Essa é a minha interpretação.


Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.
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FELIZ ANO NOVO, DE NOVO


Penso em como seria um mundo que não contasse o natal, ano novo, feriados, nem dias da semana, meses e anos – e se voltássemos no tempo, de ontem a ontem, chegaríamos a uma quarta-feira, meia noite em ponto de um 31 de Dezembro em plena era paleolítica, quando o homem das cavernas descobriu o que era vida, morte, amor, poema, e suspirou pela primeira vez?

Mas esses parágrafos estão sendo escritos em mais um dezembro, cara a cara com outro ano por vir, e o fato do fim de ano ser uma mera invenção, besta como uma pistola de água, não diminui seu poder de influencia – ou o que dizer da religião, por exemplo, tão inventada quanto apontar valores diferentes para meses, dias e anos, e nem por isso menos influente em nossas vidas? Por mais que se possa sonhar com atravessar a meia noite do dia trinta e um do doze dormindo ou tomando banho, a verdade é que é quase impossível driblar o efeito dessa época sobre nós.

O Natal não conta. Ainda que não fosse ateu, sabemos que não foi no dia 25 que Jesus nasceu, se é que nasceu, e que essa data se tornou mais importante para a indústria e o comércio do que para a mais fervorosa das senhorinhas católicas. Sendo assim, aproveito a formalidade para simplesmente abraçar e beijar mais uma vez os parentes e amigos que costumo abraçar e beijar durante o ano.

Porém, fim de ano não é moleza. A obrigação de ser feliz diante da péssima ideia de contabilizar o ano que passou frente a um ano que vai começar costuma anuviar tanto a avaliação do passado quanto o desejo sobre o futuro. Seria melhor pra todos que comemorássemos o réveillon em Julho e seguíssemos com o ano, avaliando o que já foi tendo ainda seis meses para salvar qualquer expectativa sombria.

Pois basta o mês de Agosto despontar para que a assombrosa questão ressurja, infalível: o que você vai fazer no ano novo? Em protesto solitário e inócuo, invariavelmente respondo que não sei, não quero saber, tenho raiva de quem sabe. Protelo essa decisão até o mais indesejado em cima da hora. O drama, porém, se dá justamente pois, quanto mais perto chego do ano novo, mais me lembro que ele não é irrelevante. Quando percebo, contrariado e resignado em minha derrota, que gostaria sim de fazer algo especial no réveillon, todos os quartos do mundo com vista para o mar ou a montanha já estão ocupados há meses. O pânico se instaura, suculento, e o mais cínico dos descrentes passa então a procurar desesperadamente por um programa redentor.

E ele nunca vem, pois expectativa boa de verdade tem que ser insuperável. Mas essa é a parte boa. Claro que não acho que o que fazemos à meia noite da virada do ano serve como metáfora ou símbolo de coisa alguma para o ano seguinte, mas o fato deu todo ano tentar fingir que o réveillon não existe, ou não importa – e me atrasar para decidir sobre o que farei nessa data querida - me fez redimensionar a ideia de felicidade para o dia trinta e um. Não preciso saltar de paraquedas ou estourar uma garrafa de champanhe diante de uma cachoeira secreta para me satisfazer. Bastam boas companhias e um manancial alcóolico suficiente para que a noite da virada seja próspera. Entrar em um novo ano lembrando que a felicidade jamais vem engarrafada e rotulada me parece um ótimo princípio – e eis que o réveillon se torna, pelo avesso, finalmente metáfora para a vida.

Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.
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O ADEUS AO HERÓI, UNPLUGGED


Foi sugestão do próprio Kurt Cobain que o cenário do show MTV Unplugged in New York, exibido pela primeira vez há exatos 20 anos, fosse como de um velório, com lírios negros e velas. É claro que hoje, sabendo que Kurt poria fim a própria vida quatro meses depois, é impossível assistir ao acústico do Nirvana sem entende-lo como uma despedida. No entanto, esse espantoso concerto velou, em certa maneira, a própria ideia do mito do Rock, tão peculiar ao século XX, que também se despedia.

Kurt Cobain foi o último de uma longa linhagem de heróis – aqueles que desafiam as noções musicais, mercadológicas e comportamentais estabelecidas, para nos mostrar quem somos, gritar que podemos mais, e de forma mais livre. Naturalmente que todo discurso apocalíptico está sempre sujeito à derrota pela mera imposição dos fatos. Assim, torço para que amanhã um novo artista venha calar esse parágrafo, mas a impressão que o agora decanta é de que ao mundo não interessa mais o surgimento de heróis. Hoje, o mercado, o marketing e os meios de reprodução são os únicos artistas, revelando o óbvio: discutimos horas sobre onde, como, por quanto e quão rápido podemos ouvir um novo disco, mas quase nada sobre o que ele é, diz, o que representa, o que nos faz sentir. Vitória dos que só querem o cifrão contra os que preferem mastigar o coração.

Amy Winehouse poderia ser considerada uma representante pós-Cobain dessa estirpe, mas sinto que faltou à cantora uma outra obra prima como Back To Black para garantir sua estadia perpétua nesse olimpo. O cálculo é simples, e usarei a carreira de David Bowie como termômetro e exemplo: se um artista lançasse um disco elogiado pela crítica, com três ou mais clássicos instantâneos em seu repertório – como Hunky Dory, quarto álbum de Bowie, com Changes, Oh! You Pretty Things e Life on Mars? – e conseguisse êxito comercial suficiente para que a mídia não pudesse ignora-lo, esse disco então poderia ser considerado um marco – tal qual Back To Black, de Amy. No entanto, se esse mesmo artista repetisse esse feito em mais um ou dois discos ao menos – como fez Bowie com The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars e depois Aladin Sane – então era quase certo que ele se transformaria em herói. Acredito que Amy Winehouse seria capaz de tal feito, tivesse tido tempo, calma ou cafuné suficientes para suportar o mundo sobre os ombros e dar sequência à sua obra.

Contudo, não era só de grandes discos que se faziam os mitos. Junto disso, era preciso que se protagonizasse ao menos um momento histórico. Uma cena, um gesto, um instante icônico que revelasse e ao mesmo tempo confrontasse a face profunda de seu tempo – que desafinasse o alarido da época e espelhasse a dor e a delícia de quem assistia, ouvia, de quem vivia. Bowie o fez quando apresentou a liberdade sexual andrógena de seu personagem alienígena Ziggy Stardust na TV, quando do lançamento da canção Starman, mas os exemplos podem ser muitos. Hendrix queimando sua guitarra no festival de Monterey, Elvis rebolando na TV pela primeira vez, Dylan eletrificando o folk no festival de Newport, os Beatles dominando os EUA e o mundo no Ed Sullivan Show, o Sex Pistols lançando God Save The Queen no dia do jubileu da rainha, Caetano Veloso discursando contra tudo e todos no festival da canção de 1968, e assim por diante. O momento que confirmou a vaga do Nirvana, e principalmente de Kurt Cobain, nesse seleto grupo – após o êxito de público e crítica dos discos Nevermind e In Utero – foi seu acústico MTV.

Gravado em um só take, sem repetição alguma para a correção de erros e imperfeições – quase regra em discos ao vivo – o MTV Unplugged in New York contrariou qualquer fórmula comercial em sua feitura. Nenhuma das exigências costumeiras feitas pela direção da MTV foi respeitada pela banda. No lugar de seus célebres conterrâneos de Seattle para uma grande festa grunge, como queria o canal, quem participou do show foi a então obscura banda Meat Puppets. No repertório, somente um grande sucesso, Come as You Are, e quase metade das canções apresentadas eram versões – e praticamente nenhuma delas, conhecidas do grande público. Afora The Man Who Sold the World, de David Bowie, o show trouxe três números dos Puppets, além de Jesus Doesn’t Want me for a Sunbeam, dos Vaselines e, para encerrar, Where Did You Sleep Last Night, a canção que, através da violência gutural da voz que se rasga (principalmente nas estrofes finais, quando Kurt salta uma oitava acima), definiria o sentimento do concerto e daquele contexto histórico: a angústia contida forjada em beleza e em dor, a dura impressão do fim por vir, a ambição desmedida da desesperança, nossa própria perversão de não desviar os olhos do destino, o salto absoluto de quem realmente acredita não ter nada a perder. O tal momento.

Originária do final do século XIX, Where Did You Sleep Last Night era, até então, não mais que uma tradicional canção folk sem autor conhecido. Comumente associada ao compositor negro norte americano Leadbelly – que a imortalizou com diversas gravações nos anos 1940, nas quais Cobain se inspirou para sua releitura – naquele Dezembro de 1993, no entanto, ela se tornaria definitivamente uma canção do Nirvana. Na realidade, não há o que se falar, só o que se ouvir e ver – se alguém aí nunca tiver assistido, largue esse texto imediatamente e corra para o Youtube. Não houve bis. Não era possível se fazer nada após o suspiro e o arregalar de olhos de Cobain antes de seu último urro. O encerrar dessa canção oriunda das raízes da música americana foi simbolicamente o apagar de luzes da carreira do Nirvana, e dos sonhos rebeldes do século XX significados pelo rock. O último herói se despia diante do público e assim se despedia – e quando um herói se despede, nós também damos adeus a uma parte importante e profunda de nós mesmos.

Nitidamente nervoso durante todo o show, Kurt pediu para que seus amigos mais íntimos fossem colocados na primeira fileira. Reza a lenda que, após a apresentação, ele teria perguntado aos seus companheiros de banda o porquê da seriedade nos rostos do público durante todo o concerto. A resposta, diante do futuro que lhe esperava, foi de arrepiar: porque eles pensam que você é um profeta; olham pra você como se olhassem pra Jesus, disse Dave Grohl, irônico e preciso. Esse teria sido a única vez em toda sua carreira, segundo o baterista, em que Kurt admitiria que haviam realizado uma grande apresentação.

O acústico do Nirvana é o mais significativo momento da mais importante banda da década de 90 porquê driblou os rótulos e excessos publicitários impostos pelo mainstream, e revelou aos que ainda não haviam notado um interprete e compositor raro – e tudo isso, sem qualquer concessão mercadológica, seguindo somente o faro do artista. O show foi um super sucesso de público e crítica por fazer, sob o holofote mais intenso do objetivo mais comercial, justamente o contrário do que se espera de um produto. Foi um sucesso por não parecer em nada com um – e por ter um artista do naipe de Cobain à frente desse gesto de rebeldia e liberdade. Feito um kamikaze, o Nirvana invadiu as estruturas para, ao menos por uma noite, explodi-las por dentro.

É tão improvável o horóscopo necessário para o aparecimento de uma banda como o Nirvana, que é impossível prever quando, como e se um novo herói poderá ainda surgir. A verdade é que para coisa nenhuma nessa vida há previsão – e ainda mais, diante de uma indústria fonográfica como a de hoje, tão moribunda e tonta. O tempo poderá dizer melhor se Amy Winehouse foi ou não, afinal, um desses animais. E, mais ainda, se os gênios, os heróis, até mesmo se a força das canções caminham para a extinção ou para um ressurgimento. Vale lembrar que essas mesmas previsões apocalípticas foram feitas ao virar de cada página relevante da história do rock – e contrariadas na página seguinte. Porém, o herói exige tempo, estômago, coragem, confusão e reflexão em troca do afago – até sangrar – que sua obra nos faz. Assim, é possível que seja, tenha sido, já foi, lembram? Those were the days, my friend – até que o próximo herói venha nos calar e nos revelar, fora de qualquer explicação ou previsão. Assim eu espero.


Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.

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CARTA DE AMOR NÚMERO 2


Se houvesse uma arqueologia do amor, é certo que a história revelada por debaixo dos escombros de nossas emoções ancestrais não seria de toda bonita. Ainda que possamos citar gloriosas exceções, não é difícil supor que, desde sempre, seja essencial no ser humano a capacidade de transformar o sentimento que elegemos como o que de melhor podemos sentir, em sofrimento e angústia.

Dizem que comemos muito por medo de morrer de fome, transamos muito com medo de não deixarmos herdeiros e amamos muito por medo de ficarmos sozinhos. O medo é quase sempre mais forte que a confiança e, por isso, muitas vezes acabamos testando o amor até que ele se estrague, nossos temores se tornem verdadeiros e, ao confirmarmos a pior hipótese – ainda que esta tenha sido inventada, e a confirmação, forjada por nós mesmos – alguma coisa passe então a fazer sentido. Forçamos o amor a se tornar um problema, para que assim, nossas paranóias se tornem verdadeiras, e as coisas pareçam controláveis. O outro lado da moeda do amor parece sempre ser o medo. O próprio valor do amor – seja pelo prazer que nos proporciona, pelo sentido que oferece para a vida, ou mesmo por esse mero medo da solidão – faz com que a ideia de perde-lo nos deixe cegos.

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O mais duro é que a rejeição pode ocorrer por 
que simplesmente uma das partes não quer mais.
A pessoa tem o direito de não mais querer, e ponto.
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Assim, a rejeição amorosa se mostra o único sentimento verdadeiramente absoluto. Mais do que o próprio amor, a rejeição se impõe de tal forma que, no momento em que se ouve o “não” definitivo – ou aquela frase específica que explicita o incontornável – nada mais passa a restar da palheta de emoções que costuma nos tingir. Em um instante, deixa de haver o interesse pelo trabalho, a saudade daquele amigo que não se vê há tempos, a vontade de fazer aquela viagem no fim do ano, a indignação com o governo autoritário ou mesmo o tesão velado pela paquera ocasional. Pelo tempo que durar o luto, você se torna esse sentimento, e nada mais. É uma imposição corpórea: a vitória das vísceras sobre a razão. Há momentos em que de fato seu cérebro parece funcionar em modo de segurança, exercendo as capacidades funcionais básicas, mas deixando de ser, por instantes, dias, semanas, o senhor da máquina que somos nós. Passamos a funcionar sob o regime autoritário e monotemático do coração partido, general dos mais severos e sanguinários.

Algumas convicções costumam se impor de forma dilacerante no durante das rejeições: a certeza de que não seremos capazes de convencer o outro, através de ideias, explicações, questionamentos ou pedidos ­­– de que não há nada mais que possamos fazer. E, com isso, a terrível sensação de que nutrir qualquer esperança, mesmo que ainda existam motivos pra isso, se torna a pior coisa a se fazer. A esperança se transforma em má notícia. Quase nada me soa tão violento quanto a noção de que se deve apagar alguém que se ama. Se é amor, ele deixa de existir, mesmo que se transforme, e nunca retorne a condição de um amor em exercício?

O mais duro é que a rejeição pode ocorrer por que simplesmente uma das partes não quer mais. Esse é um direito incontornável do ser humano, e dos mais difíceis de se lutar contra, pois não exige explicação ou sentido. A pessoa tem o direito de não mais querer, e ponto. Sim, o rejeitado também possui a opção de se sentir traído e destratado – e muitas vezes terá razão – mas isso não muda em nada o direito do outro de ir embora.

Lucian Freud pintando.
No entanto, a rejeição pode se dar também por conta de algum crime emocional inafiançável, cometido pelo rejeitado. Nesse caso, passa-se a contar somente com a hipótese do perdão. É claro que essa variável depende imensamente de qual foi a natureza do delito, e de que forma o réu se comportou durante todo o processo. No entanto, no amor tudo é passível de relativização. Se afastar dessa premissa e se tornar rígido é esquecer a máxima milenar sobre o bambu contra o vento, que se dobra e dança para todos os lados ao ritmo das rajadas, e por isso jamais se quebra. O perdão há de ser das maiores virtudes do amor profundo. A vingança é um prato que se come burro.

O problema da rigidez é que ela quase sempre fomenta mais rigidez. Essa equação cobra dos envolvidos que não voltem atrás, não se arrependam ou tentem fazer diferente, para não parecerem levianos, inconstantes ou maquiavélicos. Com isso, voltamos à fábula do bambu: a rigidez costuma nos quebrar. Quais são as chances de alguém que foi severamente punido tornar a ser amigo ou mesmo amante de seu carrasco?

Ou talvez esteja falando sim de permitir que suas crenças mais profundas se diluam um pouco, a fim de que não reste muito mais do que ética, afeto e verdadeira preocupação com o bem estar dos envolvidos. Perder ao menos parte de nossa “personalidade”, quem diria, para que possamos finalmente responder sem titubear a já manjada fundamental pergunta cunhada por Ferreira Gullar: você prefere ter razão ou ser feliz?

E há a máxima dita por Nietzsche – ou Deleuze, ou Marx, ou Caetano, ou Chico, Anysio, Buarque, Bento, não sei – de que devemos nos juntar a quem temos vontade de conversar pra sempre. Ou seja, o óbvio: ser feliz não se trata de tarefa simples, pois, ao mesmo tempo, tudo isso há de ser fluido, feito fosse acaso – e é, tanto quanto nada é.

Foi Mark Twain quem arrematou que o erro de deus foi não perceber que onde quer que Eva estivesse, lá seria o paraíso para Adão. A questão não era perder a morada divina – queriam simplesmente estar perto um do outro. Após a expulsão, Adão e Eva se viram diante de um dilema: tomar o mundo, ou se aboletarem em uma caverna, a fim de procriarem, manterem-se vivos e serem felizes para sempre? Escolheram a caverna. Tiveram filhos, mas não se pode dizer que criaram uma família feliz e funcional, visto que, por ciúmes, um dos herdeiros, Caim, matou Abel, seu irmão.

Sabemos que nada disso aconteceu e nem deus existe, mas é curioso que seja essa a nossa mitologia original. Um casal, mal visto desde o início pelo grande pai – que é pai de ambos, em uma estranha espécie de incesto – pressionado pelas expectativas, criando crianças problemáticas, terminando por privar a humanidade de sua perfeição infinita. Tudo isso por uma trepada. Quase um roteiro do Woody Allen.

—
O que nós pensamos não é necessariamente em coisa 
alguma uma tradução verdadeira e confiável do que 
sentimos, nem muito menos do que vivemos. As ques-
tões da razão costumam ser bem mais refinadas do que 
simplesmente nos mantermos fisiologicamente a salvos.
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Não carrego nenhuma crítica especial ao casamento, pelo contrário. Sou bastante afeito a me juntar com outra moça e viver uma história de amor. O que me angustia, no caso, é a sensação de que não é permitido nem mesmo por deus que sejamos felizes simplesmente. A felicidade parece proibida. É o maior dos pecados, costumeiramente transformado em sinal de que algo ruim surgirá no horizonte. Por ideias tão abstratas quanto a hipótese de perdermos nosso passaporte para o paraíso, abandonamos com a convicção de um homem bomba conquistas caras e raras da vida real, e nos resignamos à sobrevivência, feito alguém que se tranca no banheiro para se proteger das infinitas hipóteses de dor que a rua pode nos oferecer.

Quem já teve de fazer fisioterapia para recuperar algum movimento sabe que o que o tratamento fisioterápico faz é, em parte, reeducar o cérebro e o corpo de que são capazes a voltar a fazer o que sempre souberam. O que o cérebro quer, essencialmente, é nos manter vivos. Se, pra isso, tivermos de perder o movimento do membro, que seja; para ele, a tarefa estará cumprida. Sabemos que podemos voltar a esticar o braço – o médico nos garante que não há impedimento neurológico ou ósseo – e, no entanto, apesar da consciência, é preciso reeducar os músculos e superar o limite incutido. Basta um único tombo para o corpo esquecer como se faz o que sempre fez, e quase se deixar definir pelo medo. O mesmo vale pro amor.

O que nós pensamos não é necessariamente em coisa alguma uma tradução verdadeira e confiável do que sentimos, nem muito menos do que vivemos. As questões da razão costumam ser bem mais refinadas do que simplesmente nos mantermos fisiologicamente a salvos. Por isso, o que a razão aponta como solução é muitas vezes a mera manutenção de um medo, sem que isso nos permita responder com convicção à pergunta do Gullar: quero ser feliz. Para o mundo não há cura, só há a escolha de se estimular a saúde, que é muito mais rara e improvável do que a doença.

Mas a cabeça não tem limites. Pode ansiar por qualquer coisa – e, assim, inventar delírios onde a vida é só real e de viés, e querer cegamente nos proteger de medos que ela mesma inventou. A cabeça coordena uma máquina que trabalha para nos defender. No entanto, a coragem – algo essencial para a experiência do amor – é justamente o impulso de testar os limites dessa defesa. Não à toa, admiramos tanto quem reconhecemos como corajoso; alguém que consegue, mais do que nós, se libertar dessa prisão, e nos expor o que é de fato limite e o que é pura invenção. Hora tudo dá errado e não há saída, horas as coisas parecem certas, sem que nada tenha mudado de lugar – a não ser a fúria de nossas retinas. A vida é de fato curta para ser pequena – obrigado, Chacal – e nada pode ser mais triste do que perceber essa mudança quando já é tarde demais.

Assim como a razão, o amor não é uma verdade natural. Por mais que se utilize de tantas variáveis que acabe se parecendo com algo como o destino, o amor é sempre uma decisão, tomada entre o esforço pela coragem, a necessidade de se manter vivo e a capacidade minuciosa de driblar e reeducar nossos medos, e convencermos a nos mesmos de que as coisas podem ser diferentes – e que o membro pode voltar a funcionar, apesar do trauma. O amor nunca é puro, limpo, e sempre exige de nós a dedicação de se vencer, centímetro a centímetro, nossos limites, aparentemente tão naturais quanto a flexão e a extensão de um músculo.

Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.
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A FUTURA BIOGRAFIA DAS MANIFESTAÇÕES


O ônus do precedente que a lei das biografias abre – em que o biografado tem o poder de autorizar ou não a publicação da história – é necessariamente muito mais importante do que o suposto bônus de quatro ou cinco artistas poderem proteger suas intimidades, e seguirem fingindo que ninguém sabe o que eventualmente eles queiram esconder. Essa é a questão. Falar sobre participação no lucro dos livros é piada – que lucro? – e não merece qualquer reflexão. Para além da discussão sobre onde começa a vida privada de uma figura pública, não vale a pena macular a função fundamental de um historiador ou biógrafo, de poder iluminar os fatos, em nome do direito à privacidade de cantores populares ou da hipótese de supostos escritores calhordas agirem de má fé para lucrarem com fofocas ou mentiras. Esses merecem ser punidos, mas são obviamente exceções.

O mesmo questionamento sobre o que de fato importa em um assunto pode ser aplicado para a celeuma ao redor das prisões recentes nas manifestações. Independentemente da minha opinião sobre o significado ou mesmo a eficiência do método dos black blocs, esse não é o assunto mais importante. Crimes cometidos pelo estado são necessariamente mais graves do que crimes cometidos pela população. O tal vandalismo civil é sim menos importante do que a barbárie cometida por uma instituição que possui o monopólio da violência como premissa legitima e legalizada, e que deveria existir para a manutenção das leis para toda a população – incluindo os black blocs.

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O bônus do direito a privacidade não justifica nem de 
longe o ônus da censura. Da mesma forma, a violência 
policial, a intransigência e o autoritarismo do estado 
e o direito à manifestação são as questões que 
verdadeiramente importam.
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O vandalismo começa no autoritarismo do próprio estado, que não recua jamais, justificando qualquer ação pelo fato de que foram eleitos. É preciso sempre temer quem não se permite admitir erros, pedir perdão ou simplesmente mudar o rumo de algo – ainda mais se estes estiverem no poder. Os jornais, ao colocarem fotos de manifestantes presos e baleados em suas capas, insinuando que a culpa pela violência que sofreram é deles próprios – por sua insolência em quererem exigir seus direitos, ou mesmo em questionar e enfrentar o sistema – estão defecando sobre a já fedorenta história de maus tratos, abusos, coerções, assassinatos, estupros e impunidade que significa a polícia do Rio de Janeiro – e que qualquer habitante ou visitante habitual da cidade sabe recitar sem titubear. Colocar a culpa da violência na vítima é tão velho e abjeto quanto dizer que a mulher estuprada mereceu sofrer tal violência, por dançar funk, usar uma mini saia ou simplesmente rebolar por ai. Sob esse olhar, a história da violência policial no Rio de Janeiro se transforma em uma típica biografia autorizada.

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Colocar a culpa da violência na vítima é tão velho 
e abjeto quanto dizer que a mulher estuprada mereceu 
sofrer tal violência, por dançar funk, usar uma mini saia 
ou simplesmente rebolar por ai. 
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Desqualificar as manifestações não provoca nada além do acirramento ainda maior dos ânimos de quem luta por melhorias que obviamente não passam do mínimo. Os motivos originais para as manifestações existirem são contundentes o suficiente para serem o assunto principal da capa de um jornal. Crimes cometidos pelo estado importam milhões de vezes mais do que depredações ou pedras atiradas contra a polícia. O resto é manipulação.

Não defendo que se quebrem agências bancárias, mas só um completo idiota não entende o motivo para elas se tornarem alvo da fúria popular. Somos roubados diariamente por essas instituições – que, de certa forma, também se impõem feito um monopólio – sem que seus métodos sejam seriamente questionados. Claro que depredar uma agência bancaria é assunto para uma notícia, mas desde que os desmandos e a roubalheira oficializada e sistemática cometida por essas empresas sejam também motivo de reportagem – com o devido dobro de destaque. Os juros descabidos, as dívidas delirantes inseridas à revelia das decisões dos clientes, os faturamentos bilionários jamais revertidos em ao menos alívio nas taxas abusivas, além do próprio rendimento risível dos investimentos, que soam como piada diante do lucro que os bancos esfregam anualmente em nossas caras, esses são os assuntos principais. O resto é manipulação. Me valho então da já manjada adaptação da frase de Bertold Brecht, que se encaixa com precisão nessa reflexão: o que é depredar um banco comparado a fundar um? 

A certeza de que nem o governo nem a imprensa mudarão sua postura – aliada à conclusão incontornável de que não é possível assistir tanta arrogância por parte do governador, do prefeito e de sua maioria de paus mandados da Câmara Municipal de braços cruzados – faz com que os manifestantes se endureçam e, na mesma medida, a polícia, que é obrigada a lidar com milhares de pessoas obviamente enfurecidas nas ruas sob a única ordem de fazer com que as manifestações se esvaziem o mais rápido possível. O objetivo inócuo da polícia – oriundo de vozes superiores – parece ser somente tentar traumatizar a população, a fim de que as manifestações acabem.

Se o fim da ditadura militar houvesse se dado de fato por um desejo genuinamente democrático, teria havido junto uma reforma radical em toda a polícia brasileira. Um decreto não apaga o espírito autoritário. Assim, como esperar que, da noite para o dia, o policial que por tantos anos deteve o poder ilimitado, através da violência, de decidir sobre os porvires da população, seja tomado pelo espírito cívico da conciliação e da manutenção da democracia, porque simplesmente lhe disseram que agora seria assim?

E, desde o advento da liberdade civil, essa lógica em muito pouco se transformou. Como crer que possa se tornar pacificadora a mesma polícia que antes era uma das mais intensas agentes dessa exata violência? Não é por decreto que a violência se transforma em paz. Se o enfrentamento das mazelas que a violência traz para os moradores da cidade for um desejo verdadeiro – e mais: se houver a intenção mínima de se encarar os problemas de frente – não se pode pensar em polícia pacificadora, principalmente no Rio de Janeiro, sem antes se propor uma imensa reforma em todas as camadas da próprio instituição policial. É como se contratássemos o ladrão que nos roubou para fazer a segurança de nossa casa.

Claro que a polícia é formada por pessoas, e que generalizar um grupo tão vasto é sempre uma maneira preguiçosa de olhar uma questão complexa. No entanto, as ações do estado não tem sido em nada heterogêneas. Ainda assim, lembrar que aquelas pessoas fardadas estão, em sua maioria, simplesmente cumprindo ordens e que, por isso, também trabalham sob intensa pressão – consigo crer, ingênuo que sou, que os próprios policiais são os primeiros a perceber a inocuidade de seus métodos – ajuda a lembrar justamente a parte que importa das questões.

O mesmo ingênuo que há em mim tenta crer que pelo menos Caetano Veloso sabe que está do lado errado da briga pelas biografias. É notório que o compositor baiano não é muito afeito a simplificar questões complexas – e nisso ele quase sempre tem razão – mas nesse caso, cada vez mais fica claro: sim, o direito à preservação da vida privada é uma questão que merece ser vista com calma, mas o direito à liberdade de expressão e de se revelar nossa história sem censura é muito mais importante. O bônus do direito a privacidade não justifica nem de longe o ônus da censura. Da mesma forma, a destruição de patrimônio público e privado é uma questão que deve ser debatida, mas a violência policial, a intransigência e o autoritarismo do estado e o direito à manifestação são as questões que verdadeiramente importam. O resto é jabá.


Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.
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